Há poucos dias fui surpreendido com notícia inusitada: a boa nova anunciava o lançamento de uma bancada da esquerda radical, a expressão mais autêntica do cretinismo parlamentar nas filas da esquerda liberal. Os signatários - todos eles! - apoiam Lula já no primeiro turno das eleições presidenciais embora alguns o façam de maneira dissimulada e, outros, inclusive, declaram diferenças aparentemente radicais com o atual presidente e seu governo petucano. Ora, numa eleição presidencial sem candidatura de esquerda, o anúncio do súbito e inesperado radicalismo político chama necessariamente a atenção pois evidência um antagonismo insuperável: é possível ser radical e apoiar Lula?
O fracasso histórico
da esquerda liberal
Em seus sucessivos governos, Lula expressou nas ações de natureza estratégica do estado nacional - relações exteriores, economia, infraestrutura, articulação política - os interesses da classe dominante; ademais, na redução da política à moral, transformou em virtude a defesa dos pobres nos marcos de um capitalismo dependente e periférico com a qual enganou muita gente boa reservando migalhas para as classes populares. Na operação de extração filantrópica, alimentava a ideologia segundo a qual seria possível superar a miséria e exploração de milhões de trabalhadores pela ação milagrosa das políticas públicas. A burguesia sorriu e jamais esboçou oposição real às chamadas políticas sociais porque sempre controlou o sistema da dívida pública por meio do qual capturava bilhões todos os anos (agora quase 2 trilhões!) para a coesão burguesa; de resto, o sistema da dívida possui a virtude de regular a vitalidade das políticas destinadas ao povão pois, em primeiro lugar, é preciso pagar os juros e os serviços e, somente depois - se algo restar - distribuir migalhas a todos nós. Enfim, a política social sempre foi subproduto da ganância rentística!
A ideologia de vocação
religiosa - basicamente católica - jamais garantiu vida boa e eterna à massa de
oprimidos e explorados cujas vidas se consomem inutilmente nesse vale de
lágrimas eterno, mas rendeu dividendos para Lula e os seus, ou seja, garantiu votos
em abundância. Em consequência, o PT elegeu quatro governos até a queda de
Dilma quando a crise exibiu sua face mais dura e impôs limites ao oportunismo
filantrópico dos governos petistas. Agora, sob circunstâncias radicalmente
diferentes, Lula tentará o sexto mandato com a mesma orientação estratégica: de
um lado, a garantia dos interesses da classe dominante e de Washington e, de
outro, migalhas sociais cada vez mais reduzidas para a classe trabalhadora. Na
linha da antropologia uspiana de Claude Lévi-Strauss, ocorreu a mutação no princípio
da matéria mítica: no início, a promessa petista prometia a estabilidade da
moeda, o atendimento da questão social e a oposição retórica ao
neoliberalismo... agora pretende a defesa da democracia e a "luta contra o
fascismo". Em termos eleitorais, ontem o bordão era "Lula lá" em
função da questão social; agora, é "Lula lá" para derrotar a ofensiva
da direita. Mas a questão elementar é sempre... Lula lá e seja o que deus
quiser!
Nesse contexto, o
anúncio de uma bancada da esquerda radical composta de vários deputados no
exercício do mandato acompanhado de alguns neófitos, exibe a natureza
ideológica da operação caça-votos. É claro para qualquer analista que os
deputados que pretendem reeleição (especialmente Glauber, Samya e Fernanda) são
tudo, menos radicais. Nessa semana, para dar apenas um exemplo, Samya Bomfim
declarou apoio a candidata ao senado por SP, Simone Tebet, vanguarda do
ultraliberalismo nas filas do lulismo! Que tal?
Afinal, o que pode ser
o radicalismo político nas atuais circunstâncias?
Alguém com uma molécula
de honestidade intelectual e com os dois pés na Terra Brasilis sabe que entre
nós o sistema liberal é moeda com duas faces. A primeira - o liberalismo de
direita - condensa seus interesses naquilo que a esquerda liberal chama de "neoliberalismo";
na verdade, seus defensores expressam a ideologia e interesses na forma de um
ultra liberalismo que jamais existiu e nem poderia, pois é incompatível com os
antagonismos reais do sistema capitalista; na prática, a ideologia é irrealizável
porque capitalismo sem estado não existe mas, precisamente por essa razão,
cumpre perfeitamente bem a função legitimadora: as reformas contra os
trabalhadores são permanentes da mesma forma que "tirar o estado da
economia e da política" é uma impossibilidade real mas, por isso mesmo, as
reformas serão sempre infinitas! A segunda face da moeda - o liberalismo de
esquerda - é monopólio de Lula e do PT há décadas e admite variações de todo
tipo segundo contingências eleitorais. Em seu núcleo racional, as promessas são
também irrealizáveis pois pretendem garantir cidadania num país cujo
capitalismo é governado pela superexploração da força de trabalho e as massivas
e permanentes transferências de valor para as potências imperialistas!
Entretanto, a esquerda liberal não perde o rebolado: num esforço de Sísifo,
pretende garantir os "avanços" já realizados e manter Lula vivo por
mais dois séculos e o PT no governo até que, finalmente, a morte os separe! A
tarefa e o protagonismo é sempre e invariavelmente de Lula e do PT, e não da
ação consciente das massas, do movimento real do povo!
Ora, os deputados
mencionados apoiaram incansavelmente Lula durante todo seu mandato. Na prática
- finalmente o único critério da verdade! - foram fiéis apoiadores de um
governo que realizou todas as reformas que o capital solicitou; entretanto, não
perderam a capacidade ou o dom de iludir, razão pela qual sobem na tribuna para
denunciar as ações ou medidas da direita e dos "fascistas" na mesma
frequência com que calam sobre todos os crimes do atual governo que, de fato,
não são poucos. Na mesma toada, indicam que a atuação parlamentar constitui o
espaço privilegiado de "luta" cuja demonstração limite foi a greve de
fome de Glauber Braga contra a tentativa de cassação de seu mandato.
