quarta-feira, 28 de maio de 2014

Um filme contra GETULIO, um filme contra a memória histórica

Entre todas as mortes de Getúlio Vargas, não vi ou li nada pior que a versão oferecida por Carla Camurati e João Jardim, o casal que produziu GETULIO, o filme. A trama desenvolve-se no curto intervalo de 19 dias, ou seja, entre o tiro que vitimou o major Rubens Florentino Vaz, feriu o principal inimigo político do presidente - o jornalista Carlos Lacerda - e o suicídio de Getúlio Vargas ocorrido em 24 de agosto de 1954.

Em uma peça promocional Carla Camurati afirma objetivo da empreitada: "o que a gente queria é que a historia do Brasil contaminasse emocionalmente o público. Que você assistisse este filme e ficasse realmente emocionado com a historia do seu país, porque é isso, esta é a nossa história, esta é a sua historia".

Diante de tal propósito, nada poderia ter sido mais desastroso. Nem falso. A diretora tenta estetizar a solidão do poder, revelar a intimidade supostamente dura de seu exercício por um personagem que tanto marcou a vida nacional quanto soube como poucos manter o controle da política por um largo período histórico. No entanto, antes de mostrar a trajetória de um líder que efetivamente comandou grandes transformações no Brasil, o filme exibe um Getúlio cativo do medo, um homem vacilante e sobretudo angustiado; naquele roteiro Getúlio nunca superou a posição de um sujeito atormentado pelo fantasma da prisão, de alguém que deixaria o poder não na condição de mártir mas de um relés corrupto, algemado e encurralado pela ação oposicionista liderada na aparência pelo jornalista Carlos Lacerda. Para todo aquele que desconhece a Historia e acreditou na historinha condensada pelos autores do filme, Getúlio nunca passou de um chefe de governo marcado por um "mar de lama", ou seja, um governo atravessado pela corrupção não somente sem controle, mas sobretudo intolerável para a "opinião pública" porque supostamente contaria com a cumplicidade presidencial. Não vemos um filme que retrata os dias finais de um estadista que decide pelo suicídio nos estreitos limites da lógica férrea das condições políticas e sociais extremas, mas precisamente de seu oposto. A trama histórica cede lugar quase que completamente para o drama pessoal de um homem finalmente fraco, débil - e insisto - medroso. Ora, nada mais distante da realidade do que um Getúlio sendo devorado pelos fatos sem reação ou simplesmente tomando medidas que terminam por incrimina-lo ainda mais num episódio que não foi, nem de longe, a razão fundamental de seu suicídio. Em resumidas contas, impossível amar a história neste enredo. Menos ainda identifica-la como "nossa história".

De resto, Carlos Lacerda, um jornalista sem virtudes, venceu uma vez mais Getúlio. Agora na ficção. A visão que prevaleceu no filme foi, sem dúvida, precisamente a marca construída por Lacerda contra Getúlio. A trama consegue inclusive esterilizar a importância estratégica da carta testamento de Getúlio, um documento de caráter histórico, denso, anti-imperialista, no qual as forças que conspiram contra seu governo são reveladas e não podem ser resumidas nas denuncias de um personagem menor como Carlos Lacerda, conhecido pelo apelido de "o corvo". Eu bem sei que a ficção tem lá suas liberdades, exceto a de falsificar a historia. É isso que o filme faz. Não é um filme deprimente apenas, É sobretudo falso.

Palmério Dória conta em um de seus últimos livros que o jornalista Armando Nogueira, única testemunha ocular do atentado da Rua Toneleiro, confidenciou anos atrás quando ambos trabalhavam na Globo que mentiu no episódio: jamais teria visto Gregório Fortunato na cena do crime. No entanto, guardou silêncio e levou o segredo ao túmulo. No filme, sequer as evidências de que Lacerda teria atirado contra seu próprio pé são levadas a sério. Toda a carga da "emoção" é despejada sobre Getúlio e suas insuperáveis angústias.

A exemplo de outras tantas gerações, também a minha nasceu sob o signo da profunda desconfiança em relação ao nacionalismo, razão pela qual, desde sempre, todo e qualquer nacionalismo soava nocivo. Durante muito tempo, o ex-presidente João Goulart, por exemplo - sem duvida um grande político - jamais logrou superar em minha imaginação a estatura de uma figura boemia, um mulherengo incorrigivel e sobretudo vacilão diante de decisões políticas cruciais. Jango, ademais, figurou durante muito tempo como alguém despreparado para o exercício do poder político e muito possivelmente ainda é esta a imagem que as escolas e os partidos políticos reproduzem.

Em relação a Getúlio Vargas o preconceito - e o desconhecimento também - sempre foi mais profundo. O estado moderno no Brasil nasce com a Revolução de 30 encabeçada pelo líder gaúcho; ainda assim, Getúlio sempre foi homem associado ao "caudilhismo", expressão com a qual a sociologia brasileira tratou de exorcizar como fenômeno necessariamente nefasto, anti-democrático, autoritário e, sobretudo, atrasado. À luz das transformações que operou no estado, na economia e na cultura do país, deveria parecer fácil, mas na verdade é difícil observar Getúlio Vargas como o líder político mais moderno que já possuímos. Todas as grandes instituições políticas e estatais foram basicamente construídas em seus governos: do voto feminino a instituição do salário mínimo, da siderurgia ao  controle do petróleo, sem falar no fortalecimento da identidade e cultura nacional. Getúlio é o personagem que organiza o estado burguês num país periférico latino-americano. Desde esta perspectiva, nada poderia ser mais "moderno". Na tradição hispânica, descobri que um caudilho, antes que expressão exclusiva de autoritarismo, sempre foi na verdade um termo que salienta as virtudes daquele líder capaz de reunir dotes militares e políticos. O caudilho era, em resumo, um líder de massas. E um líder de massas nas sociedades modernas não é algo que podemos depreciar e menos ainda prescindir, embora a maioria o faça. O caudilho não é, obviamente, uma deformação típica de países periféricos, especialmente os latino-americanos, pois também verificamos este tipo de liderança nos países metropolitanos. No entanto, a sociologia e a ciência política dominante os classifica como "estadistas", figura supostamente dotada de todas as virtudes que raramente podem aparecer na periferia capitalista. O estadista é, de maneira geral, tratado como um vitorioso enquanto o caudilho ineapelavalmente aparece como um derrotado. Não importa a causa como tampouco faz sentido buscar as razões uma vez que todo caudilho está, previamente, condenado.

Longe de minha intenção idolatrar Getúlio pois tampouco são pequenos alguns de seus erros e algumas de suas opções políticas são mesmo gravíssimas. O tema agora é o filme. Um filme cuja pretensão é fazer a gente amar a história, a "nossa história" segundo a própria Camurati. Mas a história ali recuperada - insisto - é a versão lacerdista. O contraste é tal que por primeira vez pensei no suicídio de Getúlio como um ato de coragem e não de covardia como a trama sugere e os livros de história ainda ensinam. Não há povo no drama individual do ex-presidente. O povo finalmentre aparece quando o filme termina e cenas de época revelam a comoção popular em função da desaparição do grande líder. Há, de fato, um abismo impossível de explicar entre o solitário e perplexo Getúlio que perambula angustiado, quase inerte, aparentemente sem alternativas nas noites intermináveis do Palácio do Catete, e a movimentação de massas espotânea que mobiliza milhares e milhares de pessoas após o anuncio de sua morte, e que deixou seus adversários e críticos em silêncio além de ocultos durante meses. Getúlio aparece como se ele, de fato, não tivesse outro recurso senão o tiro no peito.

