segunda-feira, 10 de junho de 2024

Lula comanda o assalto ao Estado

 

O Estado é o comitê de negócios da burguesia, afirmou Marx em 1848. A despeito da autoridade, a verdade é que a sentença nunca gozou de plena aceitação no movimento comunista. Na Europa, não faltaram intelectuais, movimentos e partidos que muito rapidamente descartassem tanto as certezas quanto a crítica certeira de Marx e assumissem sem qualquer inibição a luta no interior do Estado não somente porque era possível, mas, sobretudo, porque seria necessário. 

O revisionismo teórico ganhou força política quando alguns socialistas contestaram as teorias de Marx logo após a morte de Engels em 1896. O mais famoso deles - desde logo não único - foi Eduard Bernstein quem atacou frontalmente a perspectiva anunciada pelos fundadores do socialismo revolucionário ao indicar que o capitalismo abria possibilidades imensas a todas as classes (Las premisas del socialismo y las tareas de la socialdemocracia). O ataque revisionista obviamente não poupou elogios a Marx mas indicou que sua imensa contribuição teórica foi possível apesar de Hegel. Um pouco mais tarde (1896-97) em polêmica com Kaustky, Rosa Luxemburgo e outros socialistas, Bernstein sapecou: "para mim, o que comumente se chama objetivo final do socialismo não é nada, e o movimento é tudo". Astuto, Bernstein afirmava que seu revisionismo não era anti-marxista mas, ao contrário, apenas um esforço para erradicar os resíduos utópicos que julgava existirem na teoria de Marx e na dialética hegeliana em favor da "ideia de desenvolvimento" ou o conceito de evolução

O conto é longo mas recordei essa polêmica a propósito da “securitização” da dívida promovida pelo governo Lula, que, obviamente, não ganhou os noticiários e, sintomaticamente, nem mesmo a atenção do espírito crítico do petismo ou da bancada do PSOL em suas redes digitais. O silêncio sobre esse assalto ao Estado praticado à luz do dia merece reflexão. A cobrança de impostos sobre "blusinhas" e as privatizações das praias ocuparam a atenção de todos nesse campeonato infinito de pequenas causas.    

Na virada do século XX, a linha política dos partidos políticos socialistas e comunistas europeus jamais abandonou Bernstein a despeito da linguagem ancorada em citações de Marx ou Engels e não poucos elogios a Lenin. É fácil observar que para aqueles partidos outrora portadores de milhões de votos, a Revolução Russa teria sido uma espécie de acidente da História não apenas irrepetível mas também indesejável, especialmente nociva quando considerada na perspectiva de "assalto ao poder" e  vã tentativa de extinguir o Estado. Os novos profetas afirmavam que o Estado capitalista conferia possibilidade de luta no seu interior e o progresso burguês permitiria distribuir os frutos da produtividade do trabalho entre todas as classes ainda que de maneira desigual. Na linguagem vulgar dos economistas e sociólogos, um jogo de ganha-ganha. 

Na periferia capitalista a aceitação das teses europeias originadas no revisionismo da socialdemocracia alemã aterrissaram suavemente, a despeito da dura realidade das maiorias. Nos países subdesenvolvidos e dependentes, o Estado, ao contrário do caráter "democrático" verificado na Suécia, Alemanha ou França, não somente era um comitê de negócios da burguesia mas se constituía também num gendarme contra a menor rebeldia das classes populares. A realidade revelou que a disputa no interior do Estado era não somente adversa, mas, de fato, muito dura e, no limite, impossível. A classe trabalhadora conseguia a duras penas assegurar por algum tempo algumas conquistas e, na maioria dos países e épocas, tinha na prática de proteger-se da ofensiva estatal geralmente violenta organizada pelas frações de classe da burguesia.

Ora, como reza o bordão popular, na periferia a vida é bem mais dura. A dependência e o subdesenvolvimento alteram profundamente a função do Estado responsável pela captura do excedente compartilhado entre a acumulação nacional e as transferências para o exterior. O exclusivismo de classe no controle do Estado é indisfarçável e particularmente agudo nos tempos de crise. No Brasil, a esquerda liberal evitou a abordagem crítica e sepultou a reflexão sobre a dependência e o subdesenvolvimento em nome da "crítica" ao "neoliberalismo", uma expressão da melancolia desenvolvimentista mesmo quando a dependência econômica, científica, tecnológica e cultural assumiu feições e conteúdo nunca antes vista.      

A consciência burguesa possível na periferia capitalista defendia a industrialização como saída para os terríveis problemas do subdesenvolvimento. Agora, nem isso. O desenvolvimento capitalista assumiu sua forma rentística e o mercado mundial cancelou para sempre a possibilidade de um novo ciclo de acumulação industrial na periferia latino-americana. A Ásia comanda o processo em escala mundial ocupando o lugar que América Latina sustentou na segunda metade do século XX. 

Os "marxistas" na atualidade buscam antes que explicações, justificativas ao anunciar a "acumulação por espoliação", a retomada da "acumulação primitiva" e outras quinquilharias ideológicas, todas destinadas a ocultar a diferença específica de nossa terrível situação. Na mesma toada, os liberais de esquerda invocam  as possibilidades do "sul global" contra o "norte global" para evitar a análise do imperialismo. Os artifícios abundam e a impotência analítica fortalece a paralisia política das classes subalternas sob hegemonia burguesa em governos da esquerda liberal.

No Brasil, a força do desenvolvimento capitalista rentístico, combina a superexploração da força de trabalho e o assalto permanente ao Estado sob múltiplas formas de maneira sistemática. O Estado, deixou de ser uma arena possível e necessária de disputa como queriam, entre outros, Carlos Nelson Coutinho. E a disputa pelo "fundo público" na pobre formulação de Francisco de Oliveira é menos que uma ideologia legitimadora para a luta nos marcos da ordem burguesa: é o refúgio da impotência. O assalto ao Estado é uma necessidade da acumulação rentística que possui na dívida pública um instrumento valioso para a acumulação capitalista na periferia em sua fase rentística. 

Os keynesianos, esmerados na arte de ocultar a incapacidade da burguesia industrial em dar um rumo desenvolvimentista para o país, evitam o tema da eutanásia do rentista, tal como recomendou seu guru Keynes. A respeito, a maioria dos economistas e comentadores da esquerda liberal sempre descartou a auditoria da dívida interna porque apostavam na capacidade de modelar a dívida pelo controle da taxa de juros. A realidade é cruel. Agora, todos os dias podemos ver alguém bradar na tribuna pública a indignação destinada a criticar a taxa de juros como um obstáculo aparentemente irracional diante da necessidade de "crescimento da economia brasileira". Entretanto, o rentismo não dá folga e dobra a aposta governo após governo. Não se trata, de fato, de algo conjuntural; ao contrário, as taxas de juros representam precisamente a racionalidade dos capitalistas numa fase do sistema em que o capital produtivo nacional ou multinacional aqui instalado não pode competir com o progresso burguês asiático baseado em elevadas e constantes taxas de produtividade do trabalho e mercados imensos. Em consequência, o assalto ao Estado é uma alternativa racional, uma consequência necessária para a manutenção da ordem burguesa e a reprodução ampliada do capital sob controle da fração financeira. 

A crença nas virtudes da administração democrática da ordem burguesa alimentada pelo liberalismo de esquerda sob condução de Lula e o PT nada tem de ingênua. É expressão dos interesses da classe dominante até onde for possível manter a constituição e a liturgia republicana antes da explosão social e do protesto anárquico das classes populares. Nessa semana o parlamento (um verdadeiro covil de ladrões) aprovou pela via rápida e silenciosa a securitização da dívida - algo que nem mesmo Bolsonaro tentou mas Lula não vacilou em impulsionar - fato que demonstra de maneira cristalina a decisão do governo petucano em avançar com propósito no esvaziamento da direita liberal e da ultra direita de extração protofascista, realizando cada uma das "reformas" das frações do capital responsáveis pela superexploração da força de trabalho e da política social de caráter filantrópico em curso, única possível nos marcos da política de austeridade orientada pelo teto de gastos. 

Ainda assim, a adoção do programa ultra liberal, antes de fortalecer as bases eleitorais da esquerda liberal e ampliar a sustentação social do governo, não será capaz de conter a dinâmica em curso orientada pela lógica de situações extremas em que o povo sempre perde e a classe dominante ganha todas. A ideologia do "ganha-ganha" - uma quinquilharia ideológica útil para os acadêmicos e a burguesia - não resiste ao menor movimento da conjuntura. De resto, quando e se necessário, a direita não vacilará na implantação de uma modalidade qualquer de estado policial com as terríveis técnicas de terrorismo de estado conhecidas nos ciclos das ditaduras latino-americanas.    

Nessa semana, o parlamento aprovou o antigo projeto do senador tucano José Serra (PLP 459/2017) que estabelece a securitização da dívida. A decisão não surpreendeu apenas pela rapidez da tramitação mas também pela retumbante vitória da proposta tucana com 384 votos favoráveis e apenas 59 contra. O texto está agora sob a mesa de Lula para sanção presidencial. Ora, nem mesmo os ingênuos poderão bradar "veta, Lula!" diante do apoio massivo que o partido do presidente (PT) deu ao assalto ao Estado!