A crise da república
burguesa
Glauber de fato
acredita que a denúncia do orçamento secreto é um objetivo decisivo para
enfrentar a crise da república burguesa atravessada pela corrupção política e a
deterioração da práxis parlamentar. Nem Lula, seu candidato, esboça qualquer
movimento contra as antigas emendas impositivas criadas pelo ex-aliado Eduardo
Cunha! Glauber atua, em consequência, na toada de tornar o parlamento digno,
tingindo seu mandato as reivindicações de determinados sindicatos e movimentos
de maneira pontual. Contudo, seus apoiadores justificam que a "luta
eleitoral" é via necessária de "acúmulo de forças" e pretendem
nada menos ancorar o cretinismo parlamentar em argumentos de Lenin (!!)
pinçados de maneira aleatória como autoridade que os revolucionários,
socialistas ou comunistas, não poderiam ignorar e, portanto, tampouco deveriam
renunciar ao parlamento, mas utilizá-lo como instrumento de denúncia e agitação
das causas dos trabalhadores.
A república burguesa
vive uma crise tão intensa quanto profunda na qual o parlamento é reconhecido
pela maioria absoluta de nosso povo como um covil de ladrões! Em seus
sucessivos e intermináveis "escândalos", o parlamento exibe a
podridão da república burguesa sob controle de uma coesão hegemonizada pela
fração financeira que, confortável em seu completo domínio de classe, não
necessita de uma constituinte ou mesmo pequenas reformas no sistema político ou
eleitoral para a legitimação de sua hegemonia política, ideológica e cultural.
O ideário liberal comanda as ações com as duas tendências anteriormente
assinaladas! Em consequência, ocupar o parlamento para denunciar os
crimes de deputados e senadores é ocioso porque mesmo os monopólios de
comunicação (especialmente Globo e CNN) o fazem com riqueza de detalhes. Acaso
Eduardo Cunha não foi objeto de denúncia na Globo? E Flávio Bolsonaro, acaso
não está sob fogo cruzado das Organizações Globo e com incômoda frequência não
tem que se explicar diante da tela da CNN? No limite, os monopólios de
televisão também degradam as instituições republicanas contra as quais o povo
alimenta justificado ódio de classe. Nos dias em que escrevo esse artigo, o
jornalão burguês Valor anuncia que o TCU identificou
"irregularidades" em 82% das transferências especiais numa pequena
amostra das emendas PIX! As denúncias, no atacado e no varejo, se proliferam!
Quem, finalmente, colherá a iracúndia popular?
Até mesmo o STF -
resultado de medidas do ministro Flávio Dino - impõem limites ao
"orçamento secreto" e vez ou outra tem ações que irritam os ladrões
de todos os partidos. De resto, o mesmíssimo tribunal condenou três deputados
do PL (Josimar Maranhãozinho, Pastor Gil e João Bosco, todos do Partido
Liberal) à cadeia em regime semi-aberto e multas leves porque, como sabemos, nenhum
parlamentar é de ferro. A desmoralização do parlamento é profunda e os
"escândalos" tocam o Supremo sem qualquer constrangimento: basta
observar as denúncias da imprensa burguesa sob as transações tenebrosas de
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com o Banco Master. Aos que perderam a
necessária memória histórica e julgam os casos anteriores como excepcionais,
vale recordar o valioso bate-boca entre Luís Roberto Barroso para quem o
excelentíssimo decano Gilmar Mendes estava "sempre em busca de um interesse
que não é o da justiça". E mais importante: as sucessivas supressões de
direitos trabalhistas em favor dos capitalistas e em prejuízo dos trabalhadores
que finalmente confirmam o caráter de classe do egrégio e honrado
Tribunal!
Todos e cada um desses
escândalos frequentam as manchetes dos jornalões as chamadas dos monopólios
televisivos, modulados, obviamente, segundo os interesses da economia política
do rentismo praticada por Lula e Bolsonaro, sempre sob severa vigilância da mídia
burguesa. Portanto, a disputa pela "moral pública" não pode ser
capturada pelo "radicalismo parlamentar" que jamais foi testado de
verdade, pois, afinal, quando o governo petucano de Lula e Alckmin necessitou
aprovação do parlamento, sempre contaram com maioria folgada sem necessitar
acordo com os deputados do PSOL. Nesse contexto, a batalha de Glauber contra o
"orçamento secreto" nunca poderia ter efeito prático algum, exceto
mais votos para sua reprodução parlamentar nas filas da esquerda liberal. É um
"radicalismo" comedido, orientado com respeito a fins determinados: a
conquista da reeleição e a pretensa diferenciação diante dos deputados petistas
que, orientados por Lula, não arriscam ruptura alguma com as sacrossantas
"regras do jogo"!
Quem comandará o
PSOL?
Entretanto, o teatro
onde atuou Glauber tinha outro cenário importante para a reprodução
parlamentar: a chamada "luta interna" no PSOL. Aqui, o dilema
faustiano - "duas almas lutam pelo meu ser" - repete como farsa a
tragédia petista quando lá no início do século o PT gradualmente se transformou
num partido da ordem burguesa e renunciou sem vacilação ao radicalismo político
de sua origem! A lenga-lenga da disputa interna no PSOL pretendia tão somente a
disputa eleitoral (além, é claro, do fundo partidário e eleitoral como exibe de
maneira eloquente a deputada trans Erika Hilton) e a garantia da
auto-reprodução parlamentar pois, na prática, todos estavam fechadíssimos com
governo de Lula! Ah, mas os membros da bancada radical votaram contra o teto de
gastos, alegam os "radicais"! Ora, o resultado já estava tão
garantido para a coesão burguesa que permitia o luxo do protesto
"radical" na franja... e no interior do PSOL.
