domingo, 10 de julho de 2022

O epílogo petucano

O início dos comícios da campanha de Lula/Alckmin é revelador da impotência e simulação do petucanismo. A impotência se expressa pela absoluta ausência de um programa alternativo capaz de enfrentar o poder da classe dominante naqueles temas centrais da vida nacional que afetam a vida de milhões de brasileiros e poderiam assegurar algum futuro para o país. A simulação é decorrência necessária daquela impotência pois na ausência de um programa capaz de mobilizar a maioria dos trabalhadores a partir de um projeto próprio, restou apenas o faz de conta de que a eleição abrirá as portar para “ser feliz novamente”. As diretrizes divulgadas pela burocracia partidária e seus aliados há poucas semanas (Diretrizes para o programa de reconstrução e transformação do Brasil), pretende ocultar a adesão desinibida da chapa petucana às transformações operadas na economia e no estado após os governos Temer e Bolsonaro. 

Na prática, enquanto o discurso está centrado na denuncia da fome e da miséria de milhões de brasileiros, a orientação propositadamente ambígua do texto divulgado pela Fundação Perseu Abramo pretende tão somente curvar-se diante da economia política sustentada pela coesão burguesa – comercial, agrária, industrial e financeira – balbuciando rebeldia constitucional a ser assegurada por hipotética e irreal maioria parlamentar. A insistência contra a PEC-95 (teto dos gastos), por exemplo, cumpre a função de combater um tigre de papel pois até agora a burguesia não respeitou os limites estabelecidos pela lei em função de seus próprios interesses no interior da crise capitalista mundial. O ultra liberal Paulo Guedes criou o maior déficit estatal da história recente da república aproveitando de maneira eficaz a “crise da Covid-19”. Enquanto os brasileiros saíram mais doentes e debilitados economicamente da pandemia, os bancos e as demais frações do capital saíram melhor preparadas para as turbulências financeiras desta época crítica. 

Os dois comícios recentes, estrategicamente escolhidos – Rio de Janeiro e Diadema – exibiram público modesto. Modestíssimo! O palco pretende insinuar a existência de uma enorme frente eleitoral unida contra o protofascista sem, contudo, capacidade de ocultar em cada estado da república as disputas internas e o flerte com a “neutralidade” diante da polaridade entre Lula e Bolsonaro; o fenômeno indica que a diferença em favor de Lula nas pesquisas eleitorais possui pés de barro. A campanha apenas começa, tudo é incerto. Os mais assanhados com as pesquisas seguem no bordão inocente da “vitória ainda no primeiro turno” como único meio capaz de impedir (!) a tentativa da direita em desconhecer os resultados. Ora, quando a classe dominante teve em nossa história respeito para as regras democráticas? Quando a classe dominante necessitou de “argumentos” eleitorais para avançar em sua ditadura de classe? 

Lula segue no discurso alienante, incapaz de politizar seu eleitorado; permanece cativo da economia política da coesão burguesa na vã tentativa de atrair os capitalistas para um apoio massivo pretensamente decisivo para assegurar a vitória e, no limite, governar. No entanto, a maturidade capitalista do país e a força persistente da crise não deixa margem de manobra: a burguesia não pode aceitar menos que o ultra liberalismo conduzido com eficácia por Paulo Guedes até agora: miséria para o povo e super lucros para todas as frações do capital. Nenhuma modalidade de “desenvolvimentismo” é possível, razão pela qual Lula insiste apenas em “colocar os pobres no orçamento”. Ora, ainda que de maneira inermitente, não resta à maioria do povo senão a superexploração da força de trabalho – desemprego massivo, queda nos salários, perda de poder aquisitivo – e alguma modalidade de política social a conta gotas. É precisamente o que existe agora com o protofascista mediada pela autorização parlamentar e também o que, de fato, existia nos 14 anos de governo petista a despeito de “espaço” no orçamento. 

O recurso político da chapa petucana é resultado da combinação entre a reivindicação moralista dos pobres e a defesa abstrata da democracia. No entanto, a insistência na reivindicação da questão social – a fome e o desemprego – por parte de Lula não encontra solução na política econômica nos marcos da ordem burguesa ainda mais estreitos no interior da crise capitalista. A inocência da esquerda liberal expressa nos discursos de Lula é resultado de particular mistura de oportunismo político parlamentar com ignorância sobre a dinâmica da crise e os efeitos devastadores na periferia capitalista latino-americana. Ainda assim, em meio a miséria crescente produzida por Bolsonaro, assistimos a impotência da esquerda liberal para formar um movimento de massas capaz de empolgar a disputa eleitoral e muito menos constituir sólida base para eventual governo. Não poderia ser diferente e tampouco há surpresa no reconhecimento do cenário. 

A derrota sem luta
A derrota histórica do petismo concluída em agosto de 2016 com a destituição sem luta de Dilma da presidência da república, cobra seu preço de maneira implacável. A direção do PT – entregue a burocratas e parlamentares – pretendeu, sem êxito, transformar uma derrota histórica num breve acidente de percurso de extração eleitoral sob a ideologia do “golpe” político parlamentar. Nada poderia ser mais superficial e imprudente, mesmo para os interesses mesquinhos da esquerda liberal. Em consequência, a linha dominante nos discursos enfadonhos dos frequentadores do palco do comício, é incapaz de rivalizar com o discurso e as ações do presidente protofascista ou alterar substancialmente a correlação de forças entre as classes sociais. 

Os “dirigentes partidários” que ocupam o palco dos primeiros comícios sequer são capazes de ampliar o horizonte determinado pelo profundo compromisso petucano com os limites objetivos da ordem burguesa e a crise da república. Em consequência, não há relação entre a “crise mais grave da história republicana” que denunciam com insistência e timidez das propostas destinadas a supera-la! 

A dupla petucana – Lula e Alckmin – esta vencida pelo tempo. Não há brilho capaz de cativar milhões de trabalhadores e menos ainda a juventude. A ausência de debate sólido nas filas da esquerda liberal e no ambiente político-cultural do país assegura, ainda que de maneira passageira, certa adesão eleitoral, mas é cronicamente incapaz de criar ou sequer contribuir na emergência de um movimento de massas como fruto da campanha. A desconfiança sobre o futuro e a capacidade do petucanismo em superar a crise e combater a “ameaça fascista” cresce com o passar da campanha. Ademais, o protofascista não entrou na dinâmica da disputa eleitoral. A inflação e o desemprego sempre são obstáculos intransponíveis para qualquer governo razão pela qual o pacote aprovado no parlamento com o único voto contrário de um tucano decadente e fora do jogo político, revela o quanto a disputa no covil de ladrões é terreno adverso para a esquerda, mesmo quando de vocação liberal. O governo da direita não está batido e ensaia movimentos importantes com repercussão eleitoral enquanto perpetua a miséria e exploração do povo da mesma forma que reproduz de maneira ampliada a dependência e o subdesenvolvimento do país. O entreguismo e o assalto ao estado é completo e avança com apoio dos monopólios da comunicação na manufaturação do consenso em favor dos interesses burgueses. 




O sistema petucano exibia certa vitalidade quando era constituído de polos opostos na luta partidária ainda que em comunhão de bens no que se referia a política externa e a economia, temas estratégicos de estado. Ainda assim, continha forte carga de simulação pois o essencial não estava disputa. Entretanto, quando Haddad e Alckmin anunciaram em 2013 – juntos! – o aumento da passagem de ônibus em 20 centavos, a explosão social comandada pelo Movimento Passe Livre revelou até mesmo aos olhos dos ingênuos e desavisados, entorpecidos pelo otimismo inerente a consciência ingênua, que algo andava muito mal. 

A vitória eleitoral de Dilma poucos meses depois foi capaz de motivar ainda mais o oportunismo político dos partidos que apoiavam o governo agonizante da ex-presidente já sob comando do banqueiro Joaquim Levy. Em fevereiro de 2013 – poucos meses antes da explosão de junho – Dilma anunciava orgulhosa que faltava “pouco para que não haja mais brasileiros mergulhados na miséria”. O embuste era tal que seu governo estava buscando os mais pobres entre os pobres para inclui-los no cadastro de uma bolsa família de... R$ 70,00. A digestão moral da miséria produzida pelos programas sociais do petismo – com a total cumplicidade dos tucanos – supunha ter vida eterna, mas caiu em junho diante de um protesto massivo produzido inicialmente pelos estudantes do Movimento Passe Livre. 

A polarização no interior do sistema petucano assumiu formas mais agressivas quando os tucanos decidiram pela destituição de Dilma e lograram êxito. No entanto, uma vez mais, atentos ao calendário eleitoral e ignorando por completo as implicações econômicas e políticas das transformações operadas sob seus governos, o petismo apostou na volta de Lula em 2018. Não cabe recordar aqui o grave erro de cálculo da cúpula petista e tampouco a estratégia “anti-sistêmica” encabeçada pelo protofascista Bolsonaro. No fundo, a direita apenas reconheceu o que já advertíamos com insistência: o esgotamento do petucanismo! Nesse contexto, as dúvidas emergentes em setores da esquerda liberal sobre a eficácia do petucanismo como estratégia eleitoral e alternativa ao governo da extrema direita são, ainda que tardias e impotentes, perfeitamente procedentes. Os setores da esquerda liberal com algum compromisso socialista são totalmente incapazes de influenciar na agenda, na estratégia eleitoral e no discurso de Lula e seu novo companheiro Geraldo. O ex-presidente busca todos os dias de maneira desinibida captar setores inteiros que não abandonam o protofascista a despeito das inclinações de voto das pesquisas eleitorais. Em cada movimento mais à direita produzido pela chapa petucana, a coesão burguesa se mantém mais cômoda para negociar com o protofascista os termos da reeleição ou mesmo em posição de força na hipótese de vitória da oposição. 