A matéria é de inteiro interesse do governo e das frações financeiras versadas no assalto ao Estado por múltiplas vias (privatizações, política cambial, monetária e especialmente fiscal, controle da Petrobrás, etc). Os apologéticos de Lula, de maneira bem discreta, indicaram a racionalidade da medida uma vez que os créditos estatais agora securitizados eram de "cobrança impossível" nos marcos do sistema fiscal dominante, razão pela qual a entrega de "créditos podres" pode ser um bom negócio... para todos! Ora, seria apenas uma curiosidade ver desenvolvimentistas manifestarem ceticismo sobre a capacidade de arrecadação do Estado não fosse manifestação de cinismo e miséria política o desprezo com que esse enorme assalto ao Estado é realizado à luz do dia. O apoio governamental representa um contraste eloquente diante das ações que o liberal Haddad - sob orientação de Lula - comanda para arrochar o salário dos funcionários públicos, avançar de maneira acelerada para suprimir o mínimo constitucional em saúde e educação, manter o grosso  da carga tributária no lombo dos trabalhadores e promover isenções de todo tipo para os grandes capitalistas.

A Confederação Nacional dos Municípios - a representação dos pedintes e falidos diante do governo central - comemorou a conquista de olho na promessa: contas alegres indicam que a tacada implica  exercer controle sobre 5 trilhões de reais! A lei prevê a criação de uma "sociedade de propósito específico" (SPE) destinada a salvar os municípios da falência pela via do assalto aos impostos! Uma beleza! A aprovação de semelhante entidade em Belo Horizonte em 2010/2011 ganhou destaque mas não era um caso excepcional; antes dos mineiros, goianos e cariocas já caminhavam na mesma direção. Agora, os nobres parlamentares, conscientes da responsabilidade social, decidiram que 50% da operação será destinada a financiar a... previdência social! Tudo ocorre como se os impostos fossem, de fato, "créditos podres" e não fluxo líquido corrente que ficará nas mãos de empresas privadas. 

Lula, sujeito descolado na vã promessa, anunciou na Marcha dos Prefeitos (21 de maio) que a aprovação do projeto poderia render até 180 bilhões de reais aos municípios. Ora, segundos os cálculos dos prefeitos, divulgados pela Auditoria Cidadã da Dívida, as prefeituras devem à previdência social aproximadamente R$ 248 bilhões e 81% dos 2.180 municípios com regime próprio possuem pesados débitos com a previdência social que tocariam na casa dos R$ 312 bilhões! Bueno, então fica combinado: o prefeito - futuro deputado - não recolhe a previdência, acumula débitos considerados ideologicamente de impossível cobrança e, em consequência, para "solucionar" o problema, cria uma sociedade destinada a cobrar os débitos que na medida de 50% serão destinados a cobrir gastos com a... previdência! Não é genial? 

A campanha pela Auditoria Cidadã da Dívida alertou os nobres deputados e senadores sobre o projeto de lei "eivado de obscuridades, redigido de forma cifrada, ininteligível e sem a devida clareza acerca de seu verdadeiro objetivo referente à realização de operação de crédito ilegal, o desvio do fluxo de arrecadação tributária e geração de prejuízos aos cofres públicos com danos irreparáveis às gerações atuais e futuras". Ademais, alegou que há previsível risco pois o "projeto propicia a realização de operação de crédito ilegal, o desvio de arrecadação tributária e, adicionalmente, prejuízos aos cofres públicos e às gerações atuais e futuras". O esforço da ACD foi, obviamente, em vão entre outra razões porque é muito difícil convencer alguém que está sendo pago para não ser convencido.

O mega assalto ao Estado não ganhou as manchetes nem qualquer atenção da esquerda liberal. O governo manteve a mais absoluta discrição, a imprensa calou, os partidos silenciaram, as redes digitais (instagram e twitter) dos nobres deputados e senadores estavam ocupados com "coisas mais importantes" como, por exemplo, o "imposto sobre as blusinhas" made in China. Inclusive os deputados do PSOL - que votaram acertadamente contra o mega-roubo - mantiveram escrupuloso e absoluto silêncio sobre essa questão estratégica! Nessa semana, o PSOL e seus deputados registraram muitos eventos: a hospitalização da deputada Luiza Erundina, a exuberância da parada LGBT em São Paulo, a rusga entre dois influencers no covil de ladrões (André Janones e Nikolas Ferreira) entre outras preciosidades. Nada, absolutamente nada sobre esse mega assalto ao Estado! Nem na página do Partido figura uma notícia e menos ainda a análise sobre as terríveis consequências para o Estado e o futuro das santificadas políticas públicas que dizem defender. A propósito, no dia 28/05, parlamentares do PSOL promoveram uma audiência pública mas sintomaticamente o evento não ganhou espaço nem na propaganda dos mandatos e menos ainda na página do Partido! Como explicar tal omissão senão como expressão da cumplicidade com o governo Lula? 

A direita liberal organizada no Partido Liberal (PL) e o União cerraram fileiras contra o projeto. Ademais, alguns deputados do PDT e do MDB, também negaram apoio à fração financeira: míseros 59 votos. Uma vez mais Lula consegue folgada maioria  para atender os interesses da fração financeira que seu governo sustenta. Quem disse que a minoria no parlamento é um obstáculo ao governo?

Na esquerda liberal existem aqueles que figuram tão somente na triste condição de "espírito crítico" do petismo. Na prática, é uma forma de apoiar Lula, seu governo entreguista e rentista exibindo algum "escrúpulo". Alegam que se trata de um "governo em disputa". Ademais, recordam que a prioridade nacional é manter a luta contra o "neofascismo", razão pela qual a criação de uma radical oposição de esquerda terminaria (!) apoiando involuntariamente a direita. Além da miséria política e moral, a verdade é que a defesa do governo é cada dia mais cínica e impotente pois Lula atua segundo a partitura da fração financeira que comanda a coesão burguesa e determina cada ação do governo mas sem qualquer compromisso com sua permanência. Lula e Alckmin estão autorizados a praticar a filantropia católica incapaz de redimir as maiorias da miséria e da exploração crescentes por meio de "políticas públicas" sem elevado custo para o Tesouro e as finanças públicas. A dívida pública e os impostos estão sob controle estrito do rentismo e o governo atua de bom grado não somente para preservar cada privilégio mas garantir vida longa para seus interesses.

A disputa no interior do Estado requer tanta lucidez quanto a luta armada nas selvas tropicais. A defesa abstrata da democracia praticada pela esquerda liberal leva águas para o moinho da direita que segue avançando a despeito da última derrota eleitoral. A concepção parlamentar de política - aquela mesma que Engels chamou de cretinismo parlamentar -  orienta cada passo da esquerda liberal e sua influência nos cada dia mais impotentes "movimentos sociais" transformados, na prática, em comitês eleitorais. Ora, o que está em questão nesse momento é a inutilidade prática dos parlamentares da esquerda liberal, pois o avanço do programa ultra liberal é pleno a despeito do "apoio crítico" que dizem praticar em relação ao governo Lula em nome da luta "contra o fascismo". 

A ultra direita não perde oportunidade para desmoralizar o parlamento tanto nas polêmicas inúteis quanto nas realmente importantes. Assim, banaliza, agride, ofende e exibe aos olhos de milhões a pobreza e miséria da prática parlamentar dominante. A presidência das comissões - da Educação, por exemplo - permite ao deputado Nikolas Ferreira a desmoralização permanente do covil de ladrões, recurso que expressa a hegemonia política que, de fato, já possuem na sociedade e através da qual multiplicam sua força aos olhos de milhões de brasileiros. Assim, o bate-boca, a simulações de agressões físicas, a "valentia" dos discursos, entre outros artifícios, constituem recursos valiosos para reforçar nas maiorias a convicção de que o parlamento é realmente um obstáculo a seus interesses. Em resumo, o parlamento atua na partitura de Bolsonaro com seus métodos e propósitos.   

A esquerda liberal, ao contrário, cativa do governo, de Lula e do PT, atua na direção oposta dispendendo esforço inútil na dignificação da atividade parlamentar como se fosse possível "salvar a democracia" diante de uma república burguesa em escombros! Em consequência, durante o governo Bolsonaro, qualquer redução de dano ou derrota parcial das iniciativas da direita, os deputados corriam para as redes digitais e gritavam o ridículo "vitória!" como se fosse possível salvar a república fortalecendo sua aparência. Ademais, treinados na estranha arte do "diálogo", pretendem vencer o "debate" parlamentar armados de suposta racionalidade cartesiana como se a disputa fosse de "narrativa" e jamais ancorada em interesses concretos! Assim, ao contrário da truculência, oferecem a delicadeza; diante do arroubo, preferem a "racionalidade". Em todos os casos, lamentam a ausência dos antigos tribunos da direita liberal "civilizada" dos tempos em que tucanos e petistas tinham comunhão de programa, disputas eleitorais acirradas e diferenças parlamentares pacificadas nas comissões e restaurantes luxuosos. Entretanto, aos olhos de milhões, também aqui o parlamento figura como obstáculo pois o vulgar Lula e seu partido repetem todo dia que carecem de maioria para atender as demandas populares. Ora, nessa disputa, a vitória da direita já é completa e definitiva!      

Não poderia ser diferente pois cada medida de Lula fortalece precisamente as frações de classe que não vacilarão - em caso de necessidade - de abrir todos os horrores do terrorismo de Estado na defesa do rentismo dominante tal como fizeram em 1964 ao inaugurar sua ditadura de classe. O silêncio cúmplice que a esquerda parlamentar mantém agora em relação a mais uma medida estratégica do rentismo fomentado por Lula (securitização), não faz menos do que alimentar hoje o monstro que nos devorará amanhã.