Conversa com soldados em 1942.  
Há dois meses - mera coincidência - li os dois primeiros tomos da trilogia sobre Getúlio publicada pelo jornalista cearense Lira Neto. Aguardarei o terceiro volume sem esperança alguma de que possa ser muito distinto dos volumes anteriores, obra de natureza idiográfica, quase que exclusivamente orientado pelo valioso diário que Getúlio Vargas escrevia e onde deixava preciosas notas e indicações. O livro de Lira Neto - elogiado por Fernando Henrique Cardoso e Lula - não me despertou particular interesse, embora me benificiei com a riqueza de detalhes sobre a vida política nacional que somente de maneira geral conhecia. Foi útil, pois é impossível nada aprender em mais de 1000 páginas. No entanto, o alcance político da obra é limitado e não atribuo esta notória insuficiência a débil formação sociológica e política que os jornalistas de maneira geral sofrem. Numa obra exaustiva, há episódios decisivos que simplesmente não podem ser tratados com superficialidade, como por exemplo, entre tantos outros, a vitória de Getúlio sobre os paulistas em 1932. Em dois parágrafos a batalha esta decidida! Getúlio não brilha por dotes militares - que certamente tinha - e tampouco figura como hábil negociador diante do poder econômico que já se estruturava em São Paulo contra um Brasil soberano, somente possível quando distantes dos Estados Unidos. Uma lástima!

Quanto a GETULIO, não resta dúvida que o filme pretende reduzir o horizonte histórico da época ao drama pessoal do ex-presidente, não por razões estéticas, mas por clara motivação política. Não se trata de pedir à obra de arte uma lição de História. Uma obra de arte com clara intenção politizante deve ser, antes de qualquer coisa, uma obra de arte. Não é o caso. No livro, questões relevantes são superficialmente tratadas. No filme, a falsificação da historia é grotesca. Suspeito não tratar-se de mera coincidência. Tudo indica que para a produção cultural dominante, estamos condenados a ser um povo carente de grandes políticos. Estadistas e heróis existem? Sim, certamente, mas além mar. Aqui, entre nós, nem pensar.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Pra não dizer que não falei do Che

A historia é deliciosa. Ocorreu há alguns anos e revela o quanto um reitor pode ser miserável intelectual e politicamente. Era um reitor provisório, é verdade. Mas era um reitor. Com a pretensão de tomar medidas de impacto logo de assumir a função, armado com a ilusão de marcar para sempre sua fugaz gestão, decidiu eliminar uma enorme figura do Che há anos ilustrada na parede de um edifício central da Universidade Nacional de Colômbia, em Bogotá. Algo assim como quem diz, "a moleza acabou, agora há aqui, finalmente, uma autoridade". Ele julgou seu ato protegido pelo clima dominante no país que sempre garantiu larga margem de impunidade a qualquer autoridade, mesmo as mais insípidas e pouco influentes. No entanto, no dia seguinte o retrato do Che brilhava na parede novamente. De quebra, desafiados, os estudantes não somente rapidamente reconstruíram a enorme gravura, mas reproduziram centenas de minúsculos retratos do Che Guevara nas calçadas, muros, prédios, como se uma especie de febre guevarista tivesse afetado a estrutura física da universidade após a decisão da autoridade. Diante da ausência de vacina para tal enfermidade, o reitor esqueceu a disputa rapidamente como se nada tivesse acontecido e muito provavelmente, no íntimo, aceitou de bom grado a volta da imagem consagrada pela fotografia de Korda. Talvez tenha julgado adequada a "troca" inesperada imposta pelos estudantes.


Foi por esta pequena disputa que o retrato do Che ainda descansa na parede de um importante edifício na Universidade Nacional. Não tenho saudades de 68 pois, entre outras razões, foram anos que não vivi. Não os fantasio e tampouco os ignoro. Há, de fato, grande importância na década de sessenta, pois foi uma época onde compromisso militante, movimento de massas, horizonte utópico e importantes contribuições teóricas coincidiram. Sem saudade, repito, considero que todos aqueles que conseguem respirar no esterilizado ambiente acadêmico que sofremos, deveriam olhar e quem sabe estudar algo sobre o período. De minha parte, entre os autores daquele efervescente tempo, li com devoção Marcuse, pois era evidente tratar-se de um dos intelectuais frankfurtianos nada disposto a deixar "mensagens em garrafas", para usar uma feliz expressão de sua autoria. O filósofo radicalizou, foi considerado "profeta" pela armadilha midiática e provou também o amargo sabor de uma derrota histórica. No entanto, jamais perdeu a lucidez e muito menos arregou, o que não é pouco. Antecipou com invejável precisão o fim das barricadas, a partir do qual a vida se reduziria a "larga marcha através das instituições" e na qual o trabalho educativo seria o mais importante ainda que menos sedutor. Vaticínio certeiro, afinal, o antigo militante compromissado de outras épocas cedeu espaço para o "agitador" eletrônico, e as novas lideranças estão mesmo de olho numa candidatura a deputado ou numa assessoria parlamentar, antes que arregaçar as mangas em projetos educativos de resultados mais lentos, menos visíveis e com efeitos mais duradouros. O deputado e o sindicalista querem, quando muito, melhorar o sistema na ilusão de que tal meta é possível.   

Este inicio de século pinta distinto. O pragmatismo comanda a vida política e mesmo entre aqueles com inclinação "critica", predomina certo ceticismo funcional à ordem dominante. Não creio que um retrato na parede possa mudar alguma coisa e tenho plena convicção de que os estudantes - aqueles mesmos que reafirmaram o lugar do Che de maneira tão vistosa - tampouco alimentam qualquer ilusão a respeito. As paredes da universidade lá em Bogotá estão bem animadas, como vocês podem ver. De minha parte, trocaria a limpeza geral dos edifícios por uma boa reforma curricular que enfrentasse a paralisia intelectual,a repetição canônica, o eurocentrismo, e a mais completa falta de contato com a realidade que orienta a formação universitária em todo o continente.

