domingo, 21 de maio de 2023

A solidão de Ciro Gomes e o trabalhismo

 

O resultado eleitoral da última disputa presidencial foi um golpe duro para as pretensões políticas de Ciro Gomes. É inegável seu retrocesso quando comparado com o desempenho no primeiro turno de 2018, razão pela qual, após a vitória de Lula, o candidato do PDT foi para um curto retiro reflexivo. A volta recente num debate realizado em Portugal despertou antigas ilusões e criou novas expectativas que se defrontam com a dura realidade brasileira e a crise do sistema político dominante. 

Há um contraste evidente que passa sem registro no raso debate nacional: enquanto Ciro amarga sua solidão política e no ensaio de retorno à disputa eleitoral renova antigas críticas a Lula e ao PT, o partido ao qual está filiado (PDT) participa orgulhosamente do governo Lula na presença do ministro da previdência social Carlos Lupi, também presidente da sigla.

No debate em Lisboa, Ciro afirmou categoricamente que não representa mais uma corrente de opinião ("eu não represento uma corrente de opinião mais"). É um claro recado para os governistas do PDT que constituem a maioria dos diretórios e acumulam pequenas ambições eleitorais espalhados por todo o território nacional. É também, provavelmente, o anúncio de que ele está livre para buscar outro partido ou atuar na cena política como livre pensador. É uma ruptura sutil, mas é, antes de mais nada, uma ruptura. 

O PDT é um partido que sofreu grave regressão programática na qual Ciro cumpriu papel relevante. A atualização da doutrina trabalhista explícita no seu último livro e campanha, foi orientada, segundo suas próprias palavras, pela imaginação do professor de Harvard, Roberto Mangabeira Unger. Na prática, aquela operação representou uma ruptura radical com o trabalhismo de Vargas, Jango e Brizola e, embora o diagnóstico apresentado por ele tenha apenas roçado problemas graves da economia e do Estado, não foi suficiente para mobilizar votos nem tampouco capaz de anunciar um novo horizonte para a antiga tradição trabalhista. Na memória recente, não é exagero afirmar que Ciro apenas simula as críticas de Brizola e a saudável desconfiança do gaúcho em relação ao sistema político dominante em crise. Mas, ainda assim, assinala e condena mais os sintomas da doença no lugar de oferecer uma saída para os crescentes impasses da luta de classes. 

Ninguém deveria se espantar com o fracasso político de Ciro na disputa presidencial. O pífio resultado eleitoral não deriva da orientação de sua campanha na qual tanto Lula quanto Bolsonaro eram alvos igualmente importantes, ainda que de sinais contrários. A política é conflito e, nas condições nacionais, conflito de alta intensidade; portanto, a linha de sua campanha era correta embora com elevada carga de superficialidade. É verdade elementar - ainda que a esquerda liberal negue com os dois pés juntos, as mãos e olhar elevados ao céu - que Bolsonaro e Lula são os dois lados da mesma moeda. Até mesmo os mais ingênuos e devotos lulistas já afirmam à boca pequena que a continuidade da economia política do rentismo conduzida por Lula pode trazer Bolsonaro - ou outro representante da direita - de volta à cena nas eleições de 2026... Ademais, ainda que de maneira dissimulada, já aparecem figuras indicando que Bolsonaro não emergiu na cena política como um raio em céu azul, mas foi resultado necessário das transformações operadas em longos 14 anos de petismo... É pouco, mas já é uma demonstração de que as exigências da realidade estão corroendo o oportunismo político.   

Portanto, a linha supostamente "raivosa" de Ciro não foi responsável pelo desastroso resultado eleitoral. Ocorre que tanto Ciro quanto o PDT fomentaram por mais de uma década o polo petista do sistema petucano (oposição entre petistas e tucanos). A ruptura de Ciro foi tardia e era incapaz de produzir um espaço à esquerda quando o petucanismo esgotou suas energias mobilizadoras com a ascensão do governo Temer e a posterior aparição de Bolsonaro. Ademais, não se deve esquecer que Ciro permaneceu fiel ao bloco da esquerda liberal encabeçada por Lula e Dilma até a destituição desta última em agosto de 2016. De resto, no segundo turno das eleições entre Haddad e Bolsonaro, Ciro cravou no petista sem vacilação alguma a despeito das calúnias e mentiras produzidas pela esquerda liberal contra sua reputação. Os movimentos eleitorais relativamente bruscos não são capazes de produzir alteração na correlação de forças entre as classes sociais, especialmente quando todos os partidos se filiam à economia política do rentismo e também por isso não desfrutam da confiança do povo. Portanto, o caminho eleitoral de Ciro estava fechado antes mesmo de a disputa começar, não obstante erros reais ou imaginários na condução da campanha e nos alvos escolhidos.

Os obstáculos que Ciro amargou ontem quando pretendia representar o trabalhismo são exatamente os mesmos que enfrentará a partir de hoje como livre pensador: os limites objetivos da esquerda liberal no labirinto da crise do sistema político e da emergência do capitalismo dependente rentístico. A propósito, não há uma fase neoliberal do capitalismo que, com imaginação e pragmatismo, poderia ser substituída por algo destinto que ainda atende pelo teimoso nome de "desenvolvimentismo ou neo-desenvolvimentismo". As transformações na economia mundial determinaram a atual posição do país na divisão internacional do trabalho reduzida à condição de mero exportador de produtos agrícolas e minerais cuja origem foi a hegemonia do capital financeiro na implantação do Plano Real em junho de 1994.

Nesse contexto, não basta a crítica aos "juros escorchantes" denunciados por Antonio, o abnegado comerciante diante de Shilock, o judeu agiota, insensível e avarento criado por Sheakespeare no século XVI. No desenvolvimento capitalista rentístico, a simples denúncia dos juros funciona, na prática, como ideologia destinada a garantir a hegemonia financeira antes de criar consciência crítica para a ruptura com o "modelo neoliberal". De resto, quem senão Lula está no comando da denúncia retórica dos juros enquanto garante vida longa ao rentismo? Ciro chega tarde, uma vez mais... e terá que arar em terras que já possuem proprietário.

A presença do PDT no governo deixa Ciro na mais absoluta solidão pois as críticas apresentadas desde Lisboa não arranham a convicção do partido no sentido de romper com Lula/Alckmin, a mais perfeita tradução do petucanismo. O vice Alckmin - ministro fictício da Indústria e Comércio - é menos que uma caricatura da impotência do capital industrial paulista, o epicentro burguês do país. A tradição trabalhista está esgotada historicamente e devo reconhecer, sem conceder nobreza na escolha do PDT, que não haverá um movimento na direção de uma aliança entre capital e trabalho rumo à retomada da industrialização. O pragmatismo pedetista é, finalmente, feito do mesmo barro que o pragmatismo petista, pecedobista, psolista e outros tantos: a mera auto-reprodução parlamentar no interior de um sistema político da república burguesa apodrecida em seus cimentos. Por fim, a industrialização é caminho vetado há décadas! Morreu com Geisel e sua ditadura de classe no final do "milagre brasileiro" em 1975.

A Carta de Lisboa foi uma cartada de Leonel Brizola às vésperas de seu retorno à cena política nacional. O gaúcho amargara o exílio mais longo entre todos os políticos brasileiros: 15 anos não são 15 meses, carajo! Ademais, o estigma de radical acompanhou Briza desde sempre e foi renovado pela classe dominante quando ele pisou em solo nacional naquele final de tarde do dia 6 de setembro de 1979. Temperado pela experiência de lutas cruciais em seu tempo - da genial e heróica luta pela legalidade, o posterior flerte e renúncia da luta armada e, finalmente, o compromisso com o socialismo renovado pela adesão à Internacional Socialista -  a verdade é que Briza errou ao apoiar Lula nas disputas eleitorais e filiar a tradição trabalhista no altar do Vaticano e do Partido Democrata dos Estados Unidos que sempre orientaram as decisões de Lula e o do PT. 

No entanto, a astúcia e o talento político de Brizola não foram suficientes para enfrentar a direitização do ocidente, que liquidou o socialismo soviético, produziu a socialdemocratização dos antigos partidos comunistas no velho continente e a precoce adesão da socialdemocracia às teses liberais. Quando conquistei meu primeiro emprego após deixar os bancos escolares na UFSC em 1984 - na FESP do primeiro governo Brizola no Rio - meu mestre e amigo Ruy Mauro Marini certa vez me alertou que gostava do Brizola porque ele colocava pimenta na insossa política nacional. Não foi suficiente, sabemos. No entanto, Marini jamais aderiu ao trabalhismo, ao contrário de Vania e Theotonio, que escreveu "O caminho brasileiro ao socialismo" como livro de ingresso nas filas do Brizola. Eu recebi o livro das mãos do autor e a despeito de minha recusa às teses ali expostas, sempre reconheci a honestidade intelectual de Theo, que rompia com o núcleo duro da teoria marxista da dependência no terreno da tática e estratégia socialista... Bueno, Theo estava em Lisboa com Betinho, Moniz Bandeira, etc... 

A verdade é que o PT e Lula ocuparam o antigo espaço do trabalhismo na luta política. A trama é longa, merece reflexão mais apurada mas basta recordar que a derrota do nacional reformismo expresso na destituição de Jango pelo golpe militar de 1964, produziu efeitos de longa duração. A História é, de fato, cruel! Brizola sofreu 15 anos de exílio e, no seu retorno, encontrou uma terra difícil de arar. Os antigos líderes sindicais trabalhistas já não existiam e em seu lugar apareceu o "novo sindicalismo" apoiado pela igreja católica, a esquerda revolucionária que sobreviveu ao terror de estado e as lideranças sindicais moderadas encabeçadas por Lula e os sindicalistas combativos contra o peleguismo da estrutura sindical da ditadura. Até onde minha memória registra, o mais importante líder sindical do PDT estava no Rio, mais precisamente em Volta Redonda, no comando do poderoso sindicato dos metalúrgicos capaz de paralisar a CSN. Entretanto, a atuação de Juarez Antunes - que contava com assessores da talha de Colombo e Luiz Arnaldo Campos - foi interrompida por acidente fatal quando ele tinha apenas 55 anos... 

À luz da perspectiva histórica, a solidão de Ciro não é, portanto, um fato novo; nem por isso é menos grave. Na campanha eleitoral eu alertei "ciristas" próximos que o sobralense de adoção deveria ter atuado como uma caixa de ressonância contra a interdição da crítica produzida pela esquerda liberal, mas ele optou por um pragmatismo raso, que reduziu sua autoridade política, ainda que a vida esteja confirmando algumas de suas previsões. Na verdade, Ciro não tinha opção na disputa eleitoral anterior: deveria ter criado uma tribuna para todos os desterrados, aqueles que sofriam o exilio em seu próprio país, todos os náufragos da derrota histórica do petismo e especialmente para nós que lutávamos contra a hegemonia detestável da esquerda liberal... Entretanto, ele optou por um caminho animado por ilusões de extração eleitoral, sem jamais perceber que a república burguesa estava (e segue!) apodrecida em seus cimentos! Creio que, no essencial, Ciro repete a dose pois não há indicação na sua longa intervenção lisboeta de que pretenda romper de fato com as formas políticas e a "estratégia" da esquerda liberal que esmaga o povo sob a administração petucana. O teto de gastos que Lula validou antes de recusá-lo por completo, representa apenas mais uma demonstração do apego da esquerda liberal à ordem burguesa e a crítica a questões tão elementares não isenta ninguém de cumplicidade com o atual governo. A luta nos marcos da ordem e contra a ordem burguesa é problema ausente no seu discurso de retorno.  

A tentativa de combinar pragmatismo com utopia nunca produziu bons resultados! Na campanha, Ciro pretendeu oferecer uma alternativa racional aos extremos em disputa (Lula e Bolsonaro) omitindo que a polarização nada tinha de artificial, mas, ao contrário, era a própria manifestação eleitoral da lógica de situações extremas da qual não teremos possibilidade de sair sob a hegemonia do liberalismo de esquerda no campo popular. O fiasco da tentativa de figurar como o "espírito crítico" da esquerda liberal pode ser visto no precoce colapso do PSOL, mas também no silêncio cúmplice dos demais partidos - PDT incluído! - que calam sobre as misérias do atual governo em nome do combate ao ilusório "neofacismo".

