sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A bancada radical do presidente Lula

Há poucos dias fui surpreendido com notícia inusitada: a boa nova anunciava o lançamento de uma bancada da esquerda radical, a expressão mais autêntica do cretinismo parlamentar nas filas da esquerda liberal. Os signatários - todos eles! - apoiam Lula já no primeiro turno das eleições presidenciais embora alguns o façam de maneira dissimulada e, outros, inclusive, declaram diferenças aparentemente radicais com o atual presidente e seu governo petucano. Ora, numa eleição presidencial sem candidatura de esquerda, o anúncio do súbito e inesperado radicalismo político chama necessariamente a atenção pois evidência um antagonismo insuperável: é possível ser radical e apoiar Lula? 

O fracasso histórico da esquerda liberal

Em seus sucessivos governos, Lula expressou nas ações de natureza estratégica do estado nacional - relações exteriores, economia, infraestrutura, articulação política - os interesses da classe dominante; ademais, na redução da política à moral, transformou em virtude a defesa dos pobres nos marcos de um capitalismo dependente e periférico com a qual enganou muita gente boa reservando migalhas para as classes populares. Na operação de extração filantrópica, alimentava a ideologia segundo a qual seria possível superar a miséria e exploração de milhões de trabalhadores pela ação milagrosa das políticas públicas. A burguesia sorriu e jamais esboçou oposição real às chamadas políticas sociais porque sempre controlou o sistema da dívida pública por meio do qual capturava bilhões todos os anos (agora quase 2 trilhões!) para a coesão burguesa; de resto, o sistema da dívida possui a virtude de regular a vitalidade das políticas destinadas ao povão pois, em primeiro lugar, é preciso pagar os juros e os serviços e, somente depois - se algo restar - distribuir migalhas a todos nós. Enfim, a política social sempre foi subproduto da ganância rentística! 

A ideologia de vocação religiosa - basicamente católica - jamais garantiu vida boa e eterna à massa de oprimidos e explorados cujas vidas se consomem inutilmente nesse vale de lágrimas eterno, mas rendeu dividendos para Lula e os seus, ou seja, garantiu votos em abundância. Em consequência, o PT elegeu quatro governos até a queda de Dilma quando a crise exibiu sua face mais dura e impôs limites ao oportunismo filantrópico dos governos petistas. Agora, sob circunstâncias radicalmente diferentes, Lula tentará o sexto mandato com a mesma orientação estratégica: de um lado, a garantia dos interesses da classe dominante e de Washington e, de outro, migalhas sociais cada vez mais reduzidas para a classe trabalhadora. Na linha da antropologia uspiana de Claude Lévi-Strauss, ocorreu a mutação no princípio da matéria mítica: no início, a promessa petista prometia a estabilidade da moeda, o atendimento da questão social e a oposição retórica ao neoliberalismo... agora pretende a defesa da democracia e a "luta contra o fascismo". Em termos eleitorais, ontem o bordão era "Lula lá" em função da questão social; agora, é "Lula lá" para derrotar a ofensiva da direita. Mas a questão elementar é sempre... Lula lá e seja o que deus quiser!

Nesse contexto, o anúncio de uma bancada da esquerda radical composta de vários deputados no exercício do mandato acompanhado de alguns neófitos, exibe a natureza ideológica da operação caça-votos. É claro para qualquer analista que os deputados que pretendem reeleição (especialmente Glauber, Samya e Fernanda) são tudo, menos radicais. Nessa semana, para dar apenas um exemplo, Samya Bomfim declarou apoio a candidata ao senado por SP, Simone Tebet, vanguarda do ultraliberalismo nas filas do lulismo! Que tal?

Afinal, o que pode ser o radicalismo político nas atuais circunstâncias? 

Alguém com uma molécula de honestidade intelectual e com os dois pés na Terra Brasilis sabe que entre nós o sistema liberal é moeda com duas faces. A primeira - o liberalismo de direita - condensa seus interesses naquilo que a esquerda liberal chama de "neoliberalismo"; na verdade, seus defensores expressam a ideologia e interesses na forma de um ultra liberalismo que jamais existiu e nem poderia, pois é incompatível com os antagonismos reais do sistema capitalista; na prática, a ideologia é irrealizável porque capitalismo sem estado não existe mas, precisamente por essa razão, cumpre perfeitamente bem a função legitimadora: as reformas contra os trabalhadores são permanentes da mesma forma que "tirar o estado da economia e da política" é uma impossibilidade real mas, por isso mesmo, as reformas serão sempre infinitas! A segunda face da moeda - o liberalismo de esquerda - é monopólio de Lula e do PT há décadas e admite variações de todo tipo segundo contingências eleitorais. Em seu núcleo racional, as promessas são também irrealizáveis pois pretendem garantir cidadania num país cujo capitalismo é governado pela superexploração da força de trabalho e as massivas e permanentes transferências de valor para as potências imperialistas! Entretanto, a esquerda liberal não perde o rebolado: num esforço de Sísifo, pretende garantir os "avanços" já realizados e manter Lula vivo por mais dois séculos e o PT no governo até que, finalmente, a morte os separe! A tarefa e o protagonismo é sempre e invariavelmente de Lula e do PT, e não da ação consciente das massas, do movimento real do povo!     

Ora, os deputados mencionados apoiaram incansavelmente Lula durante todo seu mandato. Na prática - finalmente o único critério da verdade! - foram fiéis apoiadores de um governo que realizou todas as reformas que o capital solicitou; entretanto, não perderam a capacidade ou o dom de iludir, razão pela qual sobem na tribuna para denunciar as ações ou medidas da direita e dos "fascistas" na mesma frequência com que calam sobre todos os crimes do atual governo que, de fato, não são poucos. Na mesma toada, indicam que a atuação parlamentar constitui o espaço privilegiado de "luta" cuja demonstração limite foi a greve de fome de Glauber Braga contra a tentativa de cassação de seu mandato. 

A crise da república burguesa

Glauber de fato acredita que a denúncia do orçamento secreto é um objetivo decisivo para enfrentar a crise da república burguesa atravessada pela corrupção política e a deterioração da práxis parlamentar. Nem Lula, seu candidato, esboça qualquer movimento contra as antigas emendas impositivas criadas pelo ex-aliado Eduardo Cunha! Glauber atua, em consequência, na toada de tornar o parlamento digno, tingindo seu mandato as reivindicações de determinados sindicatos e movimentos de maneira pontual. Contudo, seus apoiadores justificam que a "luta eleitoral" é via necessária de "acúmulo de forças" e pretendem nada menos ancorar o cretinismo parlamentar em argumentos de Lenin (!!) pinçados de maneira aleatória como autoridade que os revolucionários, socialistas ou comunistas, não poderiam ignorar e, portanto, tampouco deveriam renunciar ao parlamento, mas utilizá-lo como instrumento de denúncia e agitação das causas dos trabalhadores.

A república burguesa vive uma crise tão intensa quanto profunda na qual o parlamento é reconhecido pela maioria absoluta de nosso povo como um covil de ladrões! Em seus sucessivos e intermináveis "escândalos", o parlamento exibe a podridão da república burguesa sob controle de uma coesão hegemonizada pela fração financeira que, confortável em seu completo domínio de classe, não necessita de uma constituinte ou mesmo pequenas reformas no sistema político ou eleitoral para a legitimação de sua hegemonia política, ideológica e cultural. O ideário liberal comanda as ações com as duas tendências anteriormente assinaladas!  Em consequência, ocupar o parlamento para denunciar os crimes de deputados e senadores é ocioso porque mesmo os monopólios de comunicação (especialmente Globo e CNN) o fazem com riqueza de detalhes. Acaso Eduardo Cunha não foi objeto de denúncia na Globo? E Flávio Bolsonaro, acaso não está sob fogo cruzado das Organizações Globo e com incômoda frequência não tem que se explicar diante da tela da CNN? No limite, os monopólios de televisão também degradam as instituições republicanas contra as quais o povo alimenta justificado ódio de classe. Nos dias em que escrevo esse artigo, o jornalão burguês Valor anuncia que o TCU identificou "irregularidades" em 82% das transferências especiais numa pequena amostra das emendas PIX! As denúncias, no atacado e no varejo, se proliferam! Quem, finalmente, colherá a iracúndia popular?

Até mesmo o STF - resultado de medidas do ministro Flávio Dino - impõem limites ao "orçamento secreto" e vez ou outra tem ações que irritam os ladrões de todos os partidos. De resto, o mesmíssimo tribunal condenou três deputados do PL (Josimar Maranhãozinho, Pastor Gil e João Bosco, todos do Partido Liberal) à cadeia em regime semi-aberto e multas leves porque, como sabemos, nenhum parlamentar é de ferro. A desmoralização do parlamento é profunda e os "escândalos" tocam o Supremo sem qualquer constrangimento: basta observar as denúncias da imprensa burguesa sob as transações tenebrosas de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com o Banco Master. Aos que perderam a necessária memória histórica e julgam os casos anteriores como excepcionais, vale recordar o valioso bate-boca entre Luís Roberto Barroso para quem o excelentíssimo decano Gilmar Mendes estava "sempre em busca de um interesse que não é o da justiça". E mais importante: as sucessivas supressões de direitos trabalhistas em favor dos capitalistas e em prejuízo dos trabalhadores que finalmente confirmam o caráter de classe do egrégio e honrado Tribunal! 