Estudantes pintam edificios na UNC
Os estudantes também aceitariam esta troca, estou seguro. É óbvio que nenhum reitor ou reitora na atualidade possui a coragem intelectual suficiente para mexer numa linha da grade curricular, um tema praticamente proibido entre nós. Ministro algum arriscaria seu cargo num projeto semelhante. Os pro-reitores silenciam também... Os estudantes, o únicos interessados em tal mudança estão demasiadamente partidarizados (não politizados!) para tematizar o currículo e os métodos de ensino como um problema político central. Nestas circunstâncias, o que pode uma gravura na parede diante de aulas enfadonhas e alienantes que ocupam diariamente a imaginação na sala de aula com o intuito de aliena-la? Nada, obviamente. Os professores que ditam o ritmo nas universidades se julgam sábios superiores aos doutores escolásticos do século XVI ou simulam a autoridade dos catedráticos da antiquada universidade colonial latino-americana que finalmente foi enfrentada em 1918, em Córdoba, Argentina. Em consequência sentem-se - e atuam - com pedagogia reacionária. As pinturas acima funcionam como alegoria, sem potencia reformadora e menos ainda revolucionária. Recordam, no entanto. E alguém tem que recordar porque afinal, esta é também a nobre função da filosofia. Ainda que o tempo presente pareça ter condenado para sempre uma possibilidade radical de mudar o estado das coisas. 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Apesar de Veríssimo

Não poucas vezes comprei a edição dominical de algum jornal somente para ler Luiz Fernando Veríssimo. Tenho, de fato, simpatia pelo escritor gaúcho e apreço por sua crônica sempre bem-humorada, uma de suas qualidades literárias. Ele parece um sujeito sereno - inclusive quando torce pelo Internacional -, razão pela qual é bem provável que até mesmo gremistas o reverenciem, ainda que de maneira discreta como recomenda a rivalidade no Rio Grande amado. É possível que sua simpatia não tenha produzido um único e indispensável inimigo até hoje. Ele, tal como Leandro Konder, é um homem sem inimigos.

Mas ontem, num canal de TV, falando para milhões, ele comentou a morte de Gabirel García Márquez nestes termos:

"apesar de ser latino-americano e escrever muito sobre nossa realidade meio fantástica mesmo, né, ele foi um autor internacional, universal, lido e compreendido em qualquer lugar do mundo"

Doze contos peregrinos
Eu tomava minha primeira cerveja e não podia crer no que acabava de ouvir. Atribuí meu espanto ao ruído do bar e já em casa fui ver novamente a declaração na internet. Tudo se confirmou. Não havia qualquer efeito de álcool na minha compreensão: "apesar de latino-americano....". Novamente vi e ouvi Veríssimo dizer, "apesar de latino-americano..." Apesar? Ora, Gabo foi enorme precisamente porque era latino-americano e escrevia sobre nossa realidade. As editoras, o especialista universitário, o presidente dos Estados Unidos e todos os demais que o consideraram grande escritor, leram Gabo porque precisamente ele escrevia sobre nossa realidade e era um latino-americano. Enfim, na cabeça do jornalista colonizado Gabo transformou-se num autor "universal" ou "internacional" apesar de ser latino-americano. No entanto, estou seguro de que Gabo jamais se sentiu um universal, porque não era um bocó ou esnobe. A literatura e o jornalismo que praticou buscavam antes de mais nada afirmar ou definir nossa identidade latino-amerciana comum e a caribenha em especial.

Não é necessário mais do que ler "Boa viagem, Senhor Presidente", publicado em "Doze contos peregrinos" para confirmar esta incessante busca. A respeito, recordo o orgulho com que o leu num seminário na UNAM, antes mesmo de disponibilizá-lo aos seus fiéis leitores. Eu o escutei como quem escuta um testamento. Tomei aquele conto como "sintese" de sua missão literária. Gabriel Garcia Márquez foi, entre nossos grandes escritores, aquele que, por razão desconhecida, mais li. Contudo, não sou senão um curioso na literatura e não estou proferindo sentença alguma sobre Veríssimo. No próximo domingo, é claro, vou buscar na banca mais próxima a crônica do gaúcho.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Sobre o patriotismo


Diante de qualquer manifestação nacionalista, escutei não poucas vezes o antigo bordão de Samuel Johnson proferido feito sentença: "o patriotismo é o último refúgio dos canalhas"

Quando explodiram as manifestações de junho de 2013 a partir da convocatória feita pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra o terrível sistema de transporte que sofremos, não faltaram vozes contra o uso das bandeiras brasileiras pelas mãos delicadas de uma classe média que parecia descobrir o gosto pelo protesto social. Muitos amigos afirmavam que a evocação do nacional era um mau sinal: a direita ganhava as ruas. Mais ainda: a direita nacionalista finalmente rangia seus dentes contra um governo “progressista” que a mídia golpista quer derrubar. Enfim, eles concluíam que nenhuma manifestação nacionalista pode ser de esquerda porque – comprava-se uma vez mais – o nacionalismo é historicamente uma arma da direita.


Diante do espasmo nacionalista do ano passado ouvi, especialmente de pessoas com passado ou sentimento de esquerda, que o nacionalismo – não havia mais dúvidas – também aqui era expressão do “último refúgio dos canalhas”, tal como o escritor inglês havia vaticinado de maneira aparentemente irremediável em 1735. Afinal, “esta gente” que então reclamava é a mesma que sempre calou diante das imensas carências do povo brasileiro. Esta gente – repetiam – jamais subiu num ônibus ou metrô!! Não possuem, portanto, direito ao protesto com o sofrimento alheio. De fato, é típico do comportamento classemédia a indiferença diante da superexploração a que estão submetidos milhões de trabalhadores brasileiros. Com frequência ideológica, a classe média, especialmente a alta, não cansa de culpar os miseráveis por sua própria miséria: não gostam de trabalhar, possuem muitos filhos, não tem disciplina, bebem, sambam, perdem tempo com futebol, etc... Em consequência a classemédia acredita que o PIB cresce por passe de mágica e não em função do suor e sangue de milhões de seres humanos que jamais poderão usufruir dos resultados de seu próprio trabalho.

Não há dúvidas sobre a falta de sensibilidade social da classe média, pois ela pensa e atua assim; mas este reconhecimento não concede razão aos “críticos progressistas”. Há grave contradição na consciência sempre ingênua de pessoas “progressistas”. De maneira geral o bando progressista defende os governos Lula/Dilma. Alegam que diante dos tucanos e das circunstancias, é tudo que podemos conseguir. Eles parecem esquecer – por pura conveniência - que precisamente os governos Lula/Dilma são os maiores representantes do sentimento de classe média, esta poderosa ideologia que atualmente governa a cabeça da maioria. Não à toa, Lula insistia na exibição dos supostos 30 milhões de brasileiros que assumiram a condição de classe média. Os analistas difundem esta ideologia como algo essencialmente positivo, mas jamais eles próprios pensaram em participar da nova classe média brasileira, pois esta incluiu tão somente aqueles que recebem até 3 salários mínimos. A “nova classe média” seria muito boa para os miseráveis, nunca para os defensores do governo que analisam a situação em salas confortáveis ou em seminários acadêmicos; portanto, observam a vida nacional longe, bem longe da tristeza que implica a vida comum, quase miserável, de milhões de brasileiros.

Há algo de perverso nesta operação política.  A ideologia que afirma a emergência de uma nova classe média é também uma forma de digestão moral da pobreza que conforta e ilude os “progressistas”. A política social – sempre necessária em países dependentes – é motivo de orgulho para os petistas, mas é também conveniente para a classe dominante na medida em que a famosa “questão social” encontrou finalmente uma fórmula mágica e eficaz de solução: não mais se trata de “um caso de polícia” – como aprece ter afirmado na década de 30 o presidente Washington Luís – mas um caminho seguro de atender aos pobres e miseráveis sem tocar no poder, na propriedade e nos ganhos dos ricos. Não há que iludir-se com o fundamental, afinal, como insistiu Lula, “os ricos nunca ganharam tanto no meu governo”. Os pobres e os miseráveis, sempre submetidos à superexploração, votam massivamente em Lula e Dilma para não perder as migalhas que ganharam. Os ricos seguem acumulando sem grande estorvo. Enfim, parece que vivemos no “melhor dos mundos possíveis”!