É comovente observar a saudade juvenil que Brizola desperta na Juventude Socialista e em milhares de militantes independentes sem qualquer filiação ou mesmo fidelidade eleitoral ao PDT. O apelo ao caudilho do sul é tão expressivo, que até mesmo Lula afirma cinicamente ter "saudades do Brizola"!! Entretanto, se os trabalhistas pretendem, de fato, honrar a memória e o legado de Brizola, deveriam trilhar o caminho da recusa à hegemonia liberal da esquerda encabeçada pelo petucanismo e o governo Lula. Nesse contexto, a presença de um ministro do PDT no governo conservador de Lula/Alckmin não faz menos que eternizar a tutela petista no interior das forças que justificam sua existência na luta contra o "neofascismo". O próprio Brizola sucumbiu - por circunstâncias e constrangimentos muito mais dramáticos do que os atuais - ao figurar como vice e depois apoiar Lula nas disputas presidenciais. Mas ninguém pode esquecer que o último recado da consciência rebelde do gaúcho apareceu precisamente nas homenagens populares em seu velório no Rio: quando Lula, então presidente, apareceu para prestar a última homenagem ao caudilho do sul, recebeu uma sonora vaia nunca antes vista numa cerimônia semelhante. Naquele distante junho de 2004, o atual presidente estava acompanhado de vários ministros - Dirceu, Pallocci, Amorim - e... Ciro Gomes (ministro da Integração Nacional). A imprensa registra a força do protesto obrigando a delegação oficial a permanecer breves cinco minutos e se retirar pela porta dos fundos do Palácio Guanabara. Ao contrário dos petistas, apenas Ciro permaneceu e, de quebra, condenou o merecido e espontâneo protesto da base brizolista. 

A vitória eleitoral da chapa petucana polarizou ainda mais a situação política nacional. Não há novidade no fenômeno pois a "política de ódio" instaurada pela ofensiva burguesa não poderia ser combatida pela "política do amor" destinada a "acolher" os miseráveis e "pacificar o país". Não podemos considerar a polarização atual como um artificio que poderia ser superado por políticas públicas rebaixadas, historicamente incapazes de tocar no nervo da miséria e exploração de nosso povo; tampouco é possível alimentar ilusões sobre a capacidade de auto regeneração do sistema político da república burguesa! A vã tentativa de "pacificar" o país é apenas expressão da impotência da esquerda liberal diante da ofensiva burguesa, pois as exigências materiais, políticas e culturais da guerra de classes aberta que sofremos na atualidade é muito mais do que uma simples "fase neoliberal" do desenvolvimento capitalista do Brasil. Na verdade, é produto do desenvolvimento capitalista dependente rentístico que veio para ficar e não pode ser superado pela administração democrática da ordem burguesa. É uma encruzilhada histórica! Aqui, nesse solo incerto e exigente, necessariamente instável, poderemos,  finalmente, ver de fato a estatura dos homens que pretendem representar o povo. Afinal, o destino dos alertas e críticas realizados por Ciro na exposição de Lisboa servirão para alimentar o impotente e miserável "espírito crítico do petismo" ou reforçarão a oposição de esquerda aberta ao governo conservador de Lula e Alckmin?

Revisão: Zunia Zaidan

 

terça-feira, 21 de março de 2023

O orgulho burguês do vestibular

Para Julia e Beatriz


A ideologia meritocrática necessita do vestibular assim como a sociedade burguesa exige a meritocracia. Os melhores - somente os melhores! - devem ser respeitados em sua superioridade e, sobretudo, tomados como a medida exata num sistema baseado no suposto da concorrência entre os cidadãos portadores de direitos iguais, em que a desigualdade de classe simplesmente desaparece sem deixar vestígios. Ademais, no capitalismo, os vencedores são sempre exibidos como resultado de trabalho duro somado ao talento individual natural alimentado por virtudes familiares, além, é claro, de uma boa pitada de disciplina e foco. O conto é largo, mas a brevíssima advertência é suficiente para a reflexão acerca do vestibular.

Há alguns dias, circulando no Estreito - parte continental de Florianópolis - me deparo com a apologia burguesa da meritocracia: um colégio indica num painel gigante que entre os cinco primeiros classificados no vestibular da UFSC, três estudaram naquela instituição privada. Na página da meritória e até então desconhecida empresa educacional, descubro que o DNA de aprovação da instituição criada no distante 1963 por estudantes de medicina de Ribeirão Preto (SP), é uma tradição iniciada num despretensioso cursinho pré-vestibular desde seus primórdios gozando de ótima reputação regional. Pequenas empresas, grandes negócios, reza o bordão televisivo!  

O orgulho burguês do vestibular rende bilhões aos capitalistas num país que recusa a luta pela universidade de massas e ainda mantém 30% do nosso povo na repulsiva condição de analfabetos e analfabetos funcionais. Na Argentina e no México - ambos países subdesenvolvidos e dependentes - ninguém consegue entender e menos ainda aceitar o odioso filtro do vestibular vigente no Brasil. Entre nós, os universitários ignoram que nossos vizinhos - nem falar de Cuba! - não possuem vestibular e garantem há décadas um sistema universal de ingresso. A ignorância brasileira sobre os países latino-americanos permite que o orgulho burguês do vestibular navegue soberano entre nós. Entretanto, à ignorância nacional em relação aos países latino-americanos, é necessário agregar a indispensável dose de oportunismo político da esquerda liberal, incapaz de enfrentar o problema educacional pela raiz.

Assim, todo inicio de ano assistimos à festa dos vencedores no vestibular e `as declarações sobre as virtudes familiares correspondentes. A escola privada não perde a ocasião e manifesta orgulho desmedido consciente que tanto na política burguesa quanto no processo de acumulação, a propaganda é a alma do negócio... Em algumas universidades públicas até mesmo o reitor participa do ato em que a universidade registra o feito individual enquanto milhares de estudantes filhos da classe trabalhadora amargam mais um ano de frustração longe dos bancos escolares. 

A direita liberal exibe seu troféu 

Numa sociedade de classes - especialmente nos países dependentes e subdesenvolvidos da periferia capitalista - um médico, advogado, arquiteto ou engenheiro reúne, em princípio, as condições necessárias para a confirmação do prestígio social a partir de esforço próprio a caminho das pequenas glórias do profissional liberal sem patrão, dono de seu nariz. Nesse contexto, num mar de famintos ou desclassificados que constituem o "resto" da população, o "êxito individual" antes de ser um problema, é apenas a confirmação de nossos talentos que, noutro contexto, bem que poderiam indicar o caminho de superação de todos os males com os quais convivemos bastante bem desde sempre. 

Quem leu Marx sabe que não devemos brincar com a ideologia. É caso sério. Na sociedade burguesa, o "êxito individual" é premissa ideológica sem contestação, com aceitação quase natural. Ocorre que a medida do indivíduo sempre será social, razão pela qual as condições sociais do êxito individual são o que realmente importa e nos obriga à revisão da lógica dominante de maneira permanente. Foi Schumpeter quem produziu a apologia do "espírito animal" dos capitalistas responsável pelas inovações e conquistas científicas e tecnológicas no sistema capitalista como se fosse possível explicar o self made man sem qualquer consideração pelo "fluxo da maré que sobe" ou "baixa" obedecendo à dinâmica da expansão e das recorrentes crises do sistema. 

A despeito da abundância de exemplos e das duras lições oferecidas em cada crise, a ideologia dominante afirma sempre a responsabilidade individual tanto no êxito quanto no fracasso dos concorrentes. Assim, o afamado empresário exibido na capa da mais importante revista de negócios no ano passado como o "homem do ano" pode também figurar algum tempo depois como execrável sujeito responsável por fraudes contábeis monumentais diante de um tribunal zeloso do jogo considerado limpo e transparente do mercado. O ciclo econômico, as contradições e antagonismos inerentes ao sistema capitalista são, em consequência, diluídos na experiência individual e, no limite, inseridos nas deficiências aparentemente insuperáveis de um país marcado pela recusa do mérito que, se respeitado e alentado, poderia nos tirar desse vale de lágrimas do subdesenvolvimento.

Há algo mais grave que passa sem reflexão profunda no nosso meio ocultado pela apologia do vestibular: esse sistema organizou em larga escala até agora o ensino médio! É possível perceber que o ensino médio estava voltado em primeiro lugar para atender às exigências do vestibular e somente secundariamente organizado por um projeto educacional destinado a fomentar as exigências científicas, tecnológicas e culturais necessárias para romper com a dependência e o subdesenvolvimento. Um projeto de educação com o objetivo de superar as barreiras próprias do subdesenvolvimento, portanto, não pode ser organizado com pequenas ou grandes mudanças na base ou na pós-graduação. Menos ainda com mudanças cosméticas no sistema de ingresso universitário!

A pequena contribuição da esquerda liberal

A contribuição da esquerda liberal à chamada "ordem competitiva" tem extração filantrópica e forte apelo de natureza moral como podemos ver na adoção das chamadas políticas afirmativas. No fundo, a esquerda liberal afirma que, em condições iguais ou quase iguais, um filho da classe trabalhadora terá o mesmo ou ainda melhor desempenho que os filhos dos burgueses ou das classes médias endinheiradas (proprietárias ou não). Ademais, no Brasil - um país de maioria miscigenada - a esquerda liberal aceita o vestibular e pretende introduzir no sistema meritocrático burguês pitadas de "justiça social" e algo de "reparação histórica" com o sistema de quotas de inspiração estadunidense. 

Ora, quem diz quota, diz vestibular! 

A aceitação social da filantropia conta com a aprovação do moralismo por um lado e, da cumplicidade, por outro. A política reduzida à moral (políticas públicas compensatórias como horizonte da política) implica, necessariamente, a prática filantrópica mesmo quando aparece sob a forma de "políticas sociais". A cumplicidade é mais sutil mas não menos cínica: o suposto que há que fazer algo aqui e agora para mitigar o sofrimento humano daqueles que são massacrados e considerados historicamente "excluídos". Nesse caso, não importa que apenas uma pequena parcela das vítimas do sistema seja contemplada com o sistema de quotas, pois mais importante tem sido a digestão moral da pobreza.

No entanto, como sabemos, a ideologia deve prestar contas com a realidade. A filantropia praticada em larga escala pela esquerda liberal não se sustenta a partir de valores morais mas sobretudo porque alimenta interesses concretos. Considere, por exemplo, a existência de cursinhos populares destinados a preparar os filhos de trabalhadores para uma disputa completamente desigual. Iniciativas semelhantes rendem clientes e votos para a esquerda liberal. Alimentam parlamentares e criam fidelidades muito semelhantes àquelas observadas no interior das igrejas evangélicas. A necessidade cria fidelidades! Portanto, esses cursinhos abundam, criam empregos, salvam algumas almas e, mais importante, alimentam o sistema do vestibular.

Não é produto do acaso que precisamente a emergência e sobretudo consolidação dos monopólios de educação superior ocoreram nos longos 14 anos dos governos petistas com algumas empresas cotizando na bolsa de valores à custa das enormes transferências de recursos públicos: Cogna, Ser Educacional, Yduqs, Bahema, Cruzeiro do Sul. Tudo em nome do social! Os grandes capitalistas não dormem no ponto e também manifestam, à sua maneira, alguma sensibilidade para a chamada "questão social". Portanto, a apologia da "inclusão social" nos estreitos marcos do sistema de ensino atual, permite à esquerda liberal uma aliança objetiva com a direita liberal a despeito das restrições retóricas que a última pode fazer como recurso meramente ideológico. No limite, o filtro classista do vestibular sai não somente intacto mas, inclusive, legitimado pela presença testemunhal de parte minúscula da classe trabalhadora (via sistema de quotas raciais e sociais).

Em setembro do ano passado, os bancos anunciaram sua contribuição para manter o vestibular com credenciais sociais. A USP anuncia com indisfarçável orgulho que empresas como Itaú, Santander, Deutsche Bank e inclusive a Dow Química aderiram ao programa de permanência da universidade contemplando mais de 270 estudantes no valor de R$ 800 mensais. Ademais, a universidade paulista acrescenta que o investimento total está estimado em R$ 10 milhões. Não é notável contribuição? O Itaú, para dar apenas um exemplo, investe pesado na compra de títulos públicos do Tesouro Nacional para os quais os sucessivos governos reservam centenas de bilhões todos os anos e transferem o custo para as classes populares por meio de políticas de austeridade. Assim, tanto o orçamento das universidades federais quanto dos Institutos Federais é sempre um cobertor curto e a expansão do sistema público quando ocorre o faz a conta gotas! Em 2022 a dívida interna superou os 4 trilhões e os juros e amortizações consumiram nada menos do que 1, 879 trilhão, segundo os dados da Auditoria Cidadã da Dívida Pública. O benevolente Itaú faturou bilhões na dívida pública e no ano passado anunciou um lucro de R$ 30,7 bilhões (14,5% superior ao exercício anterior) enquanto destinou para a filantropia a "vultuosa" quantia de R$ 25 milhões destinada a permanência de alunos pretos, pardos e indígenas. Não é imensa a sensibilidade dos banqueiros?