Todos e cada um desses escândalos frequentam as manchetes dos jornalões as chamadas dos monopólios televisivos, modulados, obviamente, segundo os interesses da economia política do rentismo praticada por Lula e Bolsonaro, sempre sob severa vigilância da mídia burguesa. Portanto, a disputa pela "moral pública" não pode ser capturada pelo "radicalismo parlamentar" que jamais foi testado de verdade, pois, afinal, quando o governo petucano de Lula e Alckmin necessitou aprovação do parlamento, sempre contaram com maioria folgada sem necessitar acordo com os deputados do PSOL. Nesse contexto, a batalha de Glauber contra o "orçamento secreto" nunca poderia ter efeito prático algum, exceto mais votos para sua reprodução parlamentar nas filas da esquerda liberal. É um "radicalismo" comedido, orientado com respeito a fins determinados: a conquista da reeleição e a pretensa diferenciação diante dos deputados petistas que, orientados por Lula, não arriscam ruptura alguma com as sacrossantas "regras do jogo"!

Quem comandará o PSOL?  

Entretanto, o teatro onde atuou Glauber tinha outro cenário importante para a reprodução parlamentar: a chamada "luta interna" no PSOL. Aqui, o dilema faustiano - "duas almas lutam pelo meu ser" - repete como farsa a tragédia petista quando lá no início do século o PT gradualmente se transformou num partido da ordem burguesa e renunciou sem vacilação ao radicalismo político de sua origem! A lenga-lenga da disputa interna no PSOL pretendia tão somente a disputa eleitoral (além, é claro, do fundo partidário e eleitoral como exibe de maneira eloquente a deputada trans Erika Hilton) e a garantia da auto-reprodução parlamentar pois, na prática, todos estavam fechadíssimos com governo de Lula! Ah, mas os membros da bancada radical votaram contra o teto de gastos, alegam os "radicais"! Ora, o resultado já estava tão garantido para a coesão burguesa que permitia o luxo do protesto "radical" na franja... e no interior do PSOL.   

Nas atuais circunstâncias, o PSOL é mera plataforma eleitoral pois é partido sem programa e completamente devotado ao identitarismo burguês. No limite das possibilidades, simula a reprodução enfadonha na periferia latino-americana do papel que o Podemos cumpriu na Espanha - inclusive na repetição ridícula de alguns de seus "dirigentes" emulando Monedero ou Iglesias - cuja existência somente foi possível pela presença hegemônica do PSOE agora sob controle de Pedro Sánchez. O lançamento da "bancada radical de esquerda" é, portanto, lance previsível: o controle da legenda e dos recursos suculentos do fundo partidário e eleitoral. 

A propósito, deputada trans Erika Hilton lançou luzes sobre o problema. Na condição de vítima especial inerente a todo discurso identitário, reclamou dos recursos reservados para a campanha da recém-chegada Manoela d'Ávila e seu parça Juliano Medeiros; na estocada terminou, talvez involuntariamente, iluminando o nervo do problema. O minúsculo PSOL é, além de plataforma eleitoral, um bom negócio; afinal, o diretório nacional e sobretudo sua executiva, administrará nesse ano nada menos que R$ 131.506,284 milhões, um valor - segundo informação do jornalão O Globo - 31,4% superior em relação a 2022. Ora, um diretório sem qualquer clareza teórica e educada na arte de ganhar votos com todas as misérias do sistema eleitoral cada vez mais hostil a perspectiva classista, não vacila em aderir a agenda moderninha dominante na Europa e EUA: defesa do meio ambiente, da diversidade, dos direitos humanos e certo apego genérico ao horizonte científico. E claro, a "crítica" ao "neoliberalismo" e ao "fascismo". Entretanto, Lula necessita do PSOL e o manterá vivo impedindo que Boulos, Erika e sua turma abandonem o partido antes da disputa eleitoral vindoura. A cláusula de barreira é instrumento valioso para monitorar a existência dos partidos no corrupto sistema eleitoral e político.

Do chão da fábrica ao youtuber

Voltemos ao velho e bom chão de fábrica. No século passado, quando o PT emergiu como partido - é preciso recordar que contra a vontade de Lula e seus sindicalistas - os dirigentes sindicais e lideranças populares possuíam empregos formais. Lula era metalúrgico, Olívio Dutra e Luiz Gushiken bancários, Luiz Dulce professor universitário, Tarso Genro advogado bem-sucedido na advocacia trabalhista, Marcelo Deda trabalhava no CREA, José Sergio Gabrielli professor universitário, Jorge Bittar, engenheiro formado no ITA e funcionário da Embratel... a lista é interminável. A lenta transição para o capitalismo rentístico corroeu as bases materiais da reprodução individual, mas mudou também a antiga representação parlamentar sustentada numa concepção classista difusa, na prática apoiada no corporativismo defensivo de algumas categorias. Os sindicalistas - orientados pela socialdemocracia europeia e a igreja católica - cumpriam a função ideológica necessária para a burguesia, afirmando o "sindicalismo combativo" com a mesma força com que execravam qualquer modalidade de socialismo revolucionário! 

A apologia dos chamados movimentos sociais - entre os quais a sociologia burguesa incluía o movimento sindical - durou apenas um verão e, de fato, era incapaz na origem de sustentar um projeto alternativo para as maiorias. A lenta e inexorável transição para o capitalismo dependente rentístico cobrou seu preço: a geração que pretende "superar" o lulismo após a desaparição de Lula, aspira ingenuamente acelerar o processo segurando a alça do caixão quando o presidente ainda vive e disputa a eleição derradeira. Nenhum deles possui uma "base" orgânica, sequer de natureza eleitoral e muito menos numa categoria específica. A dinâmica eleitoral exige, portanto, severa e permanente agilidade midiática, destinada a captar tendências culturais e modismos de toda ordem para assegurar um "debate" público se possível com alguma tintura vermelha capaz de se diferenciar da hegemonia petista e, no limite, figurar como a ala crítica da decadência ideológica, programática, ética e moral do petismo! 

Portanto, são todos lulistas e a radicalização que anunciam não passa de uma tola intenção de alargar as margens do programa que o governo implementa contra os trabalhadores e a nação; ademais, alimentam a vã pretensão de ensinar em tom semi-professoral que existem alternativas de política econômica e social capaz de nos tirar desse vale de lágrimas no qual os trabalhadores perdem direitos elementares e a fé na esquerda liberal enquanto a coesão burguesa acumula sucessivos superlucros! Assim, o radicalismo político que aspiram, antes de negar o lulismo apenas confirma sua hegemonia e perpetua sua força alienante entre parte dos trabalhadores semi-especializados e classe média empobrecida. A operação infantil indica, ademais, que agora não há mais remédio que apoiar Lula, mas, em 2030, os "radicais" deverão apresentar um candidato próprio à presidência da República pois Lula já estará de pijama! Não é uma beleza a "estratégia"? 

De resto, os mesmos "radicais" que apoiam Lula insinuam não ter perdido o contato com nosso planeta errante. Anunciam feito profetas que o futuro governo Lula que ajudam a eleger, será o mais liberal de todos os governos petistas!  Alertam a nós, pobres mortais, que os pisos constitucionais em saúde e educação serão revisados radicalmente e o "ajuste" será aprofundado em função das exigências matemáticas do teto de gastos. Ainda assim, não nos resta alternativa senão votar em Lula! Por quê? Porque o discípulo nacional de Hitler - Flávio Bolsonaro - mantém candidatura competitiva e, em caso de vitória, tornaria nossas vidas muito mais difíceis. A "consciência republicana" dos "radicais" alega que a reeleição de Lula reforça o ultraliberalismo inerente a economia política do rentismo, mas, curiosamente, resguarda as "liberdades democráticas" tão necessárias para manter nossa luta contra... o ultraliberalismo lulista! Enfim, a cadeia perpétua é um péssimo lugar, mas o carcereiro possui uma ternura e um encanto sem fim! 

Na prática, os membros da bancada radical mandam os fatos às favas! Afinal, durante o governo do protofascista agora atrás das grades, ocorreram lutas importantes e até mesmo algumas conquistas no parlamento. Ademais, ignoram com a mesma empáfia que durante o governo de Lula nem a correlação de forças melhorou para a luta dos trabalhadores e tampouco floresceram diante das atrocidades cometidas pelo governo petucano! Repito: às favas com os fatos! Eis a razão pela qual insistem sem precisão conceitual e menos ainda factual que estamos sofrendo o "avanço do fascismo" diante de qualquer manifestação hostil de um deputado ou vereador da direita! A operação é elementar: basta um inútil qualquer considerar que mulheres não deveriam votar para que a esquerda liberal tome a declaração de um youtuber insignificante e inicie via redes digitais uma "campanha" mediática destinada a proteger o voto feminino como se estivesse, de fato, na eminência da supressão! Na mesma toada, é suficiente que um candidato da direita lance dúvidas sobre a lisura da urna eletrônica para ser tomada como manifestação inequívoca do fascismo!   

Na disputa eleitoral em curso a hegemonia é, portanto, completamente liberal! O PT comanda na condição de ala "autêntica" do liberalismo cujo objetivo plausível é a conquista de uma bancada de deputados maior que a atual. Entretanto, o desencanto com o petismo alcança eleitores que outrora pertenciam a "base social" do Partido, ansiosos para mudar o voto com a fé inabalável de permanecer na mesma posição política: apoio a Lula, perpetuação da economia política do rentismo e da filantropia como meta social. Eis o espaço político para a astucia dos autodefinidos como "radicais"! Assim, confirma-se a hegemonia liberal e lulista e a disputa pelo futuro dessa "base eleitoral" permanece acesa na esperança de que um novo e inédito espaço político apareça com a aposentadoria definitiva de Lula. O melhor dos mundos possíveis, não?

