segunda-feira, 3 de junho de 2024

ANDES e Proifes no espelho lulista


Na longa transição da ditadura para o regime liberal burguês, o sindicalismo combativo cresceu sustentado por duas forças fundamentais. A primeira – o economicismo – foi uma resposta até certo ponto “espontânea” contra a superexploração da força de trabalho, pilar do desenvolvimento capitalista dependente; a segunda força – a defesa intransigente da autonomia sindical diante do Estado e dos partidos – era uma resposta necessária diante do sistema bipartidário criado pelo AI-2, que opunha Arena e PMDB, um obstáculo à existência de partidos operários e socialistas. Embalado no progresso burguês, cuja expressão maior foram as taxas de crescimento do PIB de dois dígitos (13,97% em 1973), emergiu o sindicalismo combativo contra os pelegos garantidos pela legislação sindical da ditadura e seus crimes contra os nacionalistas, trabalhistas, socialistas e comunistas que sofreram o exílio, a tortura e a morte.

A atual geração de políticos profissionais da esquerda liberal (Lula no comando) é produto daquela articulação entre o economicismo e a defesa intransigente da autonomia sindical contra o tacão de ferro da ditadura de classe (1964-1985). A criação do Partido dos Trabalhadores (PT) – com a resistência inicial de Lula e os sindicalistas em criar um partido proletário! – fortaleceu a defesa intransigente da liberdade e autonomia sindical, um valor supremo à toda a esquerda, principalmente os petistas e sindicalistas nascidos naquele período.

A adesão do PT à ordem burguesa consolidou a completa submissão do partido à razão de estado e, em consequência, mesmo que de maneira vacilante, os sindicalistas assumiram com rapidez o “pragmatismo”, ou seja, aquela conduta que renuncia a luta pelo socialismo e reduz a política ao refúgio da moral ou à impotente política pública destinada à redução de danos num mar de exploração e violência. Cada qual à sua maneira, mesmo quando torciam o nariz, a verdade é que lenta e inexoravelmente os petistas se reconheceram como filhos bastardos de Francis Fukuyama, um obscuro acadêmico estadunidense que decretou a “fim da História” em benefício de Washington. Ocorre que não vivemos nos Estados Unidos ou na Europa e, portanto, na periferia, a vida é bem mais difícil.

A adesão pragmática à ordem burguesa parecia expressão da mais absoluta racionalidade e, de quebra, recebeu não só a aprovação, mas também o elogio da classe dominante (com a popularidade medida em votos), na qual todos os ex-sindicalistas combativos ocupando cargos em governos (municipais e estaduais) definiam a política como “a arte do possível”. Após a primeira vitória do PT na disputa presidencial (2002), a submissão do partido e dos sindicatos a uma razão de Estado – algo muito distinto de um partido de Estado – parecia confirmar a astúcia e as aparentes vantagens da luta dentro da ordem sob comando de Lula, expressão mais vulgar e visível dessa “concepção”. A despeito dos “erros” hoje inocultáveis, deixou uma legião de desavisados que atualmente paralisa o combate sindical e constitui um obstáculo importante para a superação de nossos problemas.

Na greve nacional do setor federal da educação em curso, o colapso da herança petista-lulista apareceu sob a luz do sol e revela os desafios imensos que temos pela frente na afirmação da universidade necessária para a superação da dependência e do subdesenvolvimento. Na aparência, o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (ANDES-SN) e a Federação de Sindicatos de Professores de Instituições Federais de Ensino Superior e de Ensino Básico Técnico e Tecnológico (PROIFES) representam polos opostos na luta sindical, mas não é preciso muito esforço para perceber que são, ambos, filhos do mesmo pai.

O Proifes ganhou força em 2007 na gestão de Fernando Haddad no MEC, destinado a sabotar o “radicalismo” do ANDES/Sindicato Nacional então acusado de pretender nada menos do que a queda do governo de Lula/Alencar. Após a reforma da previdência que Lula promoveu contra nós (2003), o Andes abandonou a CUT e  vinculou-se à Central Sindical e Popular Coordenação Nacional de lutas (CSP-Conlutas), central sindical à esquerda da CUT, onde permaneceu até o 41o Congresso, realizado em fevereiro de 2023, quando a maioria dos delegados (262 x 127) determinou – com forte apoio petista – a ruptura com os “radicais”.

Portanto, desde sua aparição e fortalecimento sob orientação do governo petista, nunca alimentamos ilusões em relação ao Proifes: uma farsa completa! Entretanto, ao contrário de sua miserável situação atual (apenas cinco ou seis sindicatos alinhados na “federação”), durante os governos petistas, o Proifes já contou com maior apoio e foi útil a seus governos. A decadência da federação pelega acelerou após a reeleição de Dilma em 2010 e posterior destituição em 2016: mesmo sob o cínico bordão da “Pátria Educadora”, a ex-presidente cortou radicalmente os recursos para a educação para o orçamento de 2016 em nada menos do que... R$ 10 bilhões!! Desde então, o gráfico do investimento e custeio para as universidades é uma violenta queda, origem da gravíssima crise de infraestrutura que sofremos.

Os governos posteriores – Temer e Bolsonaro – seguiram na mesma linha tal como demonstram os estudos disponíveis na página do ANDES-SN. A sucessão de ministros petistas – Cid Gomes, Renato Janine Ribeiro e Aloizio Mercadante – revelou que o antigo orçamento bilionário do MEC deixava de ser um lugar confortável para carreiras políticas em tempos de austeridade. A destituição de Dilma representou forte revés naqueles que entre nós apostavam no “diálogo” com o governo e a recusa com o “radicalismo” tradicional alimentado por nosso sindicato nacional. Michel Temer, o escolhido por Lula para ser vice da ex-presidente, assumiu na plenitude e sem vacilação a política de austeridade fiscal (uma verdadeira guerra de classes contra a educação!). Em consequência, o futuro do Proifes estava completamente comprometido pois sua eficácia dependia essencialmente da disposição governamental no “diálogo” com a categoria.

A base petista nos professores foi lentamente percebendo que a maré tinha virado e sob o argumento liberal e fantasioso da “luta contra o fascismo”, atuou em consequência. Nesse contexto, sob razão de partido, ocorreu a reaproximação petista com o “radicalismo” do ANDES quando o lulismo na base do ANDES fortaleceu a mobilização pela a ruptura de nosso sindicato nacional com a CSP-Conlutas em 2023 e, na sequência, na última disputa pelo controle do sindicato,  exibiu sua força não somente apresentando uma chapa competitiva.. Hoje, cada partido tem sua central e mesmo diminuído em suas forças, o ANDES não deixa de ser atrativo para cultivar a fidelidade ao lulismo.

O Proifes, nascido da costela petista, sempre caracterizou sua existência na mais absoluta servidão voluntária. No jargão pedestre: um sindicato pelego. Agora, sob circunstâncias mais difíceis e sem o encanto do passado, constitui apenas um artifício jurídico para a razão de Estado arrochar salários e limitar a luta por novas conquistas. O ANDES, filho legítimo e rebelde do sindicalismo combativo petista, amargou dias difíceis, mas se manteve firme na defesa do útero que lhe deu vida. Em consequência, atua nos marcos da ordem, mas mantém firmeza na defesa corporativa de nossos salários e carreira, na suposição de que assim, sustentamos a existência da universidade no Brasil sob o bordão tão anacrônico quanto inútil da “universidade pública, gratuita, laica de qualidade e socialmente referenciada”.

Na greve atual o confronto entre os dois filhos do petismo ilustra nossas misérias e limites. A miséria do Proifes não requer muito esforço para se elucidar; basta reconhecer que a “federação” possui menos de cinco ou seis sindicatos filiados a despeito de pretender um protagonismo impossível mesmo com a simulação de falar pela dor dos professores exibindo uma “responsabilidade” que ninguém mais possui. O ANDES, orientado desde sempre pela antiga tradição e escolado na luta contra a queda dos salários e a deterioração da carreira, exibe os dentes, mas sem a antiga aderência. Aqui na UFSC – para dar apenas um exemplo – não conseguimos paralisar a maioria e não foram poucos os erros estratégicos cometidos pelo comando local. Além da divisão, o ANDES não consegue atuar com sentido de vanguarda, lucidez e realismo diante das novas condições; de resto, vacila feio diante do espelho lulista.

Foto: assessoria de imprensa APUFSC
A ultima reunião do Comando Nacional de Greve com o governo, não poderia ter sido mais expressiva do fim de linha daquela tradição combativa e do trágico encontro dos dois irmãos diante do espelho lulista. Em nome do governo, um tal Feijó mostrou a feição acabada de um sindicalismo sob razão de Estado; “firme e hábil”, segundo indicam alguns de sus companheiros, ele conduziu as “negociações” com mão dura sob orientação de Haddad, o ministro liberal da economia. Em maio de 2023 Feijó foi festejado como novo secretário de relações do trabalho, anunciado por Esther Dweck. A carreira do rapaz autoriza seu lulismo: metalúrgico da Ford, coordenador da primeira comissão de fábrica, secretário geral entre 1999 e 2002 no sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e cargos na CUT, além de “assessor especial” do presidente nas duas primeiras gestões de Lula. É homem de confiança do presidente, mas sem exagero podemos caracterizá-lo como serviçal, pois a submissão dos cutistas a Lula não admite ambiguidade.

Na mesa, o Comando Nacional de greve sob condução de uma delegação do ANDES reivindicava a continuidade das negociações concluídas pelo governo por meio de um miserável e-mail enviado à nossa entidade nacional. Na oportunidade (27 de maio), o tal Feijó não vacilou em afirmar enfaticamente o “limite do governo”, o fim das negociações e, de quebra, o acordo com o Proifes. Os protestos e apelos de nossa entidade para arrancar um reajuste qualquer nesse ano (3%, por exemplo), não comoveram o ex metalúrgico. A frustração de nossos representantes foi completa como podemos ver no instagram do Andes e, em parte, no comunicado número 52 do Comando Nacional.

Há algo valioso na indignação que orientou o protesto de nosso Comando Nacional na reunião com o secretário de relações do trabalho do governo Lula. No auge da rebeldia, um brado originado no fundo da alma de um membro do Comando Nacional perguntou a Feijó se o governo daria “um tiro no pé” ao assinar o acordo com o Proifes enquanto recusava nova negociação com o ANDES. Outra representante de nossa delegação perguntou se o governo daria as costas para uma “categoria que contribuiu muito para a eleição do governo Lula”? Um cartaz do Sinasefe foi ainda mais longe no apelo: “Lula, assuma a negociação”.

