sexta-feira, 4 de agosto de 2023

O inimigo aparente

  

Nós que nascemos no aparente, poderíamos suportar o real?

Fernando Pessoa

 

A aparência é a essência de nossa época – aparência é a nossa política, aparência a nossa moral, aparência a nossa religião, aparência a nossa ciência.

Ludwig Feuerbach

 

“... toda ciência seria supérflua se a forma de manifestação e a essência das coisas coincidissem diretamente...”

Karl Marx

 

 

Há algum tempo – não saberia dizer com precisão quando o fenômeno realmente iniciou – a luta política assumiu entre nós uma forma “simbólica”, para dizê-lo no jargão acadêmico. O real importa pouco, mas a disputa pelo “simbólico” ou “imaginário” simula-se quase redentora! A radical operação é consequência da ofensiva burguesa em curso responsável por confinar a esquerda à disputa meramente moral, como se fosse possível transformar a realidade com a simples mudança de mentalidade ou a disputa de valores. É uma vitória considerável da ideologia das classes dominantes e um recurso cínico e impotente da esquerda liberal, pois enquanto essa busca tão somente um lugar confortável no interior da ordem burguesa, àquela amplia de maneira inédita sua dominação político-ideológica na sociedade capitalista sem verdadeira contestação. A afirmação de valores supostamente “humanistas” por parte da esquerda liberal, ao contrário da vã pretensão, apenas valida a sociedade capitalista no reforço do pluralismo tolerado pela direita liberal sempre que as condições da crise econômica e do regime político permitem.

A análise sobre recentes acontecimentos indica que, em larga medida, a esquerda liberal dominante não cansa de combater inimigos opacos e em não poucos casos, até mesmo inimigos invisíveis ou fantasmagóricos. A primeira vez que observei o “ato” foi quando alguns estudantes orientados pela esquerda liberal denunciaram as pichações nos banheiros de nossa universidade como um atentado à moral, aos bons costumes e, sobretudo, destinados ao enfrentamento do racismo, do nazismo e do fascismo. Em minha trajetória política, jamais me ocorreu o uso de pichações no banheiro para convocar as massas ou mesmo para fazer agitação política... Tampouco ouvi algum publicitário exitoso, dirigente partidário experiente ou líder sindical antenado, indicar as paredes dos banheiros como meio para insuflar as massas; afinal, a despeito do eventual uso diário, a capacidade de difusão de uma pichação ao lado do vaso sanitário não pode competir remotamente com qualquer grupo de whatsaap de uma Atlética ou Centro Acadêmico. É ocioso falar do poder de divulgação do Face, Twitter, Instagram ou canais de Youtube, com milhares de seguidores... O contraste é demasiado gritante para ser ignorado: enquanto até mesmo os políticos burgueses lançam mão dos benefícios da big data e o governo conservador petucano defende uma CPI das “Fake News”, os universitários se ocupavam das pichações em banheiros?

As pichações anônimas denunciadas na UFSC – de inequívoco apelo racista – também praticavam apologia ao nazismo. Não por coincidência, pouco tempo depois, a polícia federal identificava e prendia quatro estudantes de nossa universidade organizados em uma “célula nazista”. Em sessão extraordinária realizada em 22 de novembro de 2022, o CUn reuniu, discutiu o problema e votou por unanimidade o merecido repúdio da instituição à propaganda da direita liberal. Entretanto, identificado e repudiado o crime pela instância máxima da universidade, a batalha cessou.

Ao utilizar os banheiros no CSE no final do semestre passado observei que ainda exibem propaganda de todo tipo – racistas e homofóbicas – mas eram especialmente insistentes e agressivas contra os comunistas. Genocidas é o adjetivo mais leve destinado a nós, os vermelhos. É ilustrativo da conduta da esquerda liberal acolher e proteger o “outro”, embora a defesa dos comunas não figure entre suas prioridades. Assim, o repúdio ao racismo e ao nazismo são frequentes enquanto o anticomunismo é simplesmente ignorado como se não existisse. Há, de fato, uma hierarquização moral do protesto, razão pela qual os comunistas não são objeto de solidariedade. Nada no mundo da política ocorre por acaso, motivo suficiente para colocar alguma atenção nesse esquecimento ou omissão deliberada. Ademais, ninguém com os dois pés na rapadura pode ignorar a importância social do anticomunismo em nossa história. A propósito, pesquisa de recente divulgação indica que 31% da população teme a ameaça comunista e outros 13% aceitam a hipótese em parte. A ideologia anticomunista é recurso antigo do liberalismo e notadamente mais eficaz diante da despolitização produzida pela hegemonia liberal no interior da esquerda nas duas últimas décadas. 