O discurso de Lula e também de Alckmim é revelador da trágica situação. A simulação se afirma pela redução da política ao voto, ao processo eleitoral. A ausência de um programa de mudanças radicais – a altura das exigências de uma crise gigantesca – antes de romper o invólucro moral do discurso petucano, o reforçou. Alckmim, muito comedido nos discursos, se limita tão somente a indicar a necessidade de defender a democracia e dar novamente a cadeira presidencial à Lula. É uma cena reveladora ver o ex-governador paulista clamando pela volta de Lula a presidência; o fator surpreendente aqui rregistrado não consiste em aceitar a impostura de hoje como se fosse uma virtude ou um “gesto de grandeza”, pois buscar uma linha de coerência em políticos vulgares somente é possível indentificando os seus interesses de classe. Nesse sentido não há nada de surpreendente na presença tucana no palco outrora petista, porque Lula possui precisamente a capacidade de jamais surpreender seus adversários ou aliados: tudo nele é conciliação, tudo é apelo moral. A despeito da disposição petista em assumir de maneira dissimulada a orientação liberal e a economia política da coesão burguesa, não há sinais de que a burguesia tenha disposição em conciliar com os trabalhadores num período de crise tão aguda. 

A derrota histórica do PT foi tomada como derrota eleitoral e, em consequência, considerada passageira. Lula e Dilma no alto escalão sabem que se trata de uma derrota histórica pois seus governos fizeram tudo o que era possível nos marcos da ordem burguesa para “erradicar a pobreza” e não foi mero exercício de cinismo da ex-presidente o bordão de sua reeleição. A nomeação de Joaquim Levy encerrou qualquer dúvida a respeito, mas o petismo deu de ombros: bola que segue, vencemos mais uma eleição... A classe dominante, no entanto, não vacilou e o sociólogo petista expressou melhor que qualquer doutrinário o fenomeno que parecia impossível no interior da sociologia uspiana: "a luta de classes voltou!" Agora Lula afirma que terá que fazer mais do que já fez e, no mesmo verso, antecipa que as condições são muito mais difíceis. Numa ponta alimenta as antigas ilusões que nos trouxeram ao caos e, na ponta oposta, afirma um dado de realidade pois a crise exigirá a administração nos marcos da ordem com mais austeridade que em épocas passadas. 


A campanha aumenta a perplexidade da base eleitoral – não militante – e produz ilusões tão poderosas quanto aquelas que animaram o segundo mandato do petista quando anunciava o Brasil como sexto PIB mundial sugerindo a superação da condição de país subdesenvolvido. Contudo, a característica mais elementar da disputa atual consiste no fato de que a esquerda liberal não possui um projeto de poder. Ora, sem o horizonte estratégico da revolução social, da revolução brasileira, a oposição liberal seguirá cativa da instabilidade inerente aos governos latino-americanos sem jamais conquistar o paraíso democrático ao qual juram fidelidade. Aqui e nos demais países latinoamericanos, é cada dia mais evidente que sem projeto de poder, a esquerda liberal tampouco poderá assegurar exito e estabilidade de um futuro governo. Entretanto, o bordão preferido da coalisão partidária presente nos comícios segue fundamentado na tarefa que julgam suficiente: derrotar Bolsonaro. 

O eleitor ingênuo e o militante exaurido na prática partidária comandada por mandatos, sente que é pouco, mas, de maneira “realista”, concede sabedoria ao ex-presidente: “o que mais ele poderia fazer diante das circunstâncias atuais?” A campanha do protofascista ainda não apareceu na plenitude. É claro, no entanto, que não poderá ser muito diferente de uma receita que combinará a denuncia ideológica (do comunismo), o apelo moralista (contra a corrupção) e a fé nas teses liberais (ultraliberalismo). E claro: reforço do liberalismo conservador nos costumes! Resta saber se o protofascista seguirá no ataque aos pilares liberais da república e se aproveitará a campanha para fortalecer em seu favor uma saída mais a direita já na campanha. No entanto, a simulação "anti-sistêmica" de sua candidatura não esgotou todas suas energias, especialmente quando a “velha política” aparece na forma pura do petucanismo agora unificado com a chapa Lula/Alckmin. 

A crise é profunda e, sabemos, não pode ser superada nos marcos da ordem. Ainda assim, uma campanha destinada a romper o ideário liberal atualmente sob comando da ultra direita, poderia salvar o processo eleitoral da alienaçao completa ao alargar o horizonte da disputa eleitoral em favor dos oprimidos e explorados. Não é o que estamos vendo. A direita, ao contrário, não perderá oportunidade para afirmar a ideologia liberal que, sem um adversário à altura, seguirá ditando os limites da disputa orientada pelo felino interesse da classe dominante e sua coesão burguesa. A esquerda liberal segue desarmada para esse combate decisivo.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

A esquerda liberal e as instituições burguesas: sobre a autoridade política do STF

Numa república em profunda crise não deixa de ser curioso ver e ouvir personagens e partidos que compõem a esquerda liberal reivindicando o bom funcionamento das instituições burguesas. Até agora, o clamor do espírito republicano confinado ao labirinto da República burguesa em crise, se resumia tão somente no bordão capaz de indicar algo errado e até mesmo lograr alguma simpatia diante da suposta anomalia: “é preciso acabar com a judicialização da política e também com a politização do judiciário!”. Na prática, com pálido verniz sociológico, políticos e dirigentes partidários reclamam da desordem atual exigindo a harmonia e independência entre os poderes como se fosse possível corrigir o mundo caótico em que estamos metidos com uma ou duas aulas do manual de Montesquieu. Entretanto, a crise possui raízes mais profundas e obviamente não pode ser corrigida com um breve curso republicano de boas maneiras, como pretendem os ideológicos liberais e também grande parte da imprensa burguesa.

O grito da esquerda liberal em defesa da harmonia e independência dos poderes teve sua expressão mais eloquente no combate petista contra a Operação Lava Jato conduzida pelo juiz Sérgio Moro – um office-boy dos Estados Unidos – que, amparado na onda moralizante segundo a qual vivíamos uma profunda crise de “valores”, atropelou todos e cada um dos ritos sagrados do direito burguês em favor dos interesses imediatos da classe dominante; no entanto, esse episódio da luta política no país tinha antecedentes igualmente importantes que a consciência ingênua e o oportunismo político dos partidos da ordem esquecem com imensa facilidade.

O roteiro dessa longa novela na qual a imprensa burguesa foi decisiva não pode, de fato, permanecer no esquecimento, pois aqueceu o noticiário e produziu malabarismos políticos nos partidos políticos e na atividade parlamentar dignos de registro histórico. 

A despeito da amnésia praticada pela esquerda liberal e sua incurável memória curta, é de justiça observar que os malabarismos e reviravoltas nos partidos e parlamentares foi acompanhado de igual comportamento nos juízes e nas decisões de tribunais. Em setembro de 2015, por exemplo, o ministro Gilmar Mendes, num seminário com Paulo Skaff (ex-presidente da FIESP), anunciou, na forma de uma sentença, a natureza da crise do regime político então em curso: “na verdade, o que se instalou no país nesses últimos anos e está sendo revelado na Lava-Jato é um modelo de governança corrupta, algo que merece um nome claro de cleptocracia. Veja o que fizeram com a Petrobrás. Eles tinham se tornado donos da Petrobrás. Infelizmente para eles, e felizmente para o Brasil, deu errado”.

Porém, já em dezembro de 2016 – com Dilma já fora do governo – o ministro Mendes gira seus canhões na direção oposta: ataca frontalmente as 10 medidas anticorrupção, elaboradas pela dupla Moro-Dallagnol, e apresentadas pelo Ministério Público Federal ao parlamento. Naquela época, a Associação dos Magistrados Brasileiros, baluarte da moral burguesa decadente, denunciou o ministro Mendes acusando-o de fazer política e, em consequência, indicou que o melhor caminho seria sua renúncia, sucedida da ocupação de um posto de comentarista político em algum jornal! Antes disso, no dia 10 setembro do mesmo ano, a imprensa anunciava um pedido de impedimento contra Gilmar Mendes, no Senado da República, com a assinatura de eminentes advogados alinhados com a esquerda liberal (Bandeira de Melo, Fábio Konder Comparato, etc.), acusando-o de “gratidão ao PSDB” e manifesta “ojeriza ao PT” que, tal como recomenda as leis objetivas da luta política, foi devidamente arquivado uma semana depois pelo presidente do Senado – ex-aliado, ex-inimigo e na atualidade aliado do PT, o senador Renan Calheiros.

Entretanto, não tardou muito (outubro de 2019) para que o mesmo Gilmar Mendes – considerado um inimigo mortal do petismo e da esquerda liberal – se transformasse, gradualmente, num “defensor da democracia e do Estado de direito” quando acusou Moro de atropelar as sacrossantas escrituras do rito jurídico burguês: “hoje se sabe, de maneira muito clara, e o Intercept está aí para confirmar e nunca foi desmentido, que usava-se a prisão provisória como elemento de tortura. E quem defende tortura não pode ter assento na Corte Constitucional. O Brasil viveu uma era de trevas no que diz respeito ao processo penal”. Num passe de mágica, Gilmar Mendes se transformou numa espécie de herói jurídico em defesa do bom funcionamento da República diante dos excessos cometidos por juízes, tribunais, políticos, etc.