Na Universidade Federal de Santa Catarina - assim como em todas as federais - sobram vagas, menos nos cursos que alimentam a ambição pequeno-burguesa dos profissionais liberais nos quais o teste da meritocracia é a compra do primeiro carro importado após a formatura. Nas ciências básicas, o deserto é enorme tal como manda o círculo de ferro dessa monstruosidade chamada subdesenvolvimento no qual seguimos afundando. Pouco importa: os liberais de direita indicam como única saída uma nova onda modernizadora que já se avizinha e nos condenará à exportação de carnes, ferro e petróleo cru. Os liberais de esquerda aceitam discretamente o rumo mas sustentam o moralismo rasteiro já condenado por Mandeville no início do século XVIII. Portanto, é preciso fazer algo - qualquer coisa! - aqui e agora para a classe trabalhadora ainda que represente tão somente uma detestável digestão moral da pobreza. Enquanto isso, os milhões de filhos da classe trabalhadora que gostariam de frequentar a universidade pública num sistema de acesso universal seguem esquecidos na vala comum do sofrimento humano. 

Revisão: Junia Zaidan

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O grito de Lula

A renuncia do presidencialismo é a nota dominante na atuação de Lula no terceiro mandato. Nos dois anteriores (2003-2010) o atual presidente sabotou diariamente as prerrogativas do regime presidencial brasileiro e, em consequência, cavou o abismo sob seus pés. A continuidade da podridão do sistema político produzido por FHC com a farsa do "presidencialismo de coalisão" seguiu seu curso normal azeitado pelo "financiamento não declarado" das campanhas eleitorais do longo período petista. O postulado vulgar segundo a qual "ninguém governa esse país sem o PMDB" ou "sem maioria no congresso" aprofundou a miséria ético-moral do PT, revelou-se uma falácia completa diante da desmoralizante destituição de Dilma em 2016 e contribuiu notavelmente com a podridão do sistema político acusado pelo protofascista Bolsonaro em 2018.

A impotência de Lula e dos lulistas diante da grave situação nacional é expressa na enorme quantidade de ministérios criados com a pretensão de ganhar apoio no parlamento, sabidamente um covil de ladrões insaciável e sempre disposto a novos assaltos; ao contrário do engodo petista, o toma lá da cá se realiza sem qualquer garantia de fidelidade. A conduta de Lula alimenta a crise e objetivamente bloqueia a necessária passagem da consciência ingênua para a consciência crítica indispensável para enfrentar a direita. Ao contrário do que pensam os eternos defensores da prudência, a atuação de Lula alimenta tão somente a redução da política à moral (a via filantrópica das chamadas políticas sociais) e move águas para o moinho da ofensiva da direita ainda em curso.

O recente grito de Lula contra as elevadas taxas de juros é exemplar a respeito da conduta vacilante do presidente petista diante de questões cruciais. A despeito da hiper valorização ideológica do papel do Banco Central, a verdade é que o comando da política econômica esta nas mãos do Ministério da Fazenda e, portanto, nas mãos de Lula. Essa é a verdade oculta no "combate" contra a suposta sabotagem do BC ao bem estar do povo sob comando de um eleitor de Bolsonaro. 

Portanto, o grito de Lula - antes de iniciativa contra os banqueiros e as escorchantes taxas de juros! - exibe a impotência completa e a vacilação que é a antiga conselheira do presidente e marca registrada de seu governo. A reclamação de Lula contra a taxa de juros é impotente e não cria um fato político como defende com inocência os "radicais" da esquerda liberal lulista (dentro e fora do PT). Há poucos dias ouvi mais um novo esforço para santificar a impotência presidencial e justificar a imobilidade de seu governo nas questões estruturais, as únicas que podem, finalmente, assegurar uma molécula de estabilidade no interior da atual crise ainda sem solução visível. A nova tirada da sociologia de boteco ensina que "Lula é o personagem mais a esquerda de seu governo" (!!) Ora, qual a racionalidade da boa nova? É simples: os ideólogos lulistas na mais completa solidão esquecem que é o próprio Lula quem nomeia "a direita" de seu governo. Afinal, quem nomeou, por exemplo, Camilo Santana, responsável pela completa direitização do MEC na política educacional? Acaso foi o espirito santo ou a caneta do presidente? É realmente impressionante ouvir asneiras desse quilate nas atuais circunstâncias!

A defesa do crescimento econômico - com emprego e distribuição de renda - é o argumento central de Lula diante das elevadas taxas de juros. É também dos desenvolvimentistas. Nenhum deles, no entanto, pode explicar porquê a concentração da renda e da propriedade cresceu nos dois primeiros mandatos do atual presidente. Ora, políticas sociais não necessariamente tocam na riqueza acumulada e podem inclusive caminhar par e passo com nível superior de concentração e centralização do capital. De fato, foi o que ocorreu entre 2003-2010 quanto a taxa de juros caiu de pouco mais de 26% em janeiro de 2003 para apenas um dígito (9,25%) em meados de 2009. Ainda assim, não somente a riqueza ficou mais concentrada como a coesão burguesa sob comando da fração financeira ficou muito mais forte! Durante o período de bonança de Lula, todas as contradições e antagonismos próprios do desenvolvimento capitalista dependente rentístico estavam se desenvolvendo para, mais tarde, explodir nas mãos de Dilma Rousseff.

Até agora, Lula não disse como produzir crescimento e distribuição de renda. Nem Haddad. Ao contrário, a chamada "agenda econômica" segue a partitura dos "neoliberais" e nem mesmo em sonhos dourados os keynesianos amigos do Príncipe estão dispostos a romper com as amarras da economia política rentista armada em 1994 e desenvolvida a pleno vapor durante os sucessivos governos petistas. A ladainha segue intacta: reforma tributária, sustentabilidade ou ancora fiscal, a importância do investimento externo com preocupações ambientais, etc... Não há - nem poderá existir - uma estratégia de industrialização sem a completa ruptura com a economia política do rentismo, pois Lula opera sempre na fronteira do permitido pela coesão burguesa sem jamais romper seus limites. Enquanto isso, o tempo passa...

O "debate" atual sobre a política monetária dirigida pelo BC ilustra como nenhum outro tema a renuncia dos poderes presidenciais praticado sistematicamente por Lula. A terceirização da responsabilidade é vicio suicida adquirido por Lula há tempos: "o congresso precisa autorizar!". "Ah, a imprensa precisa mudar!!" "O fascismo precisa ser enfrentado"... Ah, Bolsonaro!!! Todos bordões que antes de mobilizar são confissões de impotência!

A situação atual permite - eu diria que exige - uma simples convocatória do presidente: antes de gritar contra os juros deveria pedir a troca do presidente do Banco Central. Ousadia: Nada! Ação bem elementar. Elementar eu disse, não parlamentar!

Quais as razões para pedir a cabeça de mister Campos Neto? 

A primeira razão para a substituição do atual presidente do BC é a absoluta falta de condições éticas e morais do Mister Campos Neto. Em outubro de 2019 o Pandora Papers revelou que mister Guedes e seu discípulo Campos Neto mantinham contas bancárias no exterior. No dia 4 de outubro de 2019 mister Campos Neto se "defendeu" da gravíssima revelação afirmando que tudo estava declarado no Imposto de Renda ocultando a questão efetivamente central: um presidente do BC mantém informação privilegiada incompatível com suas operações de "mercado". Nos Estados Unidos - o país que oferece a régua ético-moral dos rentistas - Richard Clarida (um dos vice-presidentes do FED) teve que anunciar sua precoce renuncia em janeiro de 2022 após suspeitas gravíssimas de movimentação financeira baseadas em informação privilegiada. 

Há algo mais valioso que emergiu na primeira semana de fevereiro de 2023. O ministro Gilmar Mendes do STF colocou sobre a mesa de mister Campos Neto outro tema tão antigo quanto espinhoso: a compra e venda de ouro realizada pelo Banco Central. As denuncias na imprensa burguesa sobre a extração ilegal de ouro são antigas e há muito mereciam uma explicação oficial. No entanto, a cobertura jornalística sobre o tema enfocou apenas a perspectiva da ilegalidade da extração do mineral e a íntima relação com a invasão das terras indígenas liberadas na pratica pelo governo do protofascista Bolsonaro. O enfoque, digamos assim, era "ambiental" ou "ecológico". Na verdade, ninguém se atreveu em indicar a íntima relação entre a crise humanitária dos Yanomamis com o Banco Central, exceto de maneira super cautelosa. A CNN, por exemplo, noticiou há mais de um ano (14/08/21) a inusitada elevação das reservas em ouro como assunto estritamente econômico, sem qualquer outra conexão, uma espécie de operação destinada a aumentar as reservas de valor necessárias para tempos de crise.

Entretanto. a enorme oferta de ouro deve ser explicada e, de fato, é impossível faze-lo sem a liberalização promovida pelo governo de Dilma Rousseff na Lei 12.844 de 19 de julho de 2013. No artigo 39, parágrafo 4, a liberalização petista abre as portas para a legalização do ilegal pois estabelece a "boa-fé" da pessoa jurídica responsável pelas informações sobre a origem do ouro. A lei representa, na prática, a validação de um atestado de boa conduta emitido pelo escritório dos próprios criminosos! 

Após o grito de Lula contras as taxas de juros, a imprensa petista - orwellianamente chamada de "independente" - foi autorizada a atacar mister Campos Neto e relacionar os dois temas. Desde então, a nova abordagem jornalística vincula o aumento das reservas em ouro do BC com a invasão das terras indígenas e a mineração ilegal praticada em larga escala desde muitos anos. Na tradição petista, Lula manteve silencio completo sobre o tema e, para manter a harmonia entre os poderes, delegou a tarefa ao Partido Verde. Assim entendemos a razão pela qual o STF anunciou no dia 31 de janeiro desse ano em seu portal a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) solicitada pelo PV. Em consequência, o ministro Gilmar Mendes não vacilou em solicitar a mister Campos Neto no prazo de três dias, esclarecimentos sobre as operações. Até agora, a imprensa burguesa nada disse sobre o caso e nem um ministro de Lula disse algo a respeito. Silêncio total! Ora, a terceirização do poder presidencial é mais do que óbvio também nesse caso pois Lula renuncia a possibilidade de cobrar diretamente ao presidente do BC explicações que há muito exigem esclarecimentos! A renuncia do presidencialismo custará caro... 

O lulista cativo da consciência ingênua logo dirá que a jogada do presidente foi de mestre: não se compromete com nada e deixa os poderes da república atuar contra seus inimigos. Alega, inocente, que Lula sabe se preservar e esquece que seu agir sabota a autoridade presidencial, além de fortalecer instituições que ao longo da história deram sucessivas demonstrações que não merecem respeito algum... 

A segunda razão para encaminhar a substituição de mister Campos Neto é igualmente importante. A entrevista concedida na TV Cultura dia 13 de fevereiro desautoriza intelectual e profissionalmente o rapaz. O desastre só não foi maior - e sobretudo mais visível - em função da sabedoria econômica dos jornalistas. Ainda assim - com a notável contribuição dos jornalistas - suas respostas estavam peleadas com a realidade e até mesmo com os manuais de macroeconomia sofríveis que dominam o ensino de economia nas nossas universidades. Após aquele espetáculo, não pode existir dúvidas que o "conhecimento econômico" de Campos Neto é pra lá de superficial. Ora, limitado ao "mundo" das teleconferências privadas, de convescotes com operadores dos banqueiros, acostumado as pequenas reuniões com banqueiros e rentistas de toda espécie, dedicado ao modo fácil de enriquecimento das finanças via assalto a dívida pública, a esperteza do aprendiz de feiticeiro foi impotente diante de público um pouquinho mais exigente e aberto a opinião pública. De resto, a conhecida discrição dos banqueiros praticada desde o século XII orienta também a conduta dos diretores dos bancos centrais em todos os países, especialmente na periferia latino-americana; entretanto, após os gritos de Lula, não restou ao neófito senão uma entrevista com a óbvia intenção de buscar um mais que evidente salvo conduto. 

Portanto, não devemos condenar apenas a linguagem tecnocrática do economista responsável pela irritação de muita gente boa nas mídias digitais. É mais grave o caso em análise: os "argumentos" balbuciados por Campos Neto não batem com as condições existentes no Brasil! Ele praticou apenas a visão dos rentistas em estado puro, de maneira tosca e sem habilidade alguma. Repito: o conhecimento em economia e a disciplina servil dos jornalistas o salvaram de um exposição pública realmente triste para qualquer profissional razoavelmente preocupado com a própria reputação e certo desapego com as cifras da conta bancária.

Portanto, a absoluta falta de ética (revelada no caso das contas no exterior) de Campos Neto e seu despreparo profissional - além de ausência de habilidade política que o cargo requer - são absolutamente suficientes para algo mais eficaz que os gritos de Lula: o presidente deveria determinar a seu ministro e funcionário que  detém maioria no Conselho Monetário Nacional (CNM) a solicitação ao bem afamado senado da republica burguesa, sua imediata substituição. Mas Lula prefere a condição de comentarista de TV antes de honrar seus eleitores e acumular forças para seu bando e, em oposição, prefere agir nos marcos de aliança de classe que mantém a política econômica responsável pela miséria do povo... No Conselho Lula possui maioria e poderia exigir uma justificativa do órgão para substituir mister Campos Neto, indicando claramente que sua gestão não cumpriu as metas estabelecidas, acusando as graves debilidades éticas do presidente do BC e, em consequência, solicitar a manifestação do senado.

