quarta-feira, 5 de agosto de 2026
Sobre o ministro Múcio e a invasão dos Estados Unidos
sábado, 2 de maio de 2026
sobre a liberdade e o primeiro de maio
Os liberais reivindicam a liberdade em abstrato como meio eficaz de confiná-la nos estreitos marcos das instituições apodrecidas da republica burguesa, cujos exemplos mais eloquentes nos dias atuais podem ser vistos no parlamento e o no STF. Na tradição revolucionária - algo bem diferente da esquerda liberal sob comando de Lula e o PT - a liberdade sempre dependerá de seu uso concreto. A liberdade e a democracia não representam nem nunca representarão, um "valor universal"!
O primeiro de maio deixou uma vez mais valiosa lição. É comum ouvir dos órfãos do lulismo que sempre será muito melhor lutar sob um governo democrata do que noutro de natureza e expressão autoritária. Em consequência, a consciência ingênua afirma que lutar sob o governo de Lula é e sempre será melhor do que fazê-lo sob um governo como àquele de Bolsonaro. Entretanto, a realidade nega categoricamente o bordão ideológico do liberalismo de esquerda. Ontem, no quarto ano do governo petucano de Lula, as massas não ganharam as ruas ou praças. Nenhum ato digno de nota, a despeito do lúcido e valente exemplo de muitos militantes em meio a mais completa solidão.
Lula pelo segundo ano consecutivo se limita ao protocolar e inútil vídeo em cadeia nacional de rádio e TV. No primeiro ano do atual mandato (2023) ensaiou a convocatória de uma manifestação no coração burguês do país - São Paulo - e viu com seus próprios olhos o resultado necessário do núcleo racional de sua obra: a total desmobilização dos trabalhadores. Cínico, culpou os organizadores e saiu de fininho como se não tivesse responsabilidade alguma na cena tão patética quanto trágica.
Ontem assistimos o primeiro de maio mais triste de nossa história. Os trabalhadores exibiram não somente a ausência de consciência histórica mas, sobretudo, a merecida indiferença diante da convocatória da maior parte das máquinas sindicais burocratizadas que, na verdade, fazem dos sindicatos um meio de vida para seus diretores e, jamais, de luta.
Aqueles que defendem o atual governo e estão dispostos a votar novamente no vulgar em nome do "combate" ao "neofascismo" já não podem alegar que a liberdade que de fato temos é melhor sob o governo Lula do que um governo de qualquer membro da família Bolsonaro. Afinal, durante seu mandato os trabalhadores não saíram as ruas e a convocatória do lulismo não surtiu qualquer efeito, exceto, óbvio, aquele que anuncia que o rei está, finalmente, nu. E resulta que o rei não é mais bonito nu!
No interior da esquerda liberal, a concepção parlamentar de política venceu no exato momento em que o parlamento exibe de maneira clara sua mais absoluta podridão, um meio para estafar o Estado, explorar os trabalhadores e, sobretudo, via rápida de enriquecimento pessoal. E os parlamentares "combativos"? Bem, estes ocupam a tribuna para exibir a impotência em ação de discursos moralistas tão rasteiros quanto estéreis! Ora, denunciar na tribuna as manobras das bancadas parlamentares a serviço das distintas frações do capital é, no mínimo, uma demonstração de total impotência. Afinal, qual o valor político de denunciar a imoralidade do roubo para os ladrões? Mais: acaso o povo não sabe que o parlamento é um covil de ladrões?
Quando afirmo que a república burguesa está podre e não revela nem mesmo de forma tímida um esforço para sua auto renovação, é mais do que claro o conforto da classe dominante com os dois bandos em "conflito" no parlamento, nos tribunais, nas eleições e na imprensa livre. A tentativa oportunista de criar movimento de massas via redes digitais - tal como o fim da escala 6 x 1 - encontra agora seu teste definitivo pois sem a participação ativa dos trabalhadores numa campanha sistemática e nacional, não é possível conquista alguma para a classe trabalhadora.
A defesa da liberdade em abstrato como arma eficaz contra o atual sistema político é tática eficaz da direita que, a propósito, denunciamos desde 2018; de resto, a despeito da derrota eleitoral nas eleições presidenciais, a direita segue avançando. A vitória eleitoral de Lula/Alckmin na última eleição, ao contrário, tampouco reverteu a correlação de forças em favor dos trabalhadores e somente em delírio poderia ter criado um governo com alguma eficácia e sentido para as amplas massas! A reivindicação da democracia praticada pela esquerda liberal é, nesse contexto, totalmente incapaz de enfrentar a ofensiva burguesa contra conquistas históricas dos trabalhadores como, por exemplo, uma carteira assinada, direitos previdenciários elementares ou a redução da jornada de trabalho sem redução de salário. A praça, finalmente, esta vazia. Os trabalhadores não defenderão a democracia em abstrato porque sabem que sua experiência concreta nos marcos do regime liberal burguês de uma república burguesa apodrecida em seus pilares, decretou uma guerra de classes contra seus interesses imediatos e, portanto, não merece seu apoio.
domingo, 19 de abril de 2026
As confissões de Lula em Barcelona
O encontro do
liberalismo de esquerda realizado nessa semana em Barcelona sob os auspícios do
atua secretário geral do PSOE, Pedro Sanchéz - Mobilização Global Progressista
- exibiu não somente a solidão da esquerda liberal, mas também sua completa
impotência diante da ofensiva da direita na Europa e nos países
latino-americanos. A despeito da heterogênia composição dos convidados - nem
mesmo em delírio alguém pode considerar alguma semelhança entre o ex-presidente chileno Gabriel Boric e Claudia Sheinbaum, presidente do México - a verdade é
que os discursos das principais figuras estavam orientados por forte dose de
moralismo, pitadas de cinismo político, pragmatismo inofensivo e confissões
inesperadas.
Entre as confissões inesperadas ao distinto
público que lá compareceu com enormes esperanças, Lula foi, sem dúvida alguma,
aquele que com imensa desinibição, discursou sob a orientação da razão cínica.