Nas atuais
circunstâncias, o PSOL é mera plataforma eleitoral pois é partido sem programa
e completamente devotado ao identitarismo burguês. No limite das
possibilidades, simula a reprodução enfadonha na periferia latino-americana do
papel que o Podemos cumpriu na Espanha - inclusive na
repetição ridícula de alguns de seus "dirigentes" emulando Monedero
ou Iglesias - cuja existência somente foi possível pela presença hegemônica do
PSOE agora sob controle de Pedro Sánchez. O lançamento da "bancada radical
de esquerda" é, portanto, lance previsível: o controle da legenda e dos
recursos suculentos do fundo partidário e eleitoral.
A propósito, deputada
trans Erika Hilton lançou luzes sobre o problema. Na condição de vítima
especial inerente a todo discurso identitário, reclamou dos recursos
reservados para a campanha da recém-chegada Manoela d'Ávila e seu parça Juliano
Medeiros; na estocada terminou, talvez involuntariamente, iluminando o nervo do
problema. O minúsculo PSOL é, além de plataforma eleitoral, um bom negócio;
afinal, o diretório nacional e sobretudo sua executiva, administrará nesse ano
nada menos que R$ 131.506,284 milhões, um valor - segundo informação do
jornalão O Globo - 31,4% superior em relação a 2022. Ora, um
diretório sem qualquer clareza teórica e educada na arte de ganhar votos com
todas as misérias do sistema eleitoral cada vez mais hostil a perspectiva
classista, não vacila em aderir a agenda moderninha dominante na Europa e EUA:
defesa do meio ambiente, da diversidade, dos direitos humanos e certo apego
genérico ao horizonte científico. E claro, a "crítica" ao
"neoliberalismo" e ao "fascismo". Entretanto, Lula
necessita do PSOL e o manterá vivo impedindo que Boulos, Erika e sua turma
abandonem o partido antes da disputa eleitoral vindoura. A cláusula de barreira
é instrumento valioso para monitorar a existência dos partidos no corrupto
sistema eleitoral e político.
Do chão da fábrica
ao youtuber
Voltemos ao velho e bom
chão de fábrica. No século passado, quando o PT emergiu como partido - é
preciso recordar que contra a vontade de Lula e seus sindicalistas - os
dirigentes sindicais e lideranças populares possuíam empregos formais. Lula era
metalúrgico, Olívio Dutra e Luiz Gushiken bancários, Luiz Dulce professor
universitário, Tarso Genro advogado bem-sucedido na advocacia trabalhista,
Marcelo Deda trabalhava no CREA, José Sergio Gabrielli professor universitário,
Jorge Bittar, engenheiro formado no ITA e funcionário da Embratel... a lista é
interminável. A lenta transição para o capitalismo rentístico corroeu as bases
materiais da reprodução individual, mas mudou também a antiga representação
parlamentar sustentada numa concepção classista difusa, na prática apoiada no
corporativismo defensivo de algumas categorias. Os sindicalistas - orientados
pela socialdemocracia europeia e a igreja católica - cumpriam a função
ideológica necessária para a burguesia, afirmando o "sindicalismo
combativo" com a mesma força com que execravam qualquer modalidade de
socialismo revolucionário!
A apologia dos chamados
movimentos sociais - entre os quais a sociologia burguesa incluía o movimento
sindical - durou apenas um verão e, de fato, era incapaz na origem de sustentar
um projeto alternativo para as maiorias. A lenta e inexorável transição para
o capitalismo dependente rentístico cobrou seu preço: a
geração que pretende "superar" o lulismo após a desaparição de Lula,
aspira ingenuamente acelerar o processo segurando a alça do caixão quando o
presidente ainda vive e disputa a eleição derradeira. Nenhum deles possui uma
"base" orgânica, sequer de natureza eleitoral e muito menos numa
categoria específica. A dinâmica eleitoral exige, portanto, severa e permanente
agilidade midiática, destinada a captar tendências culturais e modismos de toda
ordem para assegurar um "debate" público se possível com alguma
tintura vermelha capaz de se diferenciar da hegemonia petista e, no limite,
figurar como a ala crítica da decadência ideológica, programática, ética e
moral do petismo!
Portanto, são todos
lulistas e a radicalização que anunciam não passa de uma tola intenção de
alargar as margens do programa que o governo implementa contra os
trabalhadores e a nação; ademais, alimentam a vã pretensão de ensinar em tom
semi-professoral que existem alternativas de política econômica e social capaz
de nos tirar desse vale de lágrimas no qual os trabalhadores perdem direitos
elementares e a fé na esquerda liberal enquanto a coesão burguesa acumula
sucessivos superlucros! Assim, o radicalismo político que aspiram, antes de
negar o lulismo apenas confirma sua hegemonia e perpetua sua força alienante
entre parte dos trabalhadores semi-especializados e classe média empobrecida. A
operação infantil indica, ademais, que agora não há mais remédio que apoiar
Lula, mas, em 2030, os "radicais" deverão apresentar um candidato
próprio à presidência da República pois Lula já estará de pijama! Não é uma
beleza a "estratégia"?
De resto, os mesmos
"radicais" que apoiam Lula insinuam não ter perdido o contato com
nosso planeta errante. Anunciam feito profetas que o futuro governo Lula que
ajudam a eleger, será o mais liberal de todos os governos petistas!