O burocrata sindical, sob razão de partido, não vacilou: “sim, vamos dar um tiro no pé”. A referida cena circula nas redes digitais e desperta indignação, mas, na verdade, é trágica. O bate-boca não é destituído de importância. Nossa representação sindical declara em alto e bom som sua importância na eleição de Lula e cobra o amor não correspondido. No entanto, sabemos que o burocrata – todos os burocratas! – não possui coração: em consequência, Feijó descarta qualquer possibilidade de atendimento e mantém a conversa com a mesma pressa dos passos que o afastam da sala onde o “diálogo” tinha se iniciado. No mesmo ritmo, os membros de nossa delegação o perseguem ávidos por qualquer ponta de esperança noutra oportunidade para arrancar algo de nossa vasta pauta de reivindicações. Entretanto, o caminhar de Feijó é pleno de convicção e desaparece nos corredores do ministério; exceto, é claro, se o chefe Lula mudar de opinião.

A indignação e o protesto moral – a expressão mais eloquente da impotência em ação, como indicou Marx – orientou nossos representantes. Numa espécie de jogral, a delegação do ANDES protestou, lamentou e como um náufrago que recebe uma boia, anunciou que no dia 3 de junho o governo confirmou nova reunião. É uma pálida e cruel versão do antigo bordão segundo o qual “a esperança venceu o medo”.

A preocupação do Comando Nacional é justificada. A greve vive, de fato, um impasse; em circunstâncias difíceis, é um teste importante para o amadurecimento político da categoria que já exibiu no passado força e vitalidade, mas cuja herança é desconhecida de uma categoria renovada e sem vida sindical ativa e fecunda. Ao contrário, os novos doutores nascem do ambiente acadêmico esterilizado no sistema de pós-graduação e distantes tanto do sindicato quanto da política em geral. Ademais, assumiram a carreira no ambiente criado pela adesão do PT à ordem burguesa com a carga de cinismo e miséria que podemos ver no Feijó e na ministra Esther Dweck, uma “professora como nós” disse alguém desavisado. De resto, o processo de “politização” é conduzido por professores educados nas bases da esquerda liberal onde Lula expressa o horizonte do possível num governo religiosamente apegado ao teto de gastos; de resto, o flerte com o identitarismo, cuja marca mais deletéria pode ser vista na adoção infantil da “linguagem neutra”, alimenta todas as ilusões no pluralismo, da diversidade, na tolerância e no “diálogo”, os valores da burguesia em tempos de paz, mas não em tempos de crise.

O impasse de nossa greve é produto de necessidades objetivas e ilusões corrosivas. A inflação degrada o poder de compra do salário, o orçamento das universidades é uma miséria e a universidade não figura como prioridade nem no discurso presidencial. A eleição de Lula foi considerada pela esquerda liberal uma condição necessária para “derrotar o neoliberalismo” e o fim da época das vacas magras para as universidades. Entretanto, o orçamento para a educação apresentado pelo novo governo foi inferior àquele deixado por Bolsonaro em pouco mais de 300 milhões de reais! Ademais, a administração democrática da economia política do rentismo convive com um mercado de trabalho marcado pela superexploração de 90% dos trabalhadores, responsável por cancelar de maneira definitiva o projeto da “universidade inclusiva” de Haddad e Janine Ribeiro, pois, entre trabalhar e estudar, o banco escolar sobra! Aos que duvidam da escolha basta ver a queda acentuada da relação candidato vaga do miserável vestibular em escala nacional. E, nós, os professores? Pois bem, a categoria – mais precisamente nossos representantes – julgavam que a eleição de Lula “estancaria o neoliberalismo” e permitiria uma importante alteração na “correlação de forças” favorável às nossas reivindicações. O reajuste linear de 9% permitido pela Medida Provisória 1170/23 em maio de 2023 renovou esperanças e a ingênua suposição de que o “governo está em disputa” motivou em larga medida o recurso à greve. Afinal, um governo que contou com o apoio massivo dos universitários não nos negaria um tratamento civilizado e próprio de “companheiros”.

A economia política do rentismo, no entanto, não tolera ilusões. Diante da adesão petista às razões de Estado, as classes dominantes perderam qualquer temor em relação ao protesto dos trabalhadores. O governo não é somente débil; até mesmo neófitos percebem que Lula e Alckmin não possuem qualquer iniciativa capaz de mudar o rumo. Ao contrário, todos os vícios acusados na campanha – teto de gastos, autonomia do BC, justiça tributária, respeito aos mínimos constitucionais em saúde e  educação, etc – são agora transformados em virtudes republicanas! Ademais, se a classe dominante perdeu o medo dos trabalhadores, o governo sabe que os “rebeldes andesianos” já incorporaram a verdade segundo a qual a vida é “ruim com o atual governo, pior sem ele”...

A coesão burguesa tem a seu favor a conversão petista ao conto de fadas segundo o qual, nos marcos da ordem burguesa, podemos alcançar cidadania ao nosso povo via programas sociais assemelhados à filantropia. Feijó, mais do que nossos representantes, conhece a lição perfeitamente. O limite é imposto por Lula e Haddad, nessa ordem! A contrário do que supõe o cartaz do Sinasefe, Lula está no comando das negociações! Ora, conceder reajuste aos professores universitários impõe a tarefa de atender também os trabalhadores técnicos administrativos. Uma concessão aqui, autoriza outra greve ali. As carreiras que ganharam polpudos reajustes são aquelas “carreiras de Estado” estabelecida por Bresser Pereira no projeto de reforma administrativa dos tucanos tragada de bom grado pelo petismo. Professores não são fiscais, nem responsáveis pelo controle das aduanas e portos e, menos ainda, policiais! A economia política do rentismo dispensa educação, cultura, ciência e tecnologia! De resto, a “prioridade” do governo são os institutos federais e não as universidades, como repete com orgulho Lula em cada nova e modesta inauguração!

A greve esta diante de um impasse. O Comando Nacional não comanda e recusa a politização do movimento. Nos informes nacionais divulgados com frequência, não existe uma avaliação sobre as possibilidades de vitória ou a necessidade de recuo. O ANDES não dirige a greve, se limita a representar a greve. As tendências políticas ou organizações que compõem a diretoria do sindicato nacional (PSOL, PCB, Petistas de coração) atuam nas assembleias locais sem, contudo, apontar um rumo para o movimento. Ora, num contexto de fragilidade política e ideológica do movimento docente, a direção não pode ser apenas uma representação das “bases” sem compromisso com o estabelecimento de novas exigências que a categoria requer para enfrentar com êxito a economia política do rentismo cuja expressão é a “austeridade fiscal” contra a educação em geral e as universidades em particular.

Ademais, a autonomia sindical – em relação aos partidos e ao Estado – deveria ser o fio condutor do processo de politização, único caminho para enfrentar a ofensiva do governo petucano contra a universidade pública em vias de extinção ou completa marginalidade. Aos que duvidam desse diagnóstico basta recordar que hoje existem mais de 3 milhões de alunos no sistema virtual (EaD) e a expansão dos Institutos Federais via emendas parlamentares ocorre sem qualquer conexão com um projeto educacional capaz de reverter a dependência científica e tecnológica do país.

Nesse contexto, a despeito do mal-estar, não cabe apoiar o voluntarismo que supõe a existência de uma greve da educação. Uma greve da educação é algo qualitativamente distinto de uma coincidência de greves! Ora, até mesmo a negociação salarial ocorre em mesas separadas e esperar alguma solidariedade efetiva entre categorias historicamente distantes e apenas unidas nas ilusões sobre as possibilidades de um governo liberal é incapaz de produzir frutos duradouros.   

Portanto, a denúncia andesiana do “acordo golpista” realizado entre o governo e o irrisório Proifes, não produz efeitos concretos. A recente carta de professores petistas dirigida a Gleisi Hoffmann – presidente nacional do PT  – expressa precisamente os limites da falta de autonomia do sindicato diante da razão de estado pois segundo a missiva a situação é “profundamente preocupante para o futuro do governo, do partido e do movimento sindical docente”. Não há como evitar um juízo sobre a origem intelectual da carta. Por um lado, o texto expressa a preocupação sincera com o “governo, o partido e o movimento”, nessa ordem! Por outro lado, é inegável que também representa mais um lance na vã tentativa de legitimação política dos professores petistas diante das ilusões segundo as quais o “governo está em disputa”. Afinal, qual o efeito de uma carta dirigida a Gleisi, a mais lulista entre os lulistas?

De resto, basta pensar que um partido sob razão de Estado e cativo de uma concepção parlamentar de política, está dominado por governadores, prefeitos, vereadores, sem qualquer compromisso ou interesse em mudar a orientação do MEC. A propósito, Lula não depende do PT; ao contrário, o PT é cativo de Lula! E, agora, para piorar, o presidente e seu governo petucano têm a seu favor a existência imaginária da “ameaça fascista”...

O lamento de nossos representantes sindicalistas, a desilusão que exibem com o “diálogo” diante de um governo insensível, a tristeza confessada abertamente, a melancólica repetição de que nossa pauta é justa, o caráter “tenso” das reuniões com Feijó, indicam que a velha ilusão com o petismo tem mil faces. No interior de nossa greve, o Proifes apenas expressa de maneira cínica o pragmatismo como virtude e “realismo”; o Andes, ao contrário, pretende a defesa de nossos salários, carreira e, na medida do possível, a recomposição orçamentária para nossas universidades. Entretanto, um movimento que não tenha total e completa independência do governo – inclusive na dinâmica do voto – estará condenado ao fracasso mesmo que agora, no apagar das velas, ainda possa arrancar uma migalha na mesa de negociação destinada antes de mais nada a manter as aparências. É possível que a greve nos deixe a dura e necessária lição das derrotas. Nesse caso, não seria a primeira vez e nem por isso devemos baixar a guarda. De minha parte, não temo afirmar que, além das perdas salariais e de carreira, deveríamos também sacrificar no altar das perdas, as ilusões na esquerda liberal, que, finalmente, nos trouxeram para esse beco aparentemente sem saída.

Revisão: Junia Zaidan

sábado, 4 de maio de 2024

Greve nas universidades: radicalizar ou negociar?