Uma iniciativa presidencial semelhante representaria uma ação a altura do cargo e a manifestação de que o presidente recém eleito atua objetivamente em defesa dos trabalhadores. Ademais, esse ato político permitiria ao povo observar o movimento concreto da coesão burguesa e os interesses reais de cada uma de suas frações. O senado teria que decidir em favor do povo ou dos banqueiros. Até mesmo as pesquisas que embalam a alienação eleitoral da esquerda liberal indicam que 76% consideram correta a posição do presidente sobre os juros mas nem mesmo tal aprovação permitiu um passo adiante... A fidelidade de Lula a coesão burguesa e sua ilusória aliança de classe não permite o passo e, tudo indica, ele morrerá abraçado com ela.

O atual governo é desenvolvimentista? Bueno, nesse caso, as esperanças de todos os keynesianos tupiniquins deveriam saltar para a primeira fila clamando por um novo ciclo de acumulação em favor... do emprego! A maioria dos críticos heterodoxos do aprendiz Campos Neto ainda segue prisioneira dos formuladores do Plano Real e, em consequência, ainda mantém fidelidade religiosa àqueles postulados. A despeito da realidade, ainda não são conversos! Nesse contexto, a tarefa não consiste na afirmação de um novo "regime fiscal compatível com a política social", mas, ao contrário, de alinhar a política econômica com o pleno emprego!! 

Há poucos dias, na entrevista concedida a jornalista Christiane Amanpour da CNN, Lula afirmou que o informe à nação apresentado por mister Biden no congresso estadunidense poderia ter sido feito aqui. O presidente do Brasil escancarou seu entusiasmo com a perspectiva do Partido Democrata nos Estados Unidos no embalo do agringalhamento político e cultural de nosso país. Ora, Biden dourou a pílula diante da crise mundial e utiliza todos os meios existente no Império para disputar a hegemonia com a China no terreno produtivo. No entanto, é visível que seu plano não poderá repetir o "exito" rooseveltiano pretendido quando apenas iniciava seu mandato. A crise é muito grave mas ainda assim ele pode indicar que a taxa de desemprego baixou mesmo que tenha calado sobre os salários miseráveis e o aperto na classe média impossível de remediar nas circunstâncias atuais. Lula não entende o Brasil e nossa condição de país subdesenvolvido e dependente. Ignora algo elementar e seus ministros sequer sonham com nossa "especificidade", carente de medidas aparentemente muito mais radicais.  

A última reunião do CNM (16/02) entre Simone Tebet, Fernando Haddad e Campos Neto indicou um abismo entre o grito de Lula e as ações de seu governo. Aos poucos, as pequenas vantagens adquiridas com a vitória eleitoral, estão ficando para trás. Ademais, a defesa da democracia não enche a barriga do povo; tampouco gera a coesão social necessária para enfrentar e derrotar politicamente a ofensiva da direita ainda em curso. O "rentismo" não é um adversário fácil de bater, menos ainda com bravatas. É preciso ação sistemática e enérgica, além de mobilização social intensa contra as classes dominantes. Mas esses são artigos em falta no governo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

A nova vitória parlamentar da direita

A tradição revolucionária e socialista possui fecunda reflexão sobre a atuação no parlamento. Entretanto, essa longa e rica experiência (prática e teórica) tem sido sistematicamente ignorada pela esquerda liberal e os setores progressistas, fato que demonstra a profundidade da derrota político-ideológica do que sobrou da esquerda no Brasil sob os escombros do fracasso histórico do petismo. 

Nessa semana o governo conservador de Lula/Alckmin (petucano) assegurou vitória parlamentar sem precedentes ao deputado ultra liberal Arthur Lira, aquele mesmo que garantiu ao protofascista Bolsonaro quatro anos de serena administração em favor dos interesses da coesão burguesa encabeçada pela fração financeira. A imprensa burguesa registra que "nunca antes na história desse país" um deputado logrou tamanha vitória: 20 partidos deram 464 votos ao novo presidente da câmara de deputados.  A decisão de Lula em favor de Lira revela - antes que astúcia! - a completa debilidade do governo diante dos desafios conjunturais e históricos que estamos vivendo. Na lógica das situações extremas o petismo é presa fácil dos interesses da coesão burguesa: em lugar de dirigir e manobrar os interesses da classe dominante negociando algo substancial em favor dos interesses e do protagonismo popular, o governo é dirigido pela burguesia em seus mínimos detalhes. É um governo cativo e, mais grave, sem qualquer iniciativa política.

O governo da coalisão democrática-liberal ("frente ampla") foi constituído para evitar a radicalização em curso no país, razão pela qual não se moverá à esquerda. A suposição de que Lula aprendeu uma dura lição da cadeia e agora é um político mais maduro e consistente, é uma ilusão que custará caro aos trabalhadores. Mas as ilusões sempre alimentam interesses concretos! Nas circunstâncias atuais, as ilusões obedecem aos interesses estratégicos da coesão burguesa, especialmente a súbita e enfática "defesa da democracia" por parte dos três poderes da república burguesa apodrecida em seus pilares. A degradação permanente da atividade parlamentar é a face visível da crise do atual sistema político; tão visível quanto os métodos corruptos utilizado por Lira ou Pacheco para soldar a sólida maioria que obteve com apoio decisivo do Planalto. Ninguém deveria esquecer que em julho do ano passado o senador Marco do Val declarou ter recebido nada menos do que 50 milhões para ter votado em Pacheco... Os exemplos abundam!

Em troca do apoio a Lira, o PT "garantiu" a presidência da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) considerada decisiva para controlar assuntos importantes, especialmente a destituição do presidente da república. A esquerda liberal considera que ganhou tempo (apenas 1 ano!!) na suposição de que a administração competente da crise poderá devolver aos trabalhadores emprego e renda; ademais, julga que poderá aumentar seu apoio via políticas sociais suficientes para "acumular força" capaz de balancear a disputa no covil de ladrões dirigido por Lira. A análise fria indica a ausência de qualquer garantia nessa direção; ao contrário, até agora as ações do governo exibem apenas sua debilidade política.

Quem comanda a oposição?

Na disputa no interior do covil de ladrões, a oposição de direita votou em Lira e guardou munição para se opor a Pacheco. No senado - uma casa destinada a desaparecer num regime político unicameral efetivamente popular - a tropa de Bolsonaro revelou alguma força a despeito da reeleição de Pacheco com menos votos (49) do que em sua eleição (57). O ex ministro de Bolsonaro, Rogério Marinho obteve 32 votos: não é pouco!

A candidatura de Chico Alencar (PSOL-Rede) confirmou a bancada do partido como apêndice do governo, uma conduta orientada pela intenção de afirmar a condição de principal "espírito crítico" do governo conservador petucano. O PSOL possui 13 deputados (dois justificaram ausência) e arrancou outros 10 de maneira aleatória: obteve 21 votos. O discurso de Chico foi marcado pela tentativa de "dignificar o parlamento", resgatar as virtudes republicanas e atacar a direita "golpista" de maneira genérica. De resto, a tradicional defesa do identitarismo, dos povos indígenas, do meio ambiente, a pauta que garante votos urbanos ao PSOL e acesso ao financiamento estatal do partido. 

O deputado Marcel Van Hatten do Partido Novo - a ultra direita liberal - bateu duro no governo e com apenas 3 votos levou 19 na conta final. No entanto sua candidatura tinha o claro objetivo de manter em alta a pressão ideológica que emergiu com força a partir de 2013, avançou na destituição de Dilma em 2016 e conquistou a presidência em 2018. Agora, sem qualquer possibilidade de vitória, os ultraliberais dirigiram suas baterias contra o governo exibindo o tom que a direita praticará e, em circunstancias de crise, tende a se alastrar tanto nas ruas quanto no parlamento se algo substancial não mudar na ação do governo. A direita pratica intensa luta ideológica razão pela qual tem capacidade de disputar a hegemonia política na sociedade e acumular forças para embates futuros no parlamento logo que as condições políticas permitirem. Ao contrário, a esquerda liberal - na qual o PSOL se inscreve - despreza completamente a luta ideológica em favor do socialismo e da revolução social e, em consequência, depende tão somente do êxito do governo na política econômica (emprego e salário) e nas políticas sociais de extração filantrópica, ambas de alcance super reduzido. 

O cenário é, portanto, claro: a oposição será comandada pela direita. A oposição de "esquerda" ao governo conservador de Lula/Alckmin não existirá no parlamento a despeito do enorme espaço social para tal na sociedade. No entanto, a concepção parlamentar de política que alimenta a esquerda liberal e a consciência ingênua que a informa nos assuntos essenciais da economia e do estado, não permite sua evolução numa linha de massas até agora capturada pela direita tal como demonstrou no dia 8 de janeiro.

A crise da república aparece todos os dias em eventos que confirmam o enredo já estabelecido: cada novo escândalo degrada o regime político aos olhos do povo e potencializa uma alternativa de direita. É claro que Lula/Alckmin sonham com a prisão de Bolsonaro e, para tal, depositam suas esperanças na ação do ministro Alexandre de Moraes ou de possíveis iniciativas do Ministério Público. Entretanto, a eventual prisão de Bolsonaro em função de seus "ataques ao estado democrático de direito" colocaria amplos setores sociais na oposição ao governo Lula em pé de guerra. A propósito, a desejada prisão de Bolsonaro não se assemelha em nenhum aspecto a prisão de Lula em 7 de abril de 2018. Este aposta todas as fichas na renegeração do regime liberal burguês enquanto o primeiro postula abertamente sua supressão em favor de uma modalidade qualquer de um "regime forte". Ademais, Bolsonaro é expressão da hegemonia ultra liberal no interior das forças armadas - especialmente do Exercito - razão pela qual sua prisão implica em mudanças importantes inimagináveis sob o "comando" de Lula.   

O otimismo ingênuo dos liberais de esquerda e da "direita democrática" tomam os sucessivos escândalos e "revelações" potencializados pela imprensa burguesa (Globo e CNN no comando) como se, de fato, fossem capazes de restaurar as virtudes republicanas do regime atual sem ruptura com os fundamentos do "golpismo" e da podridão: a economia política do rentísmo, a sabotagem permanente do presidencialismo via acordos parlamentares, a degradação da prática parlamentar e o ativismo do judiciário sob comando de Alexandre de Moraes. No entanto, a verdade é que o governo não possui iniciativas para romper a hegemonia da direita e segue prisioneiro do programa ultra liberal praticado por Bolsonaro/Guedes/Braga afirmando tão somente a impotente ideologia da "reconstrução nacional". 

Nesse contexto, é claro que o Informe Capelli sobre a ofensiva da direita sobre Brasília revelou apenas os limites do Ministério da Justiça diante dos militares. Na prática, nada de novo foi apresentado por Ricardo Capelli para além das suspeitas, denuncias e provas que a imprensa burguesa segue publicando em profusão. Na verdade Capelli elaborou um "informe técnico" quando o momento exigia um informe político destinado a devolver a iniciativa política ao governo e armar uma contraofensiva capaz de orientar as ações do STF e do MP. Mas Lula vetou essa possibilidade pois tal como afirmou Flávio Dino, a competência de seu ministério não avança sobre as competências de outras pastas, especialmente aquelas relativas aos ministérios militares! Portanto, o governo renunciou a oportunidade de retomar a iniciativa política diante da direita porque a linha adotada na campanha e também no governo é considerada pelos liberais de esquerda como a única possível, limitada tão somente a manter a fantasiosa "frente ampla" e a precária "defesa da democracia". Nem mesmo a ofensiva da direita logrou mudar um átomo naquela opção desastrosa e suicida!

A reeleição de Lira com firme apoio de Lula e inclusive o ridículo grito de "vitória" de parlamentares petistas após a inédita conquista do nobre deputado, multiplicou a força da direita no parlamento. Tampouco há indicações minimamente confiáveis de que o massivo apoio do governo à Lira logrou "dividir o bolsonarismo" seja lá o que essa expressão possa representar. Bolsonaro é a cabeça visível da direita e seu representante mais importante, mas não único. Ainda assim, o fantasma de Bolsonaro orienta cada passo da esquerda liberal e seu governo tão impotente quanto débil. No entanto, o protofascista nunca deixou de ser um representante da classe dominante que mantém firme as rédeas do estado e da economia e não vacilaria em joga-lo ao abismo caso o conflito político exija. 