A defesa do governo Lula - com a tradicional e cínica declaração de "apoio crítico" - implica, portanto, na valorização do identitarismo em todas as suas versões (mulheres, negros e LGBT) da mesma forma que o "combate radical" no interior do covil de ladrões contra suas figuras mais visíveis e detestáveis, obedece a lógica das redes digitais e não de seu núcleo dirigente. Afinal, alguém pode supor que Nikolas Ferreira é um dirigente da classe dominante? E o deputado Trovão, tem alguma importância para o domínio de classe? Tudo é uma disputa midiática, incapaz de criar base militante e menos ainda consciência crítica. Em resumo, a linha adotada mais preserva do que transforma! A "agitação revolucionária no parlamento" nas atuais circunstâncias e com a linha anunciada, nada rende; ao contrário, apenas consagra uma forma cativa de crítica destinada a auto-reprodução parlamentar e perpetuação da consciência ingênua e jamais um trânsito para a consciência crítica e formas superiores de organização política. 

Há um suposto oculto na operação em curso: os "radicais" supõem a existência de uma base social lulista que estaria em disputa e, para ganhá-la, bastaria imprimir uma linha um pouquinho mais radical e coerente com o antigo projeto petista arquivado pelos governos de Lula e Dilma. A confusão ou cegueira teórica reside no fato de que uma base eleitoral já descolou há tempos de uma base social, na prática extinta pelo avanço inexorável da fase rentística do capitalismo subdesenvolvido e dependente produzido pela evolução da economia mundial. Não haverá, portanto, retorno algum ao desenvolvimentismo de qualquer natureza nos marcos da ordem burguesa e, um programa alternativo tem como premissa - necessariamente! - a ruptura radical com Lula e o lulismo em todos seus níveis, especialmente o eleitoral!    

 

O programa, cadê o programa?

Cada passo do movimento real é mais importante que uma dúzia de programas...

Karl Marx

 

O desprezo ou mesmo horror à teoria marca a trajetória da esquerda liberal no Brasil, especialmente após a primeira vitória presidencial de Lula. No epicentro do fenômeno encontra-se o PT e o mesmíssimo presidente da república. Lula ignora olimpicamente que em nosso regime presidencial, o presidente é o primeiro pedagogo do país. Nem mesmo na cadeia Lula avançou na leitura e na divulgação de livros ou autores indispensáveis para interpretar o Brasil para acender a curiosidade intelectual de seus eleitores. É claro que em 20 anos de governos petistas - no qual os liberais de esquerda com tradição católica elevaram Paulo Freire a condição de patrono da educação, sequer o analfabetismo foi erradicado (Bolívia, Equador e Venezuela já o fizeram há mais de uma década!). Tampouco há um programa destinado a fortalecer o livro e criar leitores mesmo após uma campanha em que o próprio Lula afirmava que o país precisava mais de livros e menos armas! 

O desprezo pela teoria vai da convivência harmoniosa com o analfabetismo aos discursos enfadonhos, vulgares e alienantes de Lula. Na atualidade, uma rápida revisão da "formação política" dos partidos políticos (PT e PSOL, por exemplo) constata o horror à teoria, o desprezo pela cultura nacional e o caráter eleitoral de seus cursos! Ademais, o PT como partido tampouco pode dar um passo adiante na valorização de um programa porque realiza a economia política do rentismo que condensa os interesses da coesão burguesa sob hegemonia da fração bancária. Portanto, uma política contra o "neoliberalismo" é simplesmente impossível porque o governo petucano realiza o programa "neoliberal". Em consequência, os keynesianos de todos os matizes ficaram órfãos e não lhes resta "alternativa" exceto indicar que, diante da marcha decisiva de Lula à direita, devem reafirmar de maneira inocente e oportunista, uma alternativa nos marcos da ordem para lutar contra o "neoliberalismo". É nessa trama que a bancada radical do Lula apresenta um brevíssimo resumo da crise atual e indica alguns pontos programáticos para futura "ação" parlamentar.

Afinal, qual a natureza da crise atual para os radicais lulistas? 

O diagnóstico da crise atual oferecida pela "bancada da esquerda radical" cabe numa casca de nozes: os radicais de Lula pretendem num só movimento combater o "neoliberalismo" e enfrentar o "neofascismo". Portanto, defendem o voto em Lula alegando que a vitória do petista altera a correlação de forças e cria um ambiente melhor para combater o neoliberalismo do futuro governo que reconhecem será muito mais duro com os trabalhadores do que o atual! Ainda assim, é Lula lá!! Nessa linha, ocultam o fato que sofremos dois governos em que as "teses" apresentadas como novidade se revelaram sem fundamento. No governo do protofascista Bolsonaro algumas categorias lograram conquistas no covil de ladrões: o piso da enfermagem, por exemplo, foi aprovado com apenas 12 votos contrários e o protofascista Bolsonaro sancionou o PL 2564 no dia 4 de agosto de 2022. Portanto, a despeito de temores fantasmagóricos, para a categoria não foi mais difícil a luta dos trabalhadores naqueles 4 anos. No governo de Lula, ao contrário do que preconizam os parlamentares "radicais", o movimento de massas não emergiu e tampouco a correlação de forças foi alterada! O movimento midiático pela redução da escala 6 x 1, por exemplo, não impediu que em pleno governo Lula o parlamento adiasse sua aprovação a despeito da enorme simpatia social em favor! O governo Lula, a propósito, faturou na propaganda, mas não moveu forças para sua aprovação às vésperas das eleições: mais claro, impossível! É uma falácia afirmar que as condições de luta são mais favoráveis sob Lula ou Bolsonaro porque não é o governo que determina o pulsar da luta entre as classes sociais. Ademais, é tão flagrante a força da classe dominante que Lula não deixa de avançar mais e mais na direção do ultraliberalismo no programa e no governo como único caminho para vencer os candidatos da direita! Enfim, a vitória de Lula não altera a correlação de forças em favor dos trabalhadores!   

O "radicalismo" da bancada é, portanto, mistura de moralismo rasteiro e adesão lulista destinada a reprodução parlamentar, ou seja, o elogio ao cretinismo parlamentar. Para dourar a pílula, anunciam 10 pontos de um "programa inacabado", verdadeira marmita requentada, expressão de um antigo e fraudulento bordão lulista que atendia pelo nome de "inversão de prioridades", agora sob o lema da "inversão da lógica que organiza o estado e a economia". É um keynesianismo bastardo na qual eles descartam a eutanásia do rentista!! Nessas paragens, nem mesmo algumas recomendações do bom moço Lord Keynes ou seus discípulos mais antenados e autênticos (Hyman Minsky, por exemplo) tem assento! Por isso o epicentro do rentismo que dizem combater - a dívida interna! - é olimpicamente ignorado! Em consequência, todas as atenções se dirigem para o controle "eficaz" da taxa de juros, o combate ao endividamento ilegítimo das famílias e a reorganização do crédito, cambio e capitais! De resto, o radicalismo parlamentar pretende varrer do mapa a casa mata da coesão burguesa: a autonomia do Banco Central! Não é mesmo uma descoberta genial?

Eu aguardo ansioso a aula na qual todos nós vamos aprender a arte de reorganizar o crédito, o câmbio e os capitais num país subdesenvolvido e dependente em sua fase rentística; afinal, uma teoria sólida sobre o tema poderá reabrir o debate sobre os caminhos de superação das mazelas inerentes ao capitalismo dependente na América Latina que ninguém antes ousou expressar!

Prometo não escrever mais do que uma linha de crítica a TMM do "teacher" Randall Wray.

Alguém pode levar a sério a pretensão de organizar o capitalismo dependente e subdesenvolvido de suas "imperfeições", valorizar a produção, distribuir renda e riqueza, elevar a produtividade de trabalho e competir com o chão de fábrica da China com semelhantes sugestões? Ora, a política cambial em curso desde 1994 não é "errática" porque despreza o manual de macroeconomia heterodoxa ensinado nas universidades; a política cambial atende aos interesses de todas as frações do capital que sustentam a economia política do rentismo e, portanto, não é a política cambial que regula a acumulação financeira, mas, ao contrário, a acumulação financeira que regula a política cambial! Da mesma forma, a "reorganização do crédito" (anunciada com imensa superficialidade!) tampouco pode ocorrer sem a ruptura com o assalto ao estado via endividamento público e a necessária eutanásia do rentismo com a indispensável auditoria da dívida interna e grande parte de seu cancelamento! Ora, impedido de competir com os preços de produção da economia mundial, a lúmpem burguesia descobriu a valorização fictícia via multiplicação trilhonária da dívida pública por meio da qual extrai imensa massa de mais-valia dos trabalhadores e, em consequência, aplica as "políticas de austeridade" que tira o sono dos keynesianos! Entretanto, o bom mocismo keynesiano não quer auditar e menos ainda cancelar a dívida pública! Ao contrário, pretendem que a dívida interna medida em reais - portanto, em moeda nacional - possui todas as virtudes para que um economista bem formado possa tirar o país da crise e recolocá-lo na rota do desenvolvimento. Tudo isso é demasiado primário para ser levado a sério!

Portanto, os 10 pontos apresentados elucidam o mistério da inesperada aparição da "bancada radical de esquerda" às vésperas de uma eleição presidencial. O manifesto anuncia que as medidas apresentadas pretendem "fortalecer a luta política e social dentro da câmara dos deputados"! Não é uma descoberta genial?