Não há alternativa senão a construção radical e inexorável, aqui e agora, da oposição aberta ao atual governo. O terreno já está, obviamente, ocupado pela ultra direita liberal, mas ela é incapaz de oferecer alternativas às maiorias e, em consequência, não pode entregar o que oferece ainda que tem o poder de operar a ruptura com o sistema político-jurídico. O radicalismo político esta sob controle da direita porque ela entendeu que o governo encabeçado por Lula pretende conduzir seus interesses de classe com alguma condescendência diante dos trabalhadores. Entretanto, a direita liberal jamais cultivou ilusões sobre democracia, tolerância, diversidade, pluralismo e outras quinquilharias ideológicas com as quais a esquerda liberal gasta tempo precioso destinando esforço para a mera reprodução parlamentar. O terreno da disputa não é, definitivamente, o parlamento. No covil de ladrões a parada já está decidida, como demonstra a conquista do rentismo com a securitização da dívida e o mega assalto ao Estado, que garante vida longa à fração financeira da classe dominante.  

Aos discípulos desavisados de Bernstein que julgaram a disputa no interior do Estado como o caminho mais fácil para redimir a maioria dos trabalhadores da miséria e da exploração em que se encontram, restaria lembrar que o Brasil - país periférico e subdesenvolvido - não é a Alemanha. E também é importante recordar que o Estado - algo radicalmente diferente de governo! - é o terreno por excelência da classe dominante que não admite aprendizes no comando ainda que reconheça o valor ideológico da presença caricata da esquerda liberal para seu próprio benefício. A luta nos marcos da ordem burguesa não pode prescindir da luta contra a ordem burguesa! Não alimento esperança de que essa lição histórica receba aprovação dos partidos eleitorais da esquerda liberal. O teste da vida, real e cruel, somente ele, poderá colocar as coisas no seu devido lugar contra as crenças infantis que reinam entre aqueles que com autenticidade, ingenuidade ou oportunismo pretendem superar esse vale de lágrimas. 

Revisão: Junia Zaidan

segunda-feira, 3 de junho de 2024

ANDES e Proifes no espelho lulista


Na longa transição da ditadura para o regime liberal burguês, o sindicalismo combativo cresceu sustentado por duas forças fundamentais. A primeira – o economicismo – foi uma resposta até certo ponto “espontânea” contra a superexploração da força de trabalho, pilar do desenvolvimento capitalista dependente; a segunda força – a defesa intransigente da autonomia sindical diante do Estado e dos partidos – era uma resposta necessária diante do sistema bipartidário criado pelo AI-2, que opunha Arena e PMDB, um obstáculo à existência de partidos operários e socialistas. Embalado no progresso burguês, cuja expressão maior foram as taxas de crescimento do PIB de dois dígitos (13,97% em 1973), emergiu o sindicalismo combativo contra os pelegos garantidos pela legislação sindical da ditadura e seus crimes contra os nacionalistas, trabalhistas, socialistas e comunistas que sofreram o exílio, a tortura e a morte.

A atual geração de políticos profissionais da esquerda liberal (Lula no comando) é produto daquela articulação entre o economicismo e a defesa intransigente da autonomia sindical contra o tacão de ferro da ditadura de classe (1964-1985). A criação do Partido dos Trabalhadores (PT) – com a resistência inicial de Lula e os sindicalistas em criar um partido proletário! – fortaleceu a defesa intransigente da liberdade e autonomia sindical, um valor supremo à toda a esquerda, principalmente os petistas e sindicalistas nascidos naquele período.

A adesão do PT à ordem burguesa consolidou a completa submissão do partido à razão de estado e, em consequência, mesmo que de maneira vacilante, os sindicalistas assumiram com rapidez o “pragmatismo”, ou seja, aquela conduta que renuncia a luta pelo socialismo e reduz a política ao refúgio da moral ou à impotente política pública destinada à redução de danos num mar de exploração e violência. Cada qual à sua maneira, mesmo quando torciam o nariz, a verdade é que lenta e inexoravelmente os petistas se reconheceram como filhos bastardos de Francis Fukuyama, um obscuro acadêmico estadunidense que decretou a “fim da História” em benefício de Washington. Ocorre que não vivemos nos Estados Unidos ou na Europa e, portanto, na periferia, a vida é bem mais difícil.

A adesão pragmática à ordem burguesa parecia expressão da mais absoluta racionalidade e, de quebra, recebeu não só a aprovação, mas também o elogio da classe dominante (com a popularidade medida em votos), na qual todos os ex-sindicalistas combativos ocupando cargos em governos (municipais e estaduais) definiam a política como “a arte do possível”. Após a primeira vitória do PT na disputa presidencial (2002), a submissão do partido e dos sindicatos a uma razão de Estado – algo muito distinto de um partido de Estado – parecia confirmar a astúcia e as aparentes vantagens da luta dentro da ordem sob comando de Lula, expressão mais vulgar e visível dessa “concepção”. A despeito dos “erros” hoje inocultáveis, deixou uma legião de desavisados que atualmente paralisa o combate sindical e constitui um obstáculo importante para a superação de nossos problemas.

Na greve nacional do setor federal da educação em curso, o colapso da herança petista-lulista apareceu sob a luz do sol e revela os desafios imensos que temos pela frente na afirmação da universidade necessária para a superação da dependência e do subdesenvolvimento. Na aparência, o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) e a Federação de Sindicatos de Professores de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico (PROIFES) representam polos opostos na luta sindical, mas não é preciso muito esforço para perceber que são, ambos, filhos do mesmo pai.

O Proifes ganhou força em 2007 na gestão de Fernando Haddad no MEC, destinado a sabotar o “radicalismo” do ANDES/Sindicato Nacional então acusado de pretender nada menos do que a queda do governo de Lula/Alencar. Após a reforma da previdência que Lula promoveu contra nós (2003), o Andes abandonou a CUT e  vinculou-se à Central Sindical e Popular Coordenação Nacional de lutas (CSP-Conlutas), central sindical à esquerda da CUT, onde permaneceu até o 41o Congresso, realizado em fevereiro de 2023, quando a maioria dos delegados (262 x 127) determinou – com forte apoio petista – a ruptura com os “radicais”.

Portanto, desde sua aparição e fortalecimento sob orientação do governo petista, nunca alimentamos ilusões em relação ao Proifes: uma farsa completa! Entretanto, ao contrário de sua miserável situação atual (apenas cinco ou seis sindicatos alinhados na “federação”), durante os governos petistas, o Proifes já contou com maior apoio e foi útil a seus governos. A decadência da federação pelega acelerou após a reeleição de Dilma em 2010 e posterior destituição em 2016: mesmo sob o cínico bordão da “Pátria Educadora”, a ex-presidente cortou radicalmente os recursos para a educação para o orçamento de 2016 em nada menos do que... R$ 10 bilhões!! Desde então, o gráfico do investimento e custeio para as universidades é uma violenta queda, origem da gravíssima crise de infraestrutura que sofremos.

Os governos posteriores – Temer e Bolsonaro – seguiram na mesma linha tal como demonstram os estudos disponíveis na página do ANDES-SN. A sucessão de ministros petistas – Cid Gomes, Renato Janine Ribeiro e Aloizio Mercadante – revelou que o antigo orçamento bilionário do MEC deixava de ser um lugar confortável para carreiras políticas em tempos de austeridade. A destituição de Dilma representou forte revés naqueles que entre nós apostavam no “diálogo” com o governo e a recusa com o “radicalismo” tradicional alimentado por nosso sindicato nacional. Michel Temer, o escolhido por Lula para ser vice da ex-presidente, assumiu na plenitude e sem vacilação a política de austeridade fiscal (uma verdadeira guerra de classes contra a educação!). Em consequência, o futuro do Proifes estava completamente comprometido pois sua eficácia dependia essencialmente da disposição governamental no “diálogo” com a categoria.

A base petista nos professores foi lentamente percebendo que a maré tinha virado e sob o argumento liberal e fantasioso da “luta contra o fascismo”, atuou em consequência. Nesse contexto, sob razão de partido, ocorreu a reaproximação petista com o “radicalismo” do ANDES quando o lulismo na base do ANDES fortaleceu a mobilização pela a ruptura de nosso sindicato nacional com a CSP-Conlutas em 2023 e, na sequência, na última disputa pelo controle do sindicato,  exibiu sua força não somente apresentando uma chapa competitiva.. Hoje, cada partido tem sua central e mesmo diminuído em suas forças, o ANDES não deixa de ser atrativo para cultivar a fidelidade ao lulismo.

O Proifes, nascido da costela petista, sempre caracterizou sua existência na mais absoluta servidão voluntária. No jargão pedestre: um sindicato pelego. Agora, sob circunstâncias mais difíceis e sem o encanto do passado, constitui apenas um artifício jurídico para a razão de Estado arrochar salários e limitar a luta por novas conquistas. O ANDES, filho legítimo e rebelde do sindicalismo combativo petista, amargou dias difíceis, mas se manteve firme na defesa do útero que lhe deu vida. Em consequência, atua nos marcos da ordem, mas mantém firmeza na defesa corporativa de nossos salários e carreira, na suposição de que assim, sustentamos a existência da universidade no Brasil sob o bordão tão anacrônico quanto inútil da “universidade pública, gratuita, laica de qualidade e socialmente referenciada”.

Na greve atual o confronto entre os dois filhos do petismo ilustra nossas misérias e limites. A miséria do Proifes não requer muito esforço para se elucidar; basta reconhecer que a “federação” possui menos de cinco ou seis sindicatos filiados a despeito de pretender um protagonismo impossível mesmo com a simulação de falar pela dor dos professores exibindo uma “responsabilidade” que ninguém mais possui. O ANDES, orientado desde sempre pela antiga tradição e escolado na luta contra a queda dos salários e a deterioração da carreira, exibe os dentes, mas sem a antiga aderência. Aqui na UFSC – para dar apenas um exemplo – não conseguimos paralisar a maioria e não foram poucos os erros estratégicos cometidos pelo comando local. Além da divisão, o ANDES não consegue atuar com sentido de vanguarda, lucidez e realismo diante das novas condições; de resto, vacila feio diante do espelho lulista.