Aqui vai a fiel transcrição de um trecho do
enfadonho discurso de Lula que você poderá chegar nos canais de Youtube.
Lula afirmou:
"O progressismo não conseguiu superar o
pensamento econômico dominante... ainda assim nós sucumbimos a ortodoxia, temos
sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo.
Governos de esquerda ganham as eleições com
discurso de esquerda e praticam austeridade, abrem mão das políticas públicas
em nome da governabilidade.
Nós nos tornamos o sistema.
Por isso não surpreende agora que o outro
lado se apresenta como antissistema.
O primeiro mandamento para os progressistas
tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar
outro...
Não podemos trair a confiança do povo mesmo
que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós
propomos. A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não
cumpridas do neoliberalismo, analisou a frustração das pessoas inventando
mentiras e mais mentiras..."
Caso eu fosse um advogado num tribunal da
História, jamais conseguiria produzir uma sentença condenatória à Lula melhor
que as próprias declarações do presidente. Entretanto, seu discurso não
produziu uma reação hostil do público, mas, ao contrário, rendeu fortes
aplausos! É um caso clássico que obriga qualquer pessoa preocupada com nosso
futuro imediato e algum apreço pela qualidade da práxis política, à reflexão
profunda, pois quando a mentira, o escárnio e o cinismo se apresentam como se
fosse o horizonte da razão progressista, estamos diante de uma imensa
catástrofe!
Nós brasileiros, é verdade, já estamos
acostumados a semelhante sincericídio e talvez por isso mesmo a novidade
lulista apresentada aos europeus já não possui capacidade de criar qualquer
modalidade de indignação e protesto. Não obstante, a reação não é melhor no
Brasil pois os aplausos em Barcelona após as declarações de Lula estão aqui protegidos
por imenso e profundo silêncio! Um silêncio certamente cúmplice, tão nefasto
para a consciência crítica dos trabalhadores quanto aquele aplauso de
"militantes" de classe média sustentada na burocracia sindical,
partidária e estatal europeia organizada por um Partido Socialista que nem de
longe pode representar moléculas de verdade que teve no passado distante.
O exercício sem limites do cinismo moderno como
recurso político de uso corrente nas filas do progressismo – responsável pela
derrota do antigo cinismo filosófico de clara extração crítica – é mais do que “sintoma”
como desejam as análises de inspiração psicanalítica responsáveis em larga medida
pela prostração e resignação política inerente às filas da esquerda liberal.
No encontro do
progressismo europeu – tingido pela presença de alguns poucos representantes
latino-americanos – Lula foi, de fato, o patrono com sobrada justiça pois o
petismo – seja lá o que isso representa na sua cabeça – pratica a dupla moral
há pelo menos duas décadas, desde que naquele distante janeiro de 2002 o
ex-operário, agora político profissional, subiu a rampa do Palácio pela primeira
vez. Ali, precisamente, a incompatibilidade entre política e verdade como
expressão de certo moralismo com pretensões burguesas edificantes, desapareceu para
sempre mesmo que somente numa terrível e angustiante lentidão, milhões de
trabalhadores começaram a perceber e rechaçá-la. Em perspectiva histórica, não
é difícil observar que as maiorias, os milhões de trabalhadores submetidos a
superexploração da força de trabalho, foram tolerantes demais com o cinismo praticado
por Lula e os sucessivos governos petistas hábeis na arte do engano, pois
sempre souberam que, de alguma forma, estavam entre a cruz e a espada. Àquela
tolerância que garantiu superlucros para as classes dominantes, carreiras
parlamentares para antigos sindicalistas e professores ou “representantes” de
movimentos populares e inclusive contas bancárias gordas e vida folgada para
delatores, acabou e não tem mais capacidade de derrotar a ofensiva da direita.
Agora, a crise da república burguesa – tal como deixamos claro durante 2017 e
2018 – permitiu à direita o monopólio da critica e, em consequência, o comando
da iniciativa política.
A contragosto e em
muitos casos com inacreditável surpresa, as múltiplas representações do lulismo
começam a perceber pela única via que reconhecem como confiável – as pesquisas
de opinião – que qualquer candidato de direita rivaliza com Lula nas próximas
eleições presidenciais e que Flávio Bolsonaro a despeito de todos seus crimes
pode, finalmente, vencer as eleições presidenciais.
A mentira e o cinismo
foram tão longe sob o comando de Lula que até mesmo o anúncio da ameaça fascista
tem baixa capacidade de aderência na consciência popular e tampouco pode, no
terreno eleitoral, justificar o voto no atual presidente. As declarações de
Lula em Barcelona exibem a razão cínica de maneira tão plena que já é repudiada
por milhões de trabalhadores em sucessivas eleições, mas se manifesta de
maneira radical na incapacidade de mobilização social para qualquer programa ou
iniciativa governamental. Afinal, alguém acredita que nas atuais
circunstâncias, um projeto como a redução da jornada de trabalho (fim da escala
6 x 1) pode levar as massas às ruas? Ora, as maiorias sabem que o covil de
ladrão (parlamento) é o terreno menos favorável para conquistar direitos no interior
de uma república burguesa em frangalhos!
Finalmente, a denúncia
de Lula contra o “discurso de ódio” – uma quinquilharia importada do mundo acadêmico
europeu e expressão da impotência política do progressismo decadente no continente
– é incapaz de mobilizar na periferia capitalista as forças necessárias para derrotar
a ofensiva da direita cada dia mais forte. De resto, nutrida durante décadas na
mentira do “Lulinha paz e amor”, responsável por êxitos eleitorais
necessariamente passageiros, porém, considerada pela concepção parlamentar de
política uma fórmula de validez eterna, o progressismo desprezou solenemente a
ira dos miseráveis que de fato constituem a absoluta maioria do povo
brasileiro.
O encontro de Barcelona
não terá qualquer incidência na consciência das massas latino-americanas.