O governo conservador petucano Lula/Alckmin mesmo diante de circunstâncias excepcionais - e oportunidades que jamais deveriam ser desperdiçadas! - revela precocemente a mais completa incapacidade para enfrentar a ofensiva da direita cujo conteúdo não é outro senão o próprio programa burguês praticado por Bolsonaro/Guedes. A mera administração "democrática" de um regime político em frangalhos e a afirmação de políticas de inclusão social de caráter filantrópico são, mais do que em outros tempos, completamente incapazes de assegurar estabilidade política ao governo e menos ainda disputar a hegemonia nas classes populares quando entramos numa lógica das situações extremas. A direita esta livre para operar. A esquerda liberal permanece prisioneira de suas ilusões.

sábado, 31 de dezembro de 2022

A união dos democratas

A questão democrática divide novamente a esquerda; é problema antigo, razão de muitas divergências e não poucos enganos. Entretanto, a hegemonia liberal a que estamos submetidos - da direita à esquerda - produziu enorme empobrecimento da reflexão teórica e da práxis política nas condições de um regime liberal burguês exaurido e em agonia. A banalização de temas cruciais é tanto consequência como causa dos enganos e desavenças no trato da questão democrática. Um exemplo notável - lamentavelmente não único - é a ligeireza com que se caracteriza atos, eventos ou circunstâncias como expressão do fascismo ou do nazismo. A denuncia constante e alarmista da ameaça fascista contra a democracia é, na verdade, expressão da incapacidade do progressismo em geral, e da esquerda liberal em particular,  em dar conta das reivindicações imediatas e históricas dos trabalhadores nos marcos da democracia restringida na realidade de um país subdesenvolvido e dependente.   

O abuso do recurso - a denuncia alarmista da "ameaça fascista" - não começou no mês passado. Em 21 de outubro de 2014 - portanto, há quase uma década - num ato de campanha em Recife, o mesmíssimo Lula comparou as críticas do tucano Aécio Neves à Dilma como expressão do "comportamento dos nazistas na segunda guerra". A declaração era óbvio exagero mas também exibição da impotência petista diante da ofensiva tucana concluída em agosto de 2016. De resto, o brado de Lula demonstrava a rachadura terminal do sistema petucano, aquela harmoniosa convivência que garantia vida mansa para a classe dominante e migalhas aos proletários.... De lá para cá, a superficialidade com que a esquerda liberal aborda a crise do regime político piorou muito. Agora mesmo, na última semana de campanha presidencial de 2022, Lula caracterizou o governo de Bolsonaro como "fascista". Não há dúvida sobre as convicções políticas de Bolsonaro, um filhote da ditadura, adepto de todo tipo de práticas típicas de regimes de terrorismo de estado e sempre disposto a qualquer atentado contra o regime liberal burguês. Entretanto, as convicções de um presidente não são suficientes para caracterizar um regime político nem sequer para garantir ações sistemáticas típicas de um governo fascista. Nas universidades, para dar apenas um exemplo, as ações do governo contra as instituições de ensino superior foram completamente insuficientes para afirmar um regime fascista. Afinal, FHC também indicou reitores não eleitos pela comunidade e os cortes orçamentários também ocorreram no governo Dilma. De resto, segundo a concepção liberal, um regime fascista teria avançado para o controle completo do parlamento, do judiciário, da imprensa mas nada disso ocorreu.

A raiz das profundas divergências sobre a questão democrática consiste, precisamente, na incapacidade da democracia restringida atender as demandas populares mesmo quando as massas exibem grau de consciência e organização muito baixos e, em consequência, escassa capacidade de reivindicação política organizada. A propósito, há muitas décadas, foi Francisco Weffort  quem afirmou categoricamente que o desafio brasileiro consistiria em "consolidar a democracia em meio da pobreza". O uspiano - então secretário geral do PT, trocou sem qualquer inibição a condição de dirigente do partido de Lula pelo cargo de ministro da cultura do primeiro governo tucano - não economizou cinismo e tampouco lucidez liberal diante da real situação das maiorias num país subdesenvolvido, sempre oscilando, segundo os economistas, entre a miséria e a indigência. Em resumo, democracia mesmo com miséria e exploração; democracia, mesmo com a corrupção do regime constitucional. A despeito do cinismo, Weffort foi incapaz de prever que seria seu ex partido - o PT - quem realizaria aquele vaticínio com enorme destreza ao produzir a maior digestão moral da pobreza de que temos notícia num regime democrático. Ao contrário, o sociólogo jamais imaginou que sua sentença então recebida com grande repulsa pela esquerda petista, se transformaria numa virtude inesperada que asseguraria mandatos sucessivos com a mesma força que multiplicaria o poder das classes dominantes.  

A democracia restringida é regime eleitoral que garantiu até agora lucros extraordinários às classes dominantes e, mais importante ainda, rendeu também um reforço decisivo de sua consciência e poder de classe. Em consequência, a capacidade de intervenção da burguesia na vida cotidiana e nas decisões de estado parece surpreender até mesmo experimentados militantes que até bem pouco tempo supunham - não sem inocência ou oportunismo - que a democracia era o terreno onde os socialistas teriam melhores condições de luta em relação aos reacionários ou conservadores. Grave erro! Com certa frequência ouço que uma democracia - mesmo miserável e sob controle completo das classes dominantes - é melhor que uma ditadura. Ora, essa afirmação é tão ridícula quanto nociva pois sempre esteve destinada à validação dos piores regimes políticos; tal como alertou Marx, "é muito fácil ser liberal a custa da Idade Média"!

Há, de fato, enorme retrocesso na reflexão sobre a questão democrática. 

Da transição à democracia restringida

Na transição da ditadura para o regime liberal burguês, no debate teórico sobre a democracia, a esquerda era convocado a responder questões candentes de um regime militar agonizante mas ainda no comando das ações (transição lenta, gradual e segura). Ademais, a oposição à ditadura estava também sob controle de liberais conservadores como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e, finalmente, José Sarney. Ainda assim, a existência do "polo operário" e das tensões inerentes à transição para o capitalismo dependente rentístico que apenas iniciava, permitiu muitas iniciativas as classes subalternas a despeito de seu marcado caráter economicista. Depois, num regime eleitoral consolidado, o horizonte democrático caiu sob controle dos liberais de esquerda sem interesse e capacidade para transitar em direção à uma democracia de massas

A união dos democratas

As classes dominantes, entretanto, jamais perderam o prumo; quando destituída de sua longa ditadura de classe, a burguesia inaugurou de imediato intenso reformismo contra a "constituição cidadã" aprovada em outubro de 1988 sob seu próprio domínio e condução. A esquerda liberal, mesmo dispondo de forte movimento das classes subalternas, rejeitou o horizonte do socialismo e também a luta por uma democracia de massas, adotando os bordões acadêmicos e estéreis da "democratização da democracia", a "socialização da política" e outras quinquilharias ideológicas que descansam no merecido lixo da História. Os porta-vozes da burguesia, ao contrário, proclamavam com franqueza as dificuldades da vida sem sua ditadura e, em consequência, anunciaram a boa nova: com a Constituição o país seria ingovernável. 

Um dos futuros conselheiros de Lula - o ministro da ditadura Delfim Neto - anunciou em alto e bom som no início do Plano Real (1994) que "o Plano FHC começou reconhecendo que, com a atual Constituição, o país é ingovernável" (Plano e reforma, FSP, 18/05/1994) Alguns anos mais tarde (2008), outro aliado de Lula - o ex presidente José Sarney - afirmaria sem rodeios que "foram incluídos na Constituição todas as reivindicações corporativas, tornando o país ingovernável, com um desbalanço entre seu poder e seu dever". (Constituição do país tornou o país ingovernável, Consultor Jurídico, 14/09/2008). Enquanto as classes dominantes moldavam o regime político orientado pelo mais absoluto exclusivismo burguês, a esquerda liberal, aferrada a concepção parlamentar de política, renunciava o horizonte estratégico do socialismo por considerá-lo "doutrinário" e, finalmente, incapaz de armar o seu partido (PT) para a "grande política" e os "combates reais" exigidos pelas disputas eleitorais em nome dos "interesses populares". 

A decisão estratégica apresentada como exigência pragmática, consolidou num único movimento o liberalismo de esquerda e condenou a antiga esquerda combativa a chafurdar num regime eleitoral sob domínio burguês simulando que nada estratégico estava realmente em jogo. Entretanto, a administração democrática do estado burguês possui exigências particularmente importantes na periferia capitalista latino-americana! Portanto, a ladainha atual de Lula e do petismo segundo a qual a função do novo governo é retomar o "espirito de 1988", afirmar e defender a democracia, re-constitucionalizar o país, preparar políticas públicas para atender as principais reivindicações das maiorias, etc., combina ignorância histórica com enorme dose de oportunismo necessário para garantir um papel coadjuvante na crise do regime atual.

A renuncia ao socialismo produziu um mundo onde as massas estavam reduzidas ao surrado bordão da "resistência ao neoliberalismo", portanto, sem iniciativa política real. Após 2002 - com a conquista da presidência da república - o PT pretendeu tirar leite de pedras: conceder cidadania plena nos marcos da ordem burguesa num país da periferia capitalista e contra os interesses imediatos defendidos a luz do sol pela burguesia. O resultado foi o abandono do antigo orgulho burguês da burguesia paulista de extração tucana nos dois mandatos de FHC ("enterrar a era Vargas") e a cínica  adoção da digestão moral da pobreza ("inclusão social") que finalmente caracteriza os sucessivos governos de Lula e Dilma. A classe dominante acumulou riqueza e poder durante o período democrático enquanto a classe operária - após a renuncia do socialismo por seus dirigentes - perdeu consciência, organização e, sobretudo, capacidade de intervenção na vida política.  

Assim, destituída de horizonte estratégico, a esquerda liberal atua basicamente orientada pela redução da política à moral e a defesa abstrata da democracia. Em consequência, no primeiro caso - a redução da política à moral - pretende mitigar o sofrimento e a exploração de milhões de trabalhadores por meio da apologia de políticas públicas de caráter compensatório; no fundo, logra apenas a digestão moral da pobreza responsável por esterilizar até o fundo e o fim a potência da luta pela hegemonia política. A moral, tal como afirmou Marx, "é a impotência em ação". No segundo - a defesa abstrata da democracia - joga águas no moinho da classe dominante pois, ao contrário dos tempos em que a simples evocação do valor universal da democracia tocava no nervo do regime militar agonizante agora, no interior de um regime político exaurido, termina por validar a podridão do regime político atravessado pela degradação das instituições republicanas e pela corrupção permanente da atividade parlamentar aos olhos de milhões de brasileiros. É um caminho suicida! Na prática, a esquerda liberal deixa a crítica do regime político à direita que, a despeito dos crimes cometidos pelo governo do protofascista Bolsonaro, segue na busca de uma alternativa para os "desmandos" permanentes e as "tenebrosas transações" cotidianas que produzem indignação de milhões de trabalhadores e acumulam pressão que exigirá, cedo ou tarde, para bem ou para mau, uma resposta radical.

O eleitor lulista e/ou petista, atônito e confuso, cativo de uma época em que as ilusões liberais foram adotadas como se fosse um programa potente, se pergunta sobre as razões pelas quais a direita, a despeito dos crimes cometidos e dos super lucros concedidos a classe dominante pela política ultra liberal de mister Guedes, conseguiu 58 milhões de votos e quase virou o jogo no segundo turno da última eleição presidencial. Incapaz de pensar fora do sistema em crise, a resposta invariável segue o roteiro dos sonhos dourados do ritual republicano supostamente violado por bárbaros que se recusam a aceitar "eleições limpas e democráticas". Em consequência, a lamúria denuncia o "uso da máquina estatal na eleição", as "fakenews", a ação autoritária dos capitalistas, a manipulação do sentimento religioso das igrejas evangélicas, a mídia (!), etc. A esquerda liberal admite tudo, exceto a suposição de que milhões de brasileiros - proletários superexplorados, desempregados desalentados, setores empobrecidos das classes médias assalariadas e/ou proprietárias, trabalhadores informalizados, os sem teto e também os sem terra - repudiam completamente a podridão do sistema eleitoral e não guardam ilusão alguma a respeito do "regime democrático". Essa é, portanto, a questão central! A reafirmação da fé na democracia e a simples condenação da pulsão "totalitária" existente entre nós (via ditadura ou uma modalidade qualquer de terrorismo de estado) é incapaz de disputar a hegemonia nas classes proletárias! De resto, uma vez mais no governo a partir de janeiro de 2023, a esquerda será identificada por milhões de brasileiros como a representação máxima do regime eleitoral decadente; no lado oposto, a direita, na oposição ao governo e ao regime, manterá seu discurso "anti-sistêmico". 