Contudo, o bando que divulga a melhoria da situação do país reconhece que os serviços públicos são mesmo péssimos, razão pela qual o protesto pode emergir de maneira inesperada em qualquer momento e situação.

Foi neste contexto que as bandeiras verde-amarelas voltaram às ruas. Não era a primeira vez, é preciso recordar. Na campanha das “diretas já” (1985) a bandeira nacional figurava como artigo quase militante e nos principais comícios se cantava o hino nacional com fervor contra a ditadura. Mas a memória é, nas filas da esquerda, um recurso de luxo e à direita, um artigo inconveniente. Por esta razão, a crítica contra o uso da bandeira nacional – e o nacionalismo ambíguo – voltou com força e figurou como expressão de novidade. Chegamos ao absurdo de supor que ninguém pode reivindicar a condição de crítico senão se afastar do nacionalismo, esta força que figura entre nós como espécie de lepra política.

O uso indevido da famosa frase de Johnson (“o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”) é, ainda que não pareça, fruto de um enorme desconhecimento da história da Inglaterra. Mas também é produto de um gigantesco erro estratégico da esquerda brasileira, tributária do eurocentrismo, esta poderosa ideologia fomentada desde a Europa e os Estados Unidos. Entre nós, o eurocentrismo aparece como apreço alienante ao cosmopolitismo e rechaço ao nacionalismo.  
Vamos analisar os dois temas.

O nacionalismo inglês de Johnson

Os patriotas eram na Inglaterra de Johnson uma tendência política tal como existiam trabalhistas no Brasil ou existem peronistas na Argentina e democratas nos Estados Unidos. Enfim, antes que necessariamente nacionalistas, eram uma corrente de opinião, partidária e política, numa Inglaterra que apenas começava colher os frutos daquilo que os ingleses chamam com desmedido orgulho nacional, Revolução Gloriosa. Os patriotras, em consequência, militavam no patriotismo

Foi precisamente em 1774, portanto um ano antes de afirmar que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”, que Johnson escreveu um famoso panfleto de campanha – The Patriot – destinado a defender uma vez mais o voto nos patriotas. Trata-se de um texto por encomenda que o escritor produziu com evidente ardor patriota e profunda convicção política.

Donald Green, organizador de vários escritos de Johnson, afirma que “desde a década de 1730 esta palavra havia sido o grito de todo grupo de oposição descontente, qualquer que fosse sua composição e objetivo”.  Os patriotas atravessaram um século com certo prestígio de tal forma que os radicais de 1760 e os reformadores parlamentares de 1780, recorriam a legitimidade histórica para afirmar suas ideias e políticas muitos anos depois de ter inicio este curioso movimento de ideias. Betty Kemp escreveu que “o programa patriota significava, na prática, place bills, parlamentos de curta duração, eleições livres, a destruição da influência do Rei sobre o Parlamento”.

Não estavam sozinhos. Jamais esqueço David Ricardo, segundo Marx o mais importante economista do século XVIII, também apresentou uma reforma parlamentar em 1818 e jamais conseguiu aprová-la porque, precisamente, tentava diminuir o poder do Rei com a introdução do voto secreto, mandatos parlamentares curtos e direito de voto aos que pagavam impostos e não exclusivamente aos proprietários. O parlamento nunca aprovou sua tímida proposta de reforma. E David Ricardo era um fervoroso nacionalista, embora jamais se definiu como tal pois, ao contrário de Johnson, viveu numa época em que seu país já era a potencia dominante na Europa. Na época ricardiana a Inglaterra já era a nação mais poderosa do continente europeu e a tarefa de todo inglês culto era condenar os demais povos na pretensão de construir sua nação. Enfim, toda figura inglesa de prestígio e/ou influencia era, antes de qualquer outra coisa, nacionalista.

Na Inglaterra do século XVIII os nacionalistas consequentes assumiam o patriotismo. Os oportunistas, após tentarem de todas as formas coquetear com o Rei, após operar inúmeras manobras e bandaços – hoje com os liberais e amanha com os conservadores – quando viam as portas da política parlamentar se fecharem, não vacilavam em recuperar o prestígio perdido candidatando-se pelo patriotismo que atravessava décadas resistindo o teste decisivo do tempo com vitalidade e credibilidade junto ao povo inglês.

Portanto, o patriotismo – antes que uma tendência nacionalista semelhante que aflora na América Latina – era uma espécie de tradição política que marcava a linha oposicionista ao Rei num contexto de uma operação difícil. Mas era evidente que os patriotas professavam amor à Inglaterra e, a sua maneira, eram também nacionalistas. Nunca foi fácil opor-se a reis na Europa. Johnson, em consequência, escreveu profusamente tentando sempre salvar o patriotismo dos oportunistas de todos os matizes. Não poderia ter sido mais favorável ao patriotismo ao afirmar que “um Patriota é aquele cuja conduta pública esta regulada por um único motivo, o amor a seu país; aquele que, como agente no Parlamento, não tem esperança nem temor por si mesmo, sem amor nem resentimento, mas para o qual tudo se refere ao interesse comum”. 

Alguém poderia ter dúvida de seu absoluto entusiasmo pelo patriotismo? Agregou que a “qualidade do patriotismo é ser zeloso e vigilante, observar todas as maquinações secretas e ver os perigos públicos a distância. O verdadeiro “amante de seu pais” esta disposto a comunicar seus temores e a dar alarme cada vez que percebe que se aproxima um mal...”. Enfim, escreveu copiosamente a favor dos Patriotas com um único objetivo: revelar os falsos patriotas, especialmente aqu*eles que sendo execrado pelos demais partidos pela porta de trás pretendiam ressurgir das cinzas entrando no patriotismo pela janela. Diante de seu fracasso em impedir os oportunistas e trapaceiros de toda espécie em prosperar nas fileiras em que ele com tanto zelo militava, não vacilou em alertar que o “patriotismo é o último refúgio dos canalhas”! Jamais foi sua intenção liquidar ou diminuir o patriotismo (ao contrário!!!), mas única e exclusivamente impedir o domínio da canalha nesta importante tradição política.

Este é o sentido profundo da famosa frase de Johnson que antes de morrer – em 1775 – escreveu um largo ensaio sobre as Ilhas Malvinas, este território que até mesmo os britânicos cosmopolitas ainda acreditam ser propriedade inglesa. O estilo literário do escritor inglês não esconde algo fundamental: seu texto era, de maneira discreta, uma defesa sobre a soberania inglesa das Ilhas que são da Argentina. No entanto, com tom de quem desdenha o território além-mar, ele não deixou de defender discretamente a soberania inglesa sobre o território argentino, mesmo espetando o Rei e o desejo de parte dos políticos ingleses em fazer e lucrar com as guerras. Não por acaso, quando madame Margareth Teacher decidiu atacar a Argentina para recuperar o território perdido momentaneamente em 1982 em plena ditadura militar no país vizinho, o velho panfleto de Johnson foi novamente editado aos milhares pela elegância e por sua discreta natureza nacionalista. Ninguém pode duvidar da devoção de Johnson à Inglaterra. Ele jamais se alinhou ou escreveu sobre as virtudes do cosmopolitismo. Jamais se pensou “cidadão do mundo”, como se as fronteiras nacionais não mais existissem porque precisamente na época em que viveu elas estavam apenas nascendo.