Um retrato na parede

Expressão de tempos não tão distantes, na entrada do Centro Sócio Econômico (CSE) dividem a parede de maneira quase harmônica dois personagens: Karl Marx e Ludwig Von Mises. A origem da homenagem a Marx foi o evento anual da WAPE (World Association for Political Economy) que o IELA sediou, com a presença de muitos intelectuais de vários países do mundo em 2013 (China, Índia, Canadá, Vietnam, Escócia, México, Alemanha, Estados Unidos, Japão, Brasil, etc). O registro comemorativo daquele seminário internacional é uma placa com a célebre sacada de Marx elaborado com o refinado estilo literário do alemão presente no Manifesto Comunista de 1844 (“tudo que é solido se desmancha no ar”). Algum tempo depois de nosso evento – numa revanche que me rendeu muito riso e nenhuma indignação – os liberais de direita solicitaram a diretora do CSE permissão para a publicação de outra placa em homenagem ao teólogo austríaco Von Mises ao ladinho do Marx. Na verdade, o ato cômico não me importou, pois, a disputa “simbólica” se referia a algo concreto: a hegemonia liberal no currículo de economia era real e desde sempre dominante; portanto, nada mais justo que figurar na parede o que já estava na cabeça da maioria dos alunos e professores.

Diante da amnésia social que marca nosso tempo, é preciso recordar que a disputa ideológica nas universidades já foi muito mais intensa que a agitação barata em banheiros. A luta ideológica não é simbólica ou imaginária; ao contrário, historicamente foi responsável, por exemplo, pela mobilização estudantil à sucessivas reivindicações de reformas curriculares destinadas a colar sua formação às condições da realidade brasileira, orientada por espírito crítico e sólida formação científica. Mas à falta de memória atual corresponde a ausência de um movimento estudantil forte, representativo e real (o mesmo ocorre com os professore sob circunstâncias particulares). No entanto, a direita liberal não desistiu da luta ideológica e, em consequência, segue soberana no comando das ações sem as “mediações” que a esquerda liberal tanto valoriza como refúgio político.

A campanha contra o IELA

A propósito, lembro de uma época recente em que nós, os bolivarianos, sofríamos uma campanha cerrada de maneira bem menos discreta e com meios infinitamente mais potentes do que as pichações confinadas nos banheiros da UFSC. Os elogios aos estudos latino-americanos desenvolvidos nas duas últimas décadas no IELA-UFSC não brotavam em paredes reservadas à meditação solitária determinada por razões fisiológicas; ao contrário, a direita liberal não vacilava em cuidar de nossa reputação com insistência e método. Há pouco tempo, o trabalho ideológico da direita liberal utilizava a Revista Veja na qual a coluna de Reinaldo Azevedo cumpria função estratégica para combater e manufaturar a opinião pública contra nosso Instituto. Fundado em 2006, o IELA-UFSC já nasceu sob intensa campanha contra sua existência.

Em 29 de janeiro de 2009, Reinaldo Azevedo não vacilava nas páginas da Veja:

Na Universidade Federal de Santa Catarina, existe um troço chamado Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA)... A principal atividade do IELA é promover, atenção!, as Jornadas Bolivarianas. Sim, vocês entenderam. Em abril, acontece a quinta edição. Aí o leitor cético pensa assim: “Ah, Reinaldo, a UFSC não tem nada a ver com isso”. Tem, sim. Na página oficial da universidade, as tais jornadas merecem destaque, como vocês poderão ver.

Em 28 de outubro de 2011, o colunista reproduzia carta de um estudante com a manchete de letras garrafais:

“A Universidade Federal de Santa Catarina é uma das instituições em que o delírio da extrema esquerda chegou longe. Há lá até uma facção bolivariana, acreditem!”