Foto: assessoria de imprensa APUFSC
A ultima reunião do Comando Nacional de Greve com o governo, não poderia ter sido mais expressiva do fim de linha daquela tradição combativa e do trágico encontro dos dois irmãos diante do espelho lulista. Em nome do governo, um tal Feijó mostrou a feição acabada de um sindicalismo sob razão de Estado; “firme e hábil”, segundo indicam alguns de sus companheiros, ele conduziu as “negociações” com mão dura sob orientação de Haddad, o ministro liberal da economia. Em maio de 2023 Feijó foi festejado como novo secretário de relações do trabalho, anunciado por Esther Dweck. A carreira do rapaz autoriza seu lulismo: metalúrgico da Ford, coordenador da primeira comissão de fábrica, secretário geral entre 1999 e 2002 no sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e cargos na CUT, além de “assessor especial” do presidente nas duas primeiras gestões de Lula. É homem de confiança do presidente, mas sem exagero podemos caracterizá-lo como serviçal, pois a submissão dos cutistas a Lula não admite ambiguidade.

Na mesa, o Comando Nacional de greve sob condução de uma delegação do ANDES reivindicava a continuidade das negociações concluídas pelo governo por meio de um miserável e-mail enviado à nossa entidade nacional. Na oportunidade (27 de maio), o tal Feijó não vacilou em afirmar enfaticamente o “limite do governo”, o fim das negociações e, de quebra, o acordo com o Proifes. Os protestos e apelos de nossa entidade para arrancar um reajuste qualquer nesse ano (3%, por exemplo), não comoveram o ex metalúrgico. A frustração de nossos representantes foi completa como podemos ver no instagram do Andes e, em parte, no comunicado número 52 do Comando Nacional.

Há algo valioso na indignação que orientou o protesto de nosso Comando Nacional na reunião com o secretário de relações do trabalho do governo Lula. No auge da rebeldia, um brado originado no fundo da alma de um membro do Comando Nacional perguntou a Feijó se o governo daria “um tiro no pé” ao assinar o acordo com o Proifes enquanto recusava nova negociação com o ANDES. Outra representante de nossa delegação perguntou se o governo daria as costas para uma “categoria que contribuiu muito para a eleição do governo Lula”? Um cartaz do Sinasefe foi ainda mais longe no apelo: “Lula, assuma a negociação”.

O burocrata sindical, sob razão de partido, não vacilou: “sim, vamos dar um tiro no pé”. A referida cena circula nas redes digitais e desperta indignação, mas, na verdade, é trágica. O bate-boca não é destituído de importância. Nossa representação sindical declara em alto e bom som sua importância na eleição de Lula e cobra o amor não correspondido. No entanto, sabemos que o burocrata – todos os burocratas! – não possui coração: em consequência, Feijó descarta qualquer possibilidade de atendimento e mantém a conversa com a mesma pressa dos passos que o afastam da sala onde o “diálogo” tinha se iniciado. No mesmo ritmo, os membros de nossa delegação o perseguem ávidos por qualquer ponta de esperança noutra oportunidade para arrancar algo de nossa vasta pauta de reivindicações. Entretanto, o caminhar de Feijó é pleno de convicção e desaparece nos corredores do ministério; exceto, é claro, se o chefe Lula mudar de opinião.

A indignação e o protesto moral – a expressão mais eloquente da impotência em ação, como indicou Marx – orientou nossos representantes. Numa espécie de jogral, a delegação do ANDES protestou, lamentou e como um náufrago que recebe uma boia, anunciou que no dia 3 de junho o governo confirmou nova reunião. É uma pálida e cruel versão do antigo bordão segundo o qual “a esperança venceu o medo”.

A preocupação do Comando Nacional é justificada. A greve vive, de fato, um impasse; em circunstâncias difíceis, é um teste importante para o amadurecimento político da categoria que já exibiu no passado força e vitalidade, mas cuja herança é desconhecida de uma categoria renovada e sem vida sindical ativa e fecunda. Ao contrário, os novos doutores nascem do ambiente acadêmico esterilizado no sistema de pós-graduação e distantes tanto do sindicato quanto da política em geral. Ademais, assumiram a carreira no ambiente criado pela adesão do PT à ordem burguesa com a carga de cinismo e miséria que podemos ver no Feijó e na ministra Esther Dweck, uma “professora como nós” disse alguém desavisado. De resto, o processo de “politização” é conduzido por professores educados nas bases da esquerda liberal onde Lula expressa o horizonte do possível num governo religiosamente apegado ao teto de gastos; de resto, o flerte com o identitarismo, cuja marca mais deletéria pode ser vista na adoção infantil da “linguagem neutra”, alimenta todas as ilusões no pluralismo, da diversidade, na tolerância e no “diálogo”, os valores da burguesia em tempos de paz, mas não em tempos de crise.

O impasse de nossa greve é produto de necessidades objetivas e ilusões corrosivas. A inflação degrada o poder de compra do salário, o orçamento das universidades é uma miséria e a universidade não figura como prioridade nem no discurso presidencial. A eleição de Lula foi considerada pela esquerda liberal uma condição necessária para “derrotar o neoliberalismo” e o fim da época das vacas magras para as universidades. Entretanto, o orçamento para a educação apresentado pelo novo governo foi inferior àquele deixado por Bolsonaro em pouco mais de 300 milhões de reais! Ademais, a administração democrática da economia política do rentismo convive com um mercado de trabalho marcado pela superexploração de 90% dos trabalhadores, responsável por cancelar de maneira definitiva o projeto da “universidade inclusiva” de Haddad e Janine Ribeiro, pois, entre trabalhar e estudar, o banco escolar sobra! Aos que duvidam da escolha basta ver a queda acentuada da relação candidato vaga do miserável vestibular em escala nacional. E, nós, os professores? Pois bem, a categoria – mais precisamente nossos representantes – julgavam que a eleição de Lula “estancaria o neoliberalismo” e permitiria uma importante alteração na “correlação de forças” favorável às nossas reivindicações. O reajuste linear de 9% permitido pela Medida Provisória 1170/23 em maio de 2023 renovou esperanças e a ingênua suposição de que o “governo está em disputa” motivou em larga medida o recurso à greve. Afinal, um governo que contou com o apoio massivo dos universitários não nos negaria um tratamento civilizado e próprio de “companheiros”.

A economia política do rentismo, no entanto, não tolera ilusões. Diante da adesão petista às razões de Estado, as classes dominantes perderam qualquer temor em relação ao protesto dos trabalhadores. O governo não é somente débil; até mesmo neófitos percebem que Lula e Alckmin não possuem qualquer iniciativa capaz de mudar o rumo. Ao contrário, todos os vícios acusados na campanha – teto de gastos, autonomia do BC, justiça tributária, respeito aos mínimos constitucionais em saúde e  educação, etc – são agora transformados em virtudes republicanas! Ademais, se a classe dominante perdeu o medo dos trabalhadores, o governo sabe que os “rebeldes andesianos” já incorporaram a verdade segundo a qual a vida é “ruim com o atual governo, pior sem ele”...

A coesão burguesa tem a seu favor a conversão petista ao conto de fadas segundo o qual, nos marcos da ordem burguesa, podemos alcançar cidadania ao nosso povo via programas sociais assemelhados à filantropia. Feijó, mais do que nossos representantes, conhece a lição perfeitamente. O limite é imposto por Lula e Haddad, nessa ordem! A contrário do que supõe o cartaz do Sinasefe, Lula está no comando das negociações! Ora, conceder reajuste aos professores universitários impõe a tarefa de atender também os trabalhadores técnicos administrativos. Uma concessão aqui, autoriza outra greve ali. As carreiras que ganharam polpudos reajustes são aquelas “carreiras de Estado” estabelecida por Bresser Pereira no projeto de reforma administrativa dos tucanos tragada de bom grado pelo petismo. Professores não são fiscais, nem responsáveis pelo controle das aduanas e portos e, menos ainda, policiais! A economia política do rentismo dispensa educação, cultura, ciência e tecnologia! De resto, a “prioridade” do governo são os institutos federais e não as universidades, como repete com orgulho Lula em cada nova e modesta inauguração!

A greve esta diante de um impasse. O Comando Nacional não comanda e recusa a politização do movimento. Nos informes nacionais divulgados com frequência, não existe uma avaliação sobre as possibilidades de vitória ou a necessidade de recuo. O ANDES não dirige a greve, se limita a representar a greve. As tendências políticas ou organizações que compõem a diretoria do sindicato nacional (PSOL, PCB, Petistas de coração) atuam nas assembleias locais sem, contudo, apontar um rumo para o movimento. Ora, num contexto de fragilidade política e ideológica do movimento docente, a direção não pode ser apenas uma representação das “bases” sem compromisso com o estabelecimento de novas exigências que a categoria requer para enfrentar com êxito a economia política do rentismo cuja expressão é a “austeridade fiscal” contra a educação em geral e as universidades em particular.

Ademais, a autonomia sindical – em relação aos partidos e ao Estado – deveria ser o fio condutor do processo de politização, único caminho para enfrentar a ofensiva do governo petucano contra a universidade pública em vias de extinção ou completa marginalidade. Aos que duvidam desse diagnóstico basta recordar que hoje existem mais de 3 milhões de alunos no sistema virtual (EaD) e a expansão dos Institutos Federais via emendas parlamentares ocorre sem qualquer conexão com um projeto educacional capaz de reverter a dependência científica e tecnológica do país.