Cosmopolitismo cultural na rua onde vivo


O erro estratégico da esquerda
A esquerda brasileira sofre profundo processo de redefinição. Também o protesto social busca caminhos eficazes de combate e reivindicação, moldando lentamente, de maneira acidentada, seu novo perfil. Neste contexto, é claro que esta difícil definir quem é de esquerda no Brasil. Não tenho dúvidas que muita gente auto-definida como “progressista” pretende, na verdade, o monopólio da esquerda. É a forma envergonhada de “afirmação” do campo da esquerda, atitude que expressa além de oportunismo, uma dificuldade real do processo político. Em geral eles defendem Lula e Dilma como se, de fato, o atual governo fosse o horizonte da política possível. Em consequência, os “progressistas” atribuem às massas seu próprio limite político e, das frações de classe, constituem a mais vulnerável ao modismo cultural from esteiteis. Esta é uma das razões pelas quais não aprovam a cultura nacional e não poucos duvidam abertamente de sua existência. Também por isso, estão sempre “abertos” ao modismo cultural, via pela qual tem livre curso o colonialismo emanado dos centros metropolitanos (Nova York e Paris, na cabeça).

Para estes, nada pior que um proleta carregando uma bandeira do Brasil. Nada mais alienante que um negro favelado empinando o pavilhão nacional. Enquanto condena a lepra política do nacionalismo nos trópicos, o sujeito vai pra Europa e se encanta com a comemoração dos 200 anos da Revolução Francesa – uma data nacional – ou vive com êxtase os festejos do “Independence day” nos Estados Unidos, mas detesta qualquer manifestação na sua própria Pátria, cuja manifestação, mesmo quando singela, não será considerada menos que um estorvo. Nestas circunstâncias o nacionalismo é, para os progressistas, uma demonstração inequívoca de que os pobres são massa de manobra da direita. Os progressistas agregam que nada pode ser mais provocador que um sujeito de classe média coberto pela bandeira nacional protestando contra o governo que mais fez pelos pobres em nossa história. Nada pior que uma classe média de unhas bem pintadas, cabelos ordenados, roupa clean e pele branca protestando contra o “seu” governo. É precisamente nestas circunstancias quando recordam e repetem com entusiasmo que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.

Embutido na operação, claro está que os “progressistas” reafirmam sua filiação ao internacionalismo abstrato que os impede de se assumir como esquerda nacional. Prefere, em oposição, professar apego ao cosmopolitismo idiota e alienante que orienta sua literatura preferida, as marcas do vinho francês que aprecia, o padrão de vida e o consumo típico da indústria cultural. Eles resistem em assumir a cultura nacional como condição necessária da Revolução Brasileira. No limite – repito – duvidam ou rechaçam inclusive a ideia de uma “cultura brasileira”. Em consequência, mesmo que expressem certo apoio aos “bolivarianos” de outros países, na prática não deixam de considerar esta perspectiva como “brega” ou imprópria para um país moderno e “complexo” como o Brasil mais assemelhado a França do que ao México ou Argentina.

A chamada inteligência brasileira, quase que reduzida ao mundinho universitário e a sedução midiática, não consegue romper com sua formação europeia, canônica, repetitiva da indústria cultural. Em consequência, ela adora shoppincenter. Cinema Cult. Escrever e publicar em inglês. Quando se debruça sobre a cultura brasileira, prefere sempre Machado à Lima Barreto na mesma medida em que dedica atenção especial à Chauí – e  seu infinito apreço pela cultura nacional francesa – enquanto desconhece Álvaro Vieira Pinto com seu enorme conhecimento sobre o Brasil. É neste momento conclusivo que nos espetam contra a lepra nacionalista e repetem Johnson. Contudo, devo recordar uma vez mais, para desespero dos opositores do nacionalismo, que Johnson morreu patriota.

O nacionalismo na América Latina
O nosso nacionalismo, o nacionalismo latino-americano é, como podemos ler num texto esquecido de Gilberto Freyre, um “nacionalismo de proteção” que somente se justifica porque o mundo esta comandado por um “nacionalismo agressivo”, de corte imperialista, aquele mesmo com o qual os ingleses inauguram sua hegemonia mundial no século XIX. Este reconhecimento elementar sobre a natureza decisiva do nacionalismo nos países dependentes registrado por um conservador como Freyre passa batido pela esquerda que se pretende “moderna” e “culta”, sem vínculos profundos com a cultura nacional. Aqui entre nós, nem nacionalismo, nem patriotismo é conveniente, ensinam os moderninhos. Eles esquecem – ou fingem esquecer – que a vida nos Estados Unidos, ou em qualquer país europeu “civilizado” de preferência, esta orientado por profundo nacionalismo. Bastaria ler o discurso de posse de Barak Obama para perceber o elementar ou acompanhar com alguma atenção as ações e discursos de senhora Merkel na Alemanha ou Holland na França. Ambos são, cada qual à sua maneira, disciplinados nacionalistas. Agressivos nacionalistas, diria.

E o que seria o nosso patriotismo? Na pluma de Lima Barreto, as virtudes de Policarmo Quaresma definem o tema: “Policarpo era patriota. Desde moço, aí pelos vinte anos, o amor da pátria tomou-o por inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio, fora um sentimento sério, grave e absorvente. Nada de ambições políticas ou administrativas; o que Quaresma pensou, ou melhor: o que o patriotismo o fez pensar, foi um conhecimento inteiro do Brasil, levando-o a meditações sobre os seus recursos, para depois então apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa”. Enfim, nada que se possa aprender num texto de Raws, Bourdieu ou Habermas.


Na pista literária de Lima Barreto, o gênio esquecido


Bem sei que no lugar da cultura nacional, o colonialismo alienante que comanda a vida acadêmica no país – especialmente no jornalismo e na reduzida vida intelectual – indica as virtudes do cosmopolitismo como caminho racional e seguro pra êxito profissional e audiência pública. A conduta nacionalista é logo escrachada impiedosamente enquanto para o “universalismo” se rendem todas as homenagens. Colonialismo na veia, apresentado como se de fato fosse universalismo virtuoso, representante do bem da Humanidade.

Alguém, acaso, poderia ser contrário a influencia da “cultura universal” sobre nossas vidas? Bem, se tal coisa existisse – a cultura universal – definitivamente não poderíamos nem deveríamos nos opor. Ao contrário, se um belo dia, ao despertar, nos encontrássemos com a existência da “cultura universal” deveríamos abraçá-la como patrimônio comum da Humanidade. O que temos, no entanto, é algo substancialmente diferente. Quando alguém aqui no Brasil reivindica as virtudes do cosmopolitismo com inusitada frequência pretende, na pratica, tão somente a defesa da indústria cultural dos Estados Unidos. No rádio, no jornal e na TV. Na editora e na linguagem corrente. Na novela com grande audiência e na canção de moda. Na arquitetura estilo shopping e na vestimenta. Em quase tudo. Ligue uma emissora de rádio qualquer e desfrute da música universal que ali toca: não há – quase nunca há – música  árabe, latino-americana, francesa, espanhola ou catalã. Não toca Vila Lobos, Yamandú ou Paco de Lucia. A música que ali domina é from esteites, em geral de péssima qualidade. A boa música gringa – que de fato existe – quase não chega até nós.