A greve nacional dos professores produziu na UFSC um falso dilema: devemos radicalizar e fortalecer a greve em curso dirigida pelo ANDES Sindicato Nacional   ou apostar exclusivamente na mesa da negociação entre o governo e as entidades sindicais da educação (Andes, Fasubra, Proifes)?

A radicalização não excluiu a negociação; ao contrário, o recurso à greve somente se justifica como meio eficaz de pressão na mesa de negociação. A greve pressiona o governo e devemos fortalecê-la para ganhar força numa negociação que, por responsabilidade do governo, é tardia e até agora muito ruim para a categoria.

No passado – não devemos jamais esquecer! – o recurso à greve era com enorme frequência um meio para estabelecer a mesa de negociação, pois os governos recusavam sem cerimônia qualquer iniciativa do ANDES para realizar acordos; na prática, os governos empurravam a categoria para a paralização. Em não poucos casos, o movimento grevista tinha que arrancar a negociação não com o ministro da educação, mas – pasmem! –, com o presidente da Câmara ou do Senado. A propósito, recordo que em algumas oportunidades o movimento recorria aos políticos “de peso” na república burguesa e, portanto, com acesso ao Palácio do Planalto (Antônio Carlos Magalhaes, Luiz Eduardo, entre outros cumpriram essa função!). Assim, por meio de parlamentares, o movimento grevista exercia alguma pressão sobre o Ministério da Fazenda.

Nas circunstâncias atuais esse artifício não tem qualquer eficácia, pois Haddad é o representante máximo da ortodoxia liberal e defensor religioso do déficit zero; de resto, no covil de ladrões, tanto Lira como Pacheco – após conquistar do governo 44,57 bilhões de emendas parlamentares – fazem coro com o ministro e atuam como guardiões da austeridade fiscal contra o povo e, em especial, contra o funcionalismo público (exceto, é claro, com o Judiciário que já consome 1,5% do PIB).

Não nos enganemos sobre o essencial. O reajuste linear de 9% concedido pela MP 1170/23, iniciado em 1 de maio do ano passado a todo o funcionalismo público nacional não foi produto da pressão ou de uma negociação do governo com as entidades sindicais. Nem radicalismo, nem negociação! O governo decidiu o aumento em função de seus próprios interesses, mas com olhos no futuro: o “folego” do ano passado era antídoto do aperto permanente decidido na transição de Bolsonaro a Lula sob a partitura do teto de gastos considerados orwellianamente pelo petismo como “arcabouço fiscal”. Na prática, aquele reajuste não recupera nossas perdas de pelo menos 25% derivados dos acordos de 2016 e 2017 e nunca respeitados pelo governo. Portanto,  os percentuais prometidos apenas compensam a inflação que sofremos, mas estão longe – bem longe! – de recuperar o poder de compra da categoria.

A ortodoxia de Lula/Haddad poderá ceder? Sem dúvida! A Polícia Federal levou 22% e os funcionários do Banco Central 23% de reajuste; a Polícia Rodoviária Federal arrancou 27% e a Polícia Penal Federal, outros 60%. Os auditores fiscais  conquistaram um “bônus de produtividade” de R$4.500,00 iniciais. O IBGE e especialmente a FUNAI conseguiram significativos reajustes na carreira com 40% em janeiro passado. Que tal?

A greve dos auditores fiscais ensina algo valioso para todos nós. O movimento eclodiu em dezembro de 2023 e durou... 80 dias! No dia 7 de março o Sindifisco anunciou que “os valores para pagamento do bônus ficam definidos da seguinte maneira: 10,19% para os meses de fevereiro a julho de 2024, com limite mensal de R$ 4.500,00 (quatro mil e quinhentos reais); 11,33% para os meses de agosto de 2024 a janeiro de 2025, com limite mensal de R$ 5.000,00 (cinco mil reais); 15,52% para os meses de fevereiro de 2025 a janeiro de 2026, com limite mensal de R$ 7.000,00 (sete mil reais) e 25% para os meses de fevereiro de 2026 a janeiro de 2027, com limite mensal de R$ 11.500,00 (onze mil e quinhentos reais)”. Portanto, mesmo não pertencendo à vala comum dos servidores públicos – representavam uma “carreira de Estado” no jargão socialdemocrata dos finados tucanos dirigidos por Bresser-Pereira – os auditores foram à luta e arrancaram agora o bônus! Não está  descartado que tenham que retomar mais adiante o movimento, caso o governo não reconheça sua assinatura num acordo onde tudo cabe, exceto a honra. Contudo, escolado na arte de negociar com governos sem palavra, o Sindifisco afirma que o acordo está limitado ao bônus e – muito importante! – nada impede que a categoria possa “se mobilizar na luta para a conquista de outras reivindicações como vencimento básico, fim das contribuições previdenciárias e busca pela integralidade”.

Ora, a negociação em curso com os professores está ancorada na promessa de aumento nos próximos anos, mas nenhum aumento agora: zero em 2024! De fato, a proposta é inaceitável até mesmo para o Proifes. Mais: é um estímulo à greve que já mobiliza mais de 40 universidades. Portanto, a despeito de promessas e eventuais acordos sobre ganhos no futuro, a questão é, como em toda a greve, o agora. Fortalecer a greve nesse momento é a única maneira de influenciar na negociação em curso em Brasília. Até mesmo o bom moço Keynes alertou que “no longo prazo todos estaremos mortos” e, em consequência, os pontos mais importantes não estão na promessa de reajuste em 2025 e 2026. Ora, diante da mais absoluta ortodoxia liberal, qual é a garantia de que o governo cumprirá o acordo no próximo ano?

Nesse contexto, devemos buscar o grau máximo de unidade entre os professores e lutar também pela máxima adesão dos professores. É um trabalho essencialmente político. A divisão entre o ANDES e o Proifes – entidade reconhecida pelo governo Lula para dividir a categoria quando o ministro da educação era ninguém menos do que Fernando Haddad em 2007 – é um obstáculo objetivo a ser superado. Até aqui, as suspeitas e fatos que marcaram a trajetória do movimento docente foram produtos de erros e acertos do ANDES. Entretanto, águas passadas não movem moinho! É preciso somar com o Andes com a mesma força  com a qual devemos exigir a renovação de sua práxis política sindical.

Qual projeto de universidade?

Há outros problemas mais graves do que o índice de reajuste. A classe dominante já decidiu a sorte da universidade no Brasil e o governo Lula/Alckmin segue à risca o roteiro. Há sinais evidentes que nem mesmo o rebaixamento do debate sobre a “função social” da universidade pode ignorar[1] . O financiamento das universidades praticado por Lula para 2024 foi inferior ao do protofascista Bolsonaro em 310 milhões!! Até agora, a ANDIFES não tem uma ação decisiva para arrancar recursos adicionais destinados à recomposição orçamentária necessária à restauração das condições mínimas para nosso funcionamento. De resto, a aposta oficial do governo – anunciada em 12 de março de 2024 – se resume à expansão de 100 novos institutos federais com a abertura de 140 mil vagas. Ademais, no MEC, Camilo Santana goza de enorme prestígio e, em consequência, em posição confortável, segue dando as cartas com orientação da Fundação Lemann. Aqui – e em todo o Brasil – as universidades exibem sua miséria na gravíssima crise da infraestrutura, nos déficits permanentes e na crônica falta de investimentos. O planejamento está morto! Em consequência, resta o miserável recurso às emendas parlamentares e a sorte de pequenas negociações no modesto balcão em Brasília. Enfim, o cenário não é nada bom.

A universidade, nas condições de um capitalismo dependente rentístico – sem base industrial e aprofundando a dependência científica e tecnológica – indica que a função social da universidade é, de fato, complementar. Na prática, a universidade presta serviços a órgãos de Estado (ministérios, estatais, fundações, etc) e busca nas empresas nacionais e multinacionais nichos para garantir seu funcionamento. Portanto, não há função estratégica para o sistema universitário no ideológico “desenvolvimento nacional”. Aos que duvidam, basta analisar com algum cuidado a proposta da “neo-industrialização” anunciada por Alckmin: não há recursos do tesouro Nacional e a “proposta” conta apenas com reduzidos recursos do BNDES. Na prática, o BNDES funciona como política compensatória de uma lumpem burguesia capaz apenas de contemplar pequenos e médios empresários longe da disputa tecnológica e migalhas para os neófitos adeptos das “start up” e do empreendedorismo.

Finalmente, a austeridade permanente contra as universidades constitui um impulso à mercantilização de todas as atividades possíveis entre nós. O pragmatismo não perde tempo e anuncia sua legitimidade: se o financiamento público é mesmo reduzido, o recurso ao privado ou a venda de serviços aos ministérios e às estatais sobreviventes ganham um ar de “legitimidade” inédito. No surrado bordão liberal, a universidade se tornou uma instituição “cara demais” para um país subdesenvolvido e dependente. A greve atual precisa ampliar o horizonte da reflexão para além do combate necessário destinado a arrancar reajuste e eventual melhoria na carreira.

O desafio do “professor novo”

O grau de regressão político-intelectual da esquerda liberal é profundo e reduziu o horizonte da luta sindical nos campi além de obstaculizar a reflexão sobre a função da universidade num país subdesenvolvido e dependente. A greve atual exibiu a imensa dificuldade dos “progressistas” em defender o elementar: nossos salários! Não poucos defensores do atual governo consideravam – e outros ainda consideram – que uma greve “contra o governo” fortalece uma modalidade de “neofascismo” que somente existe em suas cabeças! A derrota eleitoral da direita liderada até agora por Bolsonaro somente poderia ocorrer na ruptura com a economia política do rentismo, mas, ao contrário, o governo petucano segue à risca a partitura inaugurada com o Plano Real em 1994 e levada com truculência por Paulo Guedes no governo anterior.

Nesse contexto, a defesa dos salários ainda é cativa de um economicismo rasteiro (a luta dos salários contra os preços) mas não devemos desprezar que em determinadas circunstâncias pode adquirir um caráter transformador. Ora, nossa greve bate de frente com o teto de gastos adotado como virtude pelo governo Lula. O professor cativo de uma perspectiva individualista considera ingenuamente que, de fato, há algo especial em nossa profissão e, em consequência, supõe que, ao contrário dos demais servidores  públicos, ainda gozamos de prestígio social capaz de conquistar algum reajuste sem cair na vala comum do sofrimento humano. Ledo engano!! O princípio da austeridade é uma declaração de guerra contra os trabalhadores em geral e contra o serviço público em particular. Os baixos salários (90% da PEA ganha até 2,5 salários mínimos) e a dívida pública turbinam a acumulação no capitalismo dependente rentístico enquanto a consciência ingênua sonha com a volta de uma modalidade qualquer de keynesianismo impossível na periferia do sistema.