Tampouco poderá restaurar antiga vitalidade da socialdemocracia europeia
convertida, na prática, em “gestores das mazelas neoliberais”. A solidão
política dos progressistas europeus contava com a ilusão de que a presença mesmo
pálida de representantes dos “condenados da terra” poderia empresar certo hálito
mobilizador em suas filas. Esqueceram que também aqui, aquele discurso cínico tampouco
é capaz de enfrentar os demônios que ajudou a criar.
domingo, 29 de março de 2026
A verdade e as razões do pragmatismo de Boulos
A corrente lulista Revolução Solidária decidiu permanecer no PSOL após perder a votação no Diretório Nacional do partido ao recusar a Federação com o PT. Os argumentos para adotar a aliança com o PT e também para permancer no partido mesmo contrariados em sua pretensão, obedecem a interesses bem particulares que passam batidos no jornalismo burguês jamais interessado em oferecer análise mais rigorosa da natureza da decisão.
O PT é partido hegemônico na esquerda liberal. Mais ainda: a hegemonia que de fato exerce sem vacilação e escrúpulos, orienta a ideologia e a praxis política - sob razão de estado e orientado pela concepção parlamentar de política - que alimenta não somente seus simpatizantes e filiados. O pragmatismo decorrente de sua hegemonia domina todos os partidos que se julgam à esquerda do petismo.
Ora, o argumento na nota oficial a corrente afirma categoricamente:
"Uma saída imediata destas figuras do PSOL tornaria praticamente impossível ao partido ultrapassar a cláusula de barreira, levando à sua inviabilização institucional".
O oportunismo político dessa corrente produziu, finalmente, uma molécula de verdade pois, nas condições atuais, a mudança com mala e cuia para o petismo partidário representaria, de fato, um duríssimo golpe nos que permaneceram no PSOL. Entretanto, uma molécula de verdade não é, obviamente, toda a verdade. A Federação com o PT implicaria em dificil disputa numa eleição em que os petistas e lulistas de todas as orientações possuem enorme apetite eleitoral, especialmente em São Paulo, o coração burguês do país. Ademais, o petismo é uma máquina eleitoral com relativa eficácia e o PSOL apenas aprendiz das artimanhas inerentes a legislação e aos costumes da disputa pelo voto. De resto, o petismo em geral e Lula em particular sabe da utilidade do PSOL para manter sua hegemonia e se não pode ter o controle total do destino de uma aliado de alma, sabe que pode contar sempre com ele, inclusive quando "atua" com uma dose de "rebeldia" própria de toda juventude. Por fim, a despeito de estar ou não coligados, todos são lulistas desde sempre e, creio, para sempre!
A viabilidade institucional do PSOL é importante para a hegemonia petista em geral e lulista em particular. O Partido como um todo - e não somente àqueles mais à direita - julgam que a vida é ruim com Lula e muito pior sem ele! Em consequência, todas as corrrentes consideram que a "derrota do neofascismo" é a primeira e mais nobre tarefa de qualquer pessoa que diante do espelho de seu banheiro se julgue de esquerda. Danem-se os fatos. Assim pouco importa que nesses anos todos, o petismo jamais logrou criar na sociedade brasileira e nos trabalhadores em particular, uma força social capaz de fazer frente a ofensiva da direita no país. Pouco importam os fatos e menos ainda um projeto pois o bordão que orienta os dois bandos resume-se ao conhecido "meu mundo por um mandato"!
A supervalorização dos mandatos é decorrência direta da concepção parlamentar de política e, nas atuais circunstâncias, pouco importa se o nobre deputado ou senador é radical ou moderado. Ambos, a despeito da beleza do autorretrato, atuam no interior da enorme crise da república burguesa cada dia mais repudiada pela maioria do povo em todos seus poderes. Alguém poderia imaginar que o STF e seus ministros mais saídinhos até ontem considerados pela cúpula petista como úlitma garantia do regime liberal burguês que atende pelo pomposo e simpático nome de "democracia", estariam hoje na boca do povo como exemplos inaceitáveis de corrupção?
De resto, mais temerário ainda, é a esquerda liberal atuar na "defesa da democracia" em abstrato como se, de fato, com semelhante bordão pudesse criar um antídoto contra a ameaça "fascista" cuja função consiste na afirmação da paralisia política com os fantasmas terríveis destinados à obstaculizar a necessária passagem da consciência ingênua para a consciência crítica, única capaz de captar a iracundia da maioria do povo para um radicalismo de esquerda indispensável para bater no campo das disputas eleitorais e ideológicas a ofensiva da direita.
No final das contas, todos vão com Lula no primero turno, tal como estamos afirmando desde sempre. Vão com Lula os devotos lulistas, os petistas "conscientes"; vão com Lula os que temem o "fascismo" e todos aqueles que juram de pé juntos que não haverá amanhã quando o atual presidente, finalmente, se recolher aos seus aposentos a que tem direito todo octagenário. E também vão com Lula àqueles que simulam independência e "radicalismo" na vã tentativa de figurar como "críticos" nos estreitos limites do espirito republicano em frangalhos derivados da profunda crise da república burguesa e de um governo que aprofunda a dependência do país turbinando o rentismo e a sacramentando a miséria e a exploração dos trabalhadores.
segunda-feira, 16 de março de 2026
O PSOL como plataforma eleitoral
O PSOL recusou a Federação com o PT e a decisão foi apresentada pela maioria vitoriosa como afirmação da "identidade" socialista do Partido e em não poucos casos como "independência" política em relação ao governo petucano mas o recurso não mais possui o dom de iludir Acompanhei a argumentação dos dois bandos em disputa seguindo a máxima do sardo Antônio Gramsci: ser justo com os adversários e colher os melhores argumentos de cada um deles.