Ardor cosmopolita no bairro onde vivo
Trindade - Florianópolis


É por esta razão, e não por suposta deformação genética dos latino-americanos, que a atitude nacionalista ou o programa nacionalista entre nós adquire muito facilmente um caráter anti-imperialista na defesa da economia, da cultura, do território, da soberania. O poder dos Estados Unidos é tal sobre nossa vida material e espiritual que, por mero ato de sobrevivência, deveríamos ser todos, em medida distinta, nacionalistas. Enfim, deveríamos ser patriotas, tal como Johnson o foi na sua amada Inglaterra no século XVIII. Melhor ainda seria se adotássemos a perspectiva de Marx e entendêssemos que o fim das nações seria efetivamente bom pra todos nós e fatal para os capitalistas. Mas eu sei que seria pedir demasiado.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Sobre a incompatibilidade entre universidade e cultura
A propósito do UFSCTock


A realização do UFSCTock despertou a atenção para um problema sério que precisamos enfrentar: a alienação cultural que a experiência universitária representa na vida de milhões de pessoas. Até agora foi demasiadamente cômodo denunciar as restrições orçamentárias perenizadas, “lutar” por melhores salários, apresentar projetos “interessantes” e resumir nossa “militância” no surrado bordão da “luta contra o neoliberalismo”. Cômodo, demasiadamente cômodo! Enquanto parte considerável da esquerda espeta o “neoliberalismo” (nas circunstancias atuais, um objeto não identificado), a universidade se transformou num valioso instrumento de alienação científica e cultural em favor das classes dominantes. Eu sei que a maioria considera este juízo um exagero encantada que está com o academicismo. Contudo, estou convencido que a universidade divide com a evangelização do país e o abobamento televisivo, as glórias das três instituições mais importantes para a alienação cultural. Entretanto, a maioria de nós ainda fala da universidade como se estivesse efetivamente vivendo na casa do saber e da cultura. Grande parte dos estudantes também, de maneira contraditória, depositam suas esperanças na instituição universitária como instrumento de criação intelectual (científica e artística) ainda que o cotidiano negue terminantemente esta possibilidade. A propaganda estatal alimenta o mito de que a universidade é a grande responsável pela pesquisa no país ou que, no nosso caso, as universidades públicas são “indiscutivelmente melhores que as demais”. Ora, o ensino universitário privado no país é de péssima qualidade. Nestas circunstâncias, exibir o indisfarçável pequeno orgulho meritocrático diante da miséria a que estão condenados milhões de estudantes que pagam ensino caro e ineficiente, equivale, como denunciou Marx, a comodidade de ser liberal a custa da Idade Média.

A universidade brasileira esta sofrendo uma lenta – na verdade lentíssima – mudança. As classes populares começam a frequentar o campus antes dominado pela classe média alta e média. Há alguns anos, também existiam pobres entre nós, mas a hegemonia cultural e o clima que se respirava era, inconfundível: todos, quase todos, aspiravam a vida classemedia que agora orienta a ideologia do país marcado pela suposta “emergência” de uma “nova” classe média. É a ideologia da superação do subdesenvolvimento e a dependência pela via do consumo barato (e passageiro!). Há agora, é verdade, pobres e negros entre nós. É melhor assim. Mas devemos ser realistas: no fundamental nada mudou.

Na exata medida em que a antiga ameaça de abrir a universidade foi se transformando em uma necessidade para a classe dominante, as frações partidárias chegaram ao consenso que era mesmo tão inevitável quanto necessário para a acumulação de capital democratizar algo do ensino superior. O mercado de trabalho está aquecido repetem os economistas, razão pela qual a expansão das vagas públicas é uma demanda do capital. No entanto, no interior do campus a boa nova encontrou uma universidade ainda mais hierarquizada. É hoje notório que a graduação representa um colégio de segunda importância para o “projeto pedagógico” que nos dirige. É na pós-graduação onde os professores (e as autoridades) criaram o mito do ethos cultural e científico. Não que as aulas dos programas de pós-graduação sejam melhores. No final das contas, o colapso pedagógico é completo e não respeita o andar de cima. A consequência deste projeto é visível, pois a graduação é um fardo que, após a terceira fase, torna-se pesadíssimo para os estudantes. É neste período que a maioria dos alunos começa calcular o tempo que falta para sair daqui.
É aqui que a “ocupação” realizada pelo Ufsctock durante uma semana revela debilidade. O que pode um evento diante do cotidiano curricular alienante? Pouco, quase nada. O que pode a “semana de ocupação” diante do veto à cultura que organiza a vida universitária?

Não quero me estender sobre o nome escolhido (UFSCTock) porque mais fora de lugar não poderia ser. Não vivemos na década de sessenta e estamos longe de qualquer movimento de rebeldia naquela direção, ainda que o mal-estar seja profundo. A propósito, é significativo que em nome de resgatar uma tradição na UFSC (não é a primeira vez que este evento ocorre), a iniciativa também implica em reprodução neocolonial.

Nestas circunstâncias, o que poderia, então, uma ação cultural? Algo precisa ser feito. A energia de 4.000 punhos ao ar no auge político do festival revela apenas que são muitos os que estão, de fato, exaustos com a falta de vida cultural na universidade. Revela também que centenas deles – com pouco dinheiro no bolso e não menor falta de tempo – não possui outro espaço de diversão senão o campus da Trindade. As 14 bandas que lá se apresentaram nada podem contra a universidade alienante, mesmo que 4 delas composta por estudantes. É a luta entre o evento e a estrutura. O que pode o evento contra a estrutura? É preciso reconhecer primeiro, e enfrentar depois, o fato de que a arte esta proibida aos universitários da mesma forma que em lugar de uma cultura ampla, a universidade limita o horizonte cultural de todos nós. Aqui padecemos todos os males da cultura dominante. O talento dos estudantes, professores e técnicos está limitado pela estrutura curricular, pela falta de tempo programada pela formação, pela pressa industrial em quase tudo e pela mercantilização crescente da vida universitária.

O neo-desenvolvimentismo de Lula-Dilma rendeu improváveis aliados no campus, pois os projetos nos ministérios bombaram recursos para as universidades... Bem, estes projetos rendem também suculenta “complementação” salarial para um nutrido grupo de professores, razão pela qual possuem salários superiores ao teto legal. No final das contas, o salário é a parte menor da remuneração de muitos professores, complementa o salário de alguns técnicos e alimenta bolsas aos iniciados... Os recursos são públicos, sua apropriação é pública e a universidade não poderia ser mais burguesa, cumprindo sua função na divisão social do trabalho de um país dependente. Esta posição requer a produção de técnicos bem formados que necessitam figurar como especialista, ou seja, um bárbaro moderno. Enfim, um homem sem cultura. Um profissional, no sentido estrito do termo. O que pode valer o bordão “ars e scientia” nestas circunstancias? Na prática, nem arte e nem ciência. A universidade presta serviços mas não produz ciência. E não existe tempo nem função para a cultura.