Aqui reside o caráter essencialmente político de nossa greve a despeito do economicismo dominante e da vã tentativa de poupar o atual governo de merecidas críticas! De um lado, o professor novo quer apenas seu salário e, de outro, o antigo militante petista quer agora evitar o “ataque” ao seu governo. A despeito de acusações mútuas, ambos são produto do mesmo processo. As greves – públicas e privadas – crescem em função das péssimas condições reservadas aos trabalhadores. O DIEESE informa que em 2020 foram 649 greves e em 2021 subiram para 721; em 2022 superaram a marca do milhar (1.067) e, finalmente, em 2023 novo patamar (1.132). A pressão é, portanto, anterior ao atual governo e indica um ativismo sindical ainda com “caráter defensivo”, porém com potencial diante dos aviltantes salários pagos aos trabalhadores.

A eleição da chapa petucana (Lula/Alckmin) era defendida pela esquerda liberal como necessária, um passo na derrota do “neofascismo” (seja lá o que isso significa) e uma possibilidade para a retomada da luta por melhores condições de vida e trabalho. A eleição figurava no discurso da esquerda liberal como condição para permitir melhores condições para a luta dos trabalhadores! Agora, subitamente, antes mesmo de defender seu salário, a esquerda liberal indica que a prioridade é... preservar o governo e impedir “a volta da direita”. Ora, essa concepção parlamentar de política que pretende confinar o conflito de classe cada dia mais intenso numa urna eleitoral é um caminho suicida! A “defesa da democracia” termina por legitimar um sistema político corrupto e funcional à ordem burguesa, que já conta com o repúdio de milhões de trabalhadores! Portanto, a “defesa do governo” não pode ser feita senão mobilizando e elevando o grau de consciência e autonomia dos trabalhadores diante dos partidos e do Estado! A propósito, esse era o postulado básico do PT e do sindicalismo de Lula antes de sua completa e definitiva integração à ordem burguesa!

Entretanto, o governo petucano (fusão de petistas e tucanos) goza de simpatizantes tanto no ANDES quanto no decadente Proifes. Lula aparece – para ambos! – como um perverso horizonte do possível no terreno do político como se estivéssemos, de fato, condenados a aceitar as misérias desse governo no suposto de que nenhum outro é viável nesse momento. Em nossa categoria – a despeito da desilusão manifesta, crescente e discreta – ouvi de setores da esquerda liberal a negativa de participar da greve porque estaríamos atuando contra “nosso governo”. Há também aqueles que pretendem afirmar a superioridade do governo petucano diante do protofascista Bolsonaro porque agora estamos pelo menos diante de uma negociação. É verdade que há uma negociação, entretanto, os argumentos em defesa do voto em Lula contra Bolsonaro eram precisamente porque em caso de vitória do primeiro, as condições para a luta melhorariam!

Desde uma perspectiva sindical, é preciso recordar que a fundação da CUT sob controle petista consistia justamente na defesa radical da independência e autonomia sindical. Os atuais defensores do governo esqueceram o fundamento sindical do petismo originário? Ao recusarem este princípio básico do sindicalismo nascido do protesto operário contra a ditadura, apenas confirmam o quanto estão submetidos a uma razão de estado e às graves consequências de tal orientação para a sorte dos trabalhadores. Ademais, o governo está completamente comprometido com o postulado da austeridade ultraliberal – a adoção do teto de gastos o comprova – responsável direto pela degradação do serviço público em geral e da saúde e educação em particular.

Aos que responsabilizam os “novos professores” pela situação atual e os acusam de despolitizados ou ainda de seres cativos de um miserável individualismo sem “espirito coletivo” unicamente apegados a seu pequeno mundo num laboratório semi financiado ou agraciado por algum contrato mais ou menos sólido com uma estatal ou multinacional, eu recordo que a renovação de nossa categoria ocorreu num período de ausência completa do radicalismo político e do mais absoluto desarme ideológico praticado como virtude pela antiga esquerda cuja representação máxima segue sendo o octogenário Lula. Acaso, após a miserável integração do PT e Lula à ordem burguesa com a consequente esterilização da práxis política radical, alguém poderia esperar que “jovem professor” entraria numa assembleia do sindicato com um volume de “A ideologia alemã” de Marx embaixo do braço?

O que pretendem zelosos defensores da “consciência de classe” quando responsabilizam os “novos professores” pela falta de mobilização da categoria? Ora, não pretendem menos do que isentar a “despolitização dos últimos 20 anos” propulsora da ascensão da direita que encontrou em Bolsonaro um inesperado “crítico da ordem” dominante! Acordem: ao calar sobre as misérias cada dia mais visíveis do governo e sua economia política que condena a maioria absoluta dos trabalhadores à superexploração da força de trabalho não fazem menos que deixar o monopólio da crítica para a direita!

Os baixos salários, os orçamentos sob permanente restrição, a mercantilização como aparente alternativa, o colapso da “universidade inclusiva” (Janine Ribeiro) evidente com a “sobra de vagas” e a redução acentuada da relação candidato-vaga em um sistema de ingresso (ENEM) que já deveria ter sido superado produz um evidente e justificado pessimismo nos novos professores. Como superar essa situação? No âmbito sindical, podemos retomar a reflexão crítica sobre a função da universidade num país cada dia mais afundado na dependência científica e tecnológica e abandonar definitivamente a miragem da inclusão social universitária num contexto onde os miseráveis são multiplicados pela taxa de juros mais elevada do planeta, os baixos salários e políticas compensatórias incapazes de tocar no nervo da marginalidade definitiva de milhões de brasileiros. 

Portanto, o suposto “vazio ideológico” do “despolitizado” jovem professor não é menos que um produto necessário da renúncia voluntária daquele radicalismo[2]  político identificado com o socialismo e a revolução social que era um combustível tão necessário para a politização dos colegas quanto da afirmação da universidade como instituição de Estado! Agora, diante de um sentimento de desânimo sobre o futuro e enquanto alguns professores sonham com uma temporada em Yale e Columbia, Sorbonne ou Oxford, não se dão conta de que estamos com os pés afundados num país subdesenvolvido e dependente que importa máquinas e equipamentos para a indústria, adubos para o latifúndio e não duvidaria que até mesmo a roupa intima que usam possui a marca indelével no selinho: made in China!

A greve, portanto, exibe não apenas nossas misérias, mas também as exigências de nosso desafio comum. O governo não tem projeto para o país – exceto a reprodução ampliada da dependência – e, portanto, tampouco pode oferecer algo digno para a universidade. A divisão sindical que nos enfraqueceu até agora precisa terminar de uma vez por todas, a despeito do caráter cada dia mais fantasmagórico do Proifes. Na mesma toada, o ANDES necessita da renovação de sua práxis sindical e a mais completa independência de qualquer governo. Mas essa é apenas uma condição necessária, jamais suficiente. É preciso que nosso sindicato abra um debate nacional sobre o futuro da universidade que já não cabe no surrado bordão de outras épocas (a defesa de uma “universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada”) para enfrentar níveis de dependência jamais sofridos anteriormente.

Entre a conversão liberal da antiga esquerda radical existente nos anos oitenta do século passado – agora cínica defensora da ordem burguesa e do bom-mocismo – e a brutalidade da direita capaz de atuar sem vacilação rumo a uma modalidade qualquer de estado policial, a tarefa da greve é imensa: novos e antigos professores necessitam lutar pela imediata recuperação dos salários num tempo em que a própria existência da universidade como instituição está em questão.

Revisão: Junia Zaidan

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

As confissões de Zé Dirceu

 A completa integração do PT à ordem burguesa é assunto quase proibido entre as cabeças pensantes e independentes no país. Com frequência, quando a reflexão exige um pouquinho de rigor e duas moléculas de honestidade político-intelectual, a miséria partidária visível aos olhos de milhões de brasileiros, é tematizada como fruto de circunstâncias alheias à vontade de seus líderes. Supostamente, uma obra da contingência, jamais uma opção consciente de seus antigos dirigentes e especialmente da figura de Lula. A "ala esquerda" do PT - presença apenas testemunhal da decadência política, ideológica e programática do partido - reproduz ilusões sobre a real situação do outrora considerado o "maior partido dos trabalhadores da América Latina". Aquele militante de sentimento socialista há muito temperou suas antigas convicções com elevadas doses de pragmatismo cujo resultado pode ser identificado sem muito esforço no caráter confuso do governo, na miséria da maioria de seus ministros, na completa falta de iniciativa política e, sobretudo, na continuidade da economia política do rentismo sob condução de Lula/Haddad.

Em perspectiva histórica, a antiga capacidade de formulação do PT e seus dirigentes desapareceu para sempre pois agora as instâncias partidárias se encontram sob comando de deputados, governadores, senadores e todas as demais expressões do mais rasteiro cretinismo parlamentar e dos iniciados no submundo dos pequenos negócios. Nessas circunstâncias, não é exagero afirmar que o antigo partido nascido do duro combate operário contra a ditadura e forte presença da esquerda reformista e revolucionária - derrotada em abril de 1964 e mais tarde em 1974 com o fim da luta armada -, desapareceu para sempre. Entretanto, se muitos reconhecem os méritos de sua origem, são raros aqueles capazes de afirmar sua decadência na atualidade. No limite, sob o impulso de múltiplos interesses - todos distantes dos trabalhadores - um hálito de esquerda ainda permanece na jaula lulista. Em consequência, podemos observar apelos para a "volta às bases" e declarações em favor da "antiga militância aguerrida" quando o partido se encontra completamente capturado pelo carreirismo político-eleitoral sob a rasteira argumentação "gramsciana" segundo a qual é "preciso disputar a hegemonia" nos marcos do atual sistema político. Uma farsa completa!