Alertam a nós, pobres mortais, que os pisos constitucionais em saúde e educação
serão revisados radicalmente e o "ajuste" será aprofundado em função
das exigências matemáticas do teto de gastos. Ainda assim, não nos resta
alternativa senão votar em Lula! Por quê? Porque o discípulo nacional de Hitler
- Flávio Bolsonaro - mantém candidatura competitiva e, em caso de vitória,
tornaria nossas vidas muito mais difíceis. A "consciência
republicana" dos "radicais" alega que a reeleição de Lula reforça
o ultraliberalismo inerente a economia política do rentismo, mas, curiosamente,
resguarda as "liberdades democráticas" tão necessárias para manter
nossa luta contra... o ultraliberalismo lulista! Enfim, a cadeia perpétua é um
péssimo lugar, mas o carcereiro possui uma ternura e um encanto sem fim!
Na prática, os membros
da bancada radical mandam os fatos às favas! Afinal, durante o governo do
protofascista agora atrás das grades, ocorreram lutas importantes e até mesmo
algumas conquistas no parlamento. Ademais, ignoram com a mesma empáfia que durante
o governo de Lula nem a correlação de forças melhorou para a luta dos
trabalhadores e tampouco floresceram diante das atrocidades cometidas pelo
governo petucano! Repito: às favas com os fatos! Eis a razão pela qual insistem
sem precisão conceitual e menos ainda factual que estamos sofrendo o
"avanço do fascismo" diante de qualquer manifestação hostil de um
deputado ou vereador da direita! A operação é elementar: basta um inútil
qualquer considerar que mulheres não deveriam votar para que a esquerda liberal
tome a declaração de um youtuber insignificante e inicie via redes digitais uma
"campanha" mediática destinada a proteger o voto feminino como se
estivesse, de fato, na eminência da supressão! Na mesma toada, é suficiente que
um candidato da direita lance dúvidas sobre a lisura da urna eletrônica para
ser tomada como manifestação inequívoca do fascismo!
Na disputa eleitoral em
curso a hegemonia é, portanto, completamente liberal! O PT comanda na condição
de ala "autêntica" do liberalismo cujo objetivo plausível é a
conquista de uma bancada de deputados maior que a atual. Entretanto, o desencanto
com o petismo alcança eleitores que outrora pertenciam a "base
social" do Partido, ansiosos para mudar o voto com a fé inabalável de
permanecer na mesma posição política: apoio a Lula, perpetuação da economia
política do rentismo e da filantropia como meta social. Eis o espaço político
para a astucia dos autodefinidos como "radicais"! Assim, confirma-se
a hegemonia liberal e lulista e a disputa pelo futuro dessa "base
eleitoral" permanece acesa na esperança de que um novo e inédito espaço político
apareça com a aposentadoria definitiva de Lula. O melhor dos mundos possíveis,
não?
A defesa do governo
Lula - com a tradicional e cínica declaração de "apoio crítico" -
implica, portanto, na valorização do identitarismo em todas as suas versões
(mulheres, negros e LGBT) da mesma forma que o "combate radical" no
interior do covil de ladrões contra suas figuras mais visíveis e detestáveis,
obedece a lógica das redes digitais e não de seu núcleo dirigente. Afinal,
alguém pode supor que Nikolas Ferreira é um dirigente da classe dominante? E o
deputado Trovão, tem alguma importância para o domínio de classe? Tudo é uma
disputa midiática, incapaz de criar base militante e menos ainda consciência
crítica. Em resumo, a linha adotada mais preserva do que transforma! A
"agitação revolucionária no parlamento" nas atuais circunstâncias e
com a linha anunciada, nada rende; ao contrário, apenas consagra uma forma
cativa de crítica destinada a auto-reprodução parlamentar e perpetuação da
consciência ingênua e jamais um trânsito para a consciência crítica e formas
superiores de organização política.
Há um suposto oculto na
operação em curso: os "radicais" supõem a existência de uma base
social lulista que estaria em disputa e, para ganhá-la, bastaria
imprimir uma linha um pouquinho mais radical e coerente com o antigo projeto
petista arquivado pelos governos de Lula e Dilma. A confusão ou cegueira
teórica reside no fato de que uma base eleitoral já descolou há tempos
de uma base social, na prática extinta pelo avanço inexorável
da fase rentística do capitalismo subdesenvolvido e dependente produzido pela
evolução da economia mundial. Não haverá, portanto, retorno algum ao
desenvolvimentismo de qualquer natureza nos marcos da ordem burguesa e, um
programa alternativo tem como premissa - necessariamente! - a ruptura radical
com Lula e o lulismo em todos seus níveis, especialmente o
eleitoral!
O programa, cadê o
programa?
Cada passo do
movimento real é mais importante que uma dúzia de programas...
Karl Marx
O desprezo ou
mesmo horror à teoria marca a trajetória da esquerda liberal
no Brasil, especialmente após a primeira vitória presidencial de Lula. No
epicentro do fenômeno encontra-se o PT e o mesmíssimo presidente da república.
Lula ignora olimpicamente que em nosso regime presidencial, o presidente é o
primeiro pedagogo do país. Nem mesmo na cadeia Lula avançou na leitura e na
divulgação de livros ou autores indispensáveis para interpretar o Brasil para
acender a curiosidade intelectual de seus eleitores. É claro que em 20 anos de governos
petistas - no qual os liberais de esquerda com tradição católica elevaram Paulo
Freire a condição de patrono da educação, sequer o analfabetismo foi erradicado
(Bolívia, Equador e Venezuela já o fizeram há mais de uma década!). Tampouco há
um programa destinado a fortalecer o livro e criar leitores mesmo após uma
campanha em que o próprio Lula afirmava que o país precisava mais de livros e
menos armas!