A despeito da pretensão de "originalidade", qualquer leitor poderia elencar mais duas dezenas de medidas destinadas a melhor a renda das trabalhadores e as contas nacionais. Entretanto, a oferta seria apenas um exercício de ficção sem qualquer apoio na realidade. Acaso Lula e Alckmin estão dispostos a mover uma molécula na direção indicada pelo "programa alternativo? Obviamente, não!! O governo petucano implementa de maneira rigorosa a economia política do rentismo e não existem nas frações burguesas um espírito keynesiano necessário para fazer a eutanásia do rentismo e abrir as portas de uma modalidade qualquer de desenvolvimentismo. Alguns de seus patrocinadores falam em “dependência e subdesenvolvimento”, mas não tiram as consequências decorrentes de tal formulação pois defendem um programa keynesiano rebaixado sem qualquer viabilidade nas classes sociais e nas condições da acumulação mundial!  

A lúmpem burguesia sabe que sem a superexploração da força de trabalho e o assalto permanente ao estado, não há possibilidade de existência. Agora mesmo, diante das medidas protecionistas de Trump a burguesia em uníssono indicou a negociação e jamais a adoção de medidas apoiadas na reciprocidade, possibilidade aprovada pelo covil de ladrões. Ademais, a lúmpem burguesia exigiu medidas compensatórios que o governo cedeu de imediato: quase 20 bilhões de reais com recursos do Tesouro Nacional e do BNDES para manter as margens de lucro. Não há, de fato, nas frações burguesas, qualquer iniciativa ou mesmo um sinal para políticas desenvolvimentistas, razão pela qual apenas insinuam exigências para o "crescimento da economia". Em resumo: taxas de acumulação sem qualquer distribuição ou compromisso de classe com os trabalhadores!

O manifesto da "bancada" pretende afirmar o radicalismo de suas propostas em função da negativa do atual governo e do eventual quarto mandato de Lula em adotá-las! Em consequência, o radicalismo que pretendem não brota de rigorosa análise sobre o desenvolvimento capitalista no país, mas dos limites intransponíveis do governo petucano. Assim, a força "material" do "programa" nasce do potencial de mobilização e de um giro à esquerda da base eleitoral do lulismo em obviamente, da decadência programática, política, ética e moral do petismo! Alguém arriscaria dez reais em semelhante aposta?  A campanha anunciada pelos ministros de Lula é clara: novos e permanentes ajustes serão tomados caso o presidente conquiste a reeleição. Portanto, resta aos nobres deputados o honroso propósito do cretinismo parlamentar: "fortalecer a luta política e social dentro da Câmera dos Deputados"! 

O caminho da Revolução Brasileira não se fará sem a análise das transformações capitalistas ocorridas no mundo e na América Latina nas últimas décadas. No Brasil, aquele desprezo pela teoria próprio da esquerda liberal, descarta a análise das transformações ocorridas sob nossos pés e se limita a política da recusa: "atacar" as medidas "neoliberais" e insinuar "alternativas" nos limites da ordem burguesa. O governo implementa o teto de gastos? Os radicais defendem sua revogação! O governo entrega as terras raras para o imperialismo? Os radicais sugerem a criação da estatal Terrabrás! O governo alimenta a rapina sobre as finanças públicas em favor do rentismo? Os radicais indicam a necessidade de manejar adequadamente a taxa de juros! O governo amplia a força do latifúndio e da burguesia agrária? Os radicais apoiam e defendem a reforma agrária! 

No fundo, os 10 pontos indicados como partida para um programa não passam de medidas de rarefeita inspiração desenvolvimentista com enganos que fariam corar um aluno de segundo ano em economia. Afinal, quem pode acreditar que a dívida interna em moeda nacional é uma alternativa para controlar a taxa de juros e a ampliação do consumo da classe trabalhadora? A proposta de "acabar com a autonomia do Banco Central, combater o "endividamento ilegítimo das famílias" e "reorganizar" juros, crédito, cambio e capitais é conversa pra boi dormir destinado a evitar a "eutanásia do rentismo" e centrar atenção no espinhoso tema da dívida interna sobre a qual os radicais mantém profundo silêncio!

Portanto, a receita delata o diagnóstico! Os "radicais" exalam o aroma socialista do MES (Movimento Esquerda Socialista) mas na prática não passam de keynesianos cuja orfandade é cada dia mais evidente. A receita é, na prática, contra a política de austeridade e não por acaso - ainda que não confessem! - todos rezam na bíblia de uma Clara Mattei ou Naomi Klein. Não há outra razão para que o "fim do teto de gastos" pretenda nada menos do que "organizar o programa alternativo"! Na prática, os autores se "sentem" no comando das ações de um "governo de transição do neoliberalismo para o desenvolvimentismo", razão pela qual clamam até mesmo por um "regime de planejamento orçamentário por metas sociais, ambientais e de soberania"! Exigem o controle do Banco Central e o "combate ao endividamento ilegítimo das famílias" e a reorganização "dos juros, crédito, cambio e capitais"!! Como fazê-lo? Ora, não há dúvidas que controlando a taxa de juros de curto e longo prazo, realizando política fiscal expansiva e regulando uma taxa de câmbio compatível com a reindustrialização! Não é uma beleza?

Entretanto, há obstáculos insuperáveis nessa maravilhosa formulação. 

A primeira deriva do fato de que nenhuma fração burguesa está disposta a adotar semelhante "programa", reconhecimento que não outorga um caráter revolucionários as medidas porque também os trabalhadores não acreditam nessa via de "transição". A burguesia brasileira já superou seu sonho juvenil a respeito das promessas de industrialização na periferia capitalista latino-americana e adotou como virtude a dependência e o subdesenvolvimento. Entre os trabalhadores, a hegemonia completa do PT e Lula no interior da esquerda liberal, tampouco abre novas perspectivas porque ambos queimaram os barcos na adesão precoce e irremediável à ordem burguesa quando adotaram em todos seus governos as premissas da economia política do rentismo inaugurada pelo Plano Real de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Nesse duplo movimento - a completa ausência de apoio na classe dominante - especialmente na fração industrial - e o fracasso histórico do PT e Lula em outorgar cidadania nos marcos da ordem burguesa - as medidas sugeridas pelos candidatos da "bancada" perdem qualquer viabilidade política embora seus autores pretendem nada menos que instrumentalizar o "combate parlamentar" em nome dos trabalhadores... 

O que resta então ao cretinismo parlamentar? Não há dúvidas: o tal "diálogo" com a base eleitoral petista e lulista! A suposição de que existe um voto progressista - algo muito diferente de uma base social concreta capaz de incorporar historicamente um programa de transição do "neoliberalismo" para uma modalidade qualquer de "desenvolvimentismo" - alvo dos "radicais de esquerda". Eles tampouco ocultam que querem comandar o lulismo - seja lá o que isso significa - após a retirada de Lula! É uma espécie de assalto ao céu lulista quando o presidente octogenário se retirar em 2030 ou a qualquer momento pelo simples fato de que todos somos mortais!   

Há outro inconveniente nos pontos anunciados: afinal, o caráter de classe do estado desapareceu? Ora, a conquista de um governo não elimina o espinhoso problema! A receita é tão boa que eu não entendo as razões pelas quais Lula e Alckmin ainda não a colocaram em prática!? Tampouco entendo a oposição da coesão burguesa se com a receita proposta pela "bancada da esquerda radical" todos poderíamos ser muito felizes: a burguesia seguiria com superlucros e os trabalhadores com salários em elevação, carteira assinada, previdência social garantida e redução da jornada de trabalho! Afinal, por que a burguesia brasileira não aceita e Lula e Alckmin sequer em pesadelos pensaram alguma vez nessa receita de bolo de laranja com recheio de chocolate? Na prática o que aqui existe é a alegação ingênua de que falta "vontade política" ao governo Lula pois com a mudança de prioridades e o planejamento orçamentário, as portas do paraíso se abririam! Em consequência, pretendem figurar como consciência de uma burguesia que aos seus olhos não teria consciência!  

 

A lua pela democracia, o avanço do fascismo e Lula

"Estes pobres homens, fracos de espírito no decurso de suas vidas, geralmente bastantes obscuras, estavam tão pouco acostumados a algo parecido com o êxito que acreditam realmente que as suas emendas mesquinhas, aprovadas por uma maioria de dois ou três votos, mudariam a face da Europa. Desde o começo da sua carreira legislativa, tinham-se imbuído, mais do que qualquer outra fração da Assembleia, daquela doença incurável, o cretinismo parlamentar, uma perturbação que penetra as suas desafortunadas vítimas da convicção solene de que o mundo inteiro, a sua história e futuro, são governados e determinados por uma maioria de votos daquele particular órgão representativo que tem a honra de os contar entre seus membros e que todas as coisas que se passam fora das paredes da sua câmara - guerras, revoluções, construções de caminhos de ferro... e tudo o mais que possa ter alguma pequena pretensão a influenciar os destinos da humanidade - não é nada comparado com os incomensuráveis acontecimentos que dependem da questão importante, seja ela qual for, que nesse preciso memento ocupa atenção da sua ilustre Casa".  

  F. Engels

Numa entrevista realizada em junho/2026, o jornalista Breno Altman perguntou ao youtuber Jones Manoel se a principal contradição do país consistia "na luta da democracia contra o fascismo"; Jones negou enfaticamente! Para ele a principal contradição consistiria na oposição entre "classe trabalhadora e o modelo neoliberal em curso". Ademais, Jones denuncia de maneira contumaz que o governo de Lula é neoliberal. Afinal, como é possível afirmar que a principal contradição da política nacional é a oposição entre a "classe trabalhadora e o modelo neoliberal em curso", caracterizar o governo de Lula como neoliberal e ... votar em Lula?? Nas últimas eleições, quando ainda estava no PCB, Jones votou no atual governo para combater a direita e manter uma conduta "responsável". Agora, acusa como a principal contradição da situação política nacional a oposição entre "a classe trabalhadora e o modelo neoliberal”, mas vai votar em ... Lula! Pode existir maior oportunismo político? 

