O encontro do
liberalismo de esquerda realizado nessa semana em Barcelona sob os auspícios do
atua secretário geral do PSOE, Pedro Sanchéz - Mobilização Global Progressista
- exibiu não somente a solidão da esquerda liberal, mas também sua completa
impotência diante da ofensiva da direita na Europa e nos países
latino-americanos. A despeito da heterogênia composição dos convidados - nem
mesmo em delírio alguém pode considerar alguma semelhança entre o ex-presidente chileno Gabriel Boric e Claudia Sheinbaum, presidente do México - a verdade é
que os discursos das principais figuras estavam orientados por forte dose de
moralismo, pitadas de cinismo político, pragmatismo inofensivo e confissões
inesperadas.
Entre as confissões inesperadas ao distinto
público que lá compareceu com enormes esperanças, Lula foi, sem dúvida alguma,
aquele que com imensa desinibição, discursou sob a orientação da razão cínica.
Aqui vai a fiel transcrição de um trecho do
enfadonho discurso de Lula que você poderá chegar nos canais de Youtube.
Lula afirmou:
"O progressismo não conseguiu superar o
pensamento econômico dominante... ainda assim nós sucumbimos a ortodoxia, temos
sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo.
Governos de esquerda ganham as eleições com
discurso de esquerda e praticam austeridade, abrem mão das políticas públicas
em nome da governabilidade.
Nós nos tornamos o sistema.
Por isso não surpreende agora que o outro
lado se apresenta como antissistema.
O primeiro mandamento para os progressistas
tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar
outro...
Não podemos trair a confiança do povo mesmo
que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós
propomos. A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não
cumpridas do neoliberalismo, analisou a frustração das pessoas inventando
mentiras e mais mentiras..."
Caso eu fosse um advogado num tribunal da
História, jamais conseguiria produzir uma sentença condenatória à Lula melhor
que as próprias declarações do presidente. Entretanto, seu discurso não
produziu uma reação hostil do público, mas, ao contrário, rendeu fortes
aplausos! É um caso clássico que obriga qualquer pessoa preocupada com nosso
futuro imediato e algum apreço pela qualidade da práxis política, à reflexão
profunda, pois quando a mentira, o escárnio e o cinismo se apresentam como se
fosse o horizonte da razão progressista, estamos diante de uma imensa
catástrofe!
Nós brasileiros, é verdade, já estamos
acostumados a semelhante sincericídio e talvez por isso mesmo a novidade
lulista apresentada aos europeus já não possui capacidade de criar qualquer
modalidade de indignação e protesto. Não obstante, a reação não é melhor no
Brasil pois os aplausos em Barcelona após as declarações de Lula estão aqui protegidos
por imenso e profundo silêncio! Um silêncio certamente cúmplice, tão nefasto
para a consciência crítica dos trabalhadores quanto aquele aplauso de
"militantes" de classe média sustentada na burocracia sindical,
partidária e estatal europeia organizada por um Partido Socialista que nem de
longe pode representar moléculas de verdade que teve no passado distante.
O exercício sem limites do cinismo moderno como
recurso político de uso corrente nas filas do progressismo – responsável pela
derrota do antigo cinismo filosófico de clara extração crítica – é mais do que “sintoma”
como desejam as análises de inspiração psicanalítica responsáveis em larga medida
pela prostração e resignação política inerente às filas da esquerda liberal.
No encontro do
progressismo europeu – tingido pela presença de alguns poucos representantes
latino-americanos – Lula foi, de fato, o patrono com sobrada justiça pois o
petismo – seja lá o que isso representa na sua cabeça – pratica a dupla moral
há pelo menos duas décadas, desde que naquele distante janeiro de 2002 o
ex-operário, agora político profissional, subiu a rampa do Palácio pela primeira
vez. Ali, precisamente, a incompatibilidade entre política e verdade como
expressão de certo moralismo com pretensões burguesas edificantes, desapareceu para
sempre mesmo que somente numa terrível e angustiante lentidão, milhões de
trabalhadores começaram a perceber e rechaçá-la. Em perspectiva histórica, não
é difícil observar que as maiorias, os milhões de trabalhadores submetidos a
superexploração da força de trabalho, foram tolerantes demais com o cinismo praticado
por Lula e os sucessivos governos petistas hábeis na arte do engano, pois
sempre souberam que, de alguma forma, estavam entre a cruz e a espada. Àquela
tolerância que garantiu superlucros para as classes dominantes, carreiras
parlamentares para antigos sindicalistas e professores ou “representantes” de
movimentos populares e inclusive contas bancárias gordas e vida folgada para
delatores, acabou e não tem mais capacidade de derrotar a ofensiva da direita.
Agora, a crise da república burguesa – tal como deixamos claro durante 2017 e
2018 – permitiu à direita o monopólio da critica e, em consequência, o comando
da iniciativa política.
A contragosto e em
muitos casos com inacreditável surpresa, as múltiplas representações do lulismo
começam a perceber pela única via que reconhecem como confiável – as pesquisas
de opinião – que qualquer candidato de direita rivaliza com Lula nas próximas
eleições presidenciais e que Flávio Bolsonaro a despeito de todos seus crimes
pode, finalmente, vencer as eleições presidenciais.
A mentira e o cinismo
foram tão longe sob o comando de Lula que até mesmo o anúncio da ameaça fascista
tem baixa capacidade de aderência na consciência popular e tampouco pode, no
terreno eleitoral, justificar o voto no atual presidente. As declarações de
Lula em Barcelona exibem a razão cínica de maneira tão plena que já é repudiada
por milhões de trabalhadores em sucessivas eleições, mas se manifesta de
maneira radical na incapacidade de mobilização social para qualquer programa ou
iniciativa governamental. Afinal, alguém acredita que nas atuais
circunstâncias, um projeto como a redução da jornada de trabalho (fim da escala
6 x 1) pode levar as massas às ruas? Ora, as maiorias sabem que o covil de
ladrão (parlamento) é o terreno menos favorável para conquistar direitos no interior
de uma república burguesa em frangalhos!
Finalmente, a denúncia
de Lula contra o “discurso de ódio” – uma quinquilharia importada do mundo acadêmico
europeu e expressão da impotência política do progressismo decadente no continente
– é incapaz de mobilizar na periferia capitalista as forças necessárias para derrotar
a ofensiva da direita cada dia mais forte. De resto, nutrida durante décadas na
mentira do “Lulinha paz e amor”, responsável por êxitos eleitorais
necessariamente passageiros, porém, considerada pela concepção parlamentar de
política uma fórmula de validez eterna, o progressismo desprezou solenemente a
ira dos miseráveis que de fato constituem a absoluta maioria do povo
brasileiro.
O encontro de Barcelona
não terá qualquer incidência na consciência das massas latino-americanas.
Tampouco poderá restaurar antiga vitalidade da socialdemocracia europeia
convertida, na prática, em “gestores das mazelas neoliberais”. A solidão
política dos progressistas europeus contava com a ilusão de que a presença mesmo
pálida de representantes dos “condenados da terra” poderia empresar certo hálito
mobilizador em suas filas. Esqueceram que também aqui, aquele discurso cínico tampouco
é capaz de enfrentar os demônios que ajudou a criar.


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