Nesse contexto, a despeito do mal-estar, não cabe apoiar o voluntarismo que supõe a existência de uma greve da educação. Uma greve da educação é algo qualitativamente distinto de uma coincidência de greves! Ora, até mesmo a negociação salarial ocorre em mesas separadas e esperar alguma solidariedade efetiva entre categorias historicamente distantes e apenas unidas nas ilusões sobre as possibilidades de um governo liberal é incapaz de produzir frutos duradouros.   

Portanto, a denúncia andesiana do “acordo golpista” realizado entre o governo e o irrisório Proifes, não produz efeitos concretos. A recente carta de professores petistas dirigida a Gleisi Hoffmann – presidente nacional do PT  – expressa precisamente os limites da falta de autonomia do sindicato diante da razão de estado pois segundo a missiva a situação é “profundamente preocupante para o futuro do governo, do partido e do movimento sindical docente”. Não há como evitar um juízo sobre a origem intelectual da carta. Por um lado, o texto expressa a preocupação sincera com o “governo, o partido e o movimento”, nessa ordem! Por outro lado, é inegável que também representa mais um lance na vã tentativa de legitimação política dos professores petistas diante das ilusões segundo as quais o “governo está em disputa”. Afinal, qual o efeito de uma carta dirigida a Gleisi, a mais lulista entre os lulistas?

De resto, basta pensar que um partido sob razão de Estado e cativo de uma concepção parlamentar de política, está dominado por governadores, prefeitos, vereadores, sem qualquer compromisso ou interesse em mudar a orientação do MEC. A propósito, Lula não depende do PT; ao contrário, o PT é cativo de Lula! E, agora, para piorar, o presidente e seu governo petucano têm a seu favor a existência imaginária da “ameaça fascista”...

O lamento de nossos representantes sindicalistas, a desilusão que exibem com o “diálogo” diante de um governo insensível, a tristeza confessada abertamente, a melancólica repetição de que nossa pauta é justa, o caráter “tenso” das reuniões com Feijó, indicam que a velha ilusão com o petismo tem mil faces. No interior de nossa greve, o Proifes apenas expressa de maneira cínica o pragmatismo como virtude e “realismo”; o Andes, ao contrário, pretende a defesa de nossos salários, carreira e, na medida do possível, a recomposição orçamentária para nossas universidades. Entretanto, um movimento que não tenha total e completa independência do governo – inclusive na dinâmica do voto – estará condenado ao fracasso mesmo que agora, no apagar das velas, ainda possa arrancar uma migalha na mesa de negociação destinada antes de mais nada a manter as aparências. É possível que a greve nos deixe a dura e necessária lição das derrotas. Nesse caso, não seria a primeira vez e nem por isso devemos baixar a guarda. De minha parte, não temo afirmar que, além das perdas salariais e de carreira, deveríamos também sacrificar no altar das perdas, as ilusões na esquerda liberal, que, finalmente, nos trouxeram para esse beco aparentemente sem saída.

Revisão: Junia Zaidan

sábado, 4 de maio de 2024

Greve nas universidades: radicalizar ou negociar?


A greve nacional dos professores produziu na UFSC um falso dilema: devemos radicalizar e fortalecer a greve em curso dirigida pelo ANDES Sindicato Nacional   ou apostar exclusivamente na mesa da negociação entre o governo e as entidades sindicais da educação (Andes, Fasubra, Proifes)?

A radicalização não excluiu a negociação; ao contrário, o recurso à greve somente se justifica como meio eficaz de pressão na mesa de negociação. A greve pressiona o governo e devemos fortalecê-la para ganhar força numa negociação que, por responsabilidade do governo, é tardia e até agora muito ruim para a categoria.

No passado – não devemos jamais esquecer! – o recurso à greve era com enorme frequência um meio para estabelecer a mesa de negociação, pois os governos recusavam sem cerimônia qualquer iniciativa do ANDES para realizar acordos; na prática, os governos empurravam a categoria para a paralização. Em não poucos casos, o movimento grevista tinha que arrancar a negociação não com o ministro da educação, mas – pasmem! –, com o presidente da Câmara ou do Senado. A propósito, recordo que em algumas oportunidades o movimento recorria aos políticos “de peso” na república burguesa e, portanto, com acesso ao Palácio do Planalto (Antônio Carlos Magalhaes, Luiz Eduardo, entre outros cumpriram essa função!). Assim, por meio de parlamentares, o movimento grevista exercia alguma pressão sobre o Ministério da Fazenda.

Nas circunstâncias atuais esse artifício não tem qualquer eficácia, pois Haddad é o representante máximo da ortodoxia liberal e defensor religioso do déficit zero; de resto, no covil de ladrões, tanto Lira como Pacheco – após conquistar do governo 44,57 bilhões de emendas parlamentares – fazem coro com o ministro e atuam como guardiões da austeridade fiscal contra o povo e, em especial, contra o funcionalismo público (exceto, é claro, com o Judiciário que já consome 1,5% do PIB).

Não nos enganemos sobre o essencial. O reajuste linear de 9% concedido pela MP 1170/23, iniciado em 1 de maio do ano passado a todo o funcionalismo público nacional não foi produto da pressão ou de uma negociação do governo com as entidades sindicais. Nem radicalismo, nem negociação! O governo decidiu o aumento em função de seus próprios interesses, mas com olhos no futuro: o “folego” do ano passado era antídoto do aperto permanente decidido na transição de Bolsonaro a Lula sob a partitura do teto de gastos considerados orwellianamente pelo petismo como “arcabouço fiscal”. Na prática, aquele reajuste não recupera nossas perdas de pelo menos 25% derivados dos acordos de 2016 e 2017 e nunca respeitados pelo governo. Portanto,  os percentuais prometidos apenas compensam a inflação que sofremos, mas estão longe – bem longe! – de recuperar o poder de compra da categoria.

A ortodoxia de Lula/Haddad poderá ceder? Sem dúvida! A Polícia Federal levou 22% e os funcionários do Banco Central 23% de reajuste; a Polícia Rodoviária Federal arrancou 27% e a Polícia Penal Federal, outros 60%. Os auditores fiscais  conquistaram um “bônus de produtividade” de R$4.500,00 iniciais. O IBGE e especialmente a FUNAI conseguiram significativos reajustes na carreira com 40% em janeiro passado. Que tal?

A greve dos auditores fiscais ensina algo valioso para todos nós. O movimento eclodiu em dezembro de 2023 e durou... 80 dias! No dia 7 de março o Sindifisco anunciou que “os valores para pagamento do bônus ficam definidos da seguinte maneira: 10,19% para os meses de fevereiro a julho de 2024, com limite mensal de R$ 4.500,00 (quatro mil e quinhentos reais); 11,33% para os meses de agosto de 2024 a janeiro de 2025, com limite mensal de R$ 5.000,00 (cinco mil reais); 15,52% para os meses de fevereiro de 2025 a janeiro de 2026, com limite mensal de R$ 7.000,00 (sete mil reais) e 25% para os meses de fevereiro de 2026 a janeiro de 2027, com limite mensal de R$ 11.500,00 (onze mil e quinhentos reais)”. Portanto, mesmo não pertencendo à vala comum dos servidores públicos – representavam uma “carreira de Estado” no jargão socialdemocrata dos finados tucanos dirigidos por Bresser-Pereira – os auditores foram à luta e arrancaram agora o bônus! Não está  descartado que tenham que retomar mais adiante o movimento, caso o governo não reconheça sua assinatura num acordo onde tudo cabe, exceto a honra. Contudo, escolado na arte de negociar com governos sem palavra, o Sindifisco afirma que o acordo está limitado ao bônus e – muito importante! – nada impede que a categoria possa “se mobilizar na luta para a conquista de outras reivindicações como vencimento básico, fim das contribuições previdenciárias e busca pela integralidade”.

Ora, a negociação em curso com os professores está ancorada na promessa de aumento nos próximos anos, mas nenhum aumento agora: zero em 2024! De fato, a proposta é inaceitável até mesmo para o Proifes. Mais: é um estímulo à greve que já mobiliza mais de 40 universidades. Portanto, a despeito de promessas e eventuais acordos sobre ganhos no futuro, a questão é, como em toda a greve, o agora. Fortalecer a greve nesse momento é a única maneira de influenciar na negociação em curso em Brasília. Até mesmo o bom moço Keynes alertou que “no longo prazo todos estaremos mortos” e, em consequência, os pontos mais importantes não estão na promessa de reajuste em 2025 e 2026. Ora, diante da mais absoluta ortodoxia liberal, qual é a garantia de que o governo cumprirá o acordo no próximo ano?

Nesse contexto, devemos buscar o grau máximo de unidade entre os professores e lutar também pela máxima adesão dos professores. É um trabalho essencialmente político. A divisão entre o ANDES e o Proifes – entidade reconhecida pelo governo Lula para dividir a categoria quando o ministro da educação era ninguém menos do que Fernando Haddad em 2007 – é um obstáculo objetivo a ser superado. Até aqui, as suspeitas e fatos que marcaram a trajetória do movimento docente foram produtos de erros e acertos do ANDES. Entretanto, águas passadas não movem moinho! É preciso somar com o Andes com a mesma força  com a qual devemos exigir a renovação de sua práxis política sindical.

Qual projeto de universidade?