Os deputados Glauber, Samya e Fernanda são obviamente mais prudentes e jamais acusaram o governo Lula de neoliberal; geralmente, calam sobre o caráter do governo petucano orientando suas baterias contra a direita, a austeridade fiscal e monetária, o "neofascismo", etc... No limite os três deputados sabem que a disputa pelo voto está repleta de contradições e antagonismos que não permitem manter coerência política quando se pretende a conquista de novo mandato navegando na aba do lulismo e do petismo. No limite eles pretendem apenas "manter" a independência do PSOL diante do governo mesmo "concedendo" licença para Sonia Guajajara ocupar o ministério e considerando suficiente a renúncia de Boulos a cargos de direção do Partido quando o ex-MTST assumiu na plenitude e de maneira escrachada o governo de Lula.

Entretanto, assim como Fernanda Melchionna criticou acidamente Juliana Brizola no Rio Grande do Sul e ajoelhou diante da neta do Brizola após decisão de Lula, a combativa e feminista Samya Bomfim não vacilou em declarar apoio a ultraliberal Simone Tebet para o senado paulista! Da mesma forma, o neófito Jones Manoel participou feliz no encontro da Coalizão Negra responsável por lançar Quilombo nos Parlamentos, uma iniciativa de Douglas Belchior organizada para fortalecer a campanha de... Fernando Haddad e Marina Silva em São Paulo e garantir um lugar ao sol aos identitários! Douglas Belchior, como sabemos, iniciou sua carreira política no PT, migrou para o PSOL sem êxito eleitoral razão pela qual abandonou o partido acusando sua direção de racista para entrar novamente no PT. Portanto, Jones não deixa dúvidas sobre sua filiação ao identitarismo negro e as sucessivas falsificações sobre a história nacional em favor de um bi-colorismo que nega a mestiçagem e ignora o Censo do IBGE. No evento de Douglas destinado a fortalecer Haddad em São Paulo, Jones não vacilou em repetir o falso bordão identitário ao afirmar que "O Brasil foi criado pela população negra. Esse país é um país negro!" Às favas com o Censo do IBGE e toda a literatura crítica sobre a questão racial que já acumulamos! Meu reino por um mandato! 

Quanto a Glauber, o teste definitivo será o segundo turno para as eleições de governador no Rio. Porém, Paes logrou o apoio de Lula, do bispo-grana Malafaia e até do BTG Pactual! As pesquisas indicam que o atual prefeito do Rio terá vitória acachapante após mais uma desmoralização da direita bolsonarista fluminense cujo destino parece ser mesmo o presídio de Bangu, fato que pode poupar Glauber de votar no candidato de Lula para derrotar o "fascismo" num improvável segundo turno! Enfim, ninguém vai descolar de papai Lula nessas eleições. Agora, mais do que nunca, o lema é "ninguém solta a mão de ninguém"!! 

E no futuro governo Lula?

No eventual governo de Lula, qual seria a orientação política da "bancada da esquerda radical"?

Bueno, nesse caso podemos apenas indicar que num eventual quarto mandato de Lula, a direita liberal fará oposição ainda mais radical. Nesse contexto, pouco importa a adoção sem limites do ultraliberalismo que ministros de Lula já nunciam como certo após eventual vitória pois, para a direita, o programa é, de fato, é irrealizável no planeta Terra. Portanto, oposição impiedosa! Eis a razão pela qual Renan Santos repete em escala nacional a operação realizada por Pablo Marçal nas eleições para prefeito de São Paulo. O programa é tanto irrealizável quanto indispensável e eficaz na luta ideológica: todos os direitos dos trabalhadores e a filantropia lulista devem ser, finalmente, varridos do mapa! O que deve fazer a esquerda liberal e os pretensos "radicais"? Defender a situação atual para impedir novos retrocessos?

Orientados pelo profeta Lula, os lulistas anunciam que o governo atual está condicionado pela inexpressiva bancada da esquerda liberal: o presidente repete incansavelmente que possui apenas 140 dos 513 deputados e 12 dos 81 senadores. No cálculo, opera um milagre: o pragmatismo político derivado da concepção parlamentar de política é transformado em virtude e sabedoria política cuja consequência necessária "obriga" o governo à negociação com os demais deputados e senadores. Na prática, é uma justificativa orientada pelo "presidencialismo de coalisão" inaugurado pelo uspiano Fernando Henrique Cardoso. Muito menos rigorosa e disposta à verdade dos fatos, a esquerda liberal engana indicando que o governo é de "conciliação de classe" quando na prática, adota a economia política do rentismo da coesão burguesa e o alinhamento com Washington na política externa. A paz social das classes dominantes está assegurada! Não há conciliação de classe e sim adesão aos limites da república burguesa em crise profunda!

A presidência da república segue cativa do presidencialismo de coalisão - a forma corrupta e dominante de negociação entre os poderes - que atravessou todos os governos desde FHC até Lula sob o bordão da "governabilidade". Finalmente, o congresso - câmara e senado - não passa de um covil de ladrões dedicado e suprimir direitos elementares dos trabalhadores e assaltar o estado por meio de orçamento secreto, projetos de leis e todo tipo de negociatas em favor de capitalistas nacionais e estrangeiros. É nesse terreno que a bancada da esquerda radical quer semear o futuro.



quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Sobre o ministro Múcio e a invasão dos Estados Unidos

Sobre a verdade e o cinismo


                                        "Me perguntaram se os Estados Unidos quisessem invadir o Brasil, o que eu faria. Temos que abrir o portão. O Brasil não tem equipamento para enfrenta-lo, nem dinheiro pra consertar o portão"
José Múcio, Ministro de Defesa do Brasil


Eu vejo a irritação e o silêncio dos lulistas de todos os partidos em reação a declaração de Múcio sobre eventual invasão dos EUA ao Brasil com certa surpresa, afinal o ministro que Lula considera eficaz e também seu “amigo pessoal” disse uma verdade cristalina sobre as possibilidades do país diante das pretensões imperialistas na América Latina.
O atentado terrorista praticado pelo imperialismo na Venezuela se inscreve na longa tradição de invasões, ocupações e atos terroristas de toda espécie contra a soberania formal de muitas nações no mundo e na América Latina.
Múcio, o ministro de Lula, disse uma verdade! A verdade não é amiga da simpatia!
Vamos ao essencial: acaso o nacionalismo é uma força política e ideológica na formação dos militares brasileiros? Não!!! Acaso Lula e o PT em 20 anos de governos apresentaram à nação uma DOUTRINA MILITAR capaz de assegurar a soberania apenas formal que o país possui? Jamais! Ao contrário! Lula e o PT estão convencidos que fora da política de “segurança hemisférica” do imperialismo estadunidense não há futuro possível para a América Latina!
É claro que assim como a burguesia mordeu 20 bilhões de reais do Tesouro Nacional e do BNDES aproveitando as medidas protecionistas de Trump contra as exportações brasileiras, os militares aproveitaram a invasão da Venezuela para arrancar de Lula alguns bilhões e a aprovação de projetos até agora na gaveta e que num eventual novo mandato receberão aprovação fora do teto de gastos!
Eu poderia dizer que Múcio afirmou uma verdade cínica. De minha parte estou farto de ouvir lulistas criticarem ministros como forma de poupar o vulgar Lula! A respeito, pensem nas bravatas inocentes e irresponsáveis de Lula sobre a soberania e a segurança da Pátria na convenção que o confirmou como candidato presidencial! Escutem Lula! Eu repito: escutem Lula!

Ora, Múcio diz com clareza e sem rodeios tudo o que Lula e o PT produziram em 20 anos de governos!

Múcio é um espelho perfeito do lulismo!

sábado, 2 de maio de 2026

sobre a liberdade e o primeiro de maio

Os liberais reivindicam a liberdade em abstrato como meio eficaz de confiná-la nos estreitos marcos das instituições apodrecidas da republica burguesa, cujos exemplos mais eloquentes nos dias atuais podem ser vistos no parlamento e o no STF. Na tradição revolucionária - algo bem diferente da esquerda liberal sob comando de Lula e o PT - a liberdade sempre dependerá de seu uso concreto. A liberdade e a democracia não representam nem nunca representarão, um "valor universal"!

O primeiro de maio deixou uma vez mais valiosa lição. É comum ouvir dos órfãos do lulismo que sempre será muito melhor lutar sob um governo democrata do que noutro de natureza e expressão autoritária. Em consequência, a consciência ingênua afirma que lutar sob o governo de Lula é e sempre será melhor do que fazê-lo sob um governo como àquele de Bolsonaro. Entretanto, a realidade nega categoricamente o bordão ideológico do liberalismo de esquerda. Ontem, no quarto ano do governo petucano de Lula, as massas não ganharam as ruas ou praças. Nenhum ato digno de nota, a despeito do lúcido e valente exemplo de muitos militantes em meio a mais completa solidão. 

Lula pelo segundo ano consecutivo se limita ao protocolar e inútil vídeo em cadeia nacional de rádio e TV. No primeiro ano do atual mandato (2023) ensaiou a convocatória de uma manifestação  no coração burguês do país - São Paulo - e viu com seus próprios olhos o resultado necessário do núcleo racional de sua obra: a total desmobilização dos trabalhadores. Cínico, culpou os organizadores e saiu de fininho como se não tivesse responsabilidade alguma na cena tão patética quanto trágica.