Em consequência, a audiência aos atuais representantes do partido - nem em pesadelo poderíamos chamá-los de dirigentes! - constituiu um exercício inútil para a compreensão do conflito de classes de alta intensidade em curso no Brasil. O PT e especialmente Lula, repete enfadonhamente o bordão que alimentou a vitória eleitoral considerada por seus cardeais necessária para abrir as portas da volta à normalidade republicana perdida com a destituição de Dilma em agosto de 2016 e a vitória do protofascista Bolsonaro em 2018. Mas esse retorno, sabemos, é impossível sem uma mudança radical na correlação de forças que o resultado eleitoral de 2022 era como alertamos muitas vezes, incapaz de produzir. Contudo, o completo e irreversível controle liberal do PT e a dedicação resoluta de Lula em filiá-lo doutrinariamente ao Vaticano e ao Partido Democrata dos Estados Unidos, impede qualquer ação necessária para enfrentar tanto as transformações do capitalismo dependente em sua fase rentística quanto para regenerar a crença das maiorias no sistema político em crise profunda.

Aqui, precisamente aqui, reside a vantagem estratégica da direita protofascista comandada por Bolsonaro na conjuntura: a incapacidade crônica do PT e Lula em oferecer uma alternativa à dupla crise anunciada acima. Ademais, o governo e seu partido é notoriamente incapaz de pensar e implementar uma alternativa real para a crise da república burguesa, mas, inclusive, em função da composição e ação de seu governo, o petismo (seja lá o que isso quer dizer) não percebe o aprofundamento da crise e a completa repulsa da maioria da população às negociatas entre Lula e o covil de ladrões representado no congresso nacional. Os representantes do PT comandam, quando muito, comitês eleitorais e as disputas internas se resumem à busca de espaço nos ministérios cujo objetivo é a repartição de influências nos estados destinados à reprodução parlamentar e à conquista de governos estaduais. A função dirigente que o  partido pretendia em sua origem, não mais existe. 

Mas, então, quem "dirige" o Partido? Ora, Lula no governo! Não é Lula quem dirige, mas Lula no governo. E quando Lula não está no governo quem, afinal, dirige o PT? Bueno, nesse caso Lula mantém o controle das decisões mais importantes porque é "o único que pode chegar" a presidência! O Partido não passa de uma plataforma eleitoral de acesso a postos nos ministérios, razão pela qual uma instância decisória jamais ousa ultrapassar os limites estreitos da linha traçada pelo presidente da república. Há muito o Partido renunciou sua autonomia frente ao governo e mantém disciplina total diante das determinações de Lula.  

A submissão do Partido à razão de Estado é, portanto, completa e definitiva. Não é ocioso recordar que  na periferia capitalista (latinoamericana), o Estado possui determinações que ninguém pode ignorar, menos ainda aqueles devotados à tarefa de lograr cidadania nos marcos da ordem burguesa. Aqui, o "comitê de negócios da burguesia" não pode sequer apresentar o mofado e anacrônico "estado de bem estar social" que a duras penas e de maneira caricata exibe reminiscências numa Europa completamente submetida aos Estados Unidos. A orfandade socialdemocrata é, inclusive para o mais ingênuo dos desenvolvimentistas, uma dura e amarga realidade.

Nesse contexto, o vice presidente nacional do PT - o deputado Washington QuaQuá do Rio de Janeiro - não representa anomalia, mas uma demonstração da vitalidade do partido na ordem burguesa; ele, de fato, não possui limites ou escrúpulos, como diz um zeloso e impotente moralista, reminiscência da juventude partidária em extinção. Entretanto, a atuação do deputado fluminense exibe a ausência das antigas virtudes que o petista exitoso (vereador, prefeito, deputado, senador ou governador) tampouco pode carregar, pois a necessidade de reprodução parlamentar tem que conviver com todo tipo de oportunismo eleitoral e um apetite insaciável típico do lúmpem a serviço da burguesia. Portanto, nada de injustiça, por favor: além de Quaquá, existem muitos outros, de igual estirpe e com semelhantes objetivos, atuando com mais requinte na mesma direção.

É nesse contexto que ainda dedico alguma atenção às analises do José Dirceu. O ex-todo-poderoso secretário geral e presidente do Diretório Nacional por muitos anos, responsável pela derrota da esquerda marxista então existente no PT e influente chefe da Casa Civil do primeiro governo Lula, caso não tivesse sido destituído, seria o candidato imbatível na disputa interna na sucessão do então presidente. A despeito de sua aptidão para o pragmatismo, Zé Dirceu mantém seletiva memória histórica e segue operando como uma espécie de "referência crítica" para os petistas mais sensíveis e desesperados com os rumos do atual governo. Ele voltou a circular na imprensa burguesa, com frequência é ouvido por empresários e parlamentares porque, como a vida ensina, ninguém sabe sobre o dia de amanhã... É claro que as ações dos tribunais contra ele limitam e de certa forma regulam uma atuação mais destacada nas instâncias partidárias, mas nem por isso ele deixa de indicar caminhos e ensaiar uma disputa mais intensa.          

Pois bem, numa recente entrevista ao Instituto de Brasilidade  (22 de fevereiro), Zé Dirceu confessa seu absoluto ceticismo sobre as possibilidade do governo petucano. Afirma sem rodeios - mas com o devido cuidado - que o governo vai fazer muito pouco nesse mandato e adianta que somente num prazo mais longo (8, 12 ou 16 anos!!) o petista angustiado poderia ter alguma esperança de um resultado melhor.  Ora, o argumento é pueril mas alimenta o apetite eleitoral enquanto tenta ganhar tempo para regenerar o PT cujo congresso esta previsto para o próximo ano. 

Zé Dirceu, maldito pela política burguesa da qual segue fiel servidor, tenta recuperar influência política e incidir na reconstrução do Partido porque conhece a trama que ajudou construir e da qual foi, talvez, a principal vítima petista. Ele fala, sugere caminhos, mas não tem instrumentos para fazer valer suas propostas no governo: nem poderá. O PT, como partido capaz de mobilizar e incidir na guerra de classes, está morto. Em 2016, diante da ofensiva burguesa sob comando da direita, ficou evidenciada a mais completa impotência para manter Dilma ou ao menos lutar sem temor e medida na defesa da ex-presidente. Foi uma derrota histórica com profundas consequências entre as quais a impossibilidade de uma mudança de rumo radical ou moderada diante da ordem burguesa e as exigências do sistema político em crise. Na ausência dessa revisão, emergiu a justificativa ideológica do "golpe", a denúncia do "anti-petismo", os brados contra a perseguição judicial de juízos corruptos (Moro), a produção midiática de um consenso contra Lula e o PT, como se os inimigos de classe estivessem abandonado um código de ética na luta política republicana!

Quais as confissões mais importantes de Zé Dirceu na entrevista mencionada?

Em primeiro lugar Zé Dirceu confessa a ausência de um "núcleo de governo claro". Ademais, não deixa de acusar o "desastre em certas áreas" de atuação e registra a incapacidade de Lula em mover a militância mesmo quando denunciou as elevadas taxas de juros: as "bases" não se moveram e a "sociedade" ignorou completamente os reclamos presidenciais. Ora, ao contrário do que afirma ZD, o governo tem um núcleo racional cujo comando é de Lula e Haddad. Na prática é o "núcleo dirigente" ordenado pelo respeito absoluto da economia política do rentismo responsável pelo "desastre de certas áreas" cada dia mais visível para milhões de brasileiros na insuficiência das políticas públicas restringidas pelo teto de gastos e a política de austeridade praticada com total zelo até aqui. Haddad, com profunda convicção, faz a defesa do déficit zero! De resto, supor que uma base fiscal distinta - colocar os ricos no imposto e os pobres no orçamento - e uma baixa gradual dos juros, poderiam alargar as estreitas margens nas quais navega o barco petista é pura mistificação. 

Na segunda confissão Zé Dirceu recusa o ônus do identitarismo. Ele descobriu que a pauta ambientalista (Environmental, Social and Governance - ESG), LGBT e da igualdade de gênero é uma política dos capitalistas. Eureka!!! As empresas multinacionais adotam e multiplicam a ideologia liberal ao redor do mundo mas aqui, no Brasil, segundo suas próprias palavras, o "ônus ficou com a esquerda". É uma descoberta motivada pela baixa densidade eleitoral do identitarismo, a despeito de imensa propaganda diária dos monopólios dos meios de comunicação! Eis a razão pela qual Lula exigiu discretamente candidatos com alguma liderança popular e não alguém preto, gay ou mulher! De fato, o identitarismo rasteiro e alienante - expressão particular de mobilidade social de extração individualista - divide o que restou da esquerda e permite a agitação ideológica da direita na imprecisa e conveniente "guerra de costumes". É a deriva identitária denunciada e analisada com certa precisão por Elizabeth Roudinesco. O reconhecimento do problema por Zé Dirceu é tardio, porém útil para um gradual descolamento da agenda identitária; de resto, o PT já resolveu em larga medida o problema ao terceirizar o identitarismo via PSOL, (PC do B também) cada dia mais assemelhado a sublegenda no "horizonte" lulista.

Ora, o identitarismo é ideologia importada dos Estados Unidos, mais concretamente do Partido Democrata, mas o apetite eleitoral e o financiamento externo manteve fidelidade de muito "movimento social" e algumas "lideranças" a quinquilharia ideológica gringa. No entanto, a análise da disputa eleitoral no país imperialista revela de maneira cristalina as razões pelas quais Obama venceu nos Estados Unidos recusando abertamente o identitarismo em defesa astuta e realista da condição americana! Contudo, em sua sucessão, o Partido Democrata viveu breve primavera identitária nas internas de 2016 quando o senador Bernie Sanders tentou mas perdeu para Hillary Clinton. Na ultima disputa o identitarismo de Sanders ensaiou mas sequer chegou à convenção final. O Partido Democrata amargou uma fragorosa derrota para Trump e Biden seguiu a fórmula de Obama para vencer, mas a notícia apenas começa a chegar aqui...   

A terceira confissão não é uma novidade mas nem por isso deixa de ter importância: ZD declara o governo petucano de Lula/Alckmin como centro-direita; um governo de centro-direita com participação da esquerda! É uma pancada de realismo na cabeça do petista ingênuo e também do lulista religioso. É óbvio que a declaração não desperta consciência alguma no sentido crítico pois os dois bandos estão treinados na estranha arte do pragmatismo capaz de justificar qualquer ministro ou aliança desde que mantenha Lula na cadeira presidencial. Zé Dirceu pretende que o congresso do partido no próximo ano retome algo da iniciativa política a ponto de poder influenciar tanto na composição do governo quanto na orientação das políticas públicas na suposição de que é possível recuperar a capacidade de mobilização da sociedade com o despertar do PT. Entretanto, o compromisso de vida de Lula com a economia política do rentismo aliado às transformações do capitalismo no país que seus sucessivos governos produziram, a derrota histórica de 2016 e a renúncia do projeto socialista em nome da miserável administração democrática da república burguesa e da crise de seu sistema político impedem na raiz qualquer esperança nos mais otimistas.