Em 26 de março de 2014, Reinaldo separava novamente o joio do trigo: a maconha na UFSC não era bom sinal, mas havia coisa muita pior:

De toda sorte, consomem-se drogas mais pesadas na Universidade Federal de Santa Catarina. Que eu saiba, é a única do país que conta com um núcleo bolivariano: o “Jornadas Bolivarianas”, que tem o “Instituto de Estudos Latino-Americanos”. No mês que vem, eles vão até fazer um seminário. Convenham: até que a maconha, nesse contexto, é inofensiva, né? Já o bolivarianismo, não. Este mata mesmo, como prova a Venezuela.

Na mesma linha, Felipe Moura Brasil, outro jornalista devoto do liberalismo e anti-comunista convicto repetia que

A UFSC é aquela universidade onde há “Jornadas Bolivarianas”, nas quais é ensinada uma droga muito mais pesada que a maconha, como já comentou Reinaldo Azevedo. La se reclama das balas de borracha da política contra aqueles que infringem a lei, enquanto se faz propaganda da ditadura assassina que manda chumbo grosso em manifestantes que exigem democracia.

O cerco ao IELA-UFSC permaneceu por anos como pauta permanente na principal revista do jornalismo brasileiro com óbvia repercussão em dezenas de blogs, comentaristas de rádio e TV, com direito a discursos parlamentares pelo país afora. Até mesmo no episódio em que a polícia buscava consumidores ou supostos traficantes na UFSC, o problema de fundo deveria ser o... IELA

Após a “batalha do bosque” ocorrida em 25 de março de 2014 no CFH – recebi a visita de uma jovem jornalista da afamada revista semanal (porta voz mais importante da direita) pronta para me espetar com perguntas previamente elaboradas em conjunto com seu editor e o núcleo duro da publicação. O alvo era claro: o “caos” na UFSC tinha certamente um mentor intelectual, alguém por trás dos panos com astúcia e financiamento externo capaz de conspirar contra a paz de nossas inocentes universidades. A aprendiz de jornalista buscava provas porque já tinha firmes convicções anti-bolivarianas.

A campanha da Revista Veja contra o IELA gerou repúdio irrestrito entre nós ao ponto de todos seus membros recomendarem não receber a jornalista com o “sólido argumento” de que aqui, na UFSC, somente o diretor do CTC teria concedido a entrevista; ao contrário das previsões sombrias, a entrevista foi ótima e lamento não ter solicitado permissão para gravá-la. As perguntas concluíram abruptamente quando a repórter indagou sobre as razões das Jornadas Bolivarianas e da presença inusitada e suspeita da concepção bolivariana presente em nossa universidade, especialmente grave quando considerados os perigos decorrentes do conceito de “Pátria Grande”, que, aos seus olhos, antecipavam o fim ou a diluição de nossa integridade territorial e nosso futuro como nação. Não tive outro recurso senão ler com parcimônia e lentamente – para espanto da jovem e desavisada jornalista – o primeiro capítulo de nossa constituição, especialmente importante e claro no parágrafo único, aquele que estabelece os princípios fundamentais da Constituição de 1988

“A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

A surpresa da “foca” não poderia ter sido maior diante da inesperada revelação do conteúdo bolivariano da Constituição de 1988; contrariada, sem esconder a enorme decepção, ela agradeceu, encerrou melancolicamente a entrevista e saiu afirmando a publicação da matéria na nova edição. No fim de semana, num caixa de supermercado, vi a nova edição da Revista Veja; folhei ali mesmo e constatei que nada havia sido publicado. Na segunda feira, a primeira hora, liguei para a jornalista e perguntei, curioso, sobre a sorte da entrevista: “professor, sabe como é, a situação no país é muito volátil e tudo é muito rápido... a agenda mudou, emergiram outras urgências e o editor decidiu se dedicar a outro tema”. Claro, “entendo perfeitamente”, respondi, quase as gargalhadas. Um foca é um foca! Um foca servil será sempre um jornalista servil.

No IELA, desde sempre nos orientamos pelo jargão popular segundo o qual “bom cabrito não berra” e, portanto, jamais denunciamos a campanha midiática contra o bolivarianismo do Instituto. Ao contrário, a cada peça publicitária contra o esforço intelectual produzido aqui, simplesmente dobrávamos a aposta. Um personagem de Cervantes tão ignorado quanto incompreendido na ciência política, orientava nossos passos: se os cães ladram, é porque a caravana passa.