Ontem assistimos o primeiro de maio mais triste de nossa história. Os trabalhadores exibiram não somente a ausência de consciência histórica mas, sobretudo, a merecida indiferença diante da convocatória da maior parte das máquinas sindicais burocratizadas que, na verdade, fazem dos sindicatos um meio de vida para seus diretores e, jamais, de luta. 

Aqueles que defendem o atual governo e estão dispostos a votar novamente no vulgar em nome do "combate" ao "neofascismo" já não podem alegar que a liberdade que de fato temos é melhor sob o governo Lula do que um governo de qualquer membro da família Bolsonaro. Afinal, durante seu mandato os trabalhadores não saíram as ruas e a convocatória do lulismo não surtiu qualquer efeito, exceto, óbvio, aquele que anuncia que o rei está, finalmente, nu. E resulta que o rei não é mais bonito nu!

No interior da esquerda liberal, a concepção parlamentar de política venceu no exato momento em que o parlamento exibe de maneira clara sua mais absoluta podridão, um meio para estafar o Estado, explorar os trabalhadores e, sobretudo, via rápida de enriquecimento pessoal. E os parlamentares "combativos"? Bem, estes ocupam a tribuna para exibir a impotência em ação de discursos moralistas tão rasteiros quanto estéreis! Ora, denunciar na tribuna as manobras das bancadas parlamentares a serviço das distintas frações do capital é, no mínimo, uma demonstração de total impotência. Afinal, qual o valor político de denunciar a imoralidade do roubo para os ladrões? Mais: acaso o povo não sabe que o parlamento é um covil de ladrões?

Quando afirmo que a república burguesa está podre e não revela nem mesmo de forma tímida um esforço para sua auto renovação, é mais do que claro o conforto da classe dominante com os dois bandos em "conflito" no parlamento, nos tribunais, nas eleições e na imprensa livre. A tentativa oportunista de criar movimento de massas via redes digitais - tal como o fim da escala 6 x 1 - encontra agora seu teste definitivo pois sem a participação ativa dos trabalhadores numa campanha sistemática e nacional, não é possível conquista alguma para a classe trabalhadora.

A defesa da liberdade em abstrato como arma eficaz contra o atual sistema político é tática eficaz da direita que, a propósito, denunciamos desde 2018; de resto, a despeito da derrota eleitoral nas eleições presidenciais, a direita segue avançando. A vitória eleitoral de Lula/Alckmin na última eleição, ao contrário, tampouco reverteu a correlação de forças em favor dos trabalhadores e somente em delírio poderia ter criado um governo com alguma eficácia e sentido para as amplas massas! A reivindicação da democracia praticada pela esquerda liberal é, nesse contexto, totalmente incapaz de enfrentar a ofensiva burguesa contra conquistas históricas dos trabalhadores como, por exemplo, uma carteira assinada, direitos previdenciários elementares ou a redução da jornada de trabalho sem redução de salário. A praça, finalmente, esta vazia. Os trabalhadores não defenderão a democracia em abstrato porque sabem que sua experiência concreta nos marcos do regime liberal burguês de uma república burguesa apodrecida em seus pilares, decretou uma guerra de classes contra seus interesses imediatos e, portanto, não merece seu apoio. 

domingo, 19 de abril de 2026

As confissões de Lula em Barcelona

 

O encontro do liberalismo de esquerda realizado nessa semana em Barcelona sob os auspícios do atua secretário geral do PSOE, Pedro Sanchéz - Mobilização Global Progressista - exibiu não somente a solidão da esquerda liberal, mas também sua completa impotência diante da ofensiva da direita na Europa e nos países latino-americanos. A despeito da heterogênia composição dos convidados - nem mesmo em delírio alguém pode considerar alguma semelhança entre o ex-presidente chileno Gabriel Boric e Claudia Sheinbaum, presidente do México - a verdade é que os discursos das principais figuras estavam orientados por forte dose de moralismo, pitadas de cinismo político, pragmatismo inofensivo e confissões inesperadas.

Entre as confissões inesperadas ao distinto público que lá compareceu com enormes esperanças, Lula foi, sem dúvida alguma, aquele que com imensa desinibição, discursou sob a orientação da razão cínica.

Aqui vai a fiel transcrição de um trecho do enfadonho discurso de Lula que você poderá chegar nos canais de Youtube.

Lula afirmou:

"O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante... ainda assim nós sucumbimos a ortodoxia, temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. 

Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade, abrem mão das políticas públicas em nome da governabilidade.

Nós nos tornamos o sistema. 

Por isso não surpreende agora que o outro lado se apresenta como antissistema. 

O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro... 

Não podemos trair a confiança do povo mesmo que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós propomos. A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo, analisou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras..."

Caso eu fosse um advogado num tribunal da História, jamais conseguiria produzir uma sentença condenatória à Lula melhor que as próprias declarações do presidente. Entretanto, seu discurso não produziu uma reação hostil do público, mas, ao contrário, rendeu fortes aplausos! É um caso clássico que obriga qualquer pessoa preocupada com nosso futuro imediato e algum apreço pela qualidade da práxis política, à reflexão profunda, pois quando a mentira, o escárnio e o cinismo se apresentam como se fosse o horizonte da razão progressista, estamos diante de uma imensa catástrofe!

Nós brasileiros, é verdade, já estamos acostumados a semelhante sincericídio e talvez por isso mesmo a novidade lulista apresentada aos europeus já não possui capacidade de criar qualquer modalidade de indignação e protesto. Não obstante, a reação não é melhor no Brasil pois os aplausos em Barcelona após as declarações de Lula estão aqui protegidos por imenso e profundo silêncio! Um silêncio certamente cúmplice, tão nefasto para a consciência crítica dos trabalhadores quanto aquele aplauso de "militantes" de classe média sustentada na burocracia sindical, partidária e estatal europeia organizada por um Partido Socialista que nem de longe pode representar moléculas de verdade que teve no passado distante.

O exercício sem limites do cinismo moderno como recurso político de uso corrente nas filas do progressismo – responsável pela derrota do antigo cinismo filosófico de clara extração crítica – é mais do que “sintoma” como desejam as análises de inspiração psicanalítica responsáveis em larga medida pela prostração e resignação política inerente às filas da esquerda liberal.

No encontro do progressismo europeu – tingido pela presença de alguns poucos representantes latino-americanos – Lula foi, de fato, o patrono com sobrada justiça pois o petismo – seja lá o que isso representa na sua cabeça – pratica a dupla moral há pelo menos duas décadas, desde que naquele distante janeiro de 2002 o ex-operário, agora político profissional, subiu a rampa do Palácio pela primeira vez. Ali, precisamente, a incompatibilidade entre política e verdade como expressão de certo moralismo com pretensões burguesas edificantes, desapareceu para sempre mesmo que somente numa terrível e angustiante lentidão, milhões de trabalhadores começaram a perceber e rechaçá-la. Em perspectiva histórica, não é difícil observar que as maiorias, os milhões de trabalhadores submetidos a superexploração da força de trabalho, foram tolerantes demais com o cinismo praticado por Lula e os sucessivos governos petistas hábeis na arte do engano, pois sempre souberam que, de alguma forma, estavam entre a cruz e a espada. Àquela tolerância que garantiu superlucros para as classes dominantes, carreiras parlamentares para antigos sindicalistas e professores ou “representantes” de movimentos populares e inclusive contas bancárias gordas e vida folgada para delatores, acabou e não tem mais capacidade de derrotar a ofensiva da direita. Agora, a crise da república burguesa – tal como deixamos claro durante 2017 e 2018 – permitiu à direita o monopólio da critica e, em consequência, o comando da iniciativa política.

A contragosto e em muitos casos com inacreditável surpresa, as múltiplas representações do lulismo começam a perceber pela única via que reconhecem como confiável – as pesquisas de opinião – que qualquer candidato de direita rivaliza com Lula nas próximas eleições presidenciais e que Flávio Bolsonaro a despeito de todos seus crimes pode, finalmente, vencer as eleições presidenciais.

A mentira e o cinismo foram tão longe sob o comando de Lula que até mesmo o anúncio da ameaça fascista tem baixa capacidade de aderência na consciência popular e tampouco pode, no terreno eleitoral, justificar o voto no atual presidente. As declarações de Lula em Barcelona exibem a razão cínica de maneira tão plena que já é repudiada por milhões de trabalhadores em sucessivas eleições, mas se manifesta de maneira radical na incapacidade de mobilização social para qualquer programa ou iniciativa governamental. Afinal, alguém acredita que nas atuais circunstâncias, um projeto como a redução da jornada de trabalho (fim da escala 6 x 1) pode levar as massas às ruas? Ora, as maiorias sabem que o covil de ladrão (parlamento) é o terreno menos favorável para conquistar direitos no interior de uma república burguesa em frangalhos!

Finalmente, a denúncia de Lula contra o “discurso de ódio” – uma quinquilharia importada do mundo acadêmico europeu e expressão da impotência política do progressismo decadente no continente – é incapaz de mobilizar na periferia capitalista as forças necessárias para derrotar a ofensiva da direita cada dia mais forte. De resto, nutrida durante décadas na mentira do “Lulinha paz e amor”, responsável por êxitos eleitorais necessariamente passageiros, porém, considerada pela concepção parlamentar de política uma fórmula de validez eterna, o progressismo desprezou solenemente a ira dos miseráveis que de fato constituem a absoluta maioria do povo brasileiro.

