Os liberais reivindicam a liberdade em abstrato como meio eficaz de confiná-la nos estreitos marcos das instituições apodrecidas da republica burguesa, cujos exemplos mais eloquentes nos dias atuais podem ser vistos no parlamento e o no STF. Na tradição revolucionária - algo bem diferente da esquerda liberal sob comando de Lula e o PT - a liberdade sempre dependerá de seu uso concreto. A liberdade e a democracia não representam nem nunca representarão, um "valor universal"!
O primeiro de maio deixou uma vez mais valiosa lição. É comum ouvir dos órfãos do lulismo que sempre será muito melhor lutar sob um governo democrata do que noutro de natureza e expressão autoritária. Em consequência, a consciência ingênua afirma que lutar sob o governo de Lula é e sempre será melhor do que fazê-lo sob um governo como àquele de Bolsonaro. Entretanto, a realidade nega categoricamente o bordão ideológico do liberalismo de esquerda. Ontem, no quarto ano do governo petucano de Lula, as massas não ganharam as ruas ou praças. Nenhum ato digno de nota, a despeito do lúcido e valente exemplo de muitos militantes em meio a mais completa solidão.
Lula pelo segundo ano consecutivo se limita ao protocolar e inútil vídeo em cadeia nacional de rádio e TV. No primeiro ano do atual mandato (2023) ensaiou a convocatória de uma manifestação no coração burguês do país - São Paulo - e viu com seus próprios olhos o resultado necessário do núcleo racional de sua obra: a total desmobilização dos trabalhadores. Cínico, culpou os organizadores e saiu de fininho como se não tivesse responsabilidade alguma na cena tão patética quanto trágica.
Ontem assistimos o primeiro de maio mais triste de nossa história. Os trabalhadores exibiram não somente a ausência de consciência histórica mas, sobretudo, a merecida indiferença diante da convocatória da maior parte das máquinas sindicais burocratizadas que, na verdade, fazem dos sindicatos um meio de vida para seus diretores e, jamais, de luta.
Aqueles que defendem o atual governo e estão dispostos a votar novamente no vulgar em nome do "combate" ao "neofascismo" já não podem alegar que a liberdade que de fato temos é melhor sob o governo Lula do que um governo de qualquer membro da família Bolsonaro. Afinal, durante seu mandato os trabalhadores não saíram as ruas e a convocatória do lulismo não surtiu qualquer efeito, exceto, óbvio, aquele que anuncia que o rei está, finalmente, nu. E resulta que o rei não é mais bonito nu!
No interior da esquerda liberal, a concepção parlamentar de política venceu no exato momento em que o parlamento exibe de maneira clara sua mais absoluta podridão, um meio para estafar o Estado, explorar os trabalhadores e, sobretudo, via rápida de enriquecimento pessoal. E os parlamentares "combativos"? Bem, estes ocupam a tribuna para exibir a impotência em ação de discursos moralistas tão rasteiros quanto estéreis! Ora, denunciar na tribuna as manobras das bancadas parlamentares a serviço das distintas frações do capital é, no mínimo, uma demonstração de total impotência. Afinal, qual o valor político de denunciar a imoralidade do roubo para os ladrões? Mais: acaso o povo não sabe que o parlamento é um covil de ladrões?
Quando afirmo que a república burguesa está podre e não revela nem mesmo de forma tímida um esforço para sua auto renovação, é mais do que claro o conforto da classe dominante com os dois bandos em "conflito" no parlamento, nos tribunais, nas eleições e na imprensa livre. A tentativa oportunista de criar movimento de massas via redes digitais - tal como o fim da escala 6 x 1 - encontra agora seu teste definitivo pois sem a participação ativa dos trabalhadores numa campanha sistemática e nacional, não é possível conquista alguma para a classe trabalhadora.
A defesa da liberdade em abstrato como arma eficaz contra o atual sistema político é tática eficaz da direita que, a propósito, denunciamos desde 2018; de resto, a despeito da derrota eleitoral nas eleições presidenciais, a direita segue avançando. A vitória eleitoral de Lula/Alckmin na última eleição, ao contrário, tampouco reverteu a correlação de forças em favor dos trabalhadores e somente em delírio poderia ter criado um governo com alguma eficácia e sentido para as amplas massas! A reivindicação da democracia praticada pela esquerda liberal é, nesse contexto, totalmente incapaz de enfrentar a ofensiva burguesa contra conquistas históricas dos trabalhadores como, por exemplo, uma carteira assinada, direitos previdenciários elementares ou a redução da jornada de trabalho sem redução de salário. A praça, finalmente, esta vazia. Os trabalhadores não defenderão a democracia em abstrato porque sabem que sua experiência concreta nos marcos do regime liberal burguês de uma república burguesa apodrecida em seus pilares, decretou uma guerra de classes contra seus interesses imediatos e, portanto, não merece seu apoio.