Há notório exagero e boa dose de simulação no processo. O PSOL, ao contrário do que afirma o bando derrotado, não possui qualquer divergência em relação ao apoio incondicional ao governo petucano Lula/Alckmin e basta observar tanto os disciplinados lulistas no comando do partido quanto os considerados rebeldes na oposição, para constatar o comportamento padrão: nenhum deles ousa atacar no parlamento burguês qualquer medida do governo mesmo aquelas consideradas as mais terríveis como o teto de gastos, a política entreguista da Petrobrás, as privatizações massivas em curso com apoio de suculento financiamento público ou, finalmente, os apetitosas planos safra que turbinam a força econômica e política da fração agrária da burguesia. Ademais, tanto os "combativos" do PSOL quanto os "lulistas" desfrutam e ao mesmo tempo são prisioneiros da mesma "base social" e, portanto, mantém acirrada disputa eleitoral com com o PT.
Na resolução aprovada por maioria quando a chapa petucana venceu Bolsonaro, a participação de membros do Partido no governo estava vetada. Entretanto, no ponto 10 da resolução então aprovada aparecia uma exceção:
"O PSOL apoiará o governo Lula em todas as suas ações de recuperação dos direitos sociais e de interesses populares. Estaremos presentes nas trincheiras do parlamento e nas lutas do povo brasileiro, combatendo a extrema-direita e defendendo o governo democraticamente eleito, mas o PSOL não terá cargos na gestão que se inicia. Ainda assim, compreendemos que a indicação de Sonia Guajajara, como liderança do movimento indígena, para o ministério dos povos originários é uma conquista de extrema importância para uma luta tão atacada por Bolsonaro e deve ser respeitada pelo partido."
https://psol50.org.br/file/2022/12/PSOL-COM-LULA-CONTRA-O-BOLSONARISMO-E-PELOS-DIREITOS-DO-POVO-BRASILEIRO.pdf
A representação alegórica do indigenismo sem raízes nos povos originários capta votos nos centros urbanos e, portanto, necessita de cuidados especiais pois soma no coeficiente eleitoral. Entretanto, tal como reza o ditado popular, "onde passa o boi passa a boiada": em outubro do ano passado foi a vez de Boulos assumir um cargo no governo petucano com total e entusiasta apoio da maioria e a recomendação da minoria para que o futuro ministro se licenciasse do Partido. Contudo, especulações recentes indicam que ele pode mesmo assumir a filiação ao PT, decisão que apenas formalizaria antiga adesão incondicional que mantém à Lula desde o inesquecível "boa noite presidente" no inicio de um debate presidencial na TV na qual sua candidatura obteve, finalmente, desempenho no mínimo vexaminoso.
A trajetória do PSOL merece reflexão mais apurada, longe do tradicional "todos são iguais" do senso comum e da apologia que seus membros produzem como ideologia destinada a processos eleitorais.
No terreno programático, desde seu nascimento o PSOL não avançou uma molécula por razão simples, pois, de fato, jamais teve qualquer compromisso real com afirmar um programa de transformações destinada a superar o capitalismo dependente rentístico. Na prática sua aparição foi uma revolta nos marcos ideológicos da esquerda liberal e uma vã tentativa de não se confundir com o fracasso histórico do petismo na ilusória pretensão de garantir cidadania à maioria dos brasileiros nos marcos da ordem burguesa. Os sucessivos governos do PT - com Lula ou Dilma - aprofundaram a economia política do rentismo a despeito das políticas filantrópicas sob o invólucro de políticas públicas que, de fato, não somente mantinham a maioria sob o tacão de ferro da superexploração da força de trabalho mas também multiplicavam a apatia política e a alienação dos oprimidos. Nesse contexto, o PSOL não esboçou a menor intenção de rivalizar sequer no terreno parlamentar com o petismo e muito menos na necessária disputa ideológica. No limite, tentou funcionar com baixo perfil numa sorte de consciência crítica do governo sem jamais tocar na figura de Lula e nem em pesadelo se opor ao seu governo. Nem mesmo no atual mandato - quando qualquer dúvida sobre o caráter liberal em todas as áreas se confirmou até mesmo para os mais otimistas - seus parlamentares ousaram qualquer crítica ao presidente da república nem mesmo no interior do covil de ladrões que atende pelo pomposo nome de congresso nacional.
Nascido de uma dissidência parlamentar no primeiro governo Lula, o tempo não tardou em demonstrar o quanto aquela decisão continha de certa carga moral e apenas algumas moléculas no propósito de criar de fato uma alternativa partidária para a esquerda que não somava com o primeiro governo Lula, indiscutivelmente, um governo ainda considerado com benevolência como de "conciliação de classe" para utilizar o jargão dos descontentes. A propósito, Lula e Alencar entraram aprovando uma reforma da previdência contra direitos históricos dos trabalhadores, fato gerador da dissidência parlamentar de petistas com profunda fé.
Na verdade, não demorou muito tempo para a vida comprovar que tanto o alarde quanto as esperanças abrigadas na novidade não poderiam ser superiores a consciência ingênua dominante na maioria dos partidos da esquerda. Em consequência, não ocorreu nenhum escândalo ou mesmo indignação quando lentamente alguns de seus membros assumiram funções de estado num governo que não possui exigência intelectual ou relevância política para compor seu ministério. O recente conflito com as etnias do Rio Tapajós (assim a imprensa deu a conhecer a luta dos povos indígenas) revelou não somente a inutilidade de Boulos e de Sonia Guajajara pois não somente as mentiras e os silêncios de ambos sobre o conflito ficaram meridianamente claros, como também a firme e inquebrantável decisão dos povos originários responsável, finalmente, para impedir o que denominam "privatização dos rios", uma exigência da economia exportadora que informa o capitalismo dependente desde sempre. Ao ocupar as instalações da multinacional Cargil, os povos indígenas deixaram claro as opções ao governo: assumir um massacre ou retroceder por enquanto daquela decisão. Também elucidou a radical oposição entre a suposta representação parlamentar dos indígenas na figura de Sonia Guajajara e o movimento real da luta indígena em defesa de seus direitos!