A união dos democratas

Nas circunstâncias atuais, até mesmo o democrata aprendiz percebe a ofensiva da direita a despeito da derrota eleitoral do protofascista. Não obstante, esses milhares de jovens - filiados ou não nos partidos da esquerda liberal - assumiram certo compromisso "militante" num período de decadência ideológica da esquerda liberal, orientados pelo sentimento de injustiça da prisão de Lula e sem a menor possibilidade de influenciar nos rumos dos partidos convertidos em meras máquinas eleitorais de relativa eficácia. Ademais, os chamados movimentos sociais se transformaram em comitês eleitorais cujo horizonte não é a transformação radical da ordem burguesa mas a mera representação parlamentar e a "conquista" de reivindicações por meio de políticas públicas do estado (municípios, estados e união). Nesse contexto, a práxis política se tornou quase estéril, pois, a adesão ao partido não forma um militante, mas um eleitor cativo; não fortalece o senso crítico, mas alimenta um moralista; não estimula a batalha iracunda da juventude, mas estimula a resignação diante das decisões do "líder"; não fomenta a rebeldia, mas potencializa a valorização moral da filantropia católica.

Ainda assim, o jovem militante percebe que a derrota do protofascista não alterou a correlação de forças e tanto sua angustia pessoal quanto seus íntimos temores não desapareceram. Na prática, antes de figurar como genuíno militante de um "partido em disputa", ele "circula" em grupos eletrônicos que lhe rouba tempo e potência. Não poucas vezes se depara com a orientação de "voltar as bases" e trabalhar junto ao povo "em territórios" como se com tal "orientação" pudesse encontrar as bases políticas para sua práxis. 

Ademais, a partir de janeiro, a repetição rebaixada das políticas sociais praticadas nos longos 14 anos de administrações petistas não podem assegurar apoio político ao governo e menos ainda sustentar legitimidade ao regime político. Num contexto de inflação e da radical mudança da legislação trabalhista, a digestão moral da pobreza praticada no passado não será capaz de criar sequer apoio eleitoral que a esquerda cativa da concepção parlamentar de política tanto preza. Afinal, quem pode assegurar vida digna adotando o critério do Banco Mundial segundo o qual um trabalhador deixa a linha de miséria se receber qualquer valor acima dos U$ 2,15 dólares diários?

A luta pela democracia no interior de uma república burguesa exige, portanto, a afirmação da perspectiva de classe e do socialismo! A renuncia do socialismo deixou o terreno da disputa político-ideológica completamente livre para o liberalismo de direita pois as "mediações" pretendidas pela esquerda liberal na perspectiva de mitigar os efeitos mais nocivos do que denominam "neoliberalismo" foi incapaz de bloquear a aprofundamento da dependência; foi igualmente incapaz de fortalecer o estado para cumprir tarefas num hipotético projeto (neo)desenvolvimentista. 

Aos que ainda se aferram a busca permanente do consenso com a classe dominante nos marcos da política de "resistência" - portanto, sem horizonte estratégico - basta  observar o desastroso resultado do lento e eficaz controle que a burguesia exerce sobre funções decisivas do Estado. Nos anos de FHC, a fração financeira incrementou com força a campanha pela independência do Banco Central; nos governos petistas, a famosa "autonomia operacional" garantiu suculentos dividendos a todas as frações do capital durante longos 14 anos como se fosse, de fato, sabedoria e astúcia das "mediações políticas". Finalmente, em fevereiro de 2021, durante o governo do protofascista Bolsonaro, o parlamento concedeu as garantias constitucionais necessárias para o pleno exercício da hegemonia da fração financeira no interior da coesão burguesa capaz de enfrentar qualquer governo nos marcos do regime vigente. Ora, esse é um caso exemplar de convicção burguesa e atuação estratégica que não encontra paralelo na esquerda liberal! 

A análise da situação atual não poderia ser mais adversa para o povo sob condução da esquerda liberal. Na prática, orientada por um liberalismo republicano que existe apenas na cabeça de seus "dirigentes", a esquerda liberal não somente busca a conciliação de classe em todas suas ações mas, ao contrário do que alguns julgam, não faz menos do que fortalecer a direita na exata medida em que não afirma as ações militantes necessárias para constituir um força proletária-popular no lado oposto a completa hegemonia da burguesia. A coligação partidária organizada por Lula é um arremedo de "frente ampla", incapaz de conquistar graus de organicidade necessários para constituir um contra peso no interior da hegemonia burguesa. Eis a razão do caráter conservador do terceiro mandato de Lula na presidência e também o álibi implícito na denuncia alarmista do perigo ou ameaça "neofascista" como exigência para soldar fidelidades partidárias azeitadas com postos e posições no futuro governo.  

Os militares e o regime liberal burguês

Nas condições de um país periférico na América Latina, a luta pela democracia impõe a reflexão sobre os militares. A esquerda liberal antes, durante e após seus 14 anos de governos revelou completa impotência para enfrentar a questão militar num país marcado por histórico protagonismo das forças armadas. É notória sua incapacidade de elaborar e apresentar ao povo uma doutrina militar compatível com as condições de um país dependente e subdesenvolvido numa região sob controle estratégico dos Estados Unidos. A contrário do que alguns liberais progressistas sustentam - tardiamente, é claro! - não se trata apenas de propor uma doutrina militar compatível com a democracia. Não basta! É preciso uma doutrina militar como instrumento de soberania nacional capaz de ganhar margens crescentes de autonomia diante do imperialismo estadunidense com hegemonia reforçada nas ultimas décadas. 

A omissão da esquerda liberal no governo diante da clara espionagem da Agência Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos na correspondência eletrônica da ex-presidente Dilma (o organismo grampeou 29 telefones de membros do governo e inclusive do avião presidencial) revelou a prostração completa do petismo à Washington quando teria o mundo a seu favor para enfrentar a potência imperialista e, de quebra, expor a submissão e/ou impotência dos militares brasileiros diante de semelhante violação de nossa soberania. Não foi o único caso de submissão política de caráter estratégico da esquerda liberal pois o mesmíssimo Lula foi o responsável pela promoção de um acordo de cooperação no apagar das luzes de seu governo (12  de abril de 2010) mais tarde  promulgado pela presidente Dilma (18 de dezembro de 2015) via o decreto número 8.069. Quando Bolsonaro anunciou em dezembro de 2021 o inicio de exercício militares bilaterais em Lorena, recordou que a presença de tropas estadunidenses em território nacional por primeira vez, era produto dos acordos assinados pelos governos petistas razão pela qual não restou à esquerda liberal o silêncio cumplice sobre esse terrível precedente.

https://nildouriques.blogspot.com/2021/12/as-tropas-estadunidenses-no-brasil_1.html?spref=tw

O acordo assinado por Lula, regulamentado por Dilma e praticado por Bolsonaro prevê exercícios até 2028 e são destinados - segundo o Maj.Gen. William L. Thigpen - a atuar em caso de "crises humanitárias e desastres naturais".  Acaso, o Brasil não possui recursos para enfrentar com as próprias forças "crises humanitárias e desastres naturais"? Acaso a China ou a Rússia permitiria algo semelhante? Cuba ou Venezuela assinariam semelhante acordo?

(https://www.southcom.mil/MEDIA/NEWS-ARTICLES/Article/2865017/bilateral-military-exercise-southern-vanguard-22-begins-in-brazil/)

A prostração diante da potência imperialista é completa e expressa a hegemonia pró-imperialista que comanda as Forças Armadas, responsável pela formação de centenas de oficiais sob o controle ideológico, político e operacional do Comando Sul dos Estados Unidos.  

A união dos democratas

Portanto, nesse início de governo, o desafio não se limita - como desejam setores de esquerda - a necessidade de passar à reserva dezenas de generais comprometidos com o governo Bolsonaro. A situação chegou a tal ponto que medidas dessa natureza - ainda que possam ser tomadas - são incapazes de tocar no controle político, ideológico e estratégico do Comando Sul dos Estados Unidos no interior das Forças Armadas. A renovação imediata e de larga escala do atual comando militar, a aplicação zelosa do regimento em relação a eventuais indisciplinas, a nomeação de um civil para o cargo de ministro, a investigação criteriosa sobre a corrupção nas filas militares, a revogação de vantagens salariais e de carreira inaceitáveis e a investigação dos crimes cometidos por militares no governo do protofascista, entre tantas outras medidas, podem e devem ser tomadas mas ainda assim não tocam no horizonte estratégico.

Há poucas semanas o futuro ministro da Defesa, o ex-deputado José Múcio, concedeu longa entrevista à Globo deixando claro a natureza do problema. Quando ainda existiam apenas rumores de sua nomeação, ninguém menos do que Hamilton Mourão - vice presidente e senador eleito pelo Rio Grande do Sul - afirmou ter "muito apreço e respeito pelo ministro Múcio, com quem tive excelente relação quando ele estava no TCU. Julgo que será um nome positivo para o cargo" (Correio Brasiliense, 29/11/2022). Agora, como ministro indicado, Múcio anunciou que atuará animado pelo espirito da conciliação e buscará a "despolitização das forças armadas". Na prática, quando Lula decide pela nomeação dos novos comandantes baseado no critério de antiguidade, ajoelha diante dos militares que, segundo o novo ministro, constitui a forma de progressão "mais tradicional possível, sem invenção de ninguém" e possui também a virtude de ser "a regra que a Marinha gosta, que o Exército gosta, que a Aeronáutica gosta". Portanto, a hegemonia no comando das forças armadas segue intocável e o futuro se anuncia sombrio.

A imprensa burguesa apresenta ideologicamente o futuro ministro Múcio quase como um sábio, expressão de sabedoria e habilidade política conquistada em larga carreira quando, na verdade, não passa de um político vulgar a serviço das piores práticas existentes entre os militares e incapaz de disputar a hegemonia ultra liberal a serviço dos interesses estratégicos dos Estados Unidos no Brasil. A cúpula militar sabe que a linha anunciada - a "despolitização das forças armadas" - sequer poderá roçar os interesses consolidados no interior das três forças. Na prática, apenas expressa a tese inocente do liberalismo de esquerda segundo a qual os militares devem "voltar à caserna", deixando milhares de cargos que atualmente ocupam em todos os escalões da administração direta e indireta. Ora, nada poderia ser mais perigoso: os militares não deixarão a vida política mesmo que sejam removidos de todos os cargos que rendem remunerações exorbitantes a alta cúpula militar e suas famílias. A suposição que os militares devem voltar à caserna, assumir o espirito de uma república burguesa tal como existe nos Estados Unidos ou na França e, de quebra, renunciar a ambições de poder simplesmente não corresponde a realidade de um país dependente sob a hegemonia completa da potência imperialista.

O protagonismo histórico dos militares na vida política nacional é próprio das condições particulares da dominação burguesa na periferia capitalista. Ao contrário da falta de consciência e capacidade dirigente que sociólogos desavisados atribuem as classes dominantes - incapaz de reproduzir a via clássica do desenvolvimento capitalista - o recurso a ditadura é um dispositivo próprio da capacidade "dirigente" da burguesia. É, pois, produto de sua consciência de classe e não de sua ausência. 

No interior das forças armadas, o fenômeno aparece de forma diferente pois é notória desconfiança que as três forças - especialmente o exército - mantém em relação às "elites", a despeito da concepção ultra liberal dominante no seu interior defendida abertamente por generais como Mourão, Vilas Boas, Braga, Heleno, etc. A doutrina militar e a respectiva formação política da cúpula das três forças - especialmente acentuada no exército - não poupa críticas à "elite brasileira" diante da "imperfeição" do estado, da economia, da administração pública e das instituições políticas típicas de um pais subdesenvolvido e dependente. No entanto, também é parte constitutiva de sua doutrina a desconfiança ainda maior que os militares nutrem sobre a capacidade de nosso povo se autogovernar como se estivéssemos condenados a uma espécie de infância permanente, indefesos diante das manipulações de lideranças populistas e demagógicas que exigem a vigilância e proteção permanente das três armas sem as quais o destino do país e a segurança hemisférica sob controle dos Estados Unidos estariam severamente ameaçadas.

Em consequência, os militares não voltarão à caserna porque desde a proclamação da república constituem uma força política decisiva no país. A eleição de Hamilton Mourão e Eduardo Pazuello revelam o quanto avançou o ativismo político da alta cúpula militar, de resto já exibida com a atuação parlamentar do Major Vitor Hugo e o general Eliéser Girão, entre outros. A dificuldade em reconhecer esse dado elementar da evolução política do Brasil é produto da ingenuidade com que a esquerda liberal entende a democracia nas condições de um país dependente e subdesenvolvido além, é claro, da filiação cada dia mais arraigada à concepção parlamentar de política. Em consequência, a esquerda liberal manifesta apenas desejos em relação aos militares e assiste evolução da crise sem capacidade de influenciar sequer marginalmente nos rumos do governo petucano, sabidamente um produto da "frente ampla" sem o selo da antiga esquerda. 