Os fatos aqui recordados ilustram algo essencial que devemos retirar do senso comum: nada pode ser mais político que a lei! Portanto, supor que a crise da República burguesa é consequência “da politização da justiça e da judicialização da política” não passa de frase simpática para conversa de botequim. A lei, sabemos bem, é expressão jurídica de relações políticas, de relações sociais; portanto, é essencialmente política! No entanto, devemos observar as razões pelas quais juízes se tornam desinibidos e assumem mais livre e abertamente papéis políticos até bem pouco tempo reservados somente aos eminentes senadores, deputados, governadores e presidentes da República.

A destituição sob comando do STF

Há, sem dúvida alguma, estreita relação entre a adesão da esquerda brasileira à ordem burguesa e o protagonismo dos tribunais. A precoce conversão da esquerda brasileira ao liberalismo – o nascimento da esquerda liberal – confinou o protesto político das classes populares às disputas eleitorais cada dia menos politizadas. Era comum na esquerda que sobreviveu a ditadura a crença segundo a qual os processos eleitorais representavam oportunidade para “politizar e organizar” o povo, especialmente os trabalhadores. No entanto, basta observar o quanto esse postulado válido em outras épocas foi gradual e inexoravelmente se transformando num movimento de alienação e conformismo de amplos setores populares na exata medida em que a busca desesperada pelo voto (orientado pelo cretinismo parlamentar) implicou no rebaixamento cada dia mais evidente do horizonte socialista até seu virtual desaparecimento. No lugar do combate nos marcos da ordem burguesa – mas contra a ordem burguesa! – emergiu a enfadonha competição entre todos os partidos para saber quem poderá melhor administrar a crise da República burguesa. Não foi por acaso que o PT anunciou, ainda na época do sistema petucano, que o petismo administrava melhor o Estado e a economia do que os tucanos, além, é claro, de apresentar uma resposta, tímida e paliativa, aos dramas sociais das maiorias num país regido pela superexploração da força de trabalho. Tampouco foi obra do azar a rápida transição da oposição e crítica ao Plano Real que “estabilizou a inflação” para o reconhecimento petista de que os tucanos deveriam ceder passo para os responsáveis pelo “crescimento com distribuição de renda”, nos termos da economia política burguesa inerente a um país dependente e subdesenvolvido.

No silêncio do “êxito” petista, especialmente concentrado no segundo mandato de Lula, o processo de alienação das organizações populares se consolidava e o movimento de massas cedia espaço para as ilusões inerentes ao cretinismo parlamentar. Lula representou a exibição mais eloquente do presidencialismo sem dentes para morder ao aderir, de maneira desinibida, ao “presidencialismo de coalisão” inaugurado por um obscuro sociólogo de simpatia tucana. Nos dois mandatos de FHC, quando o PT estava ainda orientado por forte carga moralista e capitalizando o descontentamento inerente as reformas “neoliberais” implementadas pelos tucanos, as negociatas entre partidos políticos, a compra da emenda da reeleição, o toma-lá-dá-cá entre o parlamento e o governo, era considerado um agir exclusivo dos “partidos burgueses”. A vida demonstrou, mais cedo do que tarde, que a degradação permanente do regime constitucional e a consequente corrupção da atividade parlamentar não incluía apenas os “neoliberais”, mas, inexoravelmente, alcançaria também os puros, inocentes e bem intencionados petistas, cujo exemplo mais ilustrativo pode ser visto na trajetória e biografia de Antonio Palocci, ex-ministro de economia de Lula e chefe da casa civil de Dilma.

No governo, a característica essencial da esquerda liberal encabeçada pelo petismo (Lula e Dilma) consistia precisamente em manter o povo longe das decisões estratégicas da economia e do Estado. O partido nascido do protesto operário contra a ditadura, com a notável contribuição da esquerda que combateu o regime militar de armas na mão, abandonou a mobilização e politização das “bases” para se transformar numa eficaz máquina eleitoral. Não devemos eludir o fundamental: o dilema de um partido socialista num país periférico e dependente na América Latina – com mais razão no Brasil – não consiste em estar “em contato com as bases e não as abandonar jamais”, como ainda pretende de maneira cínica a esquerda católica que apoiou Lula e o PT em tudo! Há algo mais valioso que o basismo alienante não pode ocultar: somente o horizonte socialista e o combate feroz contra a dominação burguesa poderiam abrir as portas para a redenção das massas sob o capitalismo dependente e rentístico, e conceder, em duros combates, alguma dose de “cidadania” à massa de oprimidos e explorados. O bordão que anuncia a “volta às bases” oculta algo essencial: o que dizer para mobilizá-las?  

Na ausência de um partido socialista ativo na defesa da Revolução Brasileira e do movimento de massas, os tribunais ficaram muito mais livres para decidir sobre a vida e a morte de milhões de brasileiros da mesma forma que podiam arbitrar os conflitos de natureza política com mais desenvoltura e autoridade. Ademais, não foram poucas as vezes que a esquerda liberal em seu combate “contra o neoliberalismo” de FHC credenciou os tribunais em nome da “defesa dos interesses dos trabalhadores”, recorrendo sem inibição aos togados. O recurso ordinário aos tribunais em qualquer instância e por qualquer causa se tornou a via privilegiada de “luta” da esquerda liberal contra os “excessos” da burguesia na sua guerra de classes contra os trabalhadores. De resto, a esquerda, outrora crítica da Constituição, logo assumiu – pasmem! – a posição de ardorosa defensora da Carta Constitucional diante da ofensiva burguesa que iniciou precisamente no mesmo dia em que, finalmente, a carta magna foi aprovada pelo parlamento, em 5 de outubro de 1988.  

Ora, a defesa das “conquistas sociais da constituição de 88” não poderiam ser asseguradas pelos juízes da Suprema Corte mesmo quando a maioria deles fosse indicada pelo PT. A profunda transformação do capitalismo dependente em sua fase rentística produziu a metamorfose classista da representação parlamentar, cada dia mais evidente, na medida que os parlamentares são organicamente vinculados as distintas frações do capital e sua autorreprodução eleitoral depende da decisão de banqueiros, latifundiários, grandes comerciantes e industriais decadentes. Em consequência, o adjetivo “centrão”, utilizado pela mídia burguesa e adotado sem reservas pela esquerda liberal – PT, PCB, PC do B e PSOL – é tentativa ilusória e perigosa para ocultar a afinidade entre os parlamentares e o grande capital como se, de fato, o Congresso Nacional não fosse um covil de ladrões, mas apenas uma cesta de maçãs comprometidas com algumas frutas podres. A progressão capitalista da representação parlamentar também alcançou os tribunais, como não poderia deixar de ocorrer. Nas últimas décadas, especialmente após a afirmação plena do capitalismo rentístico, os tribunais avançaram na mesma linha do parlamento e cada decisão da Corte não somente era incapaz de assegurar o recurso ingênuo aos tribunais em defesa dos direitos trabalhistas por parte da esquerda liberal mas, ao contrário, afirmava a legalidade da superexploração da força de trabalho e o assalto a riqueza pública com voracidade semelhante àquela dos parlamentares.

Os burgueses e seu parlamento

Nesse contexto, os sucessivos recursos da esquerda liberal aos tribunais, na vã esperança de bloquear o “avanço do neoliberalismo” no terreno das causas defendidas pelo grande capital, simplesmente não prosperaram; basta lembrar as autorizações para as privatizações (da Casa da Moeda às empresas da Petrobrás) e a absoluta indiferença diante de mais de 30 ações diretas de inconstitucionalidade (Adin) sobre as reformas trabalhistas, que são, todas elas, olimpicamente ignoradas pelos excelentíssimos ministros do STF. A concepção liberal de economia e a servidão dos juízes do STF às classes dominantes é a norma desde sempre naquele tribunal e pouco importa se seus membros foram indicados por Lula, Dilma ou Bolsonaro, pois todos são “terrivelmente pró capitalistas”. É possível observar de maneira clara que historicamente, de fato, não há crime contra a República que não teve a validação daquele tribunal. Portanto, é necessário esclarecer as razões pelas quais a esquerda liberal segue alimentando ilusões no sistema de justiça burguês. Portanto, basta realizar o inventário das sucessivas derrotas dos trabalhadores para sentenciar que a “luta nos tribunais” não conseguiu impedir a superexploração da força de trabalho, sustento dos lucros extraordinários aos capitalistas da coesão burguesa, que decide a sorte de todos os governos desde 1994.

Ao contrário das ilusões produzidas diariamente pela esquerda liberal, derivadas da crença na justiça nos marcos da ordem burguesa, todos os meses os tribunais – especialmente o STF – revela seu caráter de classe e invariavelmente decidem matéria banhada em cifras que, na prática, implica no assalto ao Estado e a transferência de bilhões de reais para o caixa dos capitalistas. Todos os meses, ano após ano, o STF decide em favor dos capitalistas em matéria tributária, financeira, cambial e trabalhista! Bilhões e bilhões de reais são destinados, por vias distintas, aos capitalistas, revelando, até mesmo para os neófitos, o caráter de classe das decisões de um tribunal composto majoritariamente por ministros indicados pelo PT. A propósito, pouco importa a origem de classe e menos ainda a nomeação presidencial, pois os ministros votam invariavelmente nas questões essenciais com maioria folgada. Ora, basta recordar a chamada “tese do século” na qual o STF decidiu em favor dos capitalistas dívidas tributárias que se transformaram em créditos tributários numa decisão que não recebeu desaprovação da esquerda liberal; ao contrário, a reação da esquerda liberal foi de completo silêncio sobre cifras que não poderiam ser ignoradas e que relevam a essência capitalista daquele tribunal. Não conheço sequer uma postagem num aplicativo digital de deputado ou líder de partido da esquerda liberal (instagram, face, twitter, “lives”, etc.) protestando contra esse mecanismo de assalto ao Estado pela via do STF.

O Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) calculou que a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins poderia chegar a R$ 587 bilhões de reais. No entanto, a chamada “modulação dos efeitos” da decisão do STF, reivindicada por Paulo Guedes, que “mitigaria” o rombo fiscal do mega assalto ao Estado, ainda deixaria nos cofres dos capitalistas pelo menos R$ 358 bilhões! Não por acaso, a imprensa burguesa tratou a operação como sendo a “tese do século”, com efeitos tanto retroativos quanto no futuro: a bagatela rendeu às distintas frações do capital nada menos que R$ 93,4 bilhões (26,08% do montante), já compensados entre 2017 e 2020, enquanto outros R$ 56 bilhões deveriam ter sido pagos em 2021; o “restante” – míseros R$ 69,6 bilhões – devem ser quitados durante 2022. Nos anos de 2023 e 2024 a compensação de créditos deverá ser de R$ 47,8 bilhões e de R$ 44,1 bilhões, respectivamente. De 2025 em diante, estima-se que a compensação de créditos será de R$ 47,09 bilhões.

O assalto ao Estado não se realiza, portanto, prioritariamente pelo roubo no orçamento da merenda escolar, num esquecido município, exibido com regularidade e em horário nobre na TV, destinado a arrancar gritos de indignação no eleitor mais indiferente. Da mesma forma e com o mesmo objetivo, o roubo bilionário orientado pelo interesse de classe não produz tanta indignação e atenção mediática quanto alguns milhões encontrados em malas num apartamento de ex-ministro dos governos da esquerda liberal ou um punhado de dólares na cueca de um insignificante deputado. A exibição exaustiva da pequena corrupção e a meticulosa investigação de um repórter preocupado com o desvio da merenda escolar oculta, precisamente, o mega assalto ao Estado autorizado pelos eminentes e respeitados juízes da Corte Suprema, justificado nas frestas da lei e da jurisprudência, destinado a proteger a propriedade capitalista. Portanto, a manufaturação da opinião pública em favor da moral burguesa não é operação trivial e menos ainda produto do improviso. Obedece, pois, a lógica implacável destinada a iluminar o roubo no varejo enquanto oculta o roubo no atacado: o gigantesco assalto ao Estado em favor da coesão burguesa.

os trabalhadores no egrégio tribunal
Acaso a esquerda liberal educa sua “base” para uma realidade que a imprensa burguesa oculta? Acaso os deputados e senadores, campeões de voto e hábeis na reprodução parlamentar, se ocupam de criar uma opinião pública contra a concepção que dirige a cabeça liberal de todos os ministros da Corte Suprema? Ora, basta observar a propaganda digital dos nobres parlamentares para comprovar que os assuntos estratégicos e os temas tratados pelo arbítrio da Corte Suprema simplesmente não ocupam a agenda da esquerda liberal. A “tese do século” é apenas uma das dezenas de causas que, com religiosa regularidade, são tratadas pelo egrégio tribunal sem que a esquerda liberal destine a devida atenção e denúncia. Assim, sequer é objeto de politização e, em consequência, termina por fortalecer a autoridade política da Corte Suprema. A representação parlamentar, portanto, não toca no nervo da dominação burguesa e termina por validar a força do judiciário como árbitro das questões políticas. De resto, é comum que uma decisão do STF contra um inimigo da esquerda liberal receba aplausos sem moderação, da mesma forma que produza lágrimas quando destinada contra alguma causa simpática a seus interesses eleitorais.    

Não há que perder de vista a trama em curso, pois tanto a reprovação quanto o elogio à Corte Suprema ocorrem no interior da crise da República burguesa, orientada pelos interesses imediatos e históricos da coesão burguesa sob a batuta de Paulo Guedes e do presidente protofascista. As decisões tem sido “progressistas” no terreno dos costumes e burguesas no terreno econômico-político. As causas identitárias são recebidas com benevolência e manifesta simpatia – sempre turbinadas pelos monopólios midiáticos – enquanto àquelas destinadas a organização do poder político e econômico são objeto de zelosas decisões em favor da burguesia. Nada de novo sob o sol, pois o divórcio, com enorme oposição da igreja católica foi, no Brasil, aprovado em plena ditadura, revelando que, mesmo uma ditadura de classe, pode tolerar e até mesmo estimular certa liberalização no terreno da moral burguesa.

O ziguezague da esquerda liberal no labirinto da crise da República burguesa não constitui o roteiro completo da trama em curso. No lado oposto, a direita não vacila em acusar a Corte Suprema como um obstáculo objetivo ao programa ultraliberal, como único meio capaz de retirar o Brasil desse interminável vale de lágrimas. A orientação da direita encontra amparo nos trabalhadores que, de resto, possuem sobradas razões para não confiar na justiça burguesa, especialmente diante das decisões de todas as instâncias jurídicas realizadas após a renovação moral e doutrinária dos juízes baseadas, ambas, em manuais liberais do século passado. Portanto, as massas não somente desconfiam da justiça como, em muitos casos, temem a justiça. Milhões de brasileiros sabem, por experiência própria, que os tribunais assumiram um indisfarçável caráter de classe, tanto nas decisões amparadas no direito penal, quanto no civil. Embora milhões de trabalhadores ignorem as decisões suculentas no terreno tributário, as massas sabem que pagam a conta e, portanto, que pagam muito imposto. A burguesia insiste todos os dias que a “carga tributária” é elevada e, portanto, os preços poderiam ser menores e todos seríamos mais felizes caso o Estado tirasse esse e outros pesos de nossas costas. É por esse meio que a burguesia vocaliza o “interesse geral” das classes e captura para o programa ultraliberal a simpatia eleitoral e popular. Nesse contexto, a ultradireita estava mais preparada para enfrentar os tempos de crise do que a inocente esquerda liberal, razão pela qual tomou a iniciativa política desde que a crise mundial indicou a turbulência em 2008/2009.


O protofascista Jair Bolsonaro atua nesse terreno munido com a precisão de uma bússola. Em consequência, não perde oportunidade para espetar as decisões da corte ou acusá-la abertamente de jogar contra os interesses populares e seu governo. A oscilação que pratica – ora atacando um ministro, ora pactuando com o tribunal – não perde o rumo: desacreditar por completo o sistema de justiça diante do povo e indicar, ainda que de maneira acidentada, que somente uma “ditadura” ou um regime especial, poderia impor a ordem nesse caos. A direita, de maneira clara, afirma não confiar na justiça e na lucidez de seus ministros, enquanto a esquerda liberal segue na defesa abstrata da democracia, silenciando diante de atrocidades decididas pelas cortes ou afirmando que os tribunais atuaram com justiça diante de uma causa qualquer de sua preferência ou da reprodução parlamentar. Na crise, não há possibilidade de vitória por parte da esquerda liberal e em qualquer caso, a concepção segundo a qual “algo deve ser feito” para parar os tribunais segue ganhando simpatia popular sob condução da direita fascista e seu presidente. A campanha eleitoral ainda não começou, mas não duvido em afirmar que será incapaz de reverter anos de propaganda e doutrinação em favor da reforma moral destinada a superar a “crise de valores” em que a República apodrece sob condução burguesa, como se os sucessivos escândalos de corrupção – tanto no atacado quanto no varejo – fossem frutos de desvios morais e jamais uma consequência necessária da relação ultraparasitária entre os capitalistas e o Estado, que marca historicamente o desenvolvimento capitalista, tanto no centro quanto na periferia.

A prisão de um parlamentar desprezível – o deputado Daniel Silveira, PSL/RJ – é comemorada pela esquerda liberal como se fosse uma vitória da pressão popular nas redes digitais dos parlamentares e “dirigentes” partidários, da mesma forma que lamentam e denunciam a omissão da justiça em esclarecer, após tantos anos, o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL/RJ). Nessa oscilação, a esquerda liberal também adiciona algumas moléculas de desconfiança no sistema de justiça que, nas condições atuais, favorecem a ofensiva da direita rumo a alguma modalidade de Estado policial, ou mesmo reforma do sistema judicial no sentido de aprofundar os mecanismos legais para uma política ainda mais repressiva.

Nada pode ser mais ilustrativo da situação atual do que as recentes decisões de Alexandre Moraes, pois na mesma investigação dirigida a incriminar o protofascista Bolsonaro por “fake news”, sob seu comando e aplausos entusiastas da oposição, o eminente juiz determina que as redes digitais do PCO, um partido completamente comprometido com a eleição de Lula na disputa presidencial desse ano, sejam canceladas. No dia em que escrevo esse artigo, a Polícia Federal prendeu o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro, acusado de crimes tão sérios quanto recorrentes na vida política nacional; de imediato, observo a festa nas redes digitais (propaganda eleitoral) da esquerda liberal indicando que Bolsonaro – apesar de retirá-lo do cargo diante do escândalo de corrupção – seguiu emprestando sua fé na suposta correção moral do pastor evangélico enquanto ministro. No embalo da atuação política da PF e do STF, a esquerda liberal não conseguirá jamais a “despolitização do judiciário” e o quid pro quo seguirá servindo de munição para a agitação do protofascista contra os tribunais e a democracia restringida a que estamos historicamente submetidos em favor de uma modalidade qualquer de Estado policial.