A quarta confissão é uma novidade, pois reconhece que os países capazes de garantir certa estabilidade política e com alguma capacidade de intervenção nas disputas mundiais possuem uma coesão interna que aglutina forças sociais e, quando necessário, é também capaz de reprimir seus adversários reais ou potenciais com eficácia. Na linguagem cifrada, são países que lograram um sistema político centralizado, uma verdadeira miragem nas condições atuais nas quais Lula e o PT reforçam abertamente uma modalidade perversa de parlamentarismo e, em consequência, sabotam em nome do "realismo político" todas as virtudes potenciais do presidencialismo reconhecidas historicamente pelo povo brasileiro. É a defesa abstrata da democracia contra todas as formas totalitárias imaginárias! A despeito das evidências que qualquer um pode ler no jornalão burguês, Zé Dirceu se mantém cativo da criatura que ajudou a fortalecer e concluiu que somente Lula pode liderar um projeto de transformação e mudar o rumo do país. A contradição não poderia ser mais evidente: Lula atua decididamente nos marcos da podridão do sistema político e reforça todos os seus vícios, como se fosse virtude e sabedoria governar em aliança com Lira ou Pacheco, com Alexandre de Moraes e Campos Neto. De fato, não há uma só medida destinada a revisar as "amarras" herdadas dos governos de Temer e do protofascista Bolsonaro. Nem haverá! Não se trata de limitações impostas pela "correlação de forças" mas de convicções profundas do liberalismo de esquerda.    

Na entrevista, Zé Dirceu aposta no debate público - sua única "arma" na conjuntura - e parece jogar sua sorte na reconstrução militante do PT destinada a criar ou influenciar em alguma medida um governo  incapaz de enfrentar a gravíssima situação nacional que Lula/Alckmin não fazem menos que agravar. No entanto, a linha dominante no governo petucano é avançar nas bases da direita na tentativa de neutralizar ou mesmo capturar apoios até bem pouco fiéis ao protofascista momentaneamente inabilitado pelos tribunais para disputas eleitorais. Há, contudo, um obstáculo insuperável: a economia política do rentismo turbina o desespero da classe trabalhadora submetida à superexploração (salários baixos e precários), políticas públicas em saúde e educação notoriamente insuficientes, taxa de investimento pra lá de modestas, teto de gastos e seguidas promessas de déficit zero. De resto, o improviso é uma marca do terceiro mandato de Lula, a tal ponto que segundo ZD o anúncio da "nova indústria Brasil" pegou até mesmo Lula de surpresa, razão pela, qual numa reunião pública, pediu metas e prazos para um "programa" sem fonte de financiamento (exceto o limitado BNDES) e sem plano algum capaz de ganhar algum grau de credibilidade. A coesão burguesa segue auferindo lucros extraordinários e nem de longe sofre alguma ameaça de natureza política; em consequência, a classe dominante dispõe de Lula e Bolsonaro. Tudo depende das circunstâncias e das exigências do momento. 

Nesse contexto, Zé Dirceu mantém a antiga pretensão de organizar o capitalismo no país com "inclusão social" a luz de um projeto de Brasil "grande". Ao contrário de janeiro de 2021 quando defendeu que o caminho para derrotar Bolsonaro era "reconstruir a consciência social na classe trabalhadora" e trazer de volta ao vocabulário a ideia de revolução social "sem medo" e "explicitando o que ela é", o ceticismo expresso na recente entrevista indica recuo radical. Mas indica também que Lula - altar onde ele deposita todas suas esperanças - não é menos que um beco sem saída!

Não há surpresa e sim repetição. Há muito ambos perderam o encanto dos tempos áureos em que eram carne e osso operando o giro à direita do PT e sua integração à ordem burguesa, jogada considerada sábia pela classe dominante. Agora, somente por conveniência o presidente ainda mantém um otimismo cosmético sem sustento na economia, na política e na luta ideológica, porém, ao custo de imenso sofrimento e exploração do povo. Ambos, cada qual a seu modo, seguem sendo uma fonte valiosa para exibir os limites históricos e políticos intransponíveis do petismo diante da ofensiva burguesa. Agora, Zé Dirceu, ao embalo ingênuo e impotente da geração de 68 da qual declara filiação, brada, de maneira dissimulada, que, de fato, o sonho acabou.

Revisão: Junia Zaidan

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Nos tempos do Américo

Américo Ishida pertenceu a geração dos anos 80 forjada no combate à ditadura e igualmente hostil a transição lenta, gradual e segura do regime militar ao liberal burguês. Perdeu a batalha, mas o combate não foi em vão. Uma andorinha não faz verão: Américo participava do nutrido grupo de trotskistas especialmente forte na Arquitetura num tempo no qual o academicismo agora dominante não tinha vez, pois na intensa batalha das ideias o título de doutor não conta. Fletes, o atual moderadíssimo presidente da APUFSC, turbinava o PC do B. Marcos Cardoso e outros exibiam certa força do PCB. O primo pobre ideologicamente sempre foram os professores militantes ou alinhados com o petismo numa época em que a filiação partidária não rendia cargos ou financiamentos para elaboração de “políticas públicas” e, portanto, ainda continha duas moléculas reais de compromisso com o povo. 

Foto: Coletivo SOMA do CAU

Naquele tempo existia um embrião de “comunidade universitária”, agora reduzido a um bordão destinado a mendigar orçamento em Brasília de duvidosa eficácia. Em consequência, a proximidade entre profes e estudantes era de tal ordem que o almoço (no RU) não estava separado pela conta bancária. Fala mansa, Américo tinha convicções embora seus argumentos eram não raras vezes perguntas; mas não se engane, o japa não cultivava dúvidas como se fossem virtudes. Ao contrário, suas perguntas estavam sempre carregadas de intenção! Na conversa sempre reservou doses comedidas de bom humor temperadas com fina ironia. Ao longo do tempo se manteve íntegro e creio que na exata medida em que a esquerda se fez liberal – com a completa integração do PT a ordem burguesa – Américo se entregou cada vez mais a reflexão sobre a estética marcando certa distância da disputa partidária notoriamente empobrecida. Também estava sempre preocupado e refletindo sobre a questão pedagógica, nas condições atuais um artigo de luxo na universidade brasileira.     

Com Lino Peres, elaborou um lindo projeto para a sede definitiva do IELA que haveremos de realizar. Muitas horas de debates e reflexão sobre o projeto, a América Latina, a luta de classes, a política, a arquitetura, a cultura, etc... Há tempos não sabia dele pois com a letargia da vida sindical somado ao academicismo alienante e de pequenos grupos, o encontro entre professores tornou-se raro e rarefeito. Entretanto, ainda mais raro é o encontro entre profes, técnicos e estudantes unidos numa luta comum; o identitarismo nos divide completamente. O último espasmo coletivo foi o rechaço ao “Future-se”, um adversário tão fácil de bater quanto fugaz para fomentar a unidade política. Talvez por isso não recordo a presença de Américo naquela batalha embora não tenha dúvidas sobre seu compromisso. Tampouco lembro se estava nas marchas até o centro da cidade e nas assembleias de estudantes, mas tenho certeza da natureza de nosso desencontro: o tempo do Américo já tinha passado. Era o tempo da luta contra a ordem, da batalha das ideias que moveu varias gerações na UFSC e em outras universidades, quando a maioria não estava limitada tão somente à administração “democrática” da ordem burguesa com todas as misérias possíveis e imaginárias. Aos 75 anos Américo nos deixa. É uma morte precoce, sem dúvida. Mas o exemplo de seu combate e mesmo as tarefas inconclusas, atualizam a verdade e a necessidade de novo esforço. O tempo do Américo passou? Bueno, o tempo do Américo voltará. Creio, saberemos honrar seu nome.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Palestina, teu nome é liberdade


Num tempo canalha, as palavras perdem sua força e, banalizadas, já não encontram seu sentido original ou sua potência explicativa. A frouxidão ideológica, sempre um produto da hegemonia liberal (progressista ou conservadora), revela o quanto devemos cuidar da linguagem como expressão da consciência prática, tal como Marx escreveu em A ideologia Alemã. Em larga medida, essa é a razão pela qual a burguesia por meio dos monopólios de comunicação e das universidades produziram as "guerras de narrativas" onde a despeito de antagonismos, todos os gatos são, mesmo a luz do dia, pardos. Não se trata de algo novo, ao contrário; é fenômeno recorrente na História. No Brasil, a banalização da linguagem adquiriu perfil particular, praticada por todos aqueles que se julgam de esquerda ou se autodefinem como progressistas. A direita, ao contrário, especialmente após 2018, chama as coisas pelo seu nome e, aos ouvidos delicados da consciência ingênua, é considerada truculenta ou medieval quando apenas atua de acordo com seus interesses, objetivos e crenças. 

Nos últimos anos - especialmente durante a pandemia - a esquerda liberal utilizou o adjetivo "genocida" para atribuir responsabilidades criminosas ao protofascista Bolsonaro na presidência da república. De minha parte sempre atuei com sumo cuidado diante de semelhante uso, inclusive na análise da política sanitária, porque além de elementar realismo político é também necessário preservar a força das palavras. A propósito, recordo que Marcelo Freixo anunciou numa entrevista que não chamava Bolsonaro de "genocida" porque, segundo suas pesquisas, o povo não entendia o adjetivo; a esperteza eleitoreira não é de meu agrado e, em consequência, não me orienta. Bolsonaro não era um genocida porque o Brasil não sofria nem sofre um genocídio (o mesmo vale para o apelativo "genocídio negro" de Abdias do Nascimento) Tampouco utilizei a expressão "fascista" para caracterizar o governo de Bolsonaro porque entre o regime político que sofremos e o fascismo há no mínimo um abismo!