O encontro de Barcelona não terá qualquer incidência na consciência das massas latino-americanas. Tampouco poderá restaurar antiga vitalidade da socialdemocracia europeia convertida, na prática, em “gestores das mazelas neoliberais”. A solidão política dos progressistas europeus contava com a ilusão de que a presença mesmo pálida de representantes dos “condenados da terra” poderia empresar certo hálito mobilizador em suas filas. Esqueceram que também aqui, aquele discurso cínico tampouco é capaz de enfrentar os demônios que ajudou a criar.

domingo, 29 de março de 2026

A verdade e as razões do pragmatismo de Boulos

A corrente lulista Revolução Solidária decidiu permanecer no PSOL após perder a votação no Diretório Nacional do partido ao recusar a Federação com o PT. Os argumentos para adotar a aliança com o PT e também para permancer no partido mesmo contrariados em sua pretensão, obedecem a interesses bem particulares que passam batidos no jornalismo burguês jamais interessado em oferecer análise mais rigorosa da natureza da decisão. 

O PT é partido hegemônico na esquerda liberal. Mais ainda: a hegemonia que de fato exerce sem vacilação e escrúpulos, orienta a ideologia e a praxis política - sob razão de estado e orientado pela concepção parlamentar de política - que alimenta não somente seus simpatizantes e filiados. O pragmatismo decorrente de sua hegemonia domina todos os partidos que se julgam à esquerda do petismo. 

Ora, o argumento na nota oficial a corrente afirma categoricamente: 

"Uma saída imediata destas figuras do PSOL tornaria praticamente impossível ao partido ultrapassar a cláusula de barreira, levando à sua inviabilização institucional". 

O oportunismo político dessa corrente produziu, finalmente, uma molécula de verdade pois, nas condições atuais, a mudança com mala e cuia para o petismo partidário representaria, de fato, um duríssimo golpe nos que permaneceram no PSOL. Entretanto, uma molécula de verdade não é, obviamente, toda a verdade. A Federação com o PT implicaria em dificil disputa numa eleição em que os petistas e lulistas de todas as orientações possuem enorme apetite eleitoral, especialmente em São Paulo, o coração burguês do país. Ademais, o petismo é uma máquina eleitoral com relativa eficácia e o PSOL apenas aprendiz das artimanhas inerentes a legislação e aos costumes da disputa pelo voto. De resto, o petismo em geral e Lula em particular sabe da utilidade do PSOL para manter sua hegemonia e se não pode ter o controle total do destino de uma aliado de alma, sabe que pode contar sempre com ele, inclusive quando "atua" com uma dose de "rebeldia" própria de toda juventude. Por fim, a despeito de estar ou não coligados, todos são lulistas desde sempre e, creio, para sempre!

A viabilidade institucional do PSOL é importante para a hegemonia petista em geral e lulista em particular. O Partido como um todo - e não somente àqueles mais à direita - julgam que a vida é ruim com Lula e muito pior sem ele! Em consequência, todas as corrrentes consideram que a "derrota do neofascismo" é a primeira e mais nobre tarefa de qualquer pessoa que diante do espelho de seu banheiro se julgue de esquerda. Danem-se os fatos. Assim pouco importa que nesses anos todos, o petismo jamais logrou criar na sociedade brasileira e nos trabalhadores em particular, uma força social capaz de fazer frente a ofensiva da direita no país. Pouco importam os fatos e menos ainda um projeto pois o bordão que orienta os dois bandos resume-se ao conhecido "meu mundo por um mandato"! 

A supervalorização dos mandatos é decorrência direta da concepção parlamentar de política e, nas atuais circunstâncias, pouco importa se o nobre deputado ou senador é radical ou moderado. Ambos, a despeito da beleza do autorretrato, atuam no interior da enorme crise da república burguesa cada dia mais repudiada pela maioria do povo em todos seus poderes. Alguém poderia imaginar que o STF e seus ministros mais saídinhos até ontem considerados pela cúpula petista como úlitma garantia do regime liberal burguês que atende pelo pomposo e simpático nome de "democracia", estariam hoje na boca do povo como exemplos inaceitáveis de corrupção? 

De resto, mais temerário ainda, é a esquerda liberal atuar na "defesa da democracia" em abstrato como se, de fato, com semelhante bordão pudesse criar um antídoto contra a ameaça "fascista" cuja função consiste na afirmação da paralisia política com os fantasmas terríveis destinados à obstaculizar a necessária passagem da consciência ingênua para a consciência crítica, única capaz de captar a iracundia da maioria do povo para um radicalismo de esquerda indispensável para bater no campo das disputas eleitorais e ideológicas a ofensiva da direita.

No final das contas, todos vão com Lula no primero turno, tal como estamos afirmando desde sempre. Vão com Lula os devotos lulistas, os petistas "conscientes"; vão com Lula os que temem o "fascismo" e todos aqueles que juram de pé juntos que não haverá amanhã quando o atual presidente, finalmente, se recolher aos seus aposentos a que tem direito todo octagenário. E também vão com Lula àqueles que simulam independência e "radicalismo" na vã tentativa de figurar como "críticos" nos estreitos limites do espirito republicano em frangalhos derivados da profunda crise da república burguesa e de um governo que aprofunda a dependência do país turbinando o rentismo e a sacramentando a miséria e a exploração dos trabalhadores.  

segunda-feira, 16 de março de 2026

O PSOL como plataforma eleitoral

O PSOL recusou a Federação com o PT e a decisão foi apresentada pela maioria vitoriosa como afirmação da "identidade" socialista do Partido e em não poucos casos como "independência" política em relação ao governo petucano mas o recurso não mais possui o dom de iludir Acompanhei a argumentação dos dois bandos em disputa seguindo a máxima do sardo Antônio Gramsci: ser justo com os adversários e colher os melhores argumentos de cada um deles.  

Há notório exagero e boa dose de simulação no processo. O PSOL, ao contrário do que afirma o bando derrotado, não possui qualquer divergência em relação ao apoio incondicional ao governo petucano Lula/Alckmin e basta observar tanto os disciplinados lulistas no comando do partido quanto os considerados rebeldes na oposição, para constatar o comportamento padrão: nenhum deles ousa atacar no parlamento burguês qualquer medida do governo mesmo aquelas consideradas as mais terríveis como o teto de gastos, a política entreguista da Petrobrás, as privatizações massivas em curso com apoio de suculento financiamento público ou, finalmente, os apetitosas planos safra que turbinam a força econômica e política da fração agrária da burguesia. Ademais, tanto os "combativos" do PSOL quanto os "lulistas" desfrutam e ao mesmo tempo são prisioneiros da mesma "base social" e, portanto, mantém acirrada disputa eleitoral com com o PT.

Na resolução aprovada por maioria quando a chapa petucana venceu Bolsonaro, a participação de membros do Partido no governo estava vetada. Entretanto, no ponto 10 da resolução então aprovada aparecia uma exceção:

"O PSOL apoiará o governo Lula em todas as suas ações de recuperação dos direitos sociais e de interesses populares. Estaremos presentes nas trincheiras do parlamento e nas lutas do povo brasileiro, combatendo a extrema-direita e defendendo o governo democraticamente eleito, mas o PSOL não terá cargos na gestão que se inicia. Ainda assim, compreendemos que a indicação de Sonia Guajajara, como liderança do movimento indígena, para o ministério dos povos originários é uma conquista de extrema importância para uma luta tão atacada por Bolsonaro e deve ser respeitada pelo partido." 

https://psol50.org.br/file/2022/12/PSOL-COM-LULA-CONTRA-O-BOLSONARISMO-E-PELOS-DIREITOS-DO-POVO-BRASILEIRO.pdf

A representação alegórica do indigenismo sem raízes nos povos originários capta votos nos centros urbanos e, portanto, necessita de cuidados especiais pois soma no coeficiente eleitoral. Entretanto, tal como reza o ditado popular, "onde passa o boi passa a boiada": em outubro do ano passado foi a vez de Boulos assumir um cargo no governo petucano com total e entusiasta apoio da maioria e a recomendação da minoria para que o futuro ministro se licenciasse do Partido. Contudo, especulações recentes indicam que ele pode mesmo assumir a filiação ao PT, decisão que apenas formalizaria antiga adesão incondicional que mantém à Lula desde o inesquecível "boa noite presidente" no inicio de um debate presidencial na TV na qual sua candidatura obteve, finalmente, desempenho no mínimo vexaminoso. 

A trajetória do PSOL merece reflexão mais apurada, longe do tradicional "todos são iguais" do senso comum e da apologia que seus membros produzem como ideologia destinada a processos eleitorais.

No terreno programático, desde seu nascimento o PSOL não avançou uma molécula por razão simples, pois, de fato, jamais teve qualquer compromisso real com afirmar um programa de transformações destinada a superar o capitalismo dependente rentístico. Na prática sua aparição foi uma revolta nos marcos ideológicos da esquerda liberal e uma vã tentativa de não se confundir com o fracasso histórico do petismo na ilusória pretensão de garantir cidadania à maioria dos brasileiros nos marcos da ordem burguesa. Os sucessivos governos do PT - com Lula ou Dilma - aprofundaram a economia política do rentismo a despeito das políticas filantrópicas sob o invólucro de políticas públicas que, de fato, não somente mantinham a maioria sob o tacão de ferro da superexploração da força de trabalho mas também multiplicavam a apatia política e a alienação dos oprimidos. Nesse contexto, o PSOL não esboçou a menor intenção de rivalizar sequer no terreno parlamentar com o petismo e muito menos na necessária disputa ideológica. No limite, tentou funcionar com baixo perfil numa sorte de consciência crítica do governo sem jamais tocar na figura de Lula e nem em pesadelo se opor ao seu governo. Nem mesmo no atual mandato - quando qualquer dúvida sobre o caráter liberal em todas as áreas se confirmou até mesmo para os mais otimistas - seus parlamentares ousaram qualquer crítica ao presidente da república nem mesmo no interior do covil de ladrões que atende pelo pomposo nome de congresso nacional. 