O desprezo pela teoria
vai da convivência harmoniosa com o analfabetismo aos discursos enfadonhos,
vulgares e alienantes de Lula. Na atualidade, uma rápida revisão da
"formação política" dos partidos políticos (PT e PSOL, por exemplo)
constata o horror à teoria, o desprezo pela cultura nacional e o caráter
eleitoral de seus cursos! Ademais, o PT como partido tampouco pode dar um passo
adiante na valorização de um programa porque realiza a economia política do
rentismo que condensa os interesses da coesão burguesa sob hegemonia da fração
bancária. Portanto, uma política contra o "neoliberalismo" é
simplesmente impossível porque o governo petucano realiza o programa
"neoliberal". Em consequência, os keynesianos de todos os matizes
ficaram órfãos e não lhes resta "alternativa" exceto indicar que,
diante da marcha decisiva de Lula à direita, devem reafirmar de maneira inocente
e oportunista, uma alternativa nos marcos da ordem para lutar contra o
"neoliberalismo". É nessa trama que a bancada radical do Lula
apresenta um brevíssimo resumo da crise atual e indica alguns pontos
programáticos para futura "ação" parlamentar.
Afinal, qual a natureza
da crise atual para os radicais lulistas?
O diagnóstico da crise
atual oferecida pela "bancada da esquerda radical" cabe numa casca de
nozes: os radicais de Lula pretendem num só movimento combater o
"neoliberalismo" e enfrentar o "neofascismo". Portanto,
defendem o voto em Lula alegando que a vitória do petista altera a correlação
de forças e cria um ambiente melhor para combater o neoliberalismo do futuro
governo que reconhecem será muito mais duro com os trabalhadores do que o
atual! Ainda assim, é Lula lá!! Nessa linha, ocultam o fato que sofremos dois
governos em que as "teses" apresentadas como novidade se revelaram
sem fundamento. No governo do protofascista Bolsonaro algumas categorias
lograram conquistas no covil de ladrões: o piso da enfermagem, por exemplo, foi
aprovado com apenas 12 votos contrários e o protofascista Bolsonaro sancionou o
PL 2564 no dia 4 de agosto de 2022. Portanto, a despeito de temores
fantasmagóricos, para a categoria não foi mais difícil a luta dos trabalhadores
naqueles 4 anos. No governo de Lula, ao contrário do que preconizam os
parlamentares "radicais", o movimento de massas não emergiu e
tampouco a correlação de forças foi alterada! O movimento midiático pela
redução da escala 6 x 1, por exemplo, não impediu que em pleno governo Lula o
parlamento adiasse sua aprovação a despeito da enorme simpatia social em favor!
O governo Lula, a propósito, faturou na propaganda, mas não moveu forças para
sua aprovação às vésperas das eleições: mais claro, impossível! É uma falácia
afirmar que as condições de luta são mais favoráveis sob Lula ou Bolsonaro
porque não é o governo que determina o pulsar da luta entre as classes sociais.
Ademais, é tão flagrante a força da classe dominante que Lula não deixa de
avançar mais e mais na direção do ultraliberalismo no programa e no governo
como único caminho para vencer os candidatos da direita! Enfim, a vitória de
Lula não altera a correlação de forças em favor dos trabalhadores!
O
"radicalismo" da bancada é, portanto, mistura de moralismo rasteiro e
adesão lulista destinada a reprodução parlamentar, ou seja, o elogio ao
cretinismo parlamentar. Para dourar a pílula, anunciam 10 pontos de um
"programa inacabado", verdadeira marmita requentada,
expressão de um antigo e fraudulento bordão lulista que atendia pelo nome de
"inversão de prioridades", agora sob o lema da "inversão da
lógica que organiza o estado e a economia". É um keynesianismo
bastardo na qual eles descartam a eutanásia do rentista!! Nessas
paragens, nem mesmo algumas recomendações do bom moço Lord Keynes ou seus
discípulos mais antenados e autênticos (Hyman Minsky, por exemplo) tem
assento! Por isso o epicentro do rentismo que dizem combater - a
dívida interna! - é olimpicamente ignorado! Em consequência, todas as atenções
se dirigem para o controle "eficaz" da taxa de juros, o combate ao
endividamento ilegítimo das famílias e a reorganização do
crédito, cambio e capitais! De resto, o radicalismo parlamentar pretende varrer
do mapa a casa mata da coesão burguesa: a autonomia do Banco Central! Não é
mesmo uma descoberta genial?
Eu aguardo ansioso a
aula na qual todos nós vamos aprender a arte de reorganizar o crédito, o câmbio
e os capitais num país subdesenvolvido e dependente em sua fase rentística;
afinal, uma teoria sólida sobre o tema poderá reabrir o debate sobre os
caminhos de superação das mazelas inerentes ao capitalismo dependente na
América Latina que ninguém antes ousou expressar!
Prometo não escrever
mais do que uma linha de crítica a TMM do "teacher" Randall Wray.
Alguém pode levar a
sério a pretensão de organizar o capitalismo dependente e subdesenvolvido de
suas "imperfeições", valorizar a produção, distribuir renda e
riqueza, elevar a produtividade de trabalho e competir com o chão de fábrica da
China com semelhantes sugestões? Ora, a política cambial em curso desde 1994
não é "errática" porque despreza o manual de macroeconomia heterodoxa
ensinado nas universidades; a política cambial atende aos interesses de todas
as frações do capital que sustentam a economia política do rentismo e,
portanto, não é a política cambial que regula a acumulação financeira, mas, ao
contrário, a acumulação financeira que regula a política cambial! Da mesma
forma, a "reorganização do crédito" (anunciada com imensa
superficialidade!) tampouco pode ocorrer sem a ruptura com o assalto ao estado
via endividamento público e a necessária eutanásia do rentismo com a
indispensável auditoria da dívida interna e grande parte de seu cancelamento!