No lado oposto, a esquerda liberal segue aferrada ao bordão da “defesa da democracia” em abstrato sem ganhar a confiança e a mobilização das maiorias e, especialmente, os trabalhadores, para as tarefas históricas da Revolução Brasileira. Enquanto coleciona pequenas “vitórias” garantida pela ação política do judiciário, a esquerda liberal esquece que, no essencial, a crítica do sistema político segue sob condução da direita e da coesão burguesa que o apoia tanto no covil de ladrões, situado no Congresso Nacional, quanto na cumplicidade das distintas frações do capital com a política econômica conduzida pelo ultraliberal Paulo Guedes: garantia de super lucros à classe dominante na mesma medida em que estende a superexploração da força de trabalho, com ou sem carteira assinada, a milhões de trabalhadores.

Ora, diante de um sistema político em plena decomposição, portanto em instabilidade permanente, em meio à turbulência mundial do sistema capitalista, que não oferece qualquer indicação de que os Estados Unidos – a cabeça do imperialismo – possa iniciar a recuperação da intensa crise cíclica inaugurada após junho de 2019, a esquerda liberal navega sem bússola no interior da República burguesa comandada pelo protofascista Bolsonaro. O desarme da esquerda liberal, sob comando do PT, e seu fracasso histórico após 14 anos no governo, não poderá ser superado pela reafirmação na chapa petucana Lula/Alckmin. A contrário, o impasse das eleições de 2018 que explicitou a ofensiva burguesa e sua guerra de classes contra os trabalhadores segue atual e ganhou vitalidade a despeito dos percentuais eleitorais indicados pelas pesquisas de opinião que embalam o otimismo eleitoral dominante nas filas da esquerda liberal.    

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

As tropas estadunidenses no Brasil

 

Como se a luta de classes não mais existisse, Lula promoveu em 12 de abril de 2010 um acordo de cooperação militar entre o Brasil e os Estados Unidos. O documento traz a assinatura de Nelson Jobim, então ministro de Defesa e Robert Gates, o secretário estadunidense. Gates não é um sujeito qualquer: por quase três décadas, foi membro e diretor da CIA e conseguiu a aparente proeza de ocupar um cargo estratégico tanto no governo do rústico Bush quanto na presidência do simpático afro-americano Barak Obama. Ademais, o poderoso Gates, a despeito de parecer um falcão jogo-duro, era também um sujeito descolado: decretou o fim da exclusão das mulheres nos submarinos e também das perseguições de homossexuais nas forças armadas. Jobim tampouco improvisou em sua larga carreira: ministro de justiça de FHC ocupou também a condição de Ministro de Defesa nos governos de Lula e Dilma. Foi ministro e presidente do STF (indicado por Cardoso), defensor de Andrés Esteves quando o banqueiro foi preso na Lava Jato e, atualmente, é nada menos que sócio e presidente do conselho de administração do BGT Pactual, banco criado por seu ex-cliente e patrão quando diante dos tribunais. Não é um cara fraco, definitivamente.

O acordo de cooperação militar entre a potência imperialista e um país latino-americano não suscitou polêmica à época, mas, ao contrário, desprezo aos críticos. A consciência ingênua dominante na esquerda liberal encabeçada pelo PT dava de ombros às críticas do “esquerdismo” considerando-as não somente extemporâneas, mas completamente descabidas historicamente. Não poucas vezes, os quadros remanescentes da esquerda revolucionária eram considerados anacrônicos, cuja critica soava no mínimo cativa dos tempos da guerra fria, que, segundo a fé corrente, não mais existia, pois teria sido soterrada pela queda do muro de Berlim. A opressão e dominação de um país por outro, portanto, era alegadamente coisa do passado. Tal como escreveu Marx acerca dos liberais defensores do livre comércio, “se são incapazes de compreender como pode um país se enriquecer a custa de outro, não necessitamos assombrarmo-nos  que esses mesmos senhores compreendam ainda menos que, dentro de um país, uma classe enriqueça à custa de outra”.

A imprensa burguesa fez sua parte e informou de maneira econômica a assinatura do acordo. Numa pequena nota, a Folha de São Paulo registrou apenas que o “texto inclui a aplicação da "cláusula de garantias" exigida pela Unasul (União das Nações Sul-Americanas), que prevê não intervenção, integridade e inviolabilidade territorial”. No entanto, em setembro de 2004, portanto no início do primeiro mandato de Lula, o princípio da “não intervenção” seria rapidamente substituído pelo “princípio da não indiferença” e os militares brasileiros encabeçariam – sob comando de um então desconhecido General Augusto Heleno – o “intervencionismo humanitário” a serviço de duas potências imperialistas, os Estados Unidos e a França. Á época, apenas Hugo Chávez e Fidel Castro criticaram abertamente o intervencionismo estadunidense validado pelo governo de Lula e mantiveram lúcida e solitariamente a advertência até seus últimos dias de vida; em 2017, quando ninguém mais duvidava do fim catastrófico da Minustah para o povo haitiano, tampouco foram recordados. Entretanto, no Brasil, enquanto o petismo silenciava-se sobre a “intervenção humanitária” no Haiti, a crônica otimista das forças armadas brasileiras se manteve em alta até o último dia da ocupação no pequeno país caribenho. Uma nota publicada na página do Corpo de fuzileiros navais da Marinha do Brasil, registrou assim sua participação:Em outubro de 2017, com um país mais seguro e estável, a MINUSTAH chegou ao fim. Hoje, a segurança está a cargo da Polícia Nacional do Haiti, que atualmente conta com um efetivo de 15 mil homens – 10 mil a mais do que possuía em 2004. Após 13 anos de muitos desafios e superação, com o sentimento de dever cumprido, os Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil deixaram o Haiti e entraram para a história.” (cursivas minhas, NDO). O Haiti está, finalmente, pacificado. Não é mesmo uma maravilha?

Alguns anos mais tarde, precisamente em 18 de dezembro de 2015, poucos dias após o início do processo de impeachment, a presidente Dilma promulgou aquele antigo acordo iniciado com Lula por meio do Decreto 8.609, após a aprovação pelo congresso nacional em junho do mesmo ano.  Em Washington, assinou pelo Brasil o então ministro de Defesa, o petista Jacques Wagner e pelos Estados Unidos, o secretário de Defesa, Ashton Carter. O decreto de Dilma foi igualmente ignorado pelo militante da esquerda liberal, mais ainda do que a pioneira decisão de Lula em favor da política imperialista. O pânico derivado do início do processo de destituição capturou todas as atenções políticas de tal forma que uma decisão de alcance estratégico, tomada provavelmente para buscar aliados externos com a intenção de se manter no posto, simplesmente não teve repercussão alguma. É verdade que o Acordo sobre Proteção de Informações Militares Sigilosas foi assinado por Dilma em 26 de junho de 2015, véspera da visita a Washington para um encontro com o democrata Obama. O Ministério da Defesa publicou sua avaliação em nota, afirmando que, após “cinco anos de espera e de debate”, os dois acordos, então aprovados na Câmara e no Senado vão, finalmente, “abrir portas para novas perspectivas de cooperação no setor de defesa com o governo norte-americano”.

A despeito das manobras, golpes, traições, alianças espúrias e acusações de toda espécie no interior do parlamento burguês que marcaram o ano anterior da campanha contra Dilma, o Ministério da Defesa do Brasil não perde a linha da necessária lucidez quando assuntos estratégicos estão em jogo. A nota firma que a “articulação do ministro da Defesa, Jaques Wagner, junto aos presidentes das duas casas legislativas, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), foi fundamental para a promulgação da matéria, pois desde 2010 os dois acordos aguardavam a apreciação do Congresso Nacional devido à necessidade de alguns ajustes.”. Não se pode desprezar a capacidade de políticos vulgares como Eduardo Cunha e Renan Calheiros em separar, como Lenin diria, o governo passageiro do governo permanente, para usar a terminologia da direita estadunidense. Tampouco devemos ignorar a ação de Jacques Wagner, um dos cardeais do petismo, que, mesmo diante da chapa quente produzida pela oposição na campanha do impeachment, não deixou a peteca cair e levou, a despeito de rusgas aqui e acolá, a ação estratégica comum para regularizar e trocar informações militares sigilosas entre um país dependente e a potência imperialista.

Portanto, a presença de 240 militares estadunidenses em território brasileiro nessa semana (entre 28 de novembro e prevista para se estender até 18 de dezembro em 2021) é resultado de longo esforço da classe dominante em afirmar, com governos da esquerda liberal ou da direita liberal, os interesses estratégicos da potência imperialista no Brasil. Tal constatação evidencia o quanto o “pragmatismo” vulgar colocado em prática pela esquerda liberal, produto da ignorância histórica e do desprezo pela tradição teórico-política da esquerda latino-americana anti-imperialista, tem sido nocivo para a soberania defendida apenas de maneira retórica.

Considerando a “sabedoria política” da esquerda liberal encabeçada pelo PT, especializada em legalizar todo tipo de assalto ao Estado e agressões à soberania com medidas pretensamente destinadas a regulamentar a ambição burguesa e imperialista – como se fosse possível ordenar a vida com leis e decretos – é legitimo supor que o mencionado acordo de “proteção de informações militares sigilosas” tenha sido proposto para regular a espionagem que os órgãos da potência imperialista realizaram e foram devidamente denunciados por Snowden à época. Uma vez mais, a subserviência e a impotência política da esquerda liberal aparecem na forma de um legalismo infantil que os organismos da potência imperialista sabem driblar há séculos, tornando inútil a letra da lei.     