A consciência ingênua que informa a esquerda liberal cuja maior expressão é indiscutivelmente Lula, somente percebeu a consistência ideológica da campanha da direita quando, numa disputa presidencial, a direita ultraliberal indicou o futuro venezuelano como a ante-sala do caos definitivo do país, além de exemplo da irracionalidade humana da qual todo eleitor supostamente deveria fugir. O brado da direita era claro: “O Brasil não será uma Venezuela”! A despeito da agressividade, a campanha dirigida contra nós do IELA não sensibilizou ninguém; entretanto, mais tarde, a esquerda liberal percebeu o problema a partir do viés eleitoral porque na prática, é cativa da concepção parlamentar de política; ou seja, o que não tem expressão eleitoral, não existe! Na eleição presidencial de 2014 a “ameaça bolivariana” era ingrediente decisivo na propaganda da direita contra a esquerda liberal ao apontar a Venezuela como expressão de nosso futuro e inevitável fracasso, caso Haddad vencesse a disputa presidencial.

O leitor sem memória dirá: “Reinaldo Azevedo, escreveu isso”? Sim, o jornalista agora dedicado à apologia da esquerda liberal contra a ameaça bolsonarista era um dedicado servidor da ideologia anti-bolivariana! Ele mesmo!! Ontem o rapaz estava dedicado à luta contra a esquerda radical e hoje, convertido, é devoto aprendiz da esquerda liberal contra o “neofascismo”. “Rei”, como é tratado pelos íntimos, nunca brinca em serviço. Naquele tempo, a revista Veja vendia nada menos que 1 milhão de exemplares semanais e turbinava também a versão eletrônica. A linha editorial era anticomunista, mas o foco era mesmo o sistemático ataque aos bolivarianos. Enquanto a direita liberal considerava o bolivarianismo um tumor mais maligno e agressivo que o comunismo, a esquerda liberal dava de ombros, afinal, tal como expressou o ex-chanceler mexicano e acadêmico Jorge Castañeda instalado confortavelmente na Princeton University, Lula em seus dois mandatos matinha saudável distância de Hugo Chávez, a representação mais fiel da “esquerda irracional”.

A despeito de tropeços, a campanha ideológica da direita seguiu seu ritmo normal mas ganhou contornos mais graves aqui na UFSC. Nas edições das Jornadas Bolivarianas de 2015, 2016 e 2017 a direita liberal não vacilou em intervir diretamente em nossos eventos. Nas três edições – uma realizada no auditório do CSE e as demais na reitoria – a direita ultraliberal invadiu nossos eventos em protesto contra a existência do IELA e a presença de convidados comprometidos com “terrorismo” e “assassinatos em massa” em seus países, especialmente na Venezuela. Em uma das invasões, a “terrorista” em questão era uma perigosa ex-ministra da educação da Venezuela responsável – segundo a UNESCO – de erradicar o analfabetismo no país de Bolívar. Os atos da direita liberal eram devidamente filmados por seus militantes – entre os quais duas estudantes de pós-graduação do curso de Direito – e poucos minutos depois se proliferavam nas redes digitais na conhecida operação inaugurada por Edward Bernays em 1933 destinada a organizar o caos.

Nos atos da direita liberal contra o IELA não faltavam elogios a todos nós e, especialmente salientes, era o adjetivo de... “genocidas”. A divulgação das imagens obedecia à lógica do “cancelamento”, mais tarde utilizada em larga medida pela esquerda liberal identitária. A ação da direita não era episódica; ao contrário, foi cumulativa e, portanto, sistemática. A interrupção da prática ocorreu quando de maneira preventiva reuni-me com o reitor às vésperas das Jornadas em 2018 advertindo pessoalmente que se os liberais de direita invadissem novamente nosso evento – posto que a reitoria após reiterados pedidos respondia afirmando seu zelo apenas pelo patrimônio material – nós mesmos cuidaríamos da segurança do evento à maneira bolivariana. Foi o suficiente para conquistar a paz.

No entanto, a despeito de nossa firme disposição, a verdade é que a pressão da direita liberal contra os bolivarianos e seu “estranho” Instituto diminuiu também por razões político-ideológicas. A ofensiva ultraliberal arrefeceu aqui na UFSC por causa elementar: é sempre mais fácil adorar Von Mises e Hayeck em abstrato do que justificá-los a luz da ação de Michel Temer, Henrique Meireles e Pedro Parente. Da mesma forma, é melhor indicar o paraíso liberal no livro-texto dos teólogos do que sustentar as “virtudes” de um governo ultraliberal de Bolsonaro e Mourão. O liberalismo tem certo poder de sedução quando discutido em abstrato... O aprofundamento da linha liberal a partir do governo Temer foi gradualmente tirando o encanto do apelo ideológico do liberalismo.