Ora, impedido de competir com os preços de produção da economia mundial, a
lúmpem burguesia descobriu a valorização fictícia via multiplicação trilhonária
da dívida pública por meio da qual extrai imensa massa de mais-valia dos
trabalhadores e, em consequência, aplica as "políticas de
austeridade" que tira o sono dos keynesianos! Entretanto, o bom mocismo
keynesiano não quer auditar e menos ainda cancelar a dívida pública! Ao
contrário, pretendem que a dívida interna medida em reais - portanto, em moeda
nacional - possui todas as virtudes para que um economista bem formado possa
tirar o país da crise e recolocá-lo na rota do desenvolvimento. Tudo isso é
demasiado primário para ser levado a sério!
Portanto, os 10 pontos
apresentados elucidam o mistério da inesperada aparição da "bancada
radical de esquerda" às vésperas de uma eleição presidencial. O manifesto
anuncia que as medidas apresentadas pretendem "fortalecer a luta política e
social dentro da câmara dos deputados"! Não é uma
descoberta genial?
A despeito da pretensão
de "originalidade", qualquer leitor poderia elencar mais duas dezenas
de medidas destinadas a melhor a renda das trabalhadores e as contas nacionais.
Entretanto, a oferta seria apenas um exercício de ficção sem qualquer apoio na
realidade. Acaso Lula e Alckmin estão dispostos a mover uma molécula na direção
indicada pelo "programa alternativo? Obviamente, não!! O governo petucano
implementa de maneira rigorosa a economia política do rentismo e
não existem nas frações burguesas um espírito keynesiano necessário para fazer
a eutanásia do rentismo e abrir as portas de uma modalidade qualquer de
desenvolvimentismo. Alguns de seus patrocinadores falam em “dependência e
subdesenvolvimento”, mas não tiram as consequências decorrentes de tal
formulação pois defendem um programa keynesiano rebaixado sem qualquer
viabilidade nas classes sociais e nas condições da acumulação
mundial!
A lúmpem burguesia sabe
que sem a superexploração da força de trabalho e o assalto permanente ao
estado, não há possibilidade de existência. Agora mesmo, diante das medidas
protecionistas de Trump a burguesia em uníssono indicou a negociação e jamais a
adoção de medidas apoiadas na reciprocidade, possibilidade aprovada pelo covil
de ladrões. Ademais, a lúmpem burguesia exigiu medidas compensatórios que o
governo cedeu de imediato: quase 20 bilhões de reais com recursos do Tesouro
Nacional e do BNDES para manter as margens de lucro. Não há, de fato, nas
frações burguesas, qualquer iniciativa ou mesmo um sinal para políticas
desenvolvimentistas, razão pela qual apenas insinuam exigências para o
"crescimento da economia". Em resumo: taxas de acumulação sem
qualquer distribuição ou compromisso de classe com os trabalhadores!
O manifesto da
"bancada" pretende afirmar o radicalismo de suas propostas em função
da negativa do atual governo e do eventual quarto mandato de Lula em adotá-las!
Em consequência, o radicalismo que pretendem não brota de rigorosa análise
sobre o desenvolvimento capitalista no país, mas dos limites intransponíveis do
governo petucano. Assim, a força "material" do "programa"
nasce do potencial de mobilização e de um giro à esquerda da base
eleitoral do lulismo em obviamente, da decadência programática,
política, ética e moral do petismo! Alguém arriscaria dez reais em semelhante
aposta? A campanha anunciada pelos ministros de Lula é clara: novos e
permanentes ajustes serão tomados caso o presidente conquiste a reeleição.
Portanto, resta aos nobres deputados o honroso propósito do cretinismo
parlamentar: "fortalecer a luta política e social dentro da
Câmera dos Deputados"!
O caminho da Revolução
Brasileira não se fará sem a análise das transformações capitalistas ocorridas
no mundo e na América Latina nas últimas décadas. No Brasil, aquele desprezo
pela teoria próprio da esquerda liberal, descarta a análise das transformações
ocorridas sob nossos pés e se limita a política da recusa: "atacar"
as medidas "neoliberais" e insinuar "alternativas" nos
limites da ordem burguesa. O governo implementa o teto de gastos? Os radicais
defendem sua revogação! O governo entrega as terras raras para o imperialismo?
Os radicais sugerem a criação da estatal Terrabrás! O governo alimenta a rapina
sobre as finanças públicas em favor do rentismo? Os radicais indicam a
necessidade de manejar adequadamente a taxa de juros! O governo amplia a força
do latifúndio e da burguesia agrária? Os radicais apoiam e defendem a reforma
agrária!
No fundo, os 10 pontos
indicados como partida para um programa não passam de medidas de rarefeita
inspiração desenvolvimentista com enganos que fariam corar um aluno de segundo
ano em economia. Afinal, quem pode acreditar que a dívida interna em moeda nacional
é uma alternativa para controlar a taxa de juros e a ampliação do consumo da
classe trabalhadora? A proposta de "acabar com a autonomia do Banco
Central, combater o "endividamento ilegítimo das famílias" e
"reorganizar" juros, crédito, cambio e capitais é conversa pra boi
dormir destinado a evitar a "eutanásia do rentismo" e centrar atenção
no espinhoso tema da dívida interna sobre a qual os radicais mantém profundo
silêncio!