A situação era, de fato, muito grave, pois naquele período, já existiam provas suficientes para não levar adiante semelhante acordo; pouco tempo antes – em junho de 2013 - Edward Snowden, um ex-funcionário da CIA revelou a espionagem em nada menos que a correspondência eletrônica de Dilma por parte da NSA, a Agência de Segurança Nacional dos EUA. Entretanto, a gravíssima violação da correspondência presidencial foi considerada pelo petismo apenas um “episódio” e, em consequência, olimpicamente esquecido pelo governo brasileiro de tal forma que nada impediu seguir adiante nos planos de “cooperação militar” com os Estados Unidos. Assim, a obra iniciada por Lula e concluída com Dilma estava, finalmente, completa.

Em perspectiva histórica, é trágico e espantoso perceber como a esquerda liberal no governo – com Lula e Dilma – banalizou até o fundo e o fim as relações com o imperialismo estadunidense não somente ignorando a violação da correspondência presidencial como também a influência cada dia maior do Comando Sul dos Estados Unidos na formação e iniciativas políticas dos militares brasileiros. De fato, a “influência” da potencia imperialista nas forças armadas brasileiras era antiga e é justo afirmar que os sucessivos governos petistas não fizeram mais do que fortalecê-la e torná-la oficial, auferindo perverso verniz republicano às suas decisões. A consciência anti-imperialista que marcou a longa e tortuosa trajetória da esquerda brasileira estava, finalmente, rarefeita ou mesmo, dissipada. Em seu lugar, uma sorte de pragmatismo vulgar orientou – e ainda orienta – o “realismo petista” como se fosse possível, de fato, construir soberania sem luta contra a potência imperialista. No lugar da análise fria, calculista e apegada à memória histórica, o recurso do petismo foi, tal como manda a tradição do país, uma tirada literária de um compositor popular a serviço da consciência ingênua: agora, nos governos petistas, anunciou Chico Buarque, o “Brasil não fala fino com os Estados Unidos e tampouco grosso com o Paraguai”. Na operação, o tabuleiro da geopolítica onde conflitos de classe emergem e orientam seu itinerário, deixava trânsito livre para a tirada literária do boteco zona sul carioca. 

Os dados anteriores são indispensáveis se quisermos entender a razão pela qual nesse mês, protegido por imenso silêncio da imprensa burguesa e sem qualquer registro pelos instrumentos digitais da esquerda liberal, 240 soldados estadunidenses realizam desde o dia 28 de novembro treinamento militar em terras brasileiras a convite do protofascista Bolsonaro. É verdade que o atual presidente da república jamais escondeu sua filiação canina ao imperialismo estadunidense: bateu continência para a bandeira tricolor, realizou inédita visita à sede da CIA em Langley, na Virgínia, em março de 2019, e não poupa elogios ao país do norte dirigido por republicanos ou democratas.

A operação conjunta de tropas brasileiras e estadunidenses foi autorizada pelo Decreto 10.834 publicado no dia 13 de outubro e assinado pelo protofascista juntamente com o general Braga Neto. Até onde alcança nossa informação, é um exercício militar inédito. Segundo o Correio Brasiliense, as “duas equipes” participam “da edição 2021 do chamado Combined Operations and Rotation Exercises (Core), um tipo de treinamento militar concebido durante conferência bilateral de Estado-Maior Brasil-EUA realizada em outubro de 2020, "com o objetivo de incrementar a interoperabilidade entre os dois exércitos".” A secretaria da presidência da república informou a novidade eliminando qualquer improviso em assunto tão sério e estratégico: o “exercício” se realizará todos os anos até... 2028!

É muito provável a ausência de curiosidade jornalística da chamada mídia independente necessária para investigar a fundo algo relevante sobre a inédita presença de tropas americanas no Brasil. Da mesma forma, os parlamentares da esquerda liberal tampouco buscarão por meios legais e legislativos ações para esclarecer a razão e o sentido – além de antecedentes e repercussão – de tão grave presença militar estadunidense em nosso país. Nas atuais circunstâncias, a única esperança é, talvez, a possibilidade de um pesquisador no futuro, orientado por sentimento e convicção nacionalista e revolucionária, encontrar no baú esquecido da História, as razões que levam um país de enorme potencial à miserável posição de dependência e subdesenvolvimento em que nos encontramos.

Finalmente, bastam duas moléculas de lucidez e outra de honestidade intelectual para perceber o quanto ações simples e silenciosas como essas são as responsáveis por levar as forças armadas no Brasil à radical submissão política e ideológica, à doutrina “América para os americanos” anunciada por James Monroe em 1823. O Brasil vive um clima de pré-campanha eleitoral e tudo indica que o essencial – como a presença das tropas estadunidenses no Brasil – permanecerá longe da atenção do público e simplesmente será ignorado como se jamais tivesse existido. Mais cedo do que tarde, não será surpresa alguma se a esquerda liberal comandada pela consciência ingênua – agora livre da antiga tradição anti-imperialista atualmente exorcizada por seus novos profetas e “dirigentes” – manifestará cinicamente sua surpresa e até oposição diante da ação entreguista de um presidente protofascista, adepto confesso do alinhamento automático do Brasil à política de segurança e do expansionismo permanente dos Estados Unidos, como se não fosse ela também responsável pelas tropas estadunidenses em território brasileiro. Da mesma forma, antes que ironia da História, o “episódio” revela que ninguém ficará impune de severo juízo histórico necessário para superar os limites objetivos do liberalismo de esquerda a que estamos aparentemente condenados.

Revisão de Junia Zaidan

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

A legalidade que nos mata

 A campanha da legalidade ontem e hoje

A campanha da legalidade teve início no dia 25 de agosto de 1961 e foi movimento decisivo para garantir a posse do vice presidente João Goulart após a renúncia de Janio Quadros e o fracasso de sua tentativa bonapartista. A burguesia brasileira dava sinais claros que já não podia governar e o proletariado tampouco estava preparado para a tomada do poder. O exército – por meio dos ministros militares de então – decidiram que Jango não deveria retornar ao país – estava em missão oficial na China – e menos ainda assumir a presidência da república. A firme liderança do governador gaúcho Leonel Brizola e o apoio do III Exército – fato que demonstraria a clara divisão ou pelos menos a quebra da hierarquia entre os militares das três armas – garantiram, finalmente, a posse do vice presidente trabalhista.

Após intensa mobilização das classes populares, a campanha que iniciara como um movimento destinado a garantir a posse de Goulart, rapidamente se converteria num avanço extraordinário da consciência popular e amadurecimento rumo à revolução brasileira. A luta pela legalidade, portanto, constituía um terreno concreto de avanço da consciência popular e de iniciativas políticas que aspiravam à conquista do poder político pela esquerda. Portanto, a defesa da legalidade ocorria no contexto de um acenso do movimento de massas, de derrotas das iniciativas das classes dominantes, de importante divisão no interior das forças armadas e de falta de unidade na burguesia.

Leonel Brizola, governador do Rio Grande no Palácio Piratini

Esse período – entre agosto de 1961 e março de 1964 – representa o auge de um movimento de massas e de transição da consciência ingênua para a consciência crítica, na brilhante formulação do filósofo marxista Álvaro Vieira Pinto.

A resposta burguesa à garantia da legalidade conquistada pela astúcia das forças populares emergiu com a aprovação do parlamentarismo em 2 de setembro de 1961, destinada a garantir a democracia, mas sem conceder capacidade de decisão ao presidente João Goulart e sua aliança de classes sob condução popular. Não teve vida longa, como sabemos. Em 6 de janeiro de 1963 – portanto, pouco mais de um ano após sua instauração – o parlamentarismo foi revogado pelo voto popular. A despeito das moderadas reformas aprovadas sob a condução do primeiro ministro Tancredo Neves, a verdade é que, impulsionado por forte movimento de massas e certa lucidez nas vanguardas políticas da época, o presidente João Goulart defendeu abertamente a necessidade de volta ao presidencialismo contra o parlamentarismo. Ao parlamento não restava outra alternativa senão derrotar uma vez mais as iniciativas burguesas apoiadas pelos setores mais reacionários da classe dominante. Uma vez mais a história ensinava que somente nos períodos de grande conflito, as classes subalternas podem superar suas limitações políticas (consciência e organização) em poucos meses, desvencilhando-se dos obstáculos ideológicos acumulados durante vários anos. O nacionalismo como força política avançava tanto com Miguel Arraes quanto com Leonel Brizola por vias distintas; os sindicatos amadureciam em sua capacidade de combate e protagonismo político. Finalmente, as organizações de vanguarda sentiam o terreno firme sob seus pés para avançar na luta e na teoria da revolução brasileira.

Em face da amnésia histórica produzida por uma esquerda de vocação colonizada e cosmopolita hoje, o contraste dos tempos de então com nossa situação atual não poderia ser mais eloquente. Todos os dias podemos observar novas investidas do governo encabeçado pelo protofascista contra as instituições burguesas (parlamento, tribunais, governadores, imprensa, etc). Toda semana o governo lança declarações destinadas a captar a atenção da esquerda liberal e marcar a agenda do debate público em seus termos. Todo mês, o covil de ladrões que atende pelo pomposo nome de parlamento aprova medidas destinadas a ampliar a exploração da força de trabalho (a MP 1045 foi a última) e assaltar o estado por meio da política fiscal, monetária e cambial. Crise e super lucros pintam a conjuntura sobre a qual os trabalhadores atuam sem diagnóstico e direção política.