Não obstante, a campanha contra as universidades públicas seguiu seu curso normal e creio que nem mesmo o suicídio de Cao ocorrido naquele triste 2 outubro de 2017 logrou estancar a ofensiva burguesa. O governo do protofascista Bolsonaro tentou o “Future-se” mas, sem recursos para cooptar uma parte dos universitários, assistiu impotente à derrota do projeto pela força combinada do protesto estudantil, do rechaço da burocracia universitária e de parte importante de professores e técnicos. Assim, durante seu mandato atuou na regra básica: congelar e contingenciar recursos orçamentários. De resto, limitou-se a recusar o primeiro da lista nas eleições para reitor e nomear, aqui e ali, reitores de sua conveniência.

A universidade, ao contrário do que supõe a consciência ingênua, encontra-se em situação difícil. O fracasso completo do projeto da “universidade inclusiva” (Haddad e Janine Ribeiro) e a impossibilidade real cada dia mais evidente de avançar para um novo impulso industrializante, redefiniu drasticamente a função social da universidade no terreno da ciência e da tecnologia. O academicismo dominante no seu interior opera fortalecendo a consciência ingênua e paralisando a necessária transição para a consciência crítica; por isso, o academicismo representa tão somente uma espécie de autolegitimação de nossa existência sem validação social. É verdade que em algumas áreas existem projetos vinculados às empresas (estatais e multinacionais) além de extensões realizadas junto aos chamados “movimento sociais”. A despeito de eventuais méritos, semelhantes iniciativas são completamente insuficientes para justificar a existência das universidades. A percepção dessa inutilidade social aparece entre nós pelo reclamo permanente contra a austeridade orçamentária particularmente aguda desde janeiro de 2015 quando Dilma – empunhando o bordão de seu segundo mandato, a “Pátria Educadora” – cortou quase 10 bilhões do orçamento na educação; após o empurrão da ex-presidente, o bonde da austeridade não parou mais. Nesse ano, a “reconstituição do orçamento” realizado pelo governo é efetivamente simbólica. Em abril, Lula anunciou míseros 2,44 bilhões aos famintos reitores, montante que, quando dividido, é notoriamente incapaz de resolver a grave crise de investimento e custeio que se acumula durante décadas entre nós e, ademais, totalmente insuficiente diante das exigências sociais de um país dependente e subdesenvolvido com enorme dependência científica e tecnológica. Na verdade, além da propaganda oficial, as universidades seguem submetidas a mais completa austeridade. A diferença agora é que nem mesmo um modesto “protesto simbólico” há entre nós. Aos que recusam meu diagnóstico, busquem informações sobre a última “disputa” pela presidência da Andifes.  

Nessas circunstâncias – sem o projeto da universidade necessária e com financiamento escasso – podemos compreender o insistente recurso aos inimigos invisíveis como mera expressão da ideologia da esquerda liberal destinado a justificar nossa existência que, tal como afirmou Florestan Fernandes, somente pode tirar os recursos da miséria do povo. Na solidão política ou sob hegemonia do liberalismo de esquerda, o professor, aluno ou técnico, busca justificar sua existência sem conexão real com a gravíssima e histórica condição de dependência. A vitória eleitoral da esquerda liberal nas eleições presidenciais e a firme decisão do governo petucano (Lula/Alckmin) em seguir com a econômica política do rentismo agora dirigido pelo uspiano Haddad, indica que as tensões inerentes da economia e do regime político em frangalhos, tende a fomentar ações da direita também contra a existência das universidades públicas. É difícil não reconhecer que seremos um alvo fácil a despeito do otimismo interessado daqueles grupos que em nosso meio se julgam suficientemente produtivos ou úteis para escapar dos cortes e sobreviver, mesmo com o eventual fim do sistema universitário atual. 