Em consequência, o talento dos universitários deve buscar refugio ou realização fora do campus. A arte cênica não rima com Automação da mesma forma que balé não rima com Direito. A quantidade de gente que toca, dança, pinta, filma ou escreve fora da UFSC – sendo aluno aqui – é imensa. Imensa! A ocupação Ufstock, neste contexto, não produz efeito. É preciso que produza. É preciso, além de um evento, uma ação cultural de vanguarda mais profunda. A virtude do Ufstock é sua impotência, seu alerta. É possível que tenha despertado muitos para o tema, não duvido. A única certeza que temos é que não há política oficial da reitoria para responder a esta decisiva questão. No limite, a reitoria permite aquilo que o diretor de centro proíbe. É pouco. À cultura esta reservada tão somente atividades protocolares. Cabe, portanto, uma ação dos alunos, os únicos inteiramente dispostos a enfrentar a questão cultural sem os limites dos professores e técnicos. Muitos se somariam a criação de um movimento cultural na UFSC contra a alienação e a estupidez que nos governa. A cultura brasileira é vital, mas esta subordinada ao colonialismo cultural criado pela poderosa cultura industrial dos países metropolitanos. A cultura brasileira é desprezada entre nós. Os “universalistas” esquecem que toda cultura é antes de tudo, cultura nacional. A indústria cultural hollywoodiana, para mencionar um caso exemplar é, antes que universal, apenas cultura nacional estadunidense.

A ocupação do campus, especialmente no final de semana, foi tão importante quanto insuficiente. Foi um passo sem consequência? A ocupação – que custou suor e disciplina a um grupo quase heroico de estudantes – preparou o terreno para mais um evento ou os alunos iniciarão um movimento, de raízes profundas, capaz de mobilizar milhares para o fazer artístico? Neste caso, não há alternativa: mais que ocupar o campus, a ação cultural deverá ser dirigida contra a universidade que nos governa. Mais do que exibir aqui dentro o que se produz marginalmente lá fora, necessitamos um movimento destinado à criação permanente da cultura e da arte no cotidiano da instituição como caminho para superação da alienação cultural que orienta a formação profissional e domina a sociedade brasileira. Contra a omissão das autoridades e o silencio cúmplice de outros tantos. Um movimento dirigido a realizar o bordão que podemos ler no escudo da instituição (ars e scientia) ou figurar como apêndice “rebelde” da alienação em massa do colonialismo cultural que atualmente se reproduz quase sem crítica. 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Programa Faixa Livre na Rádio Bandeirantes do Rio de Janeiro

Caros amigos,

é sempre um prazer debater com Paulo Passarinho, no Programa Faixa Livre, a evolução da crise brasileira e a conjuntura latino-americana. Na última edição, realizada ainda quando estava em Buenos Aires, discutimos a grave crise brasileira que ainda não exibiu sua completa vitalidade. Meu comentário de 19 de julho - dia da Revolução Sandinista - centrou-se sobre a situação do balanço de pagamentos e as consequências das jornadas de junho.

http://www.programafaixalivre.org.br/index.php?id=1520&participante=7877&tipoPrograma=Entrevistado

Abraços!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Dos poderes presidenciais

O Brasil nunca conquistou uma democracia plena. O regime político oscila entre a ditadura e a democracia restringida. Uma democracia onde a maioria efetivamente tenha poder foi historicamente descartada e não figura no horizonte do pacto de classes que atualmente nos governa. No contexto de uma democracia restringida, a linha dominante é a conciliação de classe que assegura um paraíso terrenal para a classe dominante e algo muito semelhante ao inferno para as classes populares. Contudo, não elimina – ao contrário, exige – uma considerável dose de violência como ficou demonstrado nas jornadas de protesto de junho. A eleição de Lula em 2002, após oito anos de aprofundamento da dependência e do subdesenvolvimento praticado por Fernando Henrique Cardoso, representava um desafio na política brasileira, pois o presidente João Goulart foi, de fato, o último político que pretendia governador afinado com os trabalhadores a partir de uma agenda reformista que era ao mesmo tempo virtude e limitação.

Quando Lula venceu, até mesmo setores da classe dominante julgavam que teriam que perder algo. Após a estafa praticada por FHC, o mais amplo assalto ao estado que temos notícias na política brasileira, a maioria do povo esperava que com o novo presidente, “nossa hora chegou”. Em consequência, esperavam não apenas políticas públicas fortes (inversão das prioridades), mas, sobretudo, participação popular, influencia direta no governo. Lula, o PT e a CUT, queriam o contrário: aceitaram a democracia restringida e assumiram plenamente a tradição conciliatória brasileira desde uma perspectiva da classe dominante. O primeiro mandato, conquistado somente no segundo turno, foi mesmo conservador. No segundo, na mesma medida em que ampliava programas sociais também sepultava para sempre as possibilidades de participação popular. O orçamento participativo, peça chave de propaganda do PT e instrumento através do qual, setores populares decidiam aspectos da política pública, foi simplesmente abandonado. Esta é, com efeito, a principal característica do petismo no governo: jamais convocou o povo para uma batalha, para uma luta. Qualquer batalha, qualquer luta.

O acomodamento à ordem burguesa não se limitou ao abandono de práticas democratizantes (orçamento participativo) – fato que terminou por limitar drasticamente a promessa de “inverter prioridades” – mas avançou noutra direção mais perversa. Lula e Dilma praticaram um enfraquecimento voluntário do presidencialismo, cujo resultado não poderia ser outro que fortalecer ainda mais o pacto de classe que organiza o Plano Real em prejuízo de uma política democratizante e, como gosta de afirmar a esquerda liberal, a prática republicana. 

O presidencialismo no Brasil possui profunda legitimidade popular. Não por acaso, o parlamentarismo sempre surgiu como golpe das classes dominantes contra ameaça de democratização. Contudo, foi derrotado duas vezes por meio de plebiscito popular! Na última, a maioria dos partidos, a totalidade da imprensa, os acadêmicos, eram parlamentarista e ainda assim levaram uma sova. Esta é uma das razões pelas quais existe na ampla maioria do povo enorme desconfiança no parlamento, como podemos novamente observar depois das jornadas de junho. Contudo, a presidente Dilma decidiu fortalecer o parlamento! Qual a origem desta renuncia voluntária, desta desatualizada e inédita servidão voluntária? Qualquer coisa, menos ingenuidade. Ocorre que a presidente – como de resto a totalidade da classe dominante – precisava tirar o povo da rua.  No fundo, a presidente Dilma sabia que em nossa tradição, por mais que o problema era na origem “municipal”, a política nacional, razão pela qual o descontentamento popular atingiria todos, especialmente a presidência da república. O povo com sabedoria cravou um limite nos dias de vários prefeitos e governadores. Na prática, podemos afirmar que a “política de governadores” embutida no pacto de classe que é sustentado pelo Planalto, naufragou, especialmente quando o prestígio dos governadores do Rio de Janeiro e São Paulo saíram gravemente comprometidos do último grande protesto. Irremediavelmente comprometido, diria! A presidente também possui consciência que a raiz de todos os males é precisamente aquele pacto de classe – e a política econômica subjacente – que governa o país há 18 anos. Em consequência, tinha plena consciência que o prejuízo seria considerável. Não à toa Dilma recorreu em primeiro lugar à FHC – antes mesmo de Lula! – e “sugeriu”, além da “constituinte exclusiva”, um plebiscito ao congresso nacional na esperança de que todos dividiriam o inexorável prejuízo. A proposta não era em nada ousada, mas tinha a “virtude” de alertar aos nobres parlamentares de que era preciso fazer algo antes que fosse tarde demais. Nada muito ousado. Na prática, a proposta presidencial acolhia o clamor popular para impulsionar as “reforminhas” que o parlamento cozinhava há anos e representa precisamente a pauta que afiança o consórcio petucano, esta aliança estratégica entre petistas e tucanos de alternância e condução da ordem burguesa.