Não surpreende, pois, que nos últimos dias alguns de seus representantes, orientados por duas moléculas de honestidade intelectual e realismo político, manifestem publicamente desejos e decepções diante da linha adotada por Lula sem, contudo, nenhuma capacidade de influenciar nas decisões do presidente eleito. De resto, a ignorância pedestre sobre o protagonismo histórico dos militares na política nacional, produz apelos ao "patriotismo" das forças armadas ou postula a necessidade de "neutralidade" das armas como se tal propósito fosse realmente possível nas condições de uma sociedade organizada pelo ódio da classe dominante às classes populares, responsável, finalmente, pelo abismo social que caracteriza a existência da maioria do povo brasileiro. Portanto, tanto o brado da "volta a caserna" quanto o apelo a "neutralidade" ou a "despolitização", expressam a posição de completa impotência diante da hegemonia militar sob controle dos Estados Unidos e deixam intocável a doutrina militar que garante lucros extraordinários as classes dominantes enquanto perpetuam a miséria e exploração de nosso povo. 

Nas circunstâncias atuais, essa ideologia - a despolitização das forças armadas - é apresentada como se realmente fosse um antídoto eficaz contra o "autoritarismo". Entretanto, não passa de linha ingênua e oportunista, necessária para descartar a exigência social e histórica de uma nova doutrina militar capaz de oferecer uma alternativa real ao controle estratégico que o imperialismo estadunidense exerce no maior país da América Latina. Essa é uma obrigação do presidente da república garantida pela constituição e por realismo político elementar que todos os governos petistas renunciaram a luz do dia! Ora, até mesmo a constituição de 1988, elaborada sob os escombros da ditadura mas ainda orientada pela oposição liberal (monitorada por Washington e tutelada pela cúpula militar da ditadura), assinalou uma linha de intervenção jamais levada a sério por Lula ou Dilma: 

A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações.

Em termos históricos - perspectiva que a esquerda liberal ignora por completo mas os militares não - a América Latina oscila entre dois polos: o pan-americanismo e o bolivarianismo. O primeiro é fruto da constituição e expansão do imperialismo estadunidense representado pelo brado monroísta da "América para os americanos" anunciado por James Monroe em dezembro de 1823. O segundo, emana diretamente da luta de Simón Bolívar na longa guerra da independência contra o império espanhol e na constituição da Pátria Grande, um conceito estratégico que segue olimpicamente ignorado pela esquerda liberal ou utilizado apenas como peça de propaganda sem conexão com ações de governo. 

A esquerda despreza, mas a classe dominante não! A intensa agitação realizada pela direita nos últimos anos contra o fantasma bolivariano na forma de ataques sucessivos à Venezuela representa uma operação ideológica de largo alcance e, devemos reconhecer, totalmente exitosa. A direita - ao contrário da filiação europeia e estadunidense que comanda a cabeça da esquerda liberal - sabe quem é o inimigo de fato e foi muito hábil em traduzir até mesmo no terreno eleitoral essa disputa ("o Brasil vai virar uma Venezuela"). A direita e a hegemonia no interior das forças armadas possuem consciência história e horizonte estratégico que, definitivamente, falta a esquerda liberal. Ao reivindicar James Monroe contra Simon Bolívar, a direita assinala os limites da política para manter o Brasil como um gigantes com pés de barro, incapaz de cumprir qualquer protagonismo nos problemas mundiais, figurando tão somente como animador de auditório de uma "agenda" que nenhuma potência (EUA e China, por exemplo) leva a sério (meio ambiente, segurança global, etc) 

O esquecido embaixador Oliveira Lima escreveu sobre os perigos do panamericanismo e a importância da alternativa bolivariana no distante 1907 quando ainda não existiam nem Hugo Chávez, nem Maduro. Inútil o esforço do diplomata. Não devemos desprezar o poder da ideologia, pois mesmos homens cultos como Araripe Junior, não ruborizaram em afirmar no início do século passado que a doutrina Monroe era tanto inevitável quanto benéfica pois representaria o "primeiro sintoma de que o sentimento da autonomia americana se incorporava a evoluta do progresso", um capítulo da história do progresso "extra-europeu". 

Portanto, não falta apenas perspectiva histórica a esquerda liberal cativa de Lula; falta-lhe também, o mínimo de senso prático na atuação política para além de seus interesses pessoais imediatos. As primeiras decisões de Lula/Alckmin constituem - num mesmo movimento - grave renuncia à disputa no interior das forças armadas e o respeito suicida à articulação política e interesses soldados por Bolsonaro ao longo de vários anos. Não basta - definitivamente não basta! - o lamento cumplice da esquerda liberal como se o protagonismo dos militares no governo Bolsonaro fosse um resultado da falta de ajuste de contas na transição da ditadura para o regime liberal burguês em 1985! Após a impunidade absoluta aos militares naquele período, a democracia garantiu - especialmente nos governos do PT - vida longa aos interesses que agora se manifestam sem inibição. De resto, uma vez mais, sob o céu claro da democracia, é novamente Lula quem pratica a impunidade e garante privilégios aos militares que não deixarão de produzir resultados imediatos contra os interesses populares.

A coesão social dos explorados

A reivindicação abstrata da democracia realizada pelo liberalismo de esquerda oculta algo essencial: a qualidade de um regime liberal burguês repousa em sua capacidade de atender as demandas populares num país sustentado pela superexploração da força de trabalho. Portanto, a força da democracia somente pode ser asseverada diante do protesto das massas, da legitimidade do conflito social e jamais de sua capacidade de "conciliação". Nesse contexto, é indispensável analisar as transformações no direito do trabalho. As sucessivas "reformas trabalhistas" renderam a coesão burguesa um país sem leis, garantindo um paraíso terrenal à todas as frações do capital e um inferno para os trabalhadores. Informação recente indica que "entre janeiro e outubro de 2017, as varas do trabalho de todo o país tinham 2,2 milhões de ações em andamento. No mesmo período em 2019, o total de processos recuou para 1,5 milhão". Ademais, outra fonte indica que "até setembro de 2022 apenas 1.263 milhão" foram registradas, número inferior ao registrado em... 1992!! No lado aposto, os lucros se multiplicam no embalo da concentração e centralização do capital que até mesmo os aprendizes em crise podem ver nos jornalões burgueses todos os dias.

Nesse contexto, as políticas sociais exibem os limites objetivos que animam a consciência ingênua e religiosa da esquerda liberal diante da questão social num país dependente e subdesenvolvido. O abismo social que caracteriza a vida de milhões de trabalhadores encontra uma burguesia capaz de apoiar políticas públicas destinadas a mitigar o sofrimento das massas uma vez que estão, irremediavelmente, submetidas a superexploração da força de trabalho; ademais, aos requerimentos inerentes as formas rentísticas de acumulação cujo pressuposto é o assalto ao estado produziu a austeridade fiscal permanente contra o povo, razão pela qual imprimem um caráter necessariamente limitado às políticas sociais com graves consequências políticas. De um lado, produzem a digestão moral da pobreza pois não constituem via de mobilização, consciência e organização social dos trabalhadores; de outro, legitimam a dominação burguesa porque os programas sociais não tocam na propriedade e o poder das classes dominantes que passam imunes como causas da pobreza e exploração de nosso povo. 

A propósito da recente disputa entre os petistas e a senadora Simone Tebet pelo Ministério de Desenvolvimento Social revela a natureza do problema. O petismo não transformará os programas sociais numa via de mobilização dos oprimidos num processo de auto emancipação política absolutamente necessário na luta pela democracia. No entanto, abriu com energia pequena batalha no interior da formação do governo destinado a esterilizar as pretensões da senadora, estrela ascendente do feminismo nacional. Ambos sabem que o Bolsa Família (e outros instrumentos da digestão moral da pobreza) constituem poderosos mecanismos de disputa eleitoral e jamais via de conscientização do povo!  

A união dos democratas

De resto, toda a discussão sobre a PEC do orçamento representou é mecanismo decisivo na produção ideológica da "austeridade fiscal", na verdade, uma guerra de classes contra as necessidades elementares do povo. O esforço de economistas "heterodoxos" afirmando a compatibilidade entre metas fiscais e compromissos sociais revelou, a um só tempo, a potência da ideologia dominante em estabelecer os limites objetivos do investimento estatal num capitalismo de natureza rentístico e, de quebra, a disciplina política e mental dos futuros ministros e assessores filiados a "responsabilidade fiscal", a nova religião de todo aspirante a cargo público com alguma relevância na república rentísta. 

Nos dois episódios descritos acima, podemos observar o quanto a esquerda liberal assumiu como próprio a economia política da coesão burguesa e também a aceitação da prisão ideológica estabelecida pela burguesia que, ao fim e ao cabo, determinam os fundamentos intransponíveis da democracia restringida em curso após o fim da ditadura.   

Entretanto, há também outros obstáculos igualmente importantes inerentes a digestão moral da pobreza praticada pela esquerda liberal que valida a ideologia dominante sobre a miséria e exploração das maiorias. Os critérios para indicar quem são os pobres ou quem passa fome nos países da periferia latino-americana são aqueles indicados por organizações como o Banco Mundial ou a FAO, ambos sob controle dos países centrais. É produção ideológica concentrada, adotada sem reparos pela esquerda liberal e divulgada como se fosse, de fato, acesso à cidadania! Em publicação recente, o Banco Mundial anuncia que "no início da pandemia, cerca de 3 em cada 10 brasileiros eram pobres e cerca de 8% viviam na extrema pobreza. Esses percentuais não mudaram muito desde 2012 (33% e 7,4%, respectivamente), o primeiro ano para o qual há dados comparáveis" (Relatório da pobreza e equidade no Brasil, julho, 2022). Mas afinal, o que é um pobre para o Banco Mundial? Um brasileiro é considerado na linha de miséria quando recebe renda familiar per capital inferior a... US$ 1,90 por dia!!! Ora, quando recebe US$ 2,0 deixa a linha de miséria e se receber algo próximo a US$ 2,50 deixa a linha de pobreza!!!!!!!

O entusiasmo da esquerda liberal com as políticas sociais foi compartilhado pelo governo do protofascista Bolsonaro; em novembro ultimo a Casa Civil festeja o recente relatório do Banco Mundial segundo o qual o "número de pessoas vivendo abaixo da linha de extrema pobreza no País reduziu, saindo de 5,4% em 2019 para 1,9% em 2020. Em números totais, a redução foi de 11,37 milhões para 4,14 milhões de pessoas no período. Ou seja, 7,23 milhões de pessoas saíram dessa situação entre 2019 e 2020. O levantamento mostra ainda que essa redução de 3,5% da taxa brasileira foi a maior de toda a América Latina no mesmo ano." O Ministério da Cidadania do governo presidido pelo protofascista Bolsonaro defende que "as famílias em situação de extrema pobreza são aquelas que possuem renda familiar mensal per capital de até R$ 105,00 e as em situação de pobreza com renda familiar mensal per capita entre R$ 105,01 e R$ 210...".  O trágico exemplo demonstra que a defesa dos pobres praticada pela esquerda liberal seguindo a metodologia do Banco Mundial termina por validar a ideologia da classe dominante segundo a qual é possível combater a miséria a partir de políticas públicas orientadas por organismos criminosos como o Banco Mundial.

Assim podemos ver como a esquerda, outrora radical, assumiu o liberalismo e terminou validando medidas que foram mantidas por Michel Temer e também por Bolsonaro! Ora, o maior programa social da história do país - afirmação dos petistas! - foi mantido por Bolsonaro e inclusive ampliado pelo protofascista! Da mesma forma, essa é a razão pela qual a esquerda esta completamente impossibilitada de constituir uma força política, uma força social dos oprimidos, nos marcos das políticas públicas. Não o fez durante 14 anos e não fará no terceiro mandato de Lula. Portanto, a experiência histórica recente demonstra claramente que os programas sociais não logram constituir uma força social dos trabalhadores capaz de sequer iniciar uma real disputa pela hegemonia política contra o domínio absoluto da burguesia na política e ideologia. No limite, as políticas sociais podem sustentar eventuais vitórias eleitorais mas revelaram após Temer e Bolsonaro que também são úteis para governos liberais, corruptos e entreguistas da mesma forma que sustentaram 14 anos de governos petistas.

A indicação de Haddad para o ministério da Economia - um político do ultraliberal Insper - indica claramente que não haverá ruptura com a economia política que solda a coesão burguesa, garantia de super lucros a todas as frações do capital e manutenção de milhões na superexploração da força de trabalho. A imprensa "vaza" nesses dias que Lula consultou Campos Neto, o atual presidente do Banco Central - sobre a disposição do funcionário dos banqueiros para exercer um segundo mandato a frente do BC. Mais do que um lance destinado a "acalmar mercados" se trata de intima convicção do presidente eleito, a mesma que garantiu Meireles durante 8 anos sob comando de uma instituição chave para qualquer projeto político. De resto, Lula tem mantido de maneira escrupulosa a palavra empenhada com os banqueiros desde sempre, razão pela qual aqueles que buscam uma "razão tática" para seus movimentos em favor da burguesia revelam tão somente a miséria política dos partidos da esquerda liberal.