É preciso dizê-lo de maneira clara: não temos fascismo no Brasil! O grau de liberdade que de fato desfrutamos é imenso a despeito da renúncia voluntária à ação política de natureza crítica. Nossos sindicatos não estão sob intervenção; realizam congressos e deflagram greves. Os partidos de esquerda não estão proscritos: lançam candidatos à presidência e elegem deputados à luz do dia. As editoras não são empasteladas, estão todas abertas e os jornais das organizações de esquerda são regularmente publicados. A liberdade para movimentos sociais é igualmente ampla nos limites do direito burguês. A corte suprema funciona como sempre funcionou, tal como o congresso nacional. A imprensa burguesa-livre pode ser acessada sob a proteção da livre escolha. Enfim, todos os cânones do liberalismo são respeitados pela classe dominante a despeito dos conflitos com o governo do protofascista Bolsonaro. Qual a razão então para a invocação do fantasma do fascismo? Ora, ocorre que a evocação fantasmagórica do fascismo é um instrumento valioso para justificar a paralisia política e a submissão intelectual e política ao governo petucano diante das classes dominantes. É uma paralisia intelectual profunda, jamais vista em nosso país, inexistente durante a ditadura! É também uma covardia político-intelectual sem precedentes em nossa história e, ademais, um cimento seguro para que a classe dominante possa – quando e se necessário – lançar mão de uma modalidade qualquer de terrorismo de Estado para assegurar seus privilégios de classe e seu domínio político completo sem oposição ou resistência necessária. É uma servidão voluntária fora do contexto medieval do século XVI!!!

A despeito da derrota eleitoral da direita liberal, o inimigo aparente segue aqui distribuindo as cartas comodamente porque é importante para o sustento da esquerda liberal limitada à enfadonha repetição da digestão moral da pobreza no terceiro mandato de Lula sob a “novidade” de sua versão petucana Lula/Alckmin.

Portanto, o miserável artifício do inimigo aparente cumpre uma função ideológica para o liberalismo de esquerda e o apoio a um governo que nos assuntos fundamentais do Estado, da economia, da consciência de classe e da disputa cultural, se comporta como se estivéssemos condenados a viver na margem, figurando tão somente como o testemunho impotente sob a bandeira do pluralismo.

Eis a razão pela qual a defesa das ações afirmativas opera objetivamente como renúncia à busca do acesso universal à universidade, ou seja,  o fim do vestibular; o “combate” às pichações contra o “fascismo” é útil para justificar a renúncia real da disputa ideológica a partir de interesses de classe; a defesa das políticas de permanência ignora o desespero originado no desemprego elevado e nos baixíssimos salários impostos a massa dos trabalhadores,  nossos potenciais alunos; da mesma forma, a defesa abstrata da universidade se cala diante da grave evasão escolar cuja origem é atribuída ao mundo pós pandêmico e às “tendências mundiais”; o elogio ao reajuste das bolsas de pós-graduação ignora a maior crise de legitimidade e da quase nula função social da universidade nas condições do capitalismo dependente rentístico. A despeito de suas limitações, essa linha orientada pelo menor esforço seguirá existindo porque é peça fundamental no sustento do atual governo e jamais o caminho para superar nossas graves limitações e impasses. Portanto, não estamos diante de políticas transitórias, necessárias para a conquista de outra universidade – ilustrada, com força científica, atenta à realidade brasileira e aos ares do mundo – mas tão somente de políticas ùteis à defesa eleitoral do governo petucano.

Ademais, constitui grave erro afirmar os limites político-ideológicos dominantes a partir do surrado argumento da “adversa correlação de forças” quando temos combates urgentes ao alcance de nossas mãos! Entretanto, enquanto o inimigo aparente comandar cada passo, cada minuto da existência da maioria dos professores, alunos e técnicos, nada será possível até que os fatos ou as tragédias (como o suicídio de Cancelier, o nosso Cao) nos atropelem novamente. Não seria exagero prever que, diante da eventual emergência do inimigo real – resultado necessário da ofensiva político-ideológica da classe dominante contra todos nós – o grau de resistência seria nulo. Afinal, o progressismo que informa a esquerda liberal já teria sido domesticado em plena liberdade para a mais completa servidão como destino.

Revisão: Junia Zaidan

 



[i] Professor do departamento de economia e relações internacionais da UFSC e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA-UFSC)

terça-feira, 25 de julho de 2023

Como nossos pais?

As lágrimas de Lula brotaram ao som de Como nossos pais na cerimonia de posse da nova diretoria do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo. Ao final da canção, diante da catarse quase coletiva dos presentes, Maria Rita - a filha de Elis Regina - também aos prantos, é abraçada pelo presidente da república em longo e carinhoso consolo. As lágrimas, no entanto, não se confundem pois pertencem a tempos e razões muito distintas.