Aos cínicos restou a afirmação de que o governo de Lula sempre esteve disposto ao "diálogo" e foi sensível as reivindicações dos povos indígenas; em consequência, o presidente desistiu de levar adiante a proposta da fração agrária e comercial do capital contra os povos indígenas. A rebeldia de alguns parlamentares do PSOL se limitou a breve visita a Santarém e a solicitação para que o governo retirasse o decreto; além, é claro, das tradicionais fotos para as redes digitais mas, em nenhum momento, a crítica severa ao governo das multinacionais. Afinal, todos sabiam que mais de 1.000 indígenas de quase 20 etnias tinham dado um xeque mate no governo petucano cuja sensibilidade para as classes subalternas ressurge apenas em anos eleitorais. No balanço geral, os dois lados eram cativos do governo embora os ministros do PSOL exibiam a tradicional servidão aberta à Lula.
Em sua recente trajetória o PSOL se afirmou como uma plataforma eleitoral e renunciou a necessidade de afirmação de um partido socialista não somente distante do liberalismo de esquerda em geral mas em franca oposição ao PT e seus governos. Não há que alimentar ilusões: a concepção parlamentar de política dominante nos dois bandos em disputa eliminou o horizonte estratégico necessário para afirmar o radicalismo político no Partido. A recusa da Federação, portanto, não é fruto da afirmação socialista para o futuro do PSOL e menos ainda produto da independência em relação ao governo. A decisão deve-se exclusivamente ao cálculo eleitoral pois até mesmo os neófitos sabem que o apetite, a experiência eleitoral e especialmente o fundo partidário e eleitoral é gordo para o PT e, se não é desprezível para o PSOL, não é potente o suficiente para enfrentar a maquinaria dos pesos pesados do petismo ávidos pelo parlamento. De resto, como sempre ocorre, nas vésperas das eleições presidenciais, o PT "radicaliza" a retórica sem jamais romper seu compromisso de fé com a classe dominante.
A chamada filiação democrática que permitiu a entrada de Boulos no PSOL no prazo limite para se candidatar nas eleições de 2018 exibiu ainda para os mais resistentes que a disputa para levar o Partido para o radicalismo político estava esgotado. Ademais, revelou também que o suposto de que dirigentes de movimentos populares poderiam ser o combustível necessário para outorgar caráter de massa à experiência partidária estava igualmente liquidada. Portanto, quando hoje vejo antigos entusiastas da entrada de Boulos naquela disputa interna para eleger seu candidato a presidente manifestando decepção com sua trajetória rumo a adesão completa ao petismo e em particular a submissão à Lula, não posso deixar de acusar que o erro consiste mais no processo do que no personagem. Ou seja, o suposto segundo o qual um Partido se orienta pelos movimentos populares ou responde a sua lógica sempre foi e será inapelavelmente falsa! Um Partido digno desse nome e apegado tanto a História do país quanto a defesa de seu destino socialista, não pode vacilar em afirmar sua vocação e compromisso com a Revolução Brasileira senão nos marcos da ruptura com o sistema partidário vigente, do radicalismo político que encarne o ódio e desespero das classes populares e, finalmente, do nacionalismo revolucionário. Um partido dirigente não é e nem nunca será um somatório de movimentos populares!
Os argumentos de ordem doutrinária ou mesmo a tentativa de lutar por um partido fora do grande esquema eleitoral da república burguesa em crise, finalmente, não mais existe. O PSOL é apenas uma plataforma eleitoral destinada a abrigar quando necessário e segundo conveniências eleitorais dominantes em seu interior, qualquer candidatura. Nesse contexto, a crítica ao governo Lula deve ser recusada e as baterias devem ser dirigidas contra a direita liberal. O ardil é tão simplório quanto falso: qualquer crítica ao governo favoreceria inapelavelmente a ofensiva da direita em curso no país que, sem rigor algum, o liberalismo de esquerda chama de "fascismo" ou "neofascismo".
Portanto, o debate do PSOL sobre as exigências da legislação eleitoral necessárias para superar a cláusula de barreira capaz de garantir a existência institucional do partido expressou o domínio da concepção parlamentar em todas as correntes no seu interior. Nenhuma delas postulou a ruptura com o governo Lula e nem mesmo uma crítica aberta pela perspectiva de esquerda de outrora acusando o governo de praticar sem qualquer limitação a economia política do rentismo. O quadro não é menos patético para aqueles que pretendem "revelar" a "contradição" existente entre atender as demandas sociais por um lado com o objetivo de avançar para um programa desenvolvimentista e a defesa sagrada do teto de gastos como se Lula e Haddad não fossem conscientes do "problema"!! A impotência em ação aparece também quando algum desavisado com ares de consciência critica pretende alertar para a imprudência de sucessivas medidas governamentais capazes de comprometer a reeleição de Lula como se o presidente não tivesse tomado há muito tempo o caminho da direita na tentativa de ganhar as bases conservadoras capturadas até agora pelo ultraliberalismo bolsonarista. A disputa pela hegemonia política numa sociedade de classes subdesenvolvida não decorre da disputa eleitoral; ao contrário, somente um programa orientado pelo radicalismo político poderia recuperar terreno diante do avanço cada vez mais sólido da direita nas eleições. É claro que a exigência para tal é precisamente a crítica sem limites a república burguesa corrupta e violenta que oprime a maioria do povo. De resto, também é claro que a esquerda liberal morrerá aferrada à Lula e ao petismo notoriamente incapaz de promover reformas políticas e econômicas capazes de restaurar a fé das maiorias no espírito republicano.
Não arrisco palpite sobre o resultado eleitoral porque estamos ainda longe da eleição. Contudo, a direita segue no comando das ações e notável é sua força ideológica e a consistência eleitoral mesmo após condenação e prisão de Bolsonaro. Na prática, diante da putrefação da república burguesa que não poupa a decadência do STF, do parlamento burguês e do próprio presidencialismo degradado por todos os ocupantes da cadeira presidencial até agora, o terreno é mesmo fértil para golpes cada vez mais duros da direita liberal. O radicalismo - uma arma dos oprimidos e explorados - segue na mão da direita. O sistema político inerente a republica burguesa em crise é o epicentro de todos os problemas aos olhos da maioria da população que já manifesta acentuada descrença no processo eleitoral capaz de ignorar solenemente apelos em favor desse ou daquele deputado ou senador e também de um outro candidato presidencial.