Nascido de uma dissidência parlamentar no primeiro governo Lula, o tempo não tardou em demonstrar o quanto aquela decisão continha de certa carga moral e apenas algumas moléculas no propósito de criar de fato uma alternativa partidária para a esquerda que não somava com o primeiro governo Lula, indiscutivelmente, um governo ainda considerado com benevolência como de "conciliação de classe" para utilizar o jargão dos descontentes. A propósito, Lula e Alencar entraram aprovando uma reforma da previdência contra direitos históricos dos trabalhadores, fato gerador da dissidência parlamentar de petistas com profunda fé. 

Na verdade, não demorou muito tempo para a vida comprovar que tanto o alarde quanto as esperanças abrigadas na novidade não poderiam ser superiores a consciência ingênua dominante na maioria dos partidos da esquerda. Em consequência, não ocorreu nenhum escândalo ou mesmo indignação quando lentamente alguns de seus membros assumiram funções de estado num governo que não possui exigência intelectual ou relevância política para compor seu ministério. O recente conflito com as etnias do Rio Tapajós (assim a imprensa deu a conhecer a luta dos povos indígenas) revelou não somente a inutilidade de Boulos e de Sonia Guajajara pois não somente as mentiras e os silêncios de ambos sobre o conflito ficaram meridianamente claros, como também a firme e inquebrantável decisão dos povos originários responsável, finalmente, para impedir o que denominam "privatização dos rios", uma exigência da economia exportadora que informa o capitalismo dependente desde sempre. Ao ocupar as instalações da multinacional Cargil, os povos indígenas deixaram claro as opções ao governo: assumir um massacre ou retroceder por enquanto daquela decisão. Também elucidou a radical oposição entre a suposta representação parlamentar dos indígenas na figura de Sonia Guajajara e o movimento real da luta indígena em defesa de seus direitos!

Aos cínicos restou a afirmação de que o governo de Lula sempre esteve disposto ao "diálogo" e foi sensível as reivindicações dos povos indígenas; em consequência, o presidente desistiu de levar adiante a proposta da fração agrária e comercial do capital contra os povos indígenas. A rebeldia de alguns parlamentares do PSOL se limitou a breve visita a Santarém e a solicitação para que o governo retirasse o decreto; além, é claro, das tradicionais fotos para as redes digitais mas, em nenhum momento, a crítica severa ao governo das multinacionais. Afinal, todos sabiam que mais de 1.000 indígenas de quase 20 etnias tinham dado um xeque mate no governo petucano cuja sensibilidade para as classes subalternas ressurge apenas em anos eleitorais. No balanço geral, os dois lados eram cativos do governo embora os ministros do PSOL exibiam a tradicional servidão aberta à Lula.

Em sua recente trajetória o PSOL se afirmou como uma plataforma eleitoral e renunciou a necessidade de afirmação de um partido socialista não somente distante do liberalismo de esquerda em geral mas em franca oposição ao PT e seus governos. Não há que alimentar ilusões: a concepção parlamentar de política dominante nos dois bandos em disputa eliminou o horizonte estratégico necessário para afirmar o radicalismo político no Partido. A recusa da Federação, portanto, não é fruto da afirmação socialista para o futuro do PSOL e menos ainda produto da independência em relação ao governo. A decisão deve-se exclusivamente ao cálculo eleitoral pois até mesmo os neófitos sabem que o apetite, a experiência eleitoral e especialmente o fundo partidário e eleitoral é gordo para o PT e, se não é desprezível para o PSOL, não é potente o suficiente para enfrentar a maquinaria dos pesos pesados do petismo ávidos pelo parlamento. De resto, como sempre ocorre, nas vésperas das eleições presidenciais, o PT "radicaliza" a retórica sem jamais romper seu compromisso de fé com a classe dominante.

A chamada filiação democrática que permitiu a entrada de Boulos no PSOL no prazo limite para se candidatar nas eleições de 2018 exibiu ainda para os mais resistentes que a disputa para levar o Partido para o radicalismo político estava esgotado. Ademais, revelou também que o suposto de que dirigentes de movimentos populares poderiam ser o combustível necessário para outorgar caráter de massa à experiência partidária estava igualmente liquidada. Portanto, quando hoje vejo antigos entusiastas da entrada de Boulos naquela disputa interna para eleger seu candidato a presidente manifestando decepção com sua trajetória rumo a adesão completa ao petismo e em particular a submissão à Lula, não posso deixar de acusar que o erro consiste mais no processo do que no personagem. Ou seja, o suposto segundo o qual um Partido se orienta pelos movimentos populares ou responde a sua lógica sempre foi e será inapelavelmente falsa! Um Partido digno desse nome e apegado tanto a História do país quanto a defesa de seu destino socialista, não pode vacilar em afirmar sua vocação e compromisso com a Revolução Brasileira senão nos marcos da ruptura com o sistema partidário vigente, do radicalismo político que encarne o ódio e desespero das classes populares e, finalmente, do nacionalismo revolucionário. Um partido dirigente não é e nem nunca será um somatório de movimentos populares!

Os argumentos de ordem doutrinária ou mesmo a tentativa de lutar por um partido fora do grande esquema eleitoral da república burguesa em crise, finalmente, não mais existe. O PSOL é apenas uma plataforma eleitoral destinada a abrigar quando necessário e segundo conveniências eleitorais dominantes em seu interior, qualquer candidatura. Nesse contexto, a crítica ao governo Lula deve ser recusada e as baterias devem ser dirigidas contra a direita liberal. O ardil é tão simplório quanto falso: qualquer crítica ao governo favoreceria inapelavelmente a ofensiva da direita em curso no país que, sem rigor algum, o liberalismo de esquerda chama de "fascismo" ou "neofascismo".

Portanto, o debate do PSOL sobre as exigências da legislação eleitoral necessárias para superar a cláusula de barreira capaz de garantir a existência institucional do partido expressou o domínio da concepção parlamentar em todas as correntes no seu interior. Nenhuma delas postulou a ruptura com o governo Lula e nem mesmo uma crítica aberta pela perspectiva de esquerda de outrora acusando o governo de praticar sem qualquer limitação a economia política do rentismo. O quadro não é menos patético para aqueles que pretendem "revelar" a "contradição" existente entre atender as demandas sociais por um lado com o objetivo de avançar para um programa desenvolvimentista e a defesa sagrada do teto de gastos como se Lula e Haddad não fossem conscientes do "problema"!! A impotência em ação aparece também quando algum desavisado com ares de consciência critica pretende alertar para a imprudência de sucessivas medidas governamentais capazes de comprometer a reeleição de Lula como se o presidente não tivesse tomado há muito tempo o caminho da direita na tentativa de ganhar as bases conservadoras capturadas até agora pelo ultraliberalismo bolsonarista. A disputa pela hegemonia política numa sociedade de classes subdesenvolvida não decorre da disputa eleitoral; ao contrário, somente um programa orientado pelo radicalismo político poderia recuperar terreno diante do avanço cada vez mais sólido da direita nas eleições. É claro que a exigência para tal é precisamente a crítica sem limites a república burguesa corrupta e violenta que oprime a maioria do povo. De resto, também é claro que a esquerda liberal morrerá aferrada à Lula e ao petismo notoriamente incapaz de promover reformas políticas e econômicas capazes de restaurar a fé das maiorias no espírito republicano.    

Não arrisco palpite sobre o resultado eleitoral porque estamos ainda longe da eleição. Contudo, a direita segue no comando das ações e notável é sua força ideológica e a consistência eleitoral mesmo após condenação e prisão de Bolsonaro. Na prática, diante da putrefação da república burguesa que não poupa a decadência do STF, do parlamento burguês e do próprio presidencialismo degradado por todos os ocupantes da cadeira presidencial até agora, o terreno é mesmo fértil para golpes cada vez mais duros da direita liberal. O radicalismo - uma arma dos oprimidos e explorados - segue na mão da direita. O sistema político inerente a republica burguesa em crise é o epicentro de todos os problemas aos olhos da maioria da população que já manifesta acentuada descrença no processo eleitoral capaz de ignorar solenemente apelos em favor desse ou daquele deputado ou senador e também de um outro candidato presidencial.

A eleição que se avizinha nada terá de inédita, portanto. A força da oposição entre "democracia e fascismo" que dominou o discurso da esquerda liberal desde a vitória do protofascista Bolsonaro em 2018 esta por demais desgastada para gerar entusiasmo eleitoral após uma montanha de enganos e mentiras praticadas por Lula durante seu mandato. Afinal, as promessas benevolentes de extração popular - fim do teto de gastos, nacionalização dos preços da Petrobrás, recuperação da Eletrobrás, revogação da reforma trabalhista, prioridade na educação e saúde, entre outras - foram finalmente negadas por decisões de um ministério medíocre e a condução presidencial que tão somente reproduz a política econômica exigida pelos rentistas e mantém sob o controle de Washington a política externa do país.  

O inicial desafio do PSOL - e de qualquer outra tentativa de criar um partido necessário para conduzir a iracundia popular atualmente capturada pela direita - não poderia reivindicar ou nascer do fracasso histórico do petismo e menos ainda do apoio sistemático aos governos petistas, mas precisamente de sua negação radical. A longa e inexorável diluição da promessa do PSOL na vala comum da esquerda liberal a partir de uma concepção parlamentar de política chegou ao seu final e pouco importa o número de deputados que conquistarão nas próximas eleições.