Para não ser exaustivo: enquanto a esquerda liberal (PT, PSOL, PC do B, PCB, etc) afirmava a importância estratégica da "luta contra o fascismo" e recomendava voto na chapa petucana (Lula/Alckmin), a Revolução Brasileira lutou pelo voto nulo. Ora, se a luta contra o "fascismo" ou o "neofacismo" - seja lá o que isso representa! - orientava o voto na ultima eleição presidencial e constituía de fato um horizonte estratégico, não há razão para negar apoio ao atual governo que desde sempre afirmou seu compromisso com a continuidade da economia política do rentismo e programas sociais amparados na mera filantropia. Entretanto, a constituição de um governo de compromisso democrático contra o fascismo não seria desprezível se, de fato, estivéssemos diante da ameaça fascista. Ocorre que a "ameaça fascista" é inexistente e o argumento nunca passou de álibi para a esquerda liberal e seu corolário - o cretinismo parlamentar - seguisse tateando no labirinto lulista. Entretanto, é possível ver agora o antigo oportunismo em favor de Lula em signo oposto, simulando oposição ao presidente como se o governo petucano estivesse rasgando antigos compromissos. Ora, o caráter conservador do governo não autoriza a "surpresa" pois foi anunciado com todas as letras durante toda a campanha tanto no disciplinado apego a economia política do rentismo, na política externa, quanto no respeito as instituições burguesas, etc.

Nesse contexto, nem mesmo o genocídio em curso contra o povo palestino balançou o apego liberal ao governo Lula/Alckmin por parte de movimentos sociais e figuras públicas. Nada parece comover a maioria dos liberais de esquerda, nem mesmo o assassinato em massa promovido pelo sionismo contra o povo palestino exibido ao vivo pelos monopólios de TV. Em consequência, lideranças populares, parlamentares, sindicalistas, comentaristas "alternativos", buscaram rápida filiação ao "esforço humanitário" praticado pela diplomacia do Itamarati restrita ao resgate de brasileiros confinados em Gaza e dos simulacros de resolução em busca de um cessar fogo ensaiados quando a presidência do Conselho de Segurança da ONU esteve com o Brasil mas, nunca é demais recordar, sempre sob comando efetivo dos Estados Unidos. 

A contradição salta aos olhos: enquanto setores da esquerda liberal exibem solidariedade abstrata ao povo palestino, calam a crítica sobre a cumplicidade prática da diplomacia brasileira com o genocídio. Um exagero? Não! Os sucessivos massacres contra o povo palestino praticados pelo sionismo com apoio estratégico do imperialismo estadunidense contam com a cobertura televisiva dos monopólios como a Globo e CNN, mas ainda assim não conseguem esconder as milhares de crianças, mulheres, velhos assassinados em suas casas, hospitais, igrejas, campos de refugiados, ambulâncias, etc. As resoluções na ONU são francamente inúteis e, quando estimuladas, contam apenas como artigo de consumo para alimentar a consciência ingênua em cursos universitários de relações internacionais. O genocídio praticado por Israel - com apoio completo dos países europeus - somente poderá ser resolvido no terreno militar e político; a diplomacia, tal como tem sido praticada pelo governo Lula/Alckmin, revela-se agora mais do que em qualquer outra época, completamente cativa de Washington e da direita brasileira. O rumo do governo aqui ou na economia política, é claro: somar à direita para disputar nesse terreno com Bolsonaro!

Uma vez concluída a operação resgate - ainda que brasileiros ainda permaneçam cativos em Gaza - e após as enormes manifestações em Londres (além de algumas importantes nos Estados Unidos), a miséria lulista ficou ainda mais clara. Não basta Lula reconhecer - sempre tardiamente! - que um genocídio esta em curso pois nas atuais circunstâncias, até mesmo conservadores já reconhecem os crimes sistemáticos de Israel embora adicionem justificativas para legitima-lo. A "opinião pública" mudou, para dize-lo na linguagem marqueteira, a única que, afinal, a esquerda liberal respeita. Ademais, o Hamas - com apoio heroico do povo palestino - recolocou a questão nacional palestina no centro da disputa mundial. Portanto, os apelos à paz são simplesmente inúteis, exceto quando solicitados pelo Vaticano; ocorre que o Brasil pode fazer muito mais que o impotente apelo do sumo pontífice, pois dispõe de recursos inúteis à vida após a morte, mas indispensáveis para garantir vida plena aqui e agora aos condenados da terra!

Nesse contexto, podemos ver que a ofensiva sionista/imperialista contra o povo palestino motivou, em alguma medida, a mudança de ânimo de certos setores progressistas em relação ao governo e, ainda que ligeiramente, parece ter revelado de maneira mais clara a servidão e vassalagem do Itamaraty diante da política externa dos Estados Unidos. Até a virada do século, a análise sobre a conjuntura nacional iniciava com a avaliação da luta de classes em escala mundial. A consideração da situação nacional estava com frequência baseada na criteriosa análise do conflito de classes em escala mundial mesmo quando observada pelo limitado prisma da "guerra fria". Nessa perspectiva, não somente acuso o provincianismo dominante nas tentativas de interpretação do que de fato ocorre entre nós mas sobretudo a negativa implícita ou a recusa aberta em observar as crises e conflitos mundiais desde uma perspectiva de classe, ou seja, da luta de classes. Não por outra razão, no lugar da análise rigorosa do conflito de classes mundial, o "horizonte" da esquerda liberal não ultrapassa as tradicionais e miseráveis considerações sobre resultados de processos eleitorais: "Milei venceu na Argentina, a situação é adversa" brada a sabedoria do assessor parlamentar. "Lula venceu! Uma derrota para o fascismo e a onda conservadora!", grita o sindicalista desavisado. "Petro, na Colômbia, manda pra reserva generais assassinos. Uma vitória!" ensina o deputado na tribuna.  Eis a análise da conjuntura mundial...  

O genocídio em curso contra o povo palestino na forma concreta da limpeza étnica (Ilan Pappé) promovido pelo sionismo abriu, subitamente, nova exigência política-intelectual ainda incapaz de romper a ingenuidade e oportunismo da trajetória da esquerda liberal inclusive diante do terrorismo de estado de Israel que, a despeito de forte carga ideológica e propagandística em favor do sionismo, os monopólios de TV não são capazes de ocultar. A antiga paralisia ou mesmo a recusa em ver a guerra de classes em escala mundial não foi superada, mas é evidente o descontentamento com o governo Lula e a lenta, porém inexorável, erosão do moralismo rasteiro que orienta as declarações presidenciais sobre os temas caros a tradição humanista que de alguma maneira formou a esquerda em nosso país. 

De fato, ninguém poderá explicar o moralismo lulista e seu "humanismo" rasteiro, senão como condição necessária para conviver em harmonia com a política imperialista estadunidense no Oriente Médio na qual Israel é a sentinela a serviço do imperialismo. A direita bolsonarista não vacila em seu vínculo orgânico e militante em favor do sionismo tão importante para a burguesia, os monopólios de comunicação e, não menos decisivo, na cúpula das forças armadas. Portanto, a política externa lulista é cumplice da ofensiva imperialista contra o povo palestino pois é incapaz de repudiá-la diante do genocídio e da limpeza étnica em curso em Gaza e, em breve, na Cisjordânia. Lula e seu governo conservador apostou tudo no simples e necessário resgate dos brasileiros vivendo em Gaza, a versão mais fiel e concreta do que é o inferno terrenal para aqueles que acreditam na existência (e no castigo!) dos deuses. A presidência do Conselho de Segurança (CS) da ONU apareceu nos monopólios de TV - especialmente Globo e CNN - como expressão do "protagonismo brasileiro"; entretanto, nem a apologia sobre as "possibilidades" do Brasil na presidência do CS tão funcional à política imperialista, foi capaz de ocultar sucessivos fracassos, além de revelar os limites objetivos da solução negociada de interesses numa mesa regada a cerveja e picanha... Cativo da ingenuidade, o lulista/petista não percebe sequer que até mesmo a última leva de brasileiros liberados foi produto da articulação entre Israel, Estados Unidos e o ... Catar! Portanto, o surrado  e apologético bordão segundo o qual "o Brasil voltou" nas disputas mundiais caiu por seu próprio peso! 

Diante do genocídio sionista contra o povo palestino, o oportunismo eleitoreiro da esquerda liberal se depara com a miserável condição de reconhecer que diante de ação comandada por Netanyahu e o tradicional terrorismo de Estado praticado historicamente por Israel, o protofascista Bolsonaro é menos que um aprendiz a despeito de sua devota filiação sionista. O reconhecimento dessa diferença elementar não anistia sequer uma molécula moral e política ao personagem e seu governo, mas apenas restitui o terreno concreto da luta de classes e sua exata qualificação. Bolsonaro não é, nem de longe, Hitler ou Netanyahu. 

A diplomacia brasileira - caso estivesse de fato orientada pelo apego à soberania nacional - não poderia senão afirmar de maneira clara que nas atuais circunstâncias, Israel não tem direito a existência; não, pelo menos, enquanto a Palestina não for um estado com idêntica existência e garantias! A consciência diplomática liberal, apegada ao "direito internacional" deveria reconhecer essa condição básica pois é precisamente o que ordena a resolução 242 da sacrossanta ONU, que legitimou diante da força das potências imperialistas o deslocamento de milhões de judeus para território palestino e, no limite, permitiu o avanço do sionismo. Entretanto a tradição brasileira em política exterior é prisioneira moral e ideológica da indústria do holocausto , como acertadamente ensinou Norman Finkelstein. Além, é claro, de sua crônica incapacidade de fazer valer nossa soberania em qualquer fórum mundial necessário para assegurar controle do território e da riqueza nacional. De resto, nunca é demais recordar que "protagonismo internacional" não se conquista com a prática cínica do bom mocismo que se tornou uma especialidade da maioria do corpo diplomático com apoio completo da imprensa burguesa. 