A hegemonia liberal na esquerda – cuja liderança ainda é dominada pelo PT – segue atuando exclusivamente na “defesa das instituições e da democracia”, no contexto de uma república burguesa que apodrece aos olhos do trabalhador comum, desprovido de um sindicato combativo, organização política e consciência crítica. Afogado na luta diária pela sobrevivência, os trabalhadores responsáveis pela produção da riqueza apenas ensaiam movimentos em defesa de suas condições mínimas. A taxa que combina desocupados e desalentados (pessoas que desistiram de procurar trabalho) – segundo informação do DIEESE – passou de 16,0%, no primeiro trimestre de 2020, para 19,5%, no mesmo período de 2021. E o dado mais preocupante – também segundo a fonte – é que, entre os chefes de família, essa mesma taxa combinada de desocupação com desalento correspondeu a 11,2%, em 2020, e a 13,4%, em 2021, o que indica maior número de famílias em situação de vulnerabilidade

Flavio Cannalonga. Bom Jesus da Lapa, 1998

A lógica das situações extremas se apresenta de maneira cada vez mais nítida. Entretanto, as convicções republicanas da esquerda liberal não sofrem abalo. O imenso oportunismo político, o apego ao cretinismo parlamentar e um profundo compromisso com a classe dominante, mantêm a esquerda liberal aferrada na ideologia segundo a qual o regime político atual pode recuperar vitalidade se bem conduzido por um novo pacto de classes comandado por algum político vulgar existente em suas fileiras. A massa dos trabalhadores – um verdadeiro exército de desesperados – assiste a tudo sem manifestar rebeldia, mas tampouco qualquer acordo com o roteiro da crise que a condena irremediavelmente ao abismo social.

A classe dominante – uma inédita coesão burguesa – logrou cenário perfeito para a dominação política. De um lado, um presidente protofascista que não vacila em avançar em todas as medidas de política econômica que rende lucros extraordinários e maior poder político a todas as suas frações. De outro, uma oposição de profunda inspiração liberal que se esforça para ganhar sua confiança e, em seus sonhos dourados, conseguir uma fissura entre banqueiros, latifundiários, grandes comerciantes, industriais decadentes e pequena burguesia empobrecida que pudesse garantir algum poder de negociação para seu programa igualmente liberal.

A “defesa da democracia” encurrala a oposição dominada pela esquerda liberal nos labirintos de uma crise em que ela não entende e para a qual tampouco ensaia saída satisfatória. Incapaz de observar a dialética da luta nos marcos da ordem burguesa, mas contra a ordem burguesa – postulado básico para justificar sua existência num país subdesenvolvido e dependente – a esquerda liberal aposta todas as suas fichas no calendário eleitoral, convencendo-se de que pode bater o protofascista em meio à grande crise econômica, política e social. Engana-se no elementar pois desconhece a lógica de situações extremas que nos governa desde janeiro de 2015, quando a guerra de classes foi desatada pela burguesia ainda durante o governo de Dilma Rousseff e a desconfiança pública sobre o sistema político, os partidos, as eleições, os tribunais, a imprensa, etc, cresceram lenta e inexoravelmente. Não se trata, obviamente, de renunciar as disputas eleitorais. A questão é mais simples: sem um novo radicalismo político programático que toque nas bases da dominação burguesa responsável pela miséria e exploração da maioria do povo brasileiro, não haverá terreno para a esquerda conquistar o apoio das maiorias.   

Em 1961 a defesa da legalidade rendeu o avanço da consciência política e jornadas de luta vitoriosas para as classes populares; em 2021 a defesa abstrata da democracia torna a esquerda liberal objeto de desconfiança e repúdio de milhões de trabalhadores que não podem sequer alimentar esperança em dias melhores no interior de um sistema político apodrecido. Em 1961, a campanha da legalidade garantiu a posse de um presidente reformista e permitiu avançar ainda mais nas reformas de base – universitária, urbana, agrária, lei de remessas de lucros, etc – ao passo que, em 2021, a defesa da democracia não faz nada mais que garantir o desbotado ritual burguês de uma república apodrecida em seus cimentos. Em 1961, o movimento pela legalidade permitiu e foi também resultado da consciência nacionalista no interior das forças armadas enquanto a defesa abstrata da democracia em 2021 meramente  consolida no interior do alto comando maior fidelidade contra o regime atual considerado indesejável e ineficiente por completo.  

Ontem – em 1961 - a defesa da legalidade permitiu maior consciência, força no movimento de massas e jornadas de luta com grandes vitórias para os trabalhadores; hoje, a defesa abstrata de democracia apenas fortalece um sistema político que mesmo funcional aos interesses da coesão burguesa, tem seus dias contatos pelo interesse burguês.

Ontem – em 1961 – a campanha da legalidade movia a consciência e transformava a práxis de milhões de trabalhadores a despeito das ilusões que a liderança do processo também alimentou no reformismo nacionalista do governo de João Goulart. Na atualidade, a defesa abstrata de democracia escraviza a consciência de milhões nos marcos de um regime burguês totalmente hostil a vida dos trabalhadores.

Numa época em que os trabalhadores perderam muito – vida material, consciência e organização política – urge a perda das ilusões. Ainda que sob condições adversas, a perda das ilusões pode ser na atualidade a única conquista capaz de garantir aos trabalhadores algum futuro para a revolução brasileira e a luta pelo socialismo no Brasil.

domingo, 25 de julho de 2021

Quando as estátuas se movem


O encanto e a perplexidade no contato com a cultura e a política no México, creio, é comum a todo aquele que visita o país latino-americano do norte. No meu caso, a perplexidade era maior que o encanto pois em contraste com nossa tradição política orientada meticulosamente pela ideologia dominante - a ideologia da classe dominante - lá não é possível participar da política sem conhecimento da História. Portanto, meu espanto tinha raízes que desconhecia: a ignorância acumulada sobre a história nacional brasileira. No México, de estações do metrô a ruas e bairros - sem falar em cidades - quase tudo leva nome de rebeldes e revolucionários. Uma das principais avenidas do país se chama Revolución. A estação de metrô na linha que com frequência utilizava, Zapata. Outra mais adiante, División del Norte, homenagem a Pancho Vila. Por toda parte é possível ver monumentos e museus, sem falar no muralismo de Diego Rivera, Siqueiros, Orozco onde arte, revolução e História estão em perfeita comunhão.

Alguns anos após minha vida no México, fui assaltado pela mesma angustia quando voltando de um sebo descobri numa avenida de Caracas uma estátua em homenagem a Abreu e Lima. Na terra do general Ezequiel Zamora e de Simón Rodrigues eu me descobria novamente ignorante sobre a história das lutas no Brasil. A súbita desconfiança de que Abreu e Lima era português se desfez na volta ao hotel onde todas as noites, eu jantava com uma dupla que exibe paciência infinita numa conversa: Aldo Rebelo e Eduardo Suplicy. Os três participávamos de um evento organizado pela oposição venezuelana sobre a dívida externa e Hugo Chávez ainda não tinha emergido das entranhas das forças armadas para liderar um golpe inicialmente fracassado contra o governo constitucional de Carlos Andrés Perez. Então eu perguntei aos meus camaradas de mesa sobre Abreu e Lima. Aldo - meu contemporâneo de movimento estudantil - com aquela paciência atávica que até hoje o caracteriza, me deu uma breve e fecunda aula sobre a Revolução Pernambucana, Padre Roma e o general Abreu e Lima. De volta ao Brasil minha pesquisa sobre nosso general bolivariano iniciou com a leitura de um livro sobre o socialismo.

Quando fui viver na Argentina eu não mais ignorava a história nacional da Pátria Grande mas ainda assim o contraste é enorme com nossa tradição: no país vizinho, a referência histórica nas disputas políticas emergem a todo momento, razão pela qual após qualquer conversa a necessidade de correr para uma livraria ou biblioteca é imediata. Política é história!!  

No México, na política burguesa, Zapata e outros personagens históricos da Revolução Mexicana eram mencionados com frequência na boca de políticos vulgares e da esquerda parlamentar. Era menção quase alegórica, até o momento em que Zapata, Villa, Cárdenas deixaram de ser estátuas. No dia 1 de janeiro de 1994, por exemplo, explodiu em Chiapas a rebelião zapatista encabeçada pelo EZLN e, nesse caso, eu já tinha lido e tido aulas com Antonio García de León (Resistencia y utopia) de tal maneira que o espanto estava acompanhado com certo conhecimento da realidade indígena do país e do estado do sul. A partir daquela data, na política mexicana, Zapata deixou de ser uma estátua e produziu um movimento de massas cujo epicentro indicaria pouco tempo depois, o fim de um regime de partido de estado que durou 72 anos! 

Na Venezuela, também Bolívar era, além de estátua, menção cotidiana nos discursos de políticos vulgares pronunciados em salões burgueses até que numa bela manhã de 4 de fevereiro de 1992 o continente despertou com um movimento criado no interior das forças armadas (Movimento Bolivariano Revolucionário 200) cujo objetivo era nada menos do que a destituição pela força do governo constitucional de Carlos Andrés Perez. Então, como num passe de mágica, nunca mais um copeiano ou adeco - os dois partidos que dominavam a cena por décadas num regime completamente apodrecido - mencionaram novamente o nome do Libertador de maneira impune pois também o general Bolívar - assim como Zapata no México - tinha deixado de ser estátua para se converter no germe da Revolução Democrática Bolivariana.  