A eleição que se avizinha nada terá de inédita, portanto. A força da oposição entre "democracia e fascismo" que dominou o discurso da esquerda liberal desde a vitória do protofascista Bolsonaro em 2018 esta por demais desgastada para gerar entusiasmo eleitoral após uma montanha de enganos e mentiras praticadas por Lula durante seu mandato. Afinal, as promessas benevolentes de extração popular - fim do teto de gastos, nacionalização dos preços da Petrobrás, recuperação da Eletrobrás, revogação da reforma trabalhista, prioridade na educação e saúde, entre outras - foram finalmente negadas por decisões de um ministério medíocre e a condução presidencial que tão somente reproduz a política econômica exigida pelos rentistas e mantém sob o controle de Washington a política externa do país.
O inicial desafio do PSOL - e de qualquer outra tentativa de criar um partido necessário para conduzir a iracundia popular atualmente capturada pela direita - não poderia reivindicar ou nascer do fracasso histórico do petismo e menos ainda do apoio sistemático aos governos petistas, mas precisamente de sua negação radical. A longa e inexorável diluição da promessa do PSOL na vala comum da esquerda liberal a partir de uma concepção parlamentar de política chegou ao seu final e pouco importa o número de deputados que conquistarão nas próximas eleições.
segunda-feira, 22 de setembro de 2025
A marcha dos democratas
As manifestações realizadas em várias capitais do país no domingo (21/09) despertaram otimismo e surpresa nas filas da esquerda liberal. O registro otimista fica por conta dos defensores "críticos" do governo Lula e constitui prova incontestável de uma "tese" simples: enquanto o presidente alega que não há correlação de forças suficiente para dar um giro à esquerda no governo petucano (Lula/Alckmin), as manifestações teriam, ao contrário, revelado que, sempre e quando convocado, o povo responderia e tudo poderia ser diferente. Nesse caso, as manifestações "provam" sem contestação que um fósforo num barril de pólvora poderia jogar tudo pelos ares! Ou ainda que água e azeite não se misturam! Não é uma revelação?
A surpresa anuncia que o número de participantes em todo o país - na Avenida Paulista o protesto reuniu segundo o método uspiano 42,4 mil pessoas - abriu as alamedas para a volta da esquerda às ruas. Um novo tempo, uma nova conjuntura. A propósito de números, recordemos que no último 7 de setembro, Malafaia, Tarcísio e a direita reuniram no mesmo local 42,2 mil pessoas, que, segundo a análise da esquerda liberal, revelaria que a ofensiva político-ideológica da direita encontrava seus limites e não mais exibia a vitalidade de outros tempos - quando em fevereiro de 2024 reuniu nada menos que 185 mil segundo o Monitor da USP - marcando, finalmente, inevitável perda de vitalidade e capacidade de mobilização social. Nesse contexto, a manifestação da esquerda liberal alcançou ontem o patamar mais baixo da direita liberal. Na prática, superou-a por 200 participantes.
Entretanto, o que de fato motivou a manifestação de ontem? A resposta é simples: a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Blindagem e o projeto de anistia negociado no interior do covil de ladrões destinado a livrar Bolsonaro e seus comparsas militares da cadeia. A primeira pretende nada menos do que proteger os parlamentares das ações do STF e exigiria autorização do parlamento para que qualquer um de seus membros seja processado não importando a natureza do crime cometido. A anistia costurada nos bastidores é derivada também da ofensiva da direita e está destinada a livrar Bolsonaro e seus militares da cadeia ou pelo menos conquistar a drástica redução de suas penas determinadas pelo STF sob comando de Alexandre de Moraes.
Ninguém pode omitir que, no covil de ladrões, a proposta da PEC da Bandidagem logrou 12 votos do PT (além de 4 abstenções), e contou também com vários votos dos partidos da "base aliada" de Lula, como o PDT, o PSB... De resto, nada surpreendente, a rejeição contou com o voto e militância até mesmo de parlamentares de partidos da direita (Novo e Liberal) que não vacilaram desde o primeiro momento em votar contra a impunidade. O texto aprovado na Câmara em dois turnos contou com 353 votos a favor e apenas 134 contra no primeiro turno e 344 favoráveis e 133 contrários no segundo turno. Uma "lavada" em favor da bandidagem! Já no dia 20 - antes mesmo do protesto de domingo (21 de setembro) - vários deputados comunicaram seu "erro" e, diante das críticas nas redes, anunciaram a boa nova: mudaram sua posição, votarão contra a medida e, portadores de nova consciência, trabalharão para sua derrota. Após as manifestações de ontem, é previsível que o ânimo parlamentar tenha mudado um pouco mais e novos "arrependimentos" apareçam.
O comando da esquerda liberal nas ruas foi e seguirá sendo do PT. O presidente do Partido se limitou a registar que a "posição majoritária do PT" foi de derrotar a PEC embora não tenha passado pela cabeça dos "dirigentes" o tradicional recurso à disciplina partidária com o usual recurso de "fechar questão". Após as manifestações de ontem em SP, Edinho se limitou a registrar seu apoio sem, contudo, convocar seus filiados para a manifestação! Na verdade, a convocatória dos atos de ontem partiu de artistas, organizações populares, Ongs e/ou parlamentares "rebeldes" da base da esquerda liberal e, especialmente, da firme determinação da Globo e CNN em praticar um jornalismo que manufatura a opinião pública contra todos aqueles que pretendem sabotar o estado democrático de direito. Lula, fiel à sua trajetória e seus compromissos com a classe dominante, tampouco convocou o povo e se limitou, post festum, ao registro numa rede digital que estava "ao lado do povo brasileiro. As manifestações de hoje - disse o presidente, NDO - demonstram que a população não quer impunidade, nem anistia. O congresso nacional deve se concentrar em medidas que tragam benefícios para o povo brasileiro". Enfim, o presidente se mantém fiel ao sistema político da república burguesa em sua crise terminal e nem mesmo diante de medidas extremas da direita liberal se atreve a convocação popular. Zero surpresa!