Portanto, a
receita delata o diagnóstico! Os "radicais" exalam o aroma
socialista do MES (Movimento Esquerda Socialista) mas na prática não passam de
keynesianos cuja orfandade é cada dia mais evidente. A receita é, na prática,
contra a política de austeridade e não por acaso - ainda que
não confessem! - todos rezam na bíblia de uma Clara Mattei ou Naomi Klein. Não
há outra razão para que o "fim do teto de gastos" pretenda nada menos
do que "organizar o programa alternativo"! Na prática, os autores se
"sentem" no comando das ações de um "governo de transição do
neoliberalismo para o desenvolvimentismo", razão pela qual clamam até
mesmo por um "regime de planejamento orçamentário por metas sociais,
ambientais e de soberania"! Exigem o controle do Banco Central e o
"combate ao endividamento ilegítimo das famílias" e a reorganização
"dos juros, crédito, cambio e capitais"!! Como fazê-lo? Ora, não há
dúvidas que controlando a taxa de juros de curto e longo prazo, realizando
política fiscal expansiva e regulando uma taxa de câmbio compatível com a reindustrialização!
Não é uma beleza?
Entretanto, há
obstáculos insuperáveis nessa maravilhosa formulação.
A primeira deriva do
fato de que nenhuma fração burguesa está disposta a adotar semelhante
"programa", reconhecimento que não outorga um caráter revolucionários
as medidas porque também os trabalhadores não acreditam nessa via de
"transição". A burguesia brasileira já superou seu sonho juvenil a
respeito das promessas de industrialização na periferia capitalista
latino-americana e adotou como virtude a dependência e o subdesenvolvimento.
Entre os trabalhadores, a hegemonia completa do PT e Lula no interior da
esquerda liberal, tampouco abre novas perspectivas porque ambos queimaram os
barcos na adesão precoce e irremediável à ordem burguesa quando adotaram em
todos seus governos as premissas da economia política do rentismo inaugurada
pelo Plano Real de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Nesse duplo
movimento - a completa ausência de apoio na classe dominante - especialmente na
fração industrial - e o fracasso histórico do PT e Lula em outorgar cidadania
nos marcos da ordem burguesa - as medidas sugeridas pelos candidatos da
"bancada" perdem qualquer viabilidade política embora seus autores
pretendem nada menos que instrumentalizar o "combate parlamentar" em
nome dos trabalhadores...
O que resta então ao
cretinismo parlamentar? Não há dúvidas: o tal "diálogo" com a base
eleitoral petista e lulista! A suposição de que existe um voto
progressista - algo muito diferente de uma base social concreta capaz de
incorporar historicamente um programa de transição do
"neoliberalismo" para uma modalidade qualquer de "desenvolvimentismo"
- alvo dos "radicais de esquerda". Eles tampouco ocultam que querem
comandar o lulismo - seja lá o que isso significa - após a retirada de Lula! É
uma espécie de assalto ao céu lulista quando o presidente octogenário se
retirar em 2030 ou a qualquer momento pelo simples fato de que todos somos
mortais!
Há outro inconveniente
nos pontos anunciados: afinal, o caráter de classe do estado desapareceu? Ora,
a conquista de um governo não elimina o espinhoso problema! A receita é tão boa
que eu não entendo as razões pelas quais Lula e Alckmin ainda não a colocaram
em prática!? Tampouco entendo a oposição da coesão burguesa se com a receita
proposta pela "bancada da esquerda radical" todos poderíamos ser
muito felizes: a burguesia seguiria com superlucros e os trabalhadores com
salários em elevação, carteira assinada, previdência social garantida e redução
da jornada de trabalho! Afinal, por que a burguesia brasileira não aceita e
Lula e Alckmin sequer em pesadelos pensaram alguma vez nessa receita de bolo de
laranja com recheio de chocolate? Na prática o que aqui existe é a alegação
ingênua de que falta "vontade política" ao governo Lula pois com a
mudança de prioridades e o planejamento orçamentário, as portas do paraíso se
abririam! Em consequência, pretendem figurar como consciência de uma burguesia
que aos seus olhos não teria consciência!
A lua pela
democracia, o avanço do fascismo e Lula
"Estes
pobres homens, fracos de espírito no decurso de suas vidas, geralmente
bastantes obscuras, estavam tão pouco acostumados a algo parecido com o êxito
que acreditam realmente que as suas emendas mesquinhas, aprovadas por uma
maioria de dois ou três votos, mudariam a face da Europa. Desde o começo da sua
carreira legislativa, tinham-se imbuído, mais do que qualquer outra fração da
Assembleia, daquela doença incurável, o cretinismo parlamentar, uma
perturbação que penetra as suas desafortunadas vítimas da convicção solene de
que o mundo inteiro, a sua história e futuro, são governados e determinados por
uma maioria de votos daquele particular órgão representativo que tem a honra de
os contar entre seus membros e que todas as coisas que se passam fora das
paredes da sua câmara - guerras, revoluções, construções de caminhos de
ferro... e tudo o mais que possa ter alguma pequena pretensão a influenciar os
destinos da humanidade - não é nada comparado com os incomensuráveis
acontecimentos que dependem da questão importante, seja ela qual for, que nesse
preciso memento ocupa atenção da sua ilustre Casa".
F.
Engels
Numa entrevista
realizada em junho/2026, o jornalista Breno Altman perguntou ao youtuber Jones
Manoel se a principal contradição do país consistia "na luta da democracia
contra o fascismo"; Jones negou enfaticamente! Para ele a principal contradição
consistiria na oposição entre "classe trabalhadora e o modelo neoliberal
em curso". Ademais, Jones denuncia de maneira contumaz que o governo de
Lula é neoliberal. Afinal, como é possível afirmar que a principal
contradição da política nacional é a oposição entre a "classe
trabalhadora e o modelo neoliberal em curso", caracterizar o governo de
Lula como neoliberal e ... votar em Lula?? Nas últimas eleições, quando ainda
estava no PCB, Jones votou no atual governo para combater a direita e manter
uma conduta "responsável". Agora, acusa como a principal
contradição da situação política nacional a oposição entre "a
classe trabalhadora e o modelo neoliberal”, mas vai votar em ... Lula! Pode
existir maior oportunismo político?