A reflexão anterior surgiu a propósito da queima de uma estátua em São Paulo no fim de semana. No Brasil, a política se faz sem o recurso à nossa rica historia nacional. Na prática, se faz ignorando a história nacional. Por isso, talvez, é mais fácil queimar estatuas do que faze-las caminhar.  




domingo, 13 de junho de 2021

Um encontro com Marcelo Freixo


A tragédia de nosso tempo consiste no fato de que apenas o voto é observado com lupa pelo que restou da esquerda. Assim, qualquer movimento eleitoral - da legislação às candidaturas, das alianças ou das dissidências - recebe minuciosa atenção dos chamados dirigentes e mesmo do militante devoto enclausurado num comitê eleitoral real ou fictício. Por sua vez, o movimento das classes, da economia, da ideologia e da cultura são, quase sempre, ignorados pela esquerda que se fez liberal ao longo das últimas 3 ou 4 décadas

A carta da vez sob severa observação é a decisão de Marcelo Freixo de abandonar o PSOL e assinar filiação no PSB. A decisão - largamente amadurecida - está orientada por óbvio fim eleitoral: eleger-se governador do Rio de Janeiro. Ora, desde que se elegeu deputado federal, Freixo abandonou o discurso centrado nas causas (racial, gênero, etc) para assumir certa vocação universal expressa na luta pelos "direitos humanos", o direito à vida, o direito de ir e vir, entre outros mandamentos da doutrina liberal. A decisão não é fruto do improviso e, embora marcada por contingências, ampara-se também em problemas reais que cobram solução. Em síntese, Freixo postula que o sentido da política naquele estado que outrora foi o tambor do Brasil, resume-se na luta da "civilização contra a barbárie". 

O retorno de Lula à disputa presidencial de 2022 - até agora assegurada pelos tribunais por circunstâncias políticas muito particulares que podem desaparecer - obviamente apressou a decisão de Freixo. O PSOL, no entanto, tornou-se um cobertor cada dia mais curto para as ambições de Freixo, uma vez que o partido também está fortemente acometido pelas mesmas razões que levaram o deputado carioca ao PSB. Ainda que balbuciando justificativas morais, na prática, o PSOL contesta a saída mas, na real, também tem um encontro marcado com Lula. Na verdade, o PSOL esta dividido entre aqueles que querem Lula já no primeiro turno e a ampla maioria, que votará no ex-presidente no segundo turno, caso o calendário eleitoral se confirme na plenitude.

A maioria no PSOL inclina-se nesse momento para fechar com Lula já no primeiro turno das eleições presidenciais. Nesse contexto, a despeito da vontade do militante socialista, o PSOL caminha para consolidar-se como um "puxadinho do PT". A decisão do diretório estadual do Rio de Janeiro em não reivindicar nos tribunais o mandato de Freixo – como também da executiva nacional do partido – obedece, finalmente, à logica dominante: todos estão, de alguma maneira, no mesmo barco. 

Os desgostosos com a decisão de Freixo limitam-se a reivindicar certa independência programática no primeiro turno para negociar com Lula desde uma posição de força, como se, de fato, o candidato presidencial do PT desse ouvidos à esquerda. Ora, Lula jamais ouvirá a esquerda, especialmente porque essa é cativa de sua liderança eleitoral e não possui alternativa fora de seu alcance. À maneira vulgar, Lula sabe que a polarização partidária que os educados liberais pretendem evitar obedece à lógica das situações extremas que emergiu na sociedade brasileira a partir da reeleição de Dilma. Não se pode, aparentemente, responsabilizar o PT por tal quadro pois o partido - Dilma e Lula na cabeça - fizeram de tudo para não radicalizar, atuando sob a orientação de um espirito republicano burguês que somente existia em suas doces ilusões,  num esforço quase suicida de preservar as instituições da república burguesa apodrecida que já estavam em franca decadência. No entanto, foi precisamente a tentativa de conciliar aquilo que de fato é irreconciliável, especialmente em tempos de crise, que nos trouxe aos impasses políticos atuais comandados pela ultra direita.

A consciência ingênua de Freixo consiste em supor que será possível enfrentar as milícias, o crime organizado, a corrupção e a ladroagem generalizada que afeta o Rio de Janeiro sem uma resposta igualmente radical para as consequências da emergência do capitalismo dependente rentístico do país que lá aparece sob a forma de decadência material e moral do antigo "tambor do Brasil". Nesse contexto, alguns estados podem se defender melhor - inclusive pelo reduzido tamanho - mas tal possibilidade é vetada ao Rio que não poderá encontrar uma saída fluminense fora do contexto nacional. É doloroso dizê-lo, mas é claro que uma crise ou desgraça qualquer em Manaus ou Floripa não tem o peso de uma crise carioca. 

Desde esse ponto de vista, as ilusões de Freixo que o levam a sair do PSOL não são lá muito diferentes da convicção daqueles que permanecem no partido. 

Em décadas passadas a decisão de abandonar o PSOL seria tratada como "oportunismo eleitoral", "traição ao programa", entre outros epítetos ainda menos ilustres. No entanto, nas circunstâncias atuais, a mudança de partido não significa a mudança de trincheira pois todos estão na vala comum da luta pela "democracia contra o fascismo". A divergência certamente ganharia contorno mais dramático se a adesão de Freixo ao Lula ocorresse no período em que o PT estivesse no governo. A diferença agora é que o PT pode ser governo e o apetite eleitoral cresce na exata medida das pesquisas eleitorais que colocam Lula na disputa do segundo turno contra o protofascista Bolsonaro. Não resolve alertar que muitos meses se passarão até que essa possibilidade se efetue e que a crise é tão grave que tudo pode mudar. A intensidade da crise tem sido argumento precisamente daqueles que aderem sem rubor algum à enfadonha repetição da "alternativa" Lula.

A ilusão básica, comum entre os que saem do PSOL e aqueles que permanecem é, afinal, uma só: uma frente - a mais ampla possível - para enfrentar a direita, o fascismo, os milicianos, etc. No Rio - tal como manda a tradição petista - a candidatura de Lula será aquela que passar no segundo turno. Com exceção de São Paulo, o mandamento petista é um só: entregar os anéis para preservar os dedos. Em consequência, entregar a disputa nos estados para formar palanques necessários à conquista da presidência. Afinal, quando Lula não rifou candidatos próprios do PT sem cerimônia para alcançar seus fins nacionais? Ora, o Rio de Janeiro, há décadas, nunca deixou de ser mera moeda de troca de Lula nas articulações nacionais, como forma de contemplar políticos e partidos corruptos e eleitoreiros que possuem forte representação no estado.     

Freixo sabe - ou vai descobrir - que Lula é treinado na arte de namorar com todos e casar com ninguém. Afinal, quem será o candidato do PSOL a governador nas circunstâncias atuais? A despeito de possíveis méritos, será alguém destituído de uma virtude decisiva: o PSOL, tudo indica, não terá candidato capaz de passar para o segundo turno. Freixo ocupará esse espaço eleitoral porque até agora expressa como ninguém a identidade do PSOL, razão pela qual, arriscará a vida para além do partido com certo conforto. Creio, nesse contexto, que Freixo revela em sua ambição eleitoral todas as misérias de um político vulgar, mas, revela também, o dilema do PSOL, que, nascido para superar o fracasso histórico do PT expresso em sua decadência moral, política e programática, se limitou tão somente a figurar como "crítico" moral da esquerda liberal cuja expressão máxima ainda é o PT. Assim, o PSOL poderá ter um encontro marcado com Freixo em poucos meses.

Há muito escuto de amigos marxistas que não há outro caminho: o povo terá que experimentar Lula novamente para adquirir consciência de suas reais limitações pois Dilma o livrou de um juízo histórico definitivo caso ele fosse - como de fato pretendia - sucedê-la ainda no segundo mandato que, como sabemos, foi concluído na destituição. Eu entendo o argumento mas sempre recordo que a crise atual criou novo ambiente em que a repetição da fórmula Lula não possui aderência: antes que solução, a candidatura Lula será o caminho de aprofundamento da crise social, econômica e política e, no limite, permitirá mais força ao avanço da direita. Alguém pode supor com seriedade que Lula e sua frente amplíssima apresentam uma solução para a crise terminal da república burguesa apodrecida em seus fundamentos? Afinal, Lula é capaz de elucidar os dilemas próprios de um capitalismo dependente rentístico calibrando a luta nos marcos da ordem e, sobretudo, contra a ordem burguesa? Ora, todos sabemos que não! Lula - Freixo e a maioria que permanece no PSOL - ainda acredita que a república atual possui virtudes que devem ser resgatadas e pelas quais vale a pena apostar nossas vidas. A direita encabeçada por Bolsonaro indica todos os dias o caminho da superação das misérias republicanas pela via de uma modalidade particular de terrorismo de Estado. A esquerda, ao contrário, reafirma todas e cada uma das ilusões que nos trouxeram precisamente para o beco aparentemente sem saída em que nos encontramos.

De resto, a opção por Lula - no primeiro ou segundo turno - manterá o que restou da esquerda cativo ao ex-presidente em nome de  objetivos “superiores”. Aos olhos de milhões, no entanto, o apoio a Lula  é a reafirmação do horizonte liberal na esquerda brasileira, algo bem distante das necessidades cada dia mais fortes e ainda pouco visíveis da revolução brasileira.