domingo, 19 de abril de 2026

As confissões de Lula em Barcelona

 

O encontro do liberalismo de esquerda realizado nessa semana em Barcelona sob os auspícios do atua secretário geral do PSOE, Pedro Sanchéz - Mobilização Global Progressista - exibiu não somente a solidão da esquerda liberal, mas também sua completa impotência diante da ofensiva da direita na Europa e nos países latino-americanos. A despeito da heterogênia composição dos convidados - nem mesmo em delírio alguém pode considerar alguma semelhança entre o ex-presidente chileno Gabriel Boric e Claudia Sheinbaum, presidente do México - a verdade é que os discursos das principais figuras estavam orientados por forte dose de moralismo, pitadas de cinismo político, pragmatismo inofensivo e confissões inesperadas.

Entre as confissões inesperadas ao distinto público que lá compareceu com enormes esperanças, Lula foi, sem dúvida alguma, aquele que com imensa desinibição, discursou sob a orientação da razão cínica.

Aqui vai a fiel transcrição de um trecho do enfadonho discurso de Lula que você poderá chegar nos canais de Youtube.

Lula afirmou:

"O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante... ainda assim nós sucumbimos a ortodoxia, temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. 

Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade, abrem mão das políticas públicas em nome da governabilidade.

Nós nos tornamos o sistema. 

Por isso não surpreende agora que o outro lado se apresenta como antissistema. 

O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro... 

Não podemos trair a confiança do povo mesmo que boa parte da população não se veja como progressista, ela quer o que nós propomos. A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo, analisou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras..."

Caso eu fosse um advogado num tribunal da História, jamais conseguiria produzir uma sentença condenatória à Lula melhor que as próprias declarações do presidente. Entretanto, seu discurso não produziu uma reação hostil do público, mas, ao contrário, rendeu fortes aplausos! É um caso clássico que obriga qualquer pessoa preocupada com nosso futuro imediato e algum apreço pela qualidade da práxis política, à reflexão profunda, pois quando a mentira, o escárnio e o cinismo se apresentam como se fosse o horizonte da razão progressista, estamos diante de uma imensa catástrofe!

Nós brasileiros, é verdade, já estamos acostumados a semelhante sincericídio e talvez por isso mesmo a novidade lulista apresentada aos europeus já não possui capacidade de criar qualquer modalidade de indignação e protesto. Não obstante, a reação não é melhor no Brasil pois os aplausos em Barcelona após as declarações de Lula estão aqui protegidos por imenso e profundo silêncio! Um silêncio certamente cúmplice, tão nefasto para a consciência crítica dos trabalhadores quanto aquele aplauso de "militantes" de classe média sustentada na burocracia sindical, partidária e estatal europeia organizada por um Partido Socialista que nem de longe pode representar moléculas de verdade que teve no passado distante.

O exercício sem limites do cinismo moderno como recurso político de uso corrente nas filas do progressismo – responsável pela derrota do antigo cinismo filosófico de clara extração crítica – é mais do que “sintoma” como desejam as análises de inspiração psicanalítica responsáveis em larga medida pela prostração e resignação política inerente às filas da esquerda liberal.

No encontro do progressismo europeu – tingido pela presença de alguns poucos representantes latino-americanos – Lula foi, de fato, o patrono com sobrada justiça pois o petismo – seja lá o que isso representa na sua cabeça – pratica a dupla moral há pelo menos duas décadas, desde que naquele distante janeiro de 2002 o ex-operário, agora político profissional, subiu a rampa do Palácio pela primeira vez. Ali, precisamente, a incompatibilidade entre política e verdade como expressão de certo moralismo com pretensões burguesas edificantes, desapareceu para sempre mesmo que somente numa terrível e angustiante lentidão, milhões de trabalhadores começaram a perceber e rechaçá-la. Em perspectiva histórica, não é difícil observar que as maiorias, os milhões de trabalhadores submetidos a superexploração da força de trabalho, foram tolerantes demais com o cinismo praticado por Lula e os sucessivos governos petistas hábeis na arte do engano, pois sempre souberam que, de alguma forma, estavam entre a cruz e a espada. Àquela tolerância que garantiu superlucros para as classes dominantes, carreiras parlamentares para antigos sindicalistas e professores ou “representantes” de movimentos populares e inclusive contas bancárias gordas e vida folgada para delatores, acabou e não tem mais capacidade de derrotar a ofensiva da direita. Agora, a crise da república burguesa – tal como deixamos claro durante 2017 e 2018 – permitiu à direita o monopólio da critica e, em consequência, o comando da iniciativa política.

A contragosto e em muitos casos com inacreditável surpresa, as múltiplas representações do lulismo começam a perceber pela única via que reconhecem como confiável – as pesquisas de opinião – que qualquer candidato de direita rivaliza com Lula nas próximas eleições presidenciais e que Flávio Bolsonaro a despeito de todos seus crimes pode, finalmente, vencer as eleições presidenciais.

A mentira e o cinismo foram tão longe sob o comando de Lula que até mesmo o anúncio da ameaça fascista tem baixa capacidade de aderência na consciência popular e tampouco pode, no terreno eleitoral, justificar o voto no atual presidente. As declarações de Lula em Barcelona exibem a razão cínica de maneira tão plena que já é repudiada por milhões de trabalhadores em sucessivas eleições, mas se manifesta de maneira radical na incapacidade de mobilização social para qualquer programa ou iniciativa governamental. Afinal, alguém acredita que nas atuais circunstâncias, um projeto como a redução da jornada de trabalho (fim da escala 6 x 1) pode levar as massas às ruas? Ora, as maiorias sabem que o covil de ladrão (parlamento) é o terreno menos favorável para conquistar direitos no interior de uma república burguesa em frangalhos!

Finalmente, a denúncia de Lula contra o “discurso de ódio” – uma quinquilharia importada do mundo acadêmico europeu e expressão da impotência política do progressismo decadente no continente – é incapaz de mobilizar na periferia capitalista as forças necessárias para derrotar a ofensiva da direita cada dia mais forte. De resto, nutrida durante décadas na mentira do “Lulinha paz e amor”, responsável por êxitos eleitorais necessariamente passageiros, porém, considerada pela concepção parlamentar de política uma fórmula de validez eterna, o progressismo desprezou solenemente a ira dos miseráveis que de fato constituem a absoluta maioria do povo brasileiro.

O encontro de Barcelona não terá qualquer incidência na consciência das massas latino-americanas. Tampouco poderá restaurar antiga vitalidade da socialdemocracia europeia convertida, na prática, em “gestores das mazelas neoliberais”. A solidão política dos progressistas europeus contava com a ilusão de que a presença mesmo pálida de representantes dos “condenados da terra” poderia empresar certo hálito mobilizador em suas filas. Esqueceram que também aqui, aquele discurso cínico tampouco é capaz de enfrentar os demônios que ajudou a criar.