Nas jornadas de junho, cada um fez seu papel. A presidente sugeriu ao congresso nacional a constituinte exclusiva e o plebiscito. O congresso nacional, tão logo as ruas esvaziaram, atuou de maneira exemplar: nada poderá ser feito para as próximas eleições. O Supremo, o Tribunal Eleitoral, o senado, a câmara de deputados, a ordem de advogados – todos – em uníssono, preocupados e empenhados com a modelação das vozes populares nos poderes da república deixaram claro que no curto prazo nada poderá ser feito. Por sua vez a presidente Dilma praticou o chamado “presidencialismo de coalizão”, a tese liberal que nenhum presidente após 1988 deixou de praticar. Naquela época, e em menor escala agora, o propósito do “presidencialismo de coalização” é sempre o mesmo: diminuir a intensidade do conflito social em favor da classe dominante, esterilizá-lo ao máximo e traduzi-lo quando possível em qualquer fórmula parlamentar. O “mudancismo” que predominou na Constituinte de 1988 era expressão acabada da política destinada a evitar um ajuste de contas com a ditadura e representou um seguro eficiente contra qualquer participação popular na chamada Nova República; não por acaso, o “teórico” do “mudancismo” era precisamente Fernando Henrique Cardoso contra o potencial transformador da Revolução Democrática que se expressou no movimento das “diretas já”, campanha devidamente arquivada e substituída pelo colégio eleitoral, via que sepultou o voto direto do povo. Por isso, a pauta do plebiscito sugerida pela presidente não era coisa de outro mundo, mas a conhecida venda de gato por lebre: o povo, de maneira espontânea, queria influenciar diretamente nas grandes decisões e o que lhe apresentaram foi o aperfeiçoamento do sistema político que o oprime. Afinal, alguém pode mesmo acreditar que o financiamento público de campanha eleitoral, a adoção do voto distrital, a fidelidade partidária, o fim do suplemente de senador entre outras bijuterias poderiam mesmo dar legitimidade às políticas da república apodrecida?

É neste contexto que a renuncia da presidente Dilma ao exercício do presidencialismo – com seus poderes e responsabilidades respectivas – é de extrema gravidade. Também é ilustrativo da farsa do “presidencialismo de coalizão” o fato de que foi precisamente o vice-presidente da república, Michel Temer, o responsável por condenar a proposta do plebiscito! Afinal, se o “presidencialismo de coalizão” não funciona nos momentos cruciais, por que razão mantê-lo?  A presidente e o consórcio petucano que ela administra, pretende manter as coisas exatamente como estão, inibindo qualquer movimento que possa terminar numa Revolução Democrática que finalmente abriria o país para as grandes transformações que o povo ainda espontaneamente exige. Neste contexto, não se trata de eliminar o segundo suplente de senador, mas de abolir o senado e instituir um parlamento unicameral! Não se trata de propor uma “constituinte exclusiva” – já devidamente arquivada – mas de exercer as possibilidades outorgadas pela constituição para fazer valer o presidencialismo na sua plenitude já! Não se trata de fortalecer o “presidencialismo de coalizão” – que agora, no governo petista, inclui até mesmo a oposição e não somente a “base aliada” – mas de erradica-lo para sempre. Tampouco se trata de privilegiar o “diálogo” com o parlamento, mas de exercer a legítima pressão sobre ele, pois as grandes manifestações mostraram – como agora até mesmo os céticos podem observar – que somente assim ele pode se mover. Enfim, num país administrado pelo abuso das medidas provisórias, editadas na sua absoluta maioria em aberta violação à constituição, a simulação do “diálogo” presidencial com o parlamento e o suposto respeito à harmonia entre os poderes é menos que uma farsa: é uma tragédia que perpetua os poderes da classe dominante e seus privilégios.

Os defensores (idealistas) da presidente afirmam que ela poderia convocar o povo para novas manifestações em favor de uma ampla reforma política e não mera alteração na legislação eleitoral; também indicam que a presidente poderia mudar a orientação da política econômica já, ainda que tenha optado por avançar na direção de medidas ainda mais conservadoras; poderia, ademais, buscar o apoio popular para aproveitar a mudança na correlação de forças na sociedade em favor de um programa mais ousado para o que resta de seu mandato, mas optou por seguir na linha de trabalhar “construtivamente” com o congresso nacional; repetem que a presidente poderia mudar a política econômica, mas segue cada dia mais aferrada a ortodoxia neoliberal, desnacionalizando o petróleo, privatizando portos, elevando as taxas de juros e concedendo migalhas ao social como ficou evidente no encontro com os prefeitos de todo país. Inutilmente tentam ocultar-se no que o governo poderia ser para evitar a necessária racionalização daquilo que ele realmente é. Talvez este comportamento explique o fato de que as manifestações do dia nacional de paralisação (11 de julho) foram infinitamente menos fortes que o protesto “espontâneo” originado pelo Movimento Passe Livre, ainda que sua pauta era mais precisa e “histórica”. A tentativa de reconectar “os movimentos sociais” com o governo Dilma falhou rotundamente! Ainda subsiste, certamente, parte da fidelidade eleitoral em relação ao governo da presidente, mas não mais a capacidade de mobilização que agora somente se manifesta contra o governo.

Estes novos “idealistas” esquecem que o tempo no qual as classes subalternas supunham que “ruim com Dilma, pior sem ela” foi, finalmente, superado. No novo cenário, aberto pelas jornadas de junho, os movimentos sociais, o sindicalismo combativo e independente, os intelectuais livres e os partidos de esquerda (PSOL, PSTU, PCO e PCB) devem alimentar sem vacilações um novo radicalismo político destinado a passar a limpo a República. A “crise da democracia” – surrado bordão do liberalismo novamente utilizado para “explicar” as jornadas de junho – não pode ser resolvida com as parcas medidas aprovadas no parlamento, com os pactos sugeridos pela presidente ou ainda com a “legitimidade” do novo governo que elegeremos em 2014. Agora, ao contrário de outras épocas, ficou bastante claro pra milhões de pessoas que somente uma Revolução Democrática destinada a afirmar a força das maiorias, aqui e agora, poderá abrir caminho pra um novo período histórico em que a simulação democrática, o eterno pacto de classe que perpetua os privilégios de classe e a dependência do país, não tenha mais lugar nem mais legitimidade entre nós.