Nas filas da esquerda liberal, entretanto, as ilusões reforçaram a consciência ingênua, especialmente entre seus "radicais" ou os chamados "críticos" do governo petucano. As ilusões não são propriamente ingênuas, pois exalam propósito: pretendem êxito as eleições parlamentares do próximo ano. Na prática, embora "críticos", estão todos filiadas ao "conceito" de Lula e da cúpula partidária petista que é preciso fazer maioria no congresso porque, como sabemos, a força que impede as reformas sociais destinadas a favorecer o povo encontram na câmara e no senado, sólida maioria contrária. Assim, reza o conto de fadas, o governo até pretende atender ao povo e avançar para reformas estruturais, mas não pode fazê-lo porque colheria derrotas e, no limite, estaria ameaçado de destituição. Nessa linha, o presidente não é um representante das classes dominantes, mas um refém da maioria parlamentar de "direita" que, na prática, impede conquistas sociais que o regime liberal burguês deveria oferecer ao povo.
A natureza ultraliberal do governo petucano não entra em questão. Na realidade, os "críticos" de esquerda ainda acreditam que, de fato, o governo está em disputa ou, pior ainda, que a mobilização das ruas permitiria disputar a orientação do governo mesmo contra a convicção e compromisso liberais de Lula e Alckmin. Em consequência, agregaram à marcha dos democratas, outras bandeiras como, por exemplo, o fim da escala 6 x 1, a exigência da isenção de IR para quem ganha até 5 mil reais, a redução da taxa de juros, a tributação de lucros, dividentos, heranças e propriedade, entre outras medidas. Além, é claro, da reeleição de Lula em 2026, sem a qual o mundo desabaria. A motivação essencial dos atos de ontem foi, sem dúvida alguma, o protesto contra a PEC da Bandidagem e da Anistia a Bolsonaro. Portanto, o conflito permanece cativo da oposição entre o STF e o covil de ladrões que atende pelo generoso nome de Congresso Nacional. A despeito do otimismo e da alegria de seus principais personagens encantados e surpreendidos com a própria presença nas ruas, a esquerda liberal não conseguiu e não conseguirá criar um movimento de massas sem a ruptura com o atual governo. Ora, o governo, por sua parte, nem mesmo em pesadelo pretende romper com a orientação "neoliberal" da política econômica, o apego ao conceito de segurança hemisférica dos Estados Unidos que orienta a política externa aqui e menos ainda a ruptura ou a busca de uma fissura na coesão burguesa que mantém a hegemonia rentística do desenvolvimento capitalista no Brasil.
O governo petucano apenas reproduz as forças inerentes ao desenvolvimento capitalista rentístico preservando as formas democráticas de uma república burguesa que é incapaz de praticar as reformas no sistema político (financiamento dos partidos, independência e harmonia entre os poderes, eleições razoavelmente limpas e democráticas, liberdade de expressão cativa dos monopólios de comunicação, etc). Nessa linha, simulando a defesa da soberania, é beneficiado pela ofensiva da direita ultra liberal encabeçada pelo protofascista Bolsonaro cuja atuação acentua a corrupção parlamentar, degrada a sacrossanta liturgia inerente ao espirito republicano em crise terminal, exibe a vassalagem ao imperialismo estadunidense como virtude patriótica e não vacila em romper com as formas tradicionais de representação. O "fôlego" da estratégia da esquerda liberal consiste, portanto, em evitar as formas mais bárbaras anunciadas pela direita liberal como se fosse possível reconstituir as virtudes da república burguesa e de sua prática parlamentar corrupta. Conclusão: quando exibe "vitalidade" nas ruas não faz menos que preservar o sistema político, a reprodução ampliada da dependência e a miséria e exploração de nosso povo sem tocar nos nervos da dominação burguesa e sem abrir um novo horizonte para as lutas das maiorias oprimidas e exploradas.
A questão democrática é antigo problema para a esquerda. O extrato liberal amplamente dominante em suas filas jamais tocou no nervo da dominação burguesa e se limita a preservação do regime liberal burguês. Na verdade, nas condições do capitalismo dependente - e com mais razão na sua fase rentística - a eventual vitalidade da esquerda liberal implicaria colocar em xeque o regime político com todas as reivindicações da classe trabalhadora, que, sabemos, não podem ser atendidas nos marcos da periferia capitalista latino-americana. Eis a dialética da revolução na ordem e contra a ordem burguesa emanada das grandes lutas históricas da década de sessenta do século passado, esquecida pela rendição ideológica e o oportunismo político inerentes à concepção parlamentar de política da esquerda liberal e a redução do conflito de classes ao moralismo filantrópico, incapaz sequer de mitigar os efeitos mais perversos e desumanos a que está submetida a imensa maioria dos trabalhadores.
Finalmente, uma palavra sobre o delírio provocado pela volta da esquerda liberal às ruas. Em plena campanha para seu regresso ao parlamento, José Dirceu interpretou as manifestações de ontem como expressão da "rebelião da juventude" e, de olho nas eleições parlamentares do próximo ano, bradou que o "Brasil mudou" com a jornada domingueira cujo destino é a mudança do "congresso nacional porque é o congresso que segura as reformas". Em síntese, uma "revolução pelo voto". A despeito de sua longa trajetória, o futuro deputado federal e membro do diretório nacional do PT não está imune as ilusões que afetam de maneira indiscriminada a absoluta maioria que ontem marchou pela democracia e em defesa do decoro parlamentar. Não ignoro que a eventual derrota da PEC da Bandidagem e da Anistia a Bolsonaro representará um fôlego adicional na disputa parlamentar e na eleição de jovens e antigos defensores da democracia e suas formas republicanas. Entretanto, tampouco essa "renovação" poderá livrá-los da aceleração da crise da república burguesa em seu curso cada dia mais violento; ademais, nenhum movimento de massas poderá emergir se não for dirigido contra o atual governo que seguirá praticando - agora com mais força e astúcia do que antes - a economia política do rentismo e a defesa das instituições burguesas cuja crise não pode evitar e muito menos superar em nome da democracia. A marcha dos democratas realizada nesse domingo não pode criar um movimento de massas porque essencialmente pretendia fortalecer o atual governo.
