domingo, 29 de março de 2026

A verdade e as razões do pragmatismo de Boulos

A corrente lulista Revolução Solidária decidiu permanecer no PSOL após perder a votação no Diretório Nacional do partido ao recusar a Federação com o PT. Os argumentos para adotar a aliança com o PT e também para permancer no partido mesmo contrariados em sua pretensão, obedecem a interesses bem particulares que passam batidos no jornalismo burguês jamais interessado em oferecer análise mais rigorosa da natureza da decisão. 

O PT é partido hegemônico na esquerda liberal. Mais ainda: a hegemonia que de fato exerce sem vacilação e escrúpulos, orienta a ideologia e a praxis política - sob razão de estado e orientado pela concepção parlamentar de política - que alimenta não somente seus simpatizantes e filiados. O pragmatismo decorrente de sua hegemonia domina todos os partidos que se julgam à esquerda do petismo. 

Ora, o argumento na nota oficial a corrente afirma categoricamente: 

"Uma saída imediata destas figuras do PSOL tornaria praticamente impossível ao partido ultrapassar a cláusula de barreira, levando à sua inviabilização institucional". 

O oportunismo político dessa corrente produziu, finalmente, uma molécula de verdade pois, nas condições atuais, a mudança com mala e cuia para o petismo partidário representaria, de fato, um duríssimo golpe nos que permaneceram no PSOL. Entretanto, uma molécula de verdade não é, obviamente, toda a verdade. A Federação com o PT implicaria em dificil disputa numa eleição em que os petistas e lulistas de todas as orientações possuem enorme apetite eleitoral, especialmente em São Paulo, o coração burguês do país. Ademais, o petismo é uma máquina eleitoral com relativa eficácia e o PSOL apenas aprendiz das artimanhas inerentes a legislação e aos costumes da disputa pelo voto. De resto, o petismo em geral e Lula em particular sabe da utilidade do PSOL para manter sua hegemonia e se não pode ter o controle total do destino de uma aliado de alma, sabe que pode contar sempre com ele, inclusive quando "atua" com uma dose de "rebeldia" própria de toda juventude. Por fim, a despeito de estar ou não coligados, todos são lulistas desde sempre e, creio, para sempre!

A viabilidade institucional do PSOL é importante para a hegemonia petista em geral e lulista em particular. O Partido como um todo - e não somente àqueles mais à direita - julgam que a vida é ruim com Lula e muito pior sem ele! Em consequência, todas as corrrentes consideram que a "derrota do neofascismo" é a primeira e mais nobre tarefa de qualquer pessoa que diante do espelho de seu banheiro se julgue de esquerda. Danem-se os fatos. Assim pouco importa que nesses anos todos, o petismo jamais logrou criar na sociedade brasileira e nos trabalhadores em particular, uma força social capaz de fazer frente a ofensiva da direita no país. Pouco importam os fatos e menos ainda um projeto pois o bordão que orienta os dois bandos resume-se ao conhecido "meu mundo por um mandato"! 

A supervalorização dos mandatos é decorrência direta da concepção parlamentar de política e, nas atuais circunstâncias, pouco importa se o nobre deputado ou senador é radical ou moderado. Ambos, a despeito da beleza do autorretrato, atuam no interior da enorme crise da república burguesa cada dia mais repudiada pela maioria do povo em todos seus poderes. Alguém poderia imaginar que o STF e seus ministros mais saídinhos até ontem considerados pela cúpula petista como úlitma garantia do regime liberal burguês que atende pelo pomposo e simpático nome de "democracia", estariam hoje na boca do povo como exemplos inaceitáveis de corrupção? 

De resto, mais temerário ainda, é a esquerda liberal atuar na "defesa da democracia" em abstrato como se, de fato, com semelhante bordão pudesse criar um antídoto contra a ameaça "fascista" cuja função consiste na afirmação da paralisia política com os fantasmas terríveis destinados à obstaculizar a necessária passagem da consciência ingênua para a consciência crítica, única capaz de captar a iracundia da maioria do povo para um radicalismo de esquerda indispensável para bater no campo das disputas eleitorais e ideológicas a ofensiva da direita.

No final das contas, todos vão com Lula no primero turno, tal como estamos afirmando desde sempre. Vão com Lula os devotos lulistas, os petistas "conscientes"; vão com Lula os que temem o "fascismo" e todos aqueles que juram de pé juntos que não haverá amanhã quando o atual presidente, finalmente, se recolher aos seus aposentos a que tem direito todo octagenário. E também vão com Lula àqueles que simulam independência e "radicalismo" na vã tentativa de figurar como "críticos" nos estreitos limites do espirito republicano em frangalhos derivados da profunda crise da república burguesa e de um governo que aprofunda a dependência do país turbinando o rentismo e a sacramentando a miséria e a exploração dos trabalhadores.  

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