A defesa da causa palestina está revelando também o alcance e a orientação ideológica de toda luta antirracista no Brasil. A longa reflexão crítica sobre a escravidão em nosso país - especialmente fecundas nas contribuições marxistas - foi arteira e ideologicamente substituída pelo "combate" burguês autorizado contra o "racismo estrutural" sob comando dos monopólios televisivos e da influência identitária importada do Partido Democrata dos Estados Unidos especialmente forte nas universidades. Não deixou de ser uma surpresa observar que as "lideranças" negras mais autorizadas do país e festejadas nas redes digitais ainda guardam enorme silêncio sobre o racismo sionista contras os palestinos e os árabes em geral. Você já viu ou leu algo de Djamila Ribeiro em defesa dos palestinos? Acaso, o racismo de Israel, tanto quanto aquele vigente na África do Sul até março de 1991 (Apartheid), não é uma versão particular do racismo destinado contra os palestinos? E se o racismo existente no Brasil é, de fato, detestável e merece nosso combate, o que dizer do sionismo como a maior expressão estatal e religiosa de racismo em nosso tempo? Entretanto, deputados e vereadores, assessores e lideres sindicais, da esquerda liberal guardam enorme silêncio sobre o genocídio particularmente visível em Gaza enquanto gritam todos os dias contra o "genocídio do negro" em nosso país. Mesmo agora, lideranças populares vinculadas ao PT e ao PSOL - para mencionar apenas exemplos mais grotescos e vergonhosos - guardaram silêncio diante da limpeza étnica e, somente de maneira esparsa e tímida, começam a balbuciar algo sobre a tragédia em Gaza. 

Nesse contexto, é fácil compreender os apelos genéricos a uma sorte de humanismo burguês rebaixado que reclama o cessar-fogo como se fosse possível convencer o estado sionista com palavras. Da mesma forma é possível observar o cinismo de um suposto "sionismo de esquerda" de acadêmicos a serviço da ordem burguesa condenar o Hamas como exemplo de atuação anti-moderna como se a política de Israel fosse em alguma medida defensável. Nas circunstâncias atuais o chamado "direito a existência de Israel" e seu religioso "direito à defesa" não passa de uma criminosa autorização para matar e cometer crimes de guerra, além, é claro, de permitir ou avalizar sua política sistemática e consciente de limpeza étnica na Palestina. 

Não é preciso ser um gênio político para reconhecer que, no atual contexto, somente vitórias militares do Hamas contra o exército sionista poderá mudar a correlação de forças e abrir a possibilidade remota de um cessar-fogo, a bandeira tão cínica quanto impotente da diplomacia petucana praticada por Lula. Não obstante, se somente a luta dos palestinos poderá produzir efeitos capazes de interromper o genocídio em curso, há uma batalha aqui que devemos travar. Essa batalha não admite vacilo: é contra a política externa do governo petucano Lula/Alckmin. Não devemos vacilar no mais mínimo contra um governo cúmplice, funcional aos interesses imperialistas materializados por Israel contra o povo palestino em particular e os árabes em geral. De resto, a inesgotável fonte energética do Oriente Médio deveria alertar aos desavisados e ingênuos sobre o entreguismo praticado pelo lobista e senador do PT Jean Paul Prates na presidência da Petrobrás sob orientação de Lula, apoiados pela cúpula sindical da FUP e da FNP.

Alertei acima que não seria essa a primeira vez na história que nos defrontamos com opções realmente dramáticas inerentes a lógica das situações extremas que, finalmente, se impõe como o critério da verdade. Na tradição socialista, é útil lembrar a aguda análise de Rosa Luxemburgo a respeito das decisões dos bolcheviques sob comando de Lenin em 1918, oportunidade em que acusou os comunistas alemães sobre suas responsabilidades diante dos limites objetivos da Revolução Russa. Rosa argumentou que "o desenrolar da guerra e da Revolução Russa mostraram não a falta de maturidade da Rússia, e sim a do proletariado alemão para cumprir sua missa histórica... O destino dela dependia inteiramente dos (acontecimentos) internacionais" (A revolução russa). Não serei exaustivo sobre a polêmica Rosa x Lenin, mas a lembrança é suficiente para observar que o genocídio do povo palestino exige outra orientação e conduta dos revolucionários no Brasil. Em larga medida, nem a histórica capacidade de luta do povo palestino, nem eventuais vitórias militares do Hamas, poderão bloquear a ofensiva sionista cujo horizonte é a solução final nazista destinada aos palestinos. Nesse contexto, será preciso que forças políticas se levantem no mundo inteiro e cabe lembrar ao provincianismo que nos domina que "o mundo é aqui". 

No Brasil, a recusa em reconhecer questões elementares da luta contra o sionismo já se transformou num esporte nas filas da esquerda liberal. Assim, é possível ver que especialmente no início do recente conflito iniciado em 7 de outubro as críticas eram dirigidas ao Hamas e "suas ações terroristas" responsáveis por "matar inocentes" na mesma medida em que também reprovavam Israel pela "desmedida reação" as ações do Hamas. O comportamento da esquerda liberal em "condenar os dois lados" nunca passou de um artificio para permanecer no campo da hegemonia da classe dominante. A crítica ao terrorismo de Estado de Israel apoiado pelo imperialismo estadunidense e todas as potencias europeias, ainda não ganhou cidadania em suas filas. É tão tímida quanto cúmplice. Essa linha de atuação mantém laços com a pratica "civilizada" na política e afirma o bom mocismo que também a orienta internamente em sua relação carnal com o governo Lula. 

Portanto, a exigência de ruptura de relações diplomáticas do Brasil com Israel entre outras medidas possíveis e necessárias simplesmente não entraram ou foram lembradas tardiamente por alguns deputados, sempre, obviamente, de acordo com o decoro parlamentar. A propósito, a recente nota de 61 deputados entre os quais a bancada inteira do PSOL, sequer menciona a exigência de ruptura de relações diplomáticas mas a "simbólica" e patética convocatória para que o embaixador brasileiro em Israel retorne a Brasília. Haveria algo que o diplomata pode nos revelar além do que já vemos na TV? No entanto, a ruptura com o governo petucano encabeçado por Lula e a passagem para a oposição de esquerda aberta como único meio de pressão contra a hegemonia liberal não passa pela cabeça de nenhuma de suas "lideranças". O artifício adotado para manter fidelidade à Lula/Alckmin consiste em decifrar as intenções embutidas nas posições de Lula ou aproveitar qualquer declaração ou ato da direita para subir na tribuna e atacar o protofascista Bolsonaro. Nada mais.

É necessário reconhecer que as manifestações militantes de apoio a causa palestina realizadas no Brasil foram, de fato, modestas, a despeito da clara oposição contra a política sionista responsável, entre outras, pela sutil mudança nos discursos de Lula, personagem sempre atento aos ventos do humor popular. A antiga filiação internacionalista de extração comunista na qual grande parte da esquerda brasileira se formou, desapareceu para sempre. Ocorre que a concepção internacionalista jamais esteve confinada no dominante bordão "marxista-leninista", um produto típico da ideologia do estado soviético. As revoluções sociais - como a Nicarágua, por exemplo - não assumiu aquela tradição e o nacionalismo terceiro-mundista cumpriu também função importante na luta anti-imperialista, especialmente aguda no Oriente Médio. Entretanto, se aquela tradição não comportava as forças vitais da Revolução Brasileira e merecia todos os reparos que a história registra, o comportamento atual da antiga esquerda brasileira expressa todos supostos liberais e encontra nos Estados Unidos - o mais importante país imperialista - seu horizonte político-ideológico. Em consequência, o artigo de consumo mais importante das filas da esquerda liberal é o identitarismo de extração estadunidense e cuja função ideológica é esterilizar até o fundo e o fim qualquer vestígio de classe nas lutas parciais (mulheres, negros, gays, etc). O conceito de classe e povo são subordinados quando não simplesmente desconsiderados e, no limite, tratados como se nações fossem "imaginárias". O individualismo burguês que legitima a concorrência capitalista é o mesmo que informa a mobilidade social das políticas de reconhecimento e ações afirmativas incapazes de contemplar milhões num país mestiço como o Brasil.  

O internacionalismo comunista orientado pela URSS até 1989 desapareceu mas não foi substituído pelo "reino da liberdade individual" onde cada um faz o que quer em defesa do pluralismo funcional a sociedade capitalista e a correspondente ideologia burguesa do "ser livre". Agora, como podemos ver a luz do dia, a liberdade de pensar esta totalmente garantida na mesma medida em que completamente filiada aos "valores" e praticas sociais emanadas do centro do Império. O novo templo de adoração não é mais Moscou, mas Washington! O outrora "detestável ouro de Moscou" foi substituído pela grana turbinada e fácil das ONGs e das Fundações num sistema de cooptação que incluiu parlamentares, burocratas dos partidos e lideranças da "sociedade civil". Tudo à luz do dia! Portanto, não estou alertando contra um "provincianismo" qualquer mas, ao contrário, acuso o provincianismo de extração colonial, pendente da "orientação" do Partido Democrata e das migalhas ideológicas oriundas na Europa submissa aos Estados Unidos, aquela também completamente sem projeto próprio. A hora e a conjuntura mundial exigem radical revisão da orientação ideológica entre nós: após o 7 de outubro, quando você falar em "resistência", pense na Palestina! Quando acusar o racismo, estude o sionismo! Quando clamar pela paz, analise os horrores  e as causas da guerra. Quando clamar pela solidariedade, atue duas vezes antes de pensar! Washington não é a capital das luzes, mas o centro de decisão do genocídio.

A luta nacional palestina, tal como registra a História, conta com inimigos poderosos mas não invencíveis. Portanto, em perspectiva histórica, a lógica das situações extremas vigente na Palestina e nos territórios ocupados, incluiu também todos nós, a despeito da distância geográfica. Ora, Gaza e Cisjordânia constituem a vala comum do sofrimento humano que hoje mata impunemente crianças, mulheres, velhos, adolescentes, homens e mulheres, gays e heteros sem qualquer distinção, exceto a nacionalidade: basta ser palestino para estar sob a mira assassina do sionismo. A luta palestina foi, desde sempre, uma luta universal desde uma perspectiva nacional. A despeito da adversa situação em que se encontram os palestinos e também suas organizações políticas - entre elas o Hamas - sabemos que o combate ainda será longo e sem sentença prévia sobre o vencedor. Aqui, no Brasil, gozando de completa liberdade política e dispondo de meios ainda importantes para fortalecer a luta nacional palestina, caberá à esquerda revolucionária empenhar-se na solidariedade ativa em favor da liberdade de todo um povo. Não uma liberdade abstrata, mas a liberdade de dispor de seu território e a segurança para sua existência sem qualquer restrição. Nessa batalha, ao contrário do que a consciência ingênua e não rara oportunista que a esquerda liberal pratica, há que ter clareza sobre o outro nome da liberdade que pretendemos também para os brasileiros: Palestina Livre! 

Revisão: Junia Zaidan