Os deputados Glauber,
Samya e Fernanda são obviamente mais prudentes e jamais acusaram o governo Lula
de neoliberal; geralmente, calam sobre o caráter do governo petucano orientando
suas baterias contra a direita, a austeridade fiscal e monetária, o
"neofascismo", etc... No limite os três deputados sabem que a disputa
pelo voto está repleta de contradições e antagonismos que não permitem manter
coerência política quando se pretende a conquista de novo mandato navegando na
aba do lulismo e do petismo. No limite eles pretendem apenas "manter"
a independência do PSOL diante do governo mesmo "concedendo" licença
para Sonia Guajajara ocupar o ministério e considerando suficiente a renúncia
de Boulos a cargos de direção do Partido quando o ex-MTST assumiu na plenitude
e de maneira escrachada o governo de Lula.
Entretanto, assim como
Fernanda Melchionna criticou acidamente Juliana Brizola no Rio Grande do Sul e
ajoelhou diante da neta do Brizola após decisão de Lula, a combativa e
feminista Samya Bomfim não vacilou em declarar apoio a ultraliberal Simone
Tebet para o senado paulista! Da mesma forma, o neófito Jones Manoel participou
feliz no encontro da Coalizão Negra responsável por lançar Quilombo nos
Parlamentos, uma iniciativa de Douglas Belchior organizada para fortalecer
a campanha de... Fernando Haddad e Marina Silva em São Paulo e garantir um
lugar ao sol aos identitários! Douglas Belchior, como sabemos, iniciou sua
carreira política no PT, migrou para o PSOL sem êxito eleitoral razão pela qual
abandonou o partido acusando sua direção de racista para entrar novamente no
PT. Portanto, Jones não deixa dúvidas sobre sua filiação ao identitarismo negro
e as sucessivas falsificações sobre a história nacional em favor de um
bi-colorismo que nega a mestiçagem e ignora o Censo do IBGE. No evento de
Douglas destinado a fortalecer Haddad em São Paulo, Jones não
vacilou em repetir o falso bordão identitário ao afirmar que "O Brasil foi
criado pela população negra. Esse país é um país negro!" Às favas com o
Censo do IBGE e toda a literatura crítica sobre a questão racial que já
acumulamos! Meu reino por um mandato!
Quanto a Glauber, o
teste definitivo será o segundo turno para as eleições de governador no Rio.
Porém, Paes logrou o apoio de Lula, do bispo-grana Malafaia e até do BTG
Pactual! As pesquisas indicam que o atual prefeito do Rio terá vitória
acachapante após mais uma desmoralização da direita bolsonarista fluminense
cujo destino parece ser mesmo o presídio de Bangu, fato que pode poupar Glauber
de votar no candidato de Lula para derrotar o "fascismo" num
improvável segundo turno! Enfim, ninguém vai descolar de papai Lula nessas
eleições. Agora, mais do que nunca, o lema é "ninguém solta a mão de
ninguém"!!
E no futuro governo
Lula?
No eventual governo de
Lula, qual seria a orientação política da "bancada da esquerda
radical"?
Bueno, nesse caso
podemos apenas indicar que num eventual quarto mandato de Lula, a direita
liberal fará oposição ainda mais radical. Nesse contexto, pouco importa a
adoção sem limites do ultraliberalismo que ministros de Lula já nunciam como
certo após eventual vitória pois, para a direita, o programa é, de fato, é
irrealizável no planeta Terra. Portanto, oposição impiedosa! Eis a razão pela
qual Renan Santos repete em escala nacional a operação realizada por Pablo
Marçal nas eleições para prefeito de São Paulo. O programa é tanto irrealizável
quanto indispensável e eficaz na luta ideológica: todos os direitos dos
trabalhadores e a filantropia lulista devem ser, finalmente, varridos do mapa!
O que deve fazer a esquerda liberal e os pretensos "radicais"?
Defender a situação atual para impedir novos retrocessos?
Orientados pelo profeta
Lula, os lulistas anunciam que o governo atual está condicionado pela
inexpressiva bancada da esquerda liberal: o presidente repete incansavelmente
que possui apenas 140 dos 513 deputados e 12 dos 81 senadores. No cálculo,
opera um milagre: o pragmatismo político derivado da concepção parlamentar de
política é transformado em virtude e sabedoria política cuja consequência
necessária "obriga" o governo à negociação com os demais deputados e
senadores. Na prática, é uma justificativa orientada pelo
"presidencialismo de coalisão" inaugurado pelo uspiano Fernando
Henrique Cardoso. Muito menos rigorosa e disposta à verdade dos fatos, a
esquerda liberal engana indicando que o governo é de "conciliação de
classe" quando na prática, adota a economia política do rentismo da coesão
burguesa e o alinhamento com Washington na política externa. A paz social das
classes dominantes está assegurada! Não há conciliação de classe e sim adesão
aos limites da república burguesa em crise profunda!
A presidência da
república segue cativa do presidencialismo de coalisão - a forma corrupta e
dominante de negociação entre os poderes - que atravessou todos os governos
desde FHC até Lula sob o bordão da "governabilidade". Finalmente, o
congresso - câmara e senado - não passa de um covil de ladrões dedicado e
suprimir direitos elementares dos trabalhadores e assaltar o estado por meio de
orçamento secreto, projetos de leis e todo tipo de negociatas em favor de
capitalistas nacionais e estrangeiros. É nesse terreno que a bancada da
esquerda radical quer semear o futuro.