Nada no mundo da política ocorre por acaso.  

A presença da cantora Maria Rita no evento coincide com a campanha publicitária da Volkswagen a propósito dos 70 anos da multinacional alemã no Brasil num momento em que a submissão do trabalho ao capital é completa tanto no sindicato quanto no governo. O sindicalismo outrora classista e combativo não mais existe e o governo professa enorme fé na necessidade de reconciliação nacional como via para superar a crise da republica burguesa. A conciliação é tradição política cara a burguesia e, como demonstra a história, sempre trouxe enormes prejuízos para os trabalhadores. 

Na propaganda televisiva da multinacional alemã na qual Maria Rita repete a preferência da mãe exibindo o novo modelo, as eventuais brigais de pais e filhos - com a correspondente culpa que ambos possam carregar - desaparecem no embalo da canção do sobralense Belchior: "minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos país". A nova versão da antiga Kombi une passado e presente numa trama articulada pela multinacional destinada a ocultar ou esquecer os pontos sensíveis do drama nacional em curso.

Ao contrário da década de setenta e oitenta do século passado, o cenário nacional é sombrio para os trabalhadores. Há um mês a Volkswagen anunciou que vai paralisar três fábricas pelos próximos três meses. A decisão é uma bofetada na cara do governo que criou minúsculo programa de estímulo ao consumo de carros populares no suposto que as multinacionais manteriam o emprego e, talvez, ampliassem a produção. Entretanto a economia política burguesa possui leis próprias e não respeita os sentimentos dos trabalhadores, as saudades dos velhos e bons tempos e, menos ainda, as intenções filantrópicas governamentais. 

Em todo caso, no limite, sempre quando emparedada, uma empresa pode assumir culpas e sentar na mesa dos réus. É o que ocorreu em setembro de 2020 após intensas denuncias de organizações de direitos humanos e até mesmo da imprensa burguesa, quando a filial da multi no Brasil fechou um acordo com o Miinistério Público Federal (e de São Paulo) destinado a promover cínica reparação em função de sua participação direta na delação, perseguição, prisão e tortura de trabalhadores durante a ditadura militar. O acordo judicial ocorreu no ano em que a receita líquida da multinacional bateu R$ 22 bilhões de reais; portanto, os míseros R$ 36 milhões de reais destinado às vítimas da perseguição empresarial contra os trabalhadores mais ativos politicamente corresponde a uma gota no oceano.

Na Alemanha, em 1998, a Volks - uma empresa fundada em 1938 durante o III Reich de Hitler - reconheceu "as responsabilidades históricas e morais derivadas do uso de mão-de-obra escrava durante a Segunda Guerra Mundial" e, em consequência, aceitou a criação de um fundo destinado a reparações. As cifras igualmente modestas turbinaram as demandas nos tribunais por parte de associações de judeus e ao longo das últimas décadas os desembolsos são mais ou menos constantes, mas intensa é a resistência da empresa em reconhecer seus crimes. 

A canção de Belchior, apareceu em 1976 em pleno governo do general Geisel, quando o país vivia o fim do "milagre brasileiro" cujo epicentro era a indústria automobilística paulista. O tradicional orgulho burguês da industrialização apenas começava a sentir o amplo protesto operário contra a ditadura. A greve dirigida por José Ibrahim em Osasco naquele duríssimo 1968 já anunciava de certa maneira o calor dos novos tempos. A verdade é que a crise da ditadura de classe inaugurada em 1964 contra o nacionalismo reformista de João Goulart, começava a ruir lenta e inexoravelmente. Lula, o personagem central na posse da diretoria do sindicato realizada ontem, apareceria somente muito mais tarde quando Zé Ibraim, o líder operário certamente mais importante e esquecido daquele período, amargava longo exílio, após prisão, tortura e posterior troca permitido pelo sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick realizado em 1969. O exílio de Ibrahim durou 10 longos anos.

Longe do conflito de classes, Belchior compôs um lamento de sucesso imediato na voz de Elis e o disco caiu nas graças da juventude da classe média cada dia mais indisposta contra o regime militar. O sucesso, sabemos, raramente vai acompanhado da crítica. De minha parte sempre