Revisão: Junia Zaidan
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
O discurso crítico de Marx
Bolívar Echeverría é um marxista desconhecido no Brasil e Virada
do século é seu primeiro livro publicado em português (Editora da UFSC). Nasceu no Equador
(Riobamba, em janeiro de 1941, e faleceu no México, em 5 de junho de 2010), foi
professor da faculdade de filosofia da Universidade Nacional Autônoma do México
(UNAM) durante muitas décadas como expressão de um marxismo cujo primeiro livro
lançado em 1986 não deixava dúvidas: O discurso crítico de Marx.
Portanto, antes mesmo da queda do muro de Berlim – cidade onde viveu dias
intensos ao lado de Rudi Dutschke na década de sessenta – Bolívar resgatou a
perspectiva crítica de Marx e do marxismo contra a hegemonia estalinista e a
sociologia positivista então dominante nas filas da esquerda. Entretanto, o
leitor não deve se enganar sobre o essencial, pois Bolívar não praticou uma
exegese cujo obtivo sempre foi fugir da luta de classes e da perspectiva da
revolução social em nome da reflexão sobre preciosismo conceitual inerente a
obra de Marx. Ao contrário, com profundo apego a realidade social latino-americana,
toda sua obra foi dedicada a elucidar os dramas e opções da esquerda aqui e
agora em nosso continente e um chamado eloquente para que, finalmente,
assumisse a perspectiva crítica inerente ao marxismo em geral e a obra de Marx
em particular.
A crítica da cultura foi em muitos sentidos um ponto central da obra de Bolívar Echeverría, razão pela qual o resgate e reflexão do barroco – mais precisamente do ethos barroco – ocupou sua atenção com o objetivo de compreender temas inerentes a nossa particular formação social como a estética barroca e a mestiçagem cultural. Assim, a modernidade capitalista em curso na América Latina desde 1492 recebeu uma abordagem crítica destinada a elucidar algo essencial a todo projeto revolucionário na periferia latino-americana: o esforço político e teórico não poderia ter como o horizonte a realização das tarefas inconclusas da promessa liberal inerentes ao capitalismo dependente, mas, ao contrário, indicar claramente que na origem, nos próprios países centrais, a promessa liberal era em si mesma indesejável. Em consequência, as forças da esquerda latino-americana não poderiam orientar ou fundamentar sua práxis política ao horizonte permitido pelo liberalismo, mas, ao contrário, revelar que em sua fonte originária, aquele liberalismo – tanto o antigo quanto o moderno – eram duas versões incapazes de tirar a maioria da população das terríveis condições de vida e da quase completa alienação cultural na qual estão afundadas. De resto, mais que incapazes, qualquer versão do liberalismo constituía precisamente a fonte da opressão e alienação da maioria da população de todos os países da América Latina.
A crítica marxiana da cultura ocupou, portanto, grande parte
da obra de Bolívar Echeverría num terreno em que não faltam alertas sobre os
descuidos do marxismo. Contudo, se a crítica da cultura é, de fato, um terreno
de difícil e necessário acesso, ninguém pode ignorar a notável contribuição do
marxismo latino-americano – de Adolfo Sánchez Vázquez a Bolívar Echeverría –
para a definição da cultura e as profundas implicações políticas das “opções”
culturais. Nesse contexto, o trato da identidade recebeu do marxista
equatoriano fecunda perspectiva ao versar sobre a modernidade e a branquitude
longe dos modismos identitários alienantes importados dos Estados Unidos como
ideologia de negação da mestiçagem, de recusa do próprio, de rechaço a nossa
vital realidade social e da necessária libertação da escravidão intelectual que
parece dominar de maneira irremediável a cena político-cultural. Bolívar não
vacilou em apontar que essa tendência indicava na verdade uma enorme
desconfiança da teoria que em não poucos casos expressava um “horror a teoria”
que atravessa a pesquisa científica dos fenômenos culturais. Portanto, no
primeiro ano do século atual publicou Definición de la cultura, livro no
qual aprofundou as hipóteses contidas no seu original Las ilusiones de la
modernidad lançado no distante 1995, oportunidade na qual lançou desafios
teóricos e políticos ainda abertos a sua plena realização.
No conjunto, as importantes obras de Bolívar Echeverría aliaram
o conhecimento cuidadoso da perspectiva marxiana com o tratamento crítico
destinado aos teóricos frankfurtianos que sem dúvida também exerceram certa
influência intelectual em seus trabalhos sem, contudo, perder de vista os
problemas humanos desde uma perspectiva genuinamente latino-americana. A
recuperação do materialismo marxiano jamais recusou a indispensável análise da
circulação capitalista e a reprodução da riqueza social contida nos esquemas de
reprodução de Marx, rigor este tão incomum nos supostos críticos do autor de O
Capital que pretendem, ingenuamente ou não, descartar a análise da economia
como se essa pudesse ser representada pelo economicismo vulgar.
O leitor tem as mãos um livro cujo objetivo é a análise do
século que vivemos a partir da revisão de nossas melhores heranças teóricas e
políticas, da recusa ao senso comum e o pragmatismo rasteiro que o informa e da
valorização da teoria marxiana necessária para tirar a esquerda da América
Latina das ilusões próprias e alheias que a mantém numa condição apenas
testemunhal na imensa crise que se desenvolve sob nossos pés.