A feliz suposição de que a economia mundial poderia garantir a partir da potência hegemônica um novo período de expansão para as economias latino-americanas dá claros sinais de que as esperanças no novo rooseveltianismo de mister Biden são infundadas. As limitações são óbvias demais para seguir sendo ignoradas na suposição de que um país periférico, afundado numa divisão internacional do trabalho adversa, exportando produtos agrícolas e minerais, poderá, com base na moeda nacional, produzir as condições de um "pacto" onde todos - burgueses e proletários - possam ganhar ainda que de maneira desproporcional. Nada indica que a economia mundial poderá assegurar nova onda de expansão na esteira da qual o governo petucano teria condições para afirmar uma política progressista capaz de desmobilizar a direita na oposição sob comando de Bolsonaro. Portanto, um novo ciclo expansivo, capaz de garantir "o melhor dos mundos possíveis" para os trabalhadores num país com uma burguesia que não perde oportunidade para avançar na garantia de seus interesses, esta descartado. Nesse contexto, as políticas públicas não podem assegurar sustento social ao governo, estabilidade ao regime político e menos ainda um caminho eficaz para rivalizar com a direita na oposição. Esta, sofreu uma derrota eleitoral mas segue afirmando sua capacidade de mobilização e de iniciativa que mais cedo ou mais tarde exercerá influência decisiva via parlamento.

De resto, aferrado a economia política do rentismo iniciado pelo Plano Real, o petucanismo (Lula/Alckimin) sugere que a única saída é mesmo a reforma tributária. No essencial, o suposto oculto dessa proposta é que o Plano Real (economia política do rentismo) deu certo mas faltou sustento fiscal para ampliar programas sociais capazes de manter o controle eleitoral nas disputas presidenciais. É o melhor dos mundos possíveis pois, nessa sagrada e mágica fórmula, a coesão burguesa manteria os superlucros e os trabalhadores teriam direito as migalhas sociais. Na miserável linguagem dos economistas e politólogos, um "jogo de ganha-ganha" Ora, essa formulação não somente é omissa sobre o assalto permanente ao estado praticado pela coesão burguesa necessário à orgia dos títulos da dívida pública mas, sobretudo, constitui peça de legitimação ideológica e política do projeto dominante. Afinal, a surpreendente proposta de reforma tributária como medida necessária para manter a paz social e a democracia pretende tão somente pagar religiosamente o custo financeiro da dívida e cobrar algo mais de impostos para atender demandas da política pública destinada a reproduzir a digestão moral da pobreza... Eis o essencial do encontro entre monetaristas e keynesianos convertidos ao credo liberal.

Nesse contexto, o governo petucano de corte conservador poderá praticar políticas sociais destinadas a seguir com a digestão moral da pobreza mas jamais logrará construir as bases de uma nova hegemonia necessária para afastar a ameaça permanente da direita "golpista". Assim, com força social e manejo parlamentar, a direita manterá o governo Lula/Alckmin com rédeas curtas e sempre disposto a praticar o "consenso" necessário para assegurar o rumo da economia e da política sob controle da coesão burguesa.  

Nem mesmo a elaboração de um conjunto de programas (habitação, energia, saneamento, educação, etc) e a conclusão de milhares de obras públicas poderá mudar radicalmente a conjuntura. Ademais, a experiência demonstra inclusive o fracasso eleitoral do PT baseado em políticas sociais. Portanto, a vitória eleitoral de Lula é incapaz de avançar numa estratégia necessária ao enfrentamento da hegemonia completa do liberalismo; ao contrário, na condição de ala esquerda do liberalismo dominante, o PT, Lula e seu novo governo conservador, não fazem menos do que fortalecer a ideologia liberal.

A crise do regime 

A sabotagem permanente da natureza presidencial do regime político desde a democratização segue seu curso livre após a vitória eleitoral de Lula. De fato, o presidente eleito iniciou negociações com os demais poderes no afã de recompor o regime político com estrito apego a liturgia republicana. A harmonia e independência dos poderes ganhou alento alegórico mas é incapaz de restaurar a credibilidade pública e menos ainda a simpatia ativa das massas em relação ao regime político. Nesse contexto, o problema central não é a presença de Bolsonaro e seus seguidores na oposição; tampouco as sucessivas demonstrações que setores da direita são capazes de agir na direção de atentados e atos de terrorismo a luz do dia cujo comando ainda ignoramos. O problema central é o apego idealizado da esquerda liberal à ordem burguesa e, em consequência, seu afastamento real das necessidades objetivas das massas. Um regime atravessado pela corrupção e pela incapacidade de atender reivindicações básicas das maiorias num contexto de crise não pode assegurar a legitimidade da "democracia"! Assim, de um lado o governo da esquerda liberal não poderá recompor a credibilidade pública do sistema político e, por outro, a direita liberal segue em franca ofensiva contra a legitimidade eleitoral das eleições e a corrupção das instituições republicanas (STF e congresso nacional). É uma combinação explosiva! 

A esquerda liberal não possui proposta alguma pra renovar a crença das massas no regime político. No imediato aposta na eficiência de seu governo e na capacidade de conciliar migalhas sociais ao povo com a manutenção dos super lucros aos capitalistas. Não há dúvidas de que para conquistar tal objetivo manterá intocável a política econômica. As esperanças num novo "rooseveltianismo" comandado pelos Estados Unidos fracassou completamente sob condução do governo Biden e descartou completamente as esperanças keynesianas na periferia capitalista latino-americana . 

Na ausência de horizonte estratégico, a esquerda liberal balbucia a necessidade de uma "reforma política" ou mesmo de uma "assembleia nacional constituinte", ambas incapazes de despertar o interesse das maiorias porque não representam formas de participação real nas decisões e, ao contrário, teriam que operar no interior de um sistema político sem credibilidade pública. No passado, existiam liberais de direita que indicavam timidamente a "crise da democracia" como a causa do mal estar geral mas, agora, nas circunstâncias desse século, sem o socialismo como alternativa, os liberais estadunidenses dão o tom da conversa: a democracia estaria ameaçada pelos populistas e pelo "totalitarismo"! Assim, a ideologia do liberalismo de esquerda estadunidense prospera nas filas da esquerda liberal brasileira na defesa das virtudes imaginárias da democracia. Não é outra a razão pela qual o lixo ideológico destinado a reproduzir a hegemonia imperialista na América Latina aparece entre nós pelas página de afamados acadêmicos sem vitalidade teórica alguma e, não raro, inclusive pela contribuição "intelectual" de funcionários de estado (Steven Levitsky, Thimoty Snider, Madelaine Albright, etc). De resto, essa "inspiração teórica" é incapaz de tocar nos problemas reais da "crise da democracia" nos Estados Unidos e serve tão somente para alimentar um lobby no interior do Partido Democrata!

O liberalismo encontrou, portanto, seu limite objetivo na crise nacional. A direita liberal se apresenta sem "mediações" ao atacar a democracia em nome da liberdade; ademais, indica objetivos políticos claros, logra conquistas estratégicas no interior do Estado (Banco Central, Forças Armadas, etc), revela ativismo político intenso tanto nas disputas eleitorais quanto em atos criminosos e até mesmo terroristas cujo horizonte é a superação do atual sistema político. A despeito dos vaivéns inerentes a conjuntura, a direita liberal possui a clara intenção de constituir um movimento de massas de extração fascista, disciplinado e com capacidade de intervenção política, enquanto a esquerda liberal repete melancolicamente a fórmula e os métodos que ajudaram a criar a crise atual! Portanto, a polarização entre a "velha política" (sistema petucano) e a "nova política" inaugurada em 2018 por Bolsonaro segue ordenando cada passo das duas faces do liberalismo.   

O insistente clamor pela volta da "normalidade" política como se tivéssemos perdido algo valioso com a destituição da presidente Dilma é um artificio ideológico capaz de angariar votos mas sem qualquer possibilidade de constituir uma força política capaz de derrotar politicamente a direita liberal, criar as bases para tirar o país da crise e convocar as massas empobrecidas na fase rentística do capitalismo no Brasil para um papel protagônico na disputa em curso. O anúncio da reconstituição das conferências nacionais (saúde, educação, meio ambiente, etc) como mecanismo de participação ignora as profundas transformações ocorridas no estado, na econômica, no regime de classes e na cultura do país nos últimos anos; ademais, confina o esforço militante aos estreitos limites das política públicas necessariamente elaboradas num contexto de crise econômica mundial sem previsão de arrefecer os efeitos na periferia capitalista. De resto, as transformações operadas no desenvolvimento capitalista sob condução petucana e concluídas pelo ultra liberalismo de Temer e Bolsonaro, não podem ser superadas pelo otimismo do futuro presidente e seus ministros. 

Há algum tempo os economistas a serviço da esquerda liberal alimentam ilusões sobre a possibilidade de manter os interesses da coesão burguesa constituídos desde 1994 com garantias de programas sociais mais ou menos universais por meio de uma reforma tributária destinada a cobrar impostos dos ricos e incluir os pobres no orçamento. Não fosse ideologia barata sem sustento nos fatos (parlamento,  mídia, empresários, trabalhadores), seria apenas uma proclamação em favor dos "melhores dos mundos possíveis".  

Portanto, as políticas de inclusão social ou ações afirmativas podem salvar algumas almas do abismo social onde as maiorias estão afundadas irremediavelmente sem qualquer horizonte auto emancipatório. O discurso da esquerda liberal expressa moralismo rasteiro e não poucas vezes supõe a existência de uma vasta classe média capaz de sustentar um liberalismo de esquerda de extração estadunidense ou europeu. Ora, seus ideólogos aprendizes, entretanto, esquecem que um capitalismo classe média esta em crise nos países centrais mesmo com poderosos mecanismos de crédito e a posição privilegiada na divisão internacional do trabalho e, por essa e outras razões, jamais deixou de ser uma farsa na periferia capitalista! 

O "irracionalismo" de Bolsonaro e o caráter supostamente tosco de suas declarações e ações, ao contrário, funcionam como combustível a partir de seus brados em favor da liberdade diante da Corte, da mídia, e do "poder econômico" para as maiorias. O brado do protofascista possui aderência em função da vida dura reservada para milhões que não podem sair do abismo social. É incrível que a esquerda liberal não observe que precisamente o caráter indefinido do brado pela liberdade encabeçado pelo protofascista é capaz de amalgamar a angústia e o desespero diário de milhões de trabalhadores enquanto a esquerda liberal pratica o bom mocismo e as ações afirmativas típicas do identitarismo estadunidense incapaz de tocar no nervo da exploração e da opressão. 

O liberalismo não pode, em consequência, soldar fidelidade ao regime político mesmo com o governo conservador de Lula operando em seu favor. Ao contrário, desde as eleições de 2018 a ofensiva da direita liberal e o monopólio da crítica ao regime político que exerce de maneira aparentemente caótica - aliada a incapacidade da esquerda liberal em redimir milhões da pobreza, da exploração e da violência de classe - indica claramente que o antigo liberalismo não possui qualquer apreço por aquilo que a vertente de esquerda chama... democracia!

A vitória de Lula não alterou a correlação de forças. A iniciativa política da direita em curso desde 2016 segue seu curso normal e não há nada até agora capaz de indicar alteração significativa. A precariedade da coalização partidária que elegeu e vai governar com Lula não assinala a menor possibilidade de ganhar consistência programática (exceto no brado abstrato da democracia) que, por sua vez, desabará diante de exigências reais das classes sociais na dinâmica da crise. Bolsonaro clama pela liberdade contra a democracia e afirma o surrado bordão de profundas raízes no país (deus, pátria, família e liberdade). Aparentemente batido após a derrota eleitoral, acumulou força social e realizou experimentos políticos importantes para a direita brasileira que constituem conquistas estratégicas no futuro imediato. Nesse contexto, pouca importa se o protofascista terá vida política longa entre nós ou outro personagem qualquer assumir o posto originalmente reservado ao "mito". A direita veio pra ficar e a "volta a normalidade" é, de fato, impossível!  

A bandeira do socialismo e da Revolução Brasileira há tempos estão ausentes da disputa eleitoral e tampouco figuram no horizonte dos partidos que aspiram a condição de representantes da esquerda a altura da imensa crise que sofremos. Agora, além da concepção liberal de democracia própria do liberalismo de esquerda, nos divide também um governo. Todos aqueles que pretendem a disputa da hegemonia em algum ponto futuro, terão agora que fazer oposição ao governo petucano. Uma oposição de esquerda, mas, ao fim e ao cabo, oposição. Ou deixarão o monopólio da crítica para a direita.