Há outros problemas mais graves do que o índice de reajuste. A classe dominante já decidiu a sorte da universidade no Brasil e o governo Lula/Alckmin segue à risca o roteiro. Há sinais evidentes que nem mesmo o rebaixamento do debate sobre a “função social” da universidade pode ignorar[1] . O financiamento das universidades praticado por Lula para 2024 foi inferior ao do protofascista Bolsonaro em 310 milhões!! Até agora, a ANDIFES não tem uma ação decisiva para arrancar recursos adicionais destinados à recomposição orçamentária necessária à restauração das condições mínimas para nosso funcionamento. De resto, a aposta oficial do governo – anunciada em 12 de março de 2024 – se resume à expansão de 100 novos institutos federais com a abertura de 140 mil vagas. Ademais, no MEC, Camilo Santana goza de enorme prestígio e, em consequência, em posição confortável, segue dando as cartas com orientação da Fundação Lemann. Aqui – e em todo o Brasil – as universidades exibem sua miséria na gravíssima crise da infraestrutura, nos déficits permanentes e na crônica falta de investimentos. O planejamento está morto! Em consequência, resta o miserável recurso às emendas parlamentares e a sorte de pequenas negociações no modesto balcão em Brasília. Enfim, o cenário não é nada bom.

A universidade, nas condições de um capitalismo dependente rentístico – sem base industrial e aprofundando a dependência científica e tecnológica – indica que a função social da universidade é, de fato, complementar. Na prática, a universidade presta serviços a órgãos de Estado (ministérios, estatais, fundações, etc) e busca nas empresas nacionais e multinacionais nichos para garantir seu funcionamento. Portanto, não há função estratégica para o sistema universitário no ideológico “desenvolvimento nacional”. Aos que duvidam, basta analisar com algum cuidado a proposta da “neo-industrialização” anunciada por Alckmin: não há recursos do tesouro Nacional e a “proposta” conta apenas com reduzidos recursos do BNDES. Na prática, o BNDES funciona como política compensatória de uma lumpem burguesia capaz apenas de contemplar pequenos e médios empresários longe da disputa tecnológica e migalhas para os neófitos adeptos das “start up” e do empreendedorismo.

Finalmente, a austeridade permanente contra as universidades constitui um impulso à mercantilização de todas as atividades possíveis entre nós. O pragmatismo não perde tempo e anuncia sua legitimidade: se o financiamento público é mesmo reduzido, o recurso ao privado ou a venda de serviços aos ministérios e às estatais sobreviventes ganham um ar de “legitimidade” inédito. No surrado bordão liberal, a universidade se tornou uma instituição “cara demais” para um país subdesenvolvido e dependente. A greve atual precisa ampliar o horizonte da reflexão para além do combate necessário destinado a arrancar reajuste e eventual melhoria na carreira.

O desafio do “professor novo”

O grau de regressão político-intelectual da esquerda liberal é profundo e reduziu o horizonte da luta sindical nos campi além de obstaculizar a reflexão sobre a função da universidade num país subdesenvolvido e dependente. A greve atual exibiu a imensa dificuldade dos “progressistas” em defender o elementar: nossos salários! Não poucos defensores do atual governo consideravam – e outros ainda consideram – que uma greve “contra o governo” fortalece uma modalidade de “neofascismo” que somente existe em suas cabeças! A derrota eleitoral da direita liderada até agora por Bolsonaro somente poderia ocorrer na ruptura com a economia política do rentismo, mas, ao contrário, o governo petucano segue à risca a partitura inaugurada com o Plano Real em 1994 e levada com truculência por Paulo Guedes no governo anterior.

Nesse contexto, a defesa dos salários ainda é cativa de um economicismo rasteiro (a luta dos salários contra os preços) mas não devemos desprezar que em determinadas circunstâncias pode adquirir um caráter transformador. Ora, nossa greve bate de frente com o teto de gastos adotado como virtude pelo governo Lula. O professor cativo de uma perspectiva individualista considera ingenuamente que, de fato, há algo especial em nossa profissão e, em consequência, supõe que, ao contrário dos demais servidores  públicos, ainda gozamos de prestígio social capaz de conquistar algum reajuste sem cair na vala comum do sofrimento humano. Ledo engano!! O princípio da austeridade é uma declaração de guerra contra os trabalhadores em geral e contra o serviço público em particular. Os baixos salários (90% da PEA ganha até 2,5 salários mínimos) e a dívida pública turbinam a acumulação no capitalismo dependente rentístico enquanto a consciência ingênua sonha com a volta de uma modalidade qualquer de keynesianismo impossível na periferia do sistema.

Aqui reside o caráter essencialmente político de nossa greve a despeito do economicismo dominante e da vã tentativa de poupar o atual governo de merecidas críticas! De um lado, o professor novo quer apenas seu salário e, de outro, o antigo militante petista quer agora evitar o “ataque” ao seu governo. A despeito de acusações mútuas, ambos são produto do mesmo processo. As greves – públicas e privadas – crescem em função das péssimas condições reservadas aos trabalhadores. O DIEESE informa que em 2020 foram 649 greves e em 2021 subiram para 721; em 2022 superaram a marca do milhar (1.067) e, finalmente, em 2023 novo patamar (1.132). A pressão é, portanto, anterior ao atual governo e indica um ativismo sindical ainda com “caráter defensivo”, porém com potencial diante dos aviltantes salários pagos aos trabalhadores.

A eleição da chapa petucana (Lula/Alckmin) era defendida pela esquerda liberal como necessária, um passo na derrota do “neofascismo” (seja lá o que isso significa) e uma possibilidade para a retomada da luta por melhores condições de vida e trabalho. A eleição figurava no discurso da esquerda liberal como condição para permitir melhores condições para a luta dos trabalhadores! Agora, subitamente, antes mesmo de defender seu salário, a esquerda liberal indica que a prioridade é... preservar o governo e impedir “a volta da direita”. Ora, essa concepção parlamentar de política que pretende confinar o conflito de classe cada dia mais intenso numa urna eleitoral é um caminho suicida! A “defesa da democracia” termina por legitimar um sistema político corrupto e funcional à ordem burguesa, que já conta com o repúdio de milhões de trabalhadores! Portanto, a “defesa do governo” não pode ser feita senão mobilizando e elevando o grau de consciência e autonomia dos trabalhadores diante dos partidos e do Estado! A propósito, esse era o postulado básico do PT e do sindicalismo de Lula antes de sua completa e definitiva integração à ordem burguesa!

Entretanto, o governo petucano (fusão de petistas e tucanos) goza de simpatizantes tanto no ANDES quanto no decadente Proifes. Lula aparece – para ambos! – como um perverso horizonte do possível no terreno do político como se estivéssemos, de fato, condenados a aceitar as misérias desse governo no suposto de que nenhum outro é viável nesse momento. Em nossa categoria – a despeito da desilusão manifesta, crescente e discreta – ouvi de setores da esquerda liberal a negativa de participar da greve porque estaríamos atuando contra “nosso governo”. Há também aqueles que pretendem afirmar a superioridade do governo petucano diante do protofascista Bolsonaro porque agora estamos pelo menos diante de uma negociação. É verdade que há uma negociação, entretanto, os argumentos em defesa do voto em Lula contra Bolsonaro eram precisamente porque em caso de vitória do primeiro, as condições para a luta melhorariam!

Desde uma perspectiva sindical, é preciso recordar que a fundação da CUT sob controle petista consistia justamente na defesa radical da independência e autonomia sindical. Os atuais defensores do governo esqueceram o fundamento sindical do petismo originário? Ao recusarem este princípio básico do sindicalismo nascido do protesto operário contra a ditadura, apenas confirmam o quanto estão submetidos a uma razão de estado e às graves consequências de tal orientação para a sorte dos trabalhadores. Ademais, o governo está completamente comprometido com o postulado da austeridade ultraliberal – a adoção do teto de gastos o comprova – responsável direto pela degradação do serviço público em geral e da saúde e educação em particular.

Aos que responsabilizam os “novos professores” pela situação atual e os acusam de despolitizados ou ainda de seres cativos de um miserável individualismo sem “espirito coletivo” unicamente apegados a seu pequeno mundo num laboratório semi financiado ou agraciado por algum contrato mais ou menos sólido com uma estatal ou multinacional, eu recordo que a renovação de nossa categoria ocorreu num período de ausência completa do radicalismo político e do mais absoluto desarme ideológico praticado como virtude pela antiga esquerda cuja representação máxima segue sendo o octogenário Lula. Acaso, após a miserável integração do PT e Lula à ordem burguesa com a consequente esterilização da práxis política radical, alguém poderia esperar que “jovem professor” entraria numa assembleia do sindicato com um volume de “A ideologia alemã” de Marx embaixo do braço?

O que pretendem zelosos defensores da “consciência de classe” quando responsabilizam os “novos professores” pela falta de mobilização da categoria? Ora, não pretendem menos do que isentar a “despolitização dos últimos 20 anos” propulsora da ascensão da direita que encontrou em Bolsonaro um inesperado “crítico da ordem” dominante! Acordem: ao calar sobre as misérias cada dia mais visíveis do governo e sua economia política que condena a maioria absoluta dos trabalhadores à superexploração da força de trabalho não fazem menos que deixar o monopólio da crítica para a direita!

Os baixos salários, os orçamentos sob permanente restrição, a mercantilização como aparente alternativa, o colapso da “universidade inclusiva” (Janine Ribeiro) evidente com a “sobra de vagas” e a redução acentuada da relação candidato-vaga em um sistema de ingresso (ENEM) que já deveria ter sido superado produz um evidente e justificado pessimismo nos novos professores. Como superar essa situação? No âmbito sindical, podemos retomar a reflexão crítica sobre a função da universidade num país cada dia mais afundado na dependência científica e tecnológica e abandonar definitivamente a miragem da inclusão social universitária num contexto onde os miseráveis são multiplicados pela taxa de juros mais elevada do planeta, os baixos salários e políticas compensatórias incapazes de tocar no nervo da marginalidade definitiva de milhões de brasileiros. 

Portanto, o suposto “vazio ideológico” do “despolitizado” jovem professor não é menos que um produto necessário da renúncia voluntária daquele radicalismo[2]  político identificado com o socialismo e a revolução social que era um combustível tão necessário para a politização dos colegas quanto da afirmação da universidade como instituição de Estado! Agora, diante de um sentimento de desânimo sobre o futuro e enquanto alguns professores sonham com uma temporada em Yale e Columbia, Sorbonne ou Oxford, não se dão conta de que estamos com os pés afundados num país subdesenvolvido e dependente que importa máquinas e equipamentos para a indústria, adubos para o latifúndio e não duvidaria que até mesmo a roupa intima que usam possui a marca indelével no selinho: made in China!

A greve, portanto, exibe não apenas nossas misérias, mas também as exigências de nosso desafio comum. O governo não tem projeto para o país – exceto a reprodução ampliada da dependência – e, portanto, tampouco pode oferecer algo digno para a universidade. A divisão sindical que nos enfraqueceu até agora precisa terminar de uma vez por todas, a despeito do caráter cada dia mais fantasmagórico do Proifes. Na mesma toada, o ANDES necessita da renovação de sua práxis sindical e a mais completa independência de qualquer governo. Mas essa é apenas uma condição necessária, jamais suficiente. É preciso que nosso sindicato abra um debate nacional sobre o futuro da universidade que já não cabe no surrado bordão de outras épocas (a defesa de uma “universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada”) para enfrentar níveis de dependência jamais sofridos anteriormente.

Entre a conversão liberal da antiga esquerda radical existente nos anos oitenta do século passado – agora cínica defensora da ordem burguesa e do bom-mocismo – e a brutalidade da direita capaz de atuar sem vacilação rumo a uma modalidade qualquer de estado policial, a tarefa da greve é imensa: novos e antigos professores necessitam lutar pela imediata recuperação dos salários num tempo em que a própria existência da universidade como instituição está em questão.

Revisão: Junia Zaidan

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

As confissões de Zé Dirceu

 A completa integração do PT à ordem burguesa é assunto quase proibido entre as cabeças pensantes e independentes no país. Com frequência, quando a reflexão exige um pouquinho de rigor e duas moléculas de honestidade político-intelectual, a miséria partidária visível aos olhos de milhões de brasileiros, é tematizada como fruto de circunstâncias alheias à vontade de seus líderes. Supostamente, uma obra da contingência, jamais uma opção consciente de seus antigos dirigentes e especialmente da figura de Lula. A "ala esquerda" do PT - presença apenas testemunhal da decadência política, ideológica e programática do partido - reproduz ilusões sobre a real situação do outrora considerado o "maior partido dos trabalhadores da América Latina". Aquele militante de sentimento socialista há muito temperou suas antigas convicções com elevadas doses de pragmatismo cujo resultado pode ser identificado sem muito esforço no caráter confuso do governo, na miséria da maioria de seus ministros, na completa falta de iniciativa política e, sobretudo, na continuidade da economia política do rentismo sob condução de Lula/Haddad.

Em perspectiva histórica, a antiga capacidade de formulação do PT e seus dirigentes desapareceu para sempre pois agora as instâncias partidárias se encontram sob comando de deputados, governadores, senadores e todas as demais expressões do mais rasteiro cretinismo parlamentar e dos iniciados no submundo dos pequenos negócios. Nessas circunstâncias, não é exagero afirmar que o antigo partido nascido do duro combate operário contra a ditadura e forte presença da esquerda reformista e revolucionária - derrotada em abril de 1964 e mais tarde em 1974 com o fim da luta armada -, desapareceu para sempre. Entretanto, se muitos reconhecem os méritos de sua origem, são raros aqueles capazes de afirmar sua decadência na atualidade. No limite, sob o impulso de múltiplos interesses - todos distantes dos trabalhadores - um hálito de esquerda ainda permanece na jaula lulista. Em consequência, podemos observar apelos para a "volta às bases" e declarações em favor da "antiga militância aguerrida" quando o partido se encontra completamente capturado pelo carreirismo político-eleitoral sob a rasteira argumentação "gramsciana" segundo a qual é "preciso disputar a hegemonia" nos marcos do atual sistema político. Uma farsa completa!

Em consequência, a audiência aos atuais representantes do partido - nem em pesadelo poderíamos chamá-los de dirigentes! - constituiu um exercício inútil para a compreensão do conflito de classes de alta intensidade em curso no Brasil. O PT e especialmente Lula, repete enfadonhamente o bordão que alimentou a vitória eleitoral considerada por seus cardeais necessária para abrir as portas da volta à normalidade republicana perdida com a destituição de Dilma em agosto de 2016 e a vitória do protofascista Bolsonaro em 2018. Mas esse retorno, sabemos, é impossível sem uma mudança radical na correlação de forças que o resultado eleitoral de 2022 era como alertamos muitas vezes, incapaz de produzir. Contudo, o completo e irreversível controle liberal do PT e a dedicação resoluta de Lula em filiá-lo doutrinariamente ao Vaticano e ao Partido Democrata dos Estados Unidos, impede qualquer ação necessária para enfrentar tanto as transformações do capitalismo dependente em sua fase rentística quanto para regenerar a crença das maiorias no sistema político em crise profunda.

Aqui, precisamente aqui, reside a vantagem estratégica da direita protofascista comandada por Bolsonaro na conjuntura: a incapacidade crônica do PT e Lula em oferecer uma alternativa à dupla crise anunciada acima. Ademais, o governo e seu partido é notoriamente incapaz de pensar e implementar uma alternativa real para a crise da república burguesa, mas, inclusive, em função da composição e ação de seu governo, o petismo (seja lá o que isso quer dizer) não percebe o aprofundamento da crise e a completa repulsa da maioria da população às negociatas entre Lula e o covil de ladrões representado no congresso nacional. Os representantes do PT comandam, quando muito, comitês eleitorais e as disputas internas se resumem à busca de espaço nos ministérios cujo objetivo é a repartição de influências nos estados destinados à reprodução parlamentar e à conquista de governos estaduais. A função dirigente que o  partido pretendia em sua origem, não mais existe. 

Mas, então, quem "dirige" o Partido? Ora, Lula no governo! Não é Lula quem dirige, mas Lula no governo. E quando Lula não está no governo quem, afinal, dirige o PT? Bueno, nesse caso Lula mantém o controle das decisões mais importantes porque é "o único que pode chegar" a presidência! O Partido não passa de uma plataforma eleitoral de acesso a postos nos ministérios, razão pela qual uma instância decisória jamais ousa ultrapassar os limites estreitos da linha traçada pelo presidente da república. Há muito o Partido renunciou sua autonomia frente ao governo e mantém disciplina total diante das determinações de Lula.  

A submissão do Partido à razão de Estado é, portanto, completa e definitiva. Não é ocioso recordar que  na periferia capitalista (latinoamericana), o Estado possui determinações que ninguém pode ignorar, menos ainda aqueles devotados à tarefa de lograr cidadania nos marcos da ordem burguesa. Aqui, o "comitê de negócios da burguesia" não pode sequer apresentar o mofado e anacrônico "estado de bem estar social" que a duras penas e de maneira caricata exibe reminiscências numa Europa completamente submetida aos Estados Unidos. A orfandade socialdemocrata é, inclusive para o mais ingênuo dos desenvolvimentistas, uma dura e amarga realidade.

Nesse contexto, o vice presidente nacional do PT - o deputado Washington QuaQuá do Rio de Janeiro - não representa anomalia, mas uma demonstração da vitalidade do partido na ordem burguesa; ele, de fato, não possui limites ou escrúpulos, como diz um zeloso e impotente moralista, reminiscência da juventude partidária em extinção. Entretanto, a atuação do deputado fluminense exibe a ausência das antigas virtudes que o petista exitoso (vereador, prefeito, deputado, senador ou governador) tampouco pode carregar, pois a necessidade de reprodução parlamentar tem que conviver com todo tipo de oportunismo eleitoral e um apetite insaciável típico do lúmpem a serviço da burguesia. Portanto, nada de injustiça, por favor: além de Quaquá, existem muitos outros, de igual estirpe e com semelhantes objetivos, atuando com mais requinte na mesma direção.

É nesse contexto que ainda dedico alguma atenção às analises do José Dirceu. O ex-todo-poderoso secretário geral e presidente do Diretório Nacional por muitos anos, responsável pela derrota da esquerda marxista então existente no PT e influente chefe da Casa Civil do primeiro governo Lula, caso não tivesse sido destituído, seria o candidato imbatível na disputa interna na sucessão do então presidente. A despeito de sua aptidão para o pragmatismo, Zé Dirceu mantém seletiva memória histórica e segue operando como uma espécie de "referência crítica" para os petistas mais sensíveis e desesperados com os rumos do atual governo. Ele voltou a circular na imprensa burguesa, com frequência é ouvido por empresários e parlamentares porque, como a vida ensina, ninguém sabe sobre o dia de amanhã... É claro que as ações dos tribunais contra ele limitam e de certa forma regulam uma atuação mais destacada nas instâncias partidárias, mas nem por isso ele deixa de indicar caminhos e ensaiar uma disputa mais intensa.          

Pois bem, numa recente entrevista ao Instituto de Brasilidade  (22 de fevereiro), Zé Dirceu confessa seu absoluto ceticismo sobre as possibilidade do governo petucano. Afirma sem rodeios - mas com o devido cuidado - que o governo vai fazer muito pouco nesse mandato e adianta que somente num prazo mais longo (8, 12 ou 16 anos!!) o petista angustiado poderia ter alguma esperança de um resultado melhor.  Ora, o argumento é pueril mas alimenta o apetite eleitoral enquanto tenta ganhar tempo para regenerar o PT cujo congresso esta previsto para o próximo ano. 

Zé Dirceu, maldito pela política burguesa da qual segue fiel servidor, tenta recuperar influência política e incidir na reconstrução do Partido porque conhece a trama que ajudou construir e da qual foi, talvez, a principal vítima petista. Ele fala, sugere caminhos, mas não tem instrumentos para fazer valer suas propostas no governo: nem poderá. O PT, como partido capaz de mobilizar e incidir na guerra de classes, está morto. Em 2016, diante da ofensiva burguesa sob comando da direita, ficou evidenciada a mais completa impotência para manter Dilma ou ao menos lutar sem temor e medida na defesa da ex-presidente. Foi uma derrota histórica com profundas consequências entre as quais a impossibilidade de uma mudança de rumo radical ou moderada diante da ordem burguesa e as exigências do sistema político em crise. Na ausência dessa revisão, emergiu a justificativa ideológica do "golpe", a denúncia do "anti-petismo", os brados contra a perseguição judicial de juízos corruptos (Moro), a produção midiática de um consenso contra Lula e o PT, como se os inimigos de classe estivessem abandonado um código de ética na luta política republicana!

Quais as confissões mais importantes de Zé Dirceu na entrevista mencionada?

Em primeiro lugar Zé Dirceu confessa a ausência de um "núcleo de governo claro". Ademais, não deixa de acusar o "desastre em certas áreas" de atuação e registra a incapacidade de Lula em mover a militância mesmo quando denunciou as elevadas taxas de juros: as "bases" não se moveram e a "sociedade" ignorou completamente os reclamos presidenciais. Ora, ao contrário do que afirma ZD, o governo tem um núcleo racional cujo comando é de Lula e Haddad. Na prática é o "núcleo dirigente" ordenado pelo respeito absoluto da economia política do rentismo responsável pelo "desastre de certas áreas" cada dia mais visível para milhões de brasileiros na insuficiência das políticas públicas restringidas pelo teto de gastos e a política de austeridade praticada com total zelo até aqui. Haddad, com profunda convicção, faz a defesa do déficit zero! De resto, supor que uma base fiscal distinta - colocar os ricos no imposto e os pobres no orçamento - e uma baixa gradual dos juros, poderiam alargar as estreitas margens nas quais navega o barco petista é pura mistificação. 

Na segunda confissão Zé Dirceu recusa o ônus do identitarismo. Ele descobriu que a pauta ambientalista (Environmental, Social and Governance - ESG), LGBT e da igualdade de gênero é uma política dos capitalistas. Eureka!!! As empresas multinacionais adotam e multiplicam a ideologia liberal ao redor do mundo mas aqui, no Brasil, segundo suas próprias palavras, o "ônus ficou com a esquerda". É uma descoberta motivada pela baixa densidade eleitoral do identitarismo, a despeito de imensa propaganda diária dos monopólios dos meios de comunicação! Eis a razão pela qual Lula exigiu discretamente candidatos com alguma liderança popular e não alguém preto, gay ou mulher! De fato, o identitarismo rasteiro e alienante - expressão particular de mobilidade social de extração individualista - divide o que restou da esquerda e permite a agitação ideológica da direita na imprecisa e conveniente "guerra de costumes". É a deriva identitária denunciada e analisada com certa precisão por Elizabeth Roudinesco. O reconhecimento do problema por Zé Dirceu é tardio, porém útil para um gradual descolamento da agenda identitária; de resto, o PT já resolveu em larga medida o problema ao terceirizar o identitarismo via PSOL, (PC do B também) cada dia mais assemelhado a sublegenda no "horizonte" lulista.

Ora, o identitarismo é ideologia importada dos Estados Unidos, mais concretamente do Partido Democrata, mas o apetite eleitoral e o financiamento externo manteve fidelidade de muito "movimento social" e algumas "lideranças" a quinquilharia ideológica gringa. No entanto, a análise da disputa eleitoral no país imperialista revela de maneira cristalina as razões pelas quais Obama venceu nos Estados Unidos recusando abertamente o identitarismo em defesa astuta e realista da condição americana! Contudo, em sua sucessão, o Partido Democrata viveu breve primavera identitária nas internas de 2016 quando o senador Bernie Sanders tentou mas perdeu para Hillary Clinton. Na ultima disputa o identitarismo de Sanders ensaiou mas sequer chegou à convenção final. O Partido Democrata amargou uma fragorosa derrota para Trump e Biden seguiu a fórmula de Obama para vencer, mas a notícia apenas começa a chegar aqui...   

A terceira confissão não é uma novidade mas nem por isso deixa de ter importância: ZD declara o governo petucano de Lula/Alckmin como centro-direita; um governo de centro-direita com participação da esquerda! É uma pancada de realismo na cabeça do petista ingênuo e também do lulista religioso. É óbvio que a declaração não desperta consciência alguma no sentido crítico pois os dois bandos estão treinados na estranha arte do pragmatismo capaz de justificar qualquer ministro ou aliança desde que mantenha Lula na cadeira presidencial. Zé Dirceu pretende que o congresso do partido no próximo ano retome algo da iniciativa política a ponto de poder influenciar tanto na composição do governo quanto na orientação das políticas públicas na suposição de que é possível recuperar a capacidade de mobilização da sociedade com o despertar do PT. Entretanto, o compromisso de vida de Lula com a economia política do rentismo aliado às transformações do capitalismo no país que seus sucessivos governos produziram, a derrota histórica de 2016 e a renúncia do projeto socialista em nome da miserável administração democrática da república burguesa e da crise de seu sistema político impedem na raiz qualquer esperança nos mais otimistas.

A quarta confissão é uma novidade, pois reconhece que os países capazes de garantir certa estabilidade política e com alguma capacidade de intervenção nas disputas mundiais possuem uma coesão interna que aglutina forças sociais e, quando necessário, é também capaz de reprimir seus adversários reais ou potenciais com eficácia. Na linguagem cifrada, são países que lograram um sistema político centralizado, uma verdadeira miragem nas condições atuais nas quais Lula e o PT reforçam abertamente uma modalidade perversa de parlamentarismo e, em consequência, sabotam em nome do "realismo político" todas as virtudes potenciais do presidencialismo reconhecidas historicamente pelo povo brasileiro. É a defesa abstrata da democracia contra todas as formas totalitárias imaginárias! A despeito das evidências que qualquer um pode ler no jornalão burguês, Zé Dirceu se mantém cativo da criatura que ajudou a fortalecer e concluiu que somente Lula pode liderar um projeto de transformação e mudar o rumo do país. A contradição não poderia ser mais evidente: Lula atua decididamente nos marcos da podridão do sistema político e reforça todos os seus vícios, como se fosse virtude e sabedoria governar em aliança com Lira ou Pacheco, com Alexandre de Moraes e Campos Neto. De fato, não há uma só medida destinada a revisar as "amarras" herdadas dos governos de Temer e do protofascista Bolsonaro. Nem haverá! Não se trata de limitações impostas pela "correlação de forças" mas de convicções profundas do liberalismo de esquerda.    

Na entrevista, Zé Dirceu aposta no debate público - sua única "arma" na conjuntura - e parece jogar sua sorte na reconstrução militante do PT destinada a criar ou influenciar em alguma medida um governo  incapaz de enfrentar a gravíssima situação nacional que Lula/Alckmin não fazem menos que agravar. No entanto, a linha dominante no governo petucano é avançar nas bases da direita na tentativa de neutralizar ou mesmo capturar apoios até bem pouco fiéis ao protofascista momentaneamente inabilitado pelos tribunais para disputas eleitorais. Há, contudo, um obstáculo insuperável: a economia política do rentismo turbina o desespero da classe trabalhadora submetida à superexploração (salários baixos e precários), políticas públicas em saúde e educação notoriamente insuficientes, taxa de investimento pra lá de modestas, teto de gastos e seguidas promessas de déficit zero. De resto, o improviso é uma marca do terceiro mandato de Lula, a tal ponto que segundo ZD o anúncio da "nova indústria Brasil" pegou até mesmo Lula de surpresa, razão pela, qual numa reunião pública, pediu metas e prazos para um "programa" sem fonte de financiamento (exceto o limitado BNDES) e sem plano algum capaz de ganhar algum grau de credibilidade. A coesão burguesa segue auferindo lucros extraordinários e nem de longe sofre alguma ameaça de natureza política; em consequência, a classe dominante dispõe de Lula e Bolsonaro. Tudo depende das circunstâncias e das exigências do momento. 

Nesse contexto, Zé Dirceu mantém a antiga pretensão de organizar o capitalismo no país com "inclusão social" a luz de um projeto de Brasil "grande". Ao contrário de janeiro de 2021 quando defendeu que o caminho para derrotar Bolsonaro era "reconstruir a consciência social na classe trabalhadora" e trazer de volta ao vocabulário a ideia de revolução social "sem medo" e "explicitando o que ela é", o ceticismo expresso na recente entrevista indica recuo radical. Mas indica também que Lula - altar onde ele deposita todas suas esperanças - não é menos que um beco sem saída!

Não há surpresa e sim repetição. Há muito ambos perderam o encanto dos tempos áureos em que eram carne e osso operando o giro à direita do PT e sua integração à ordem burguesa, jogada considerada sábia pela classe dominante. Agora, somente por conveniência o presidente ainda mantém um otimismo cosmético sem sustento na economia, na política e na luta ideológica, porém, ao custo de imenso sofrimento e exploração do povo. Ambos, cada qual a seu modo, seguem sendo uma fonte valiosa para exibir os limites históricos e políticos intransponíveis do petismo diante da ofensiva burguesa. Agora, Zé Dirceu, ao embalo ingênuo e impotente da geração de 68 da qual declara filiação, brada, de maneira dissimulada, que, de fato, o sonho acabou.

Revisão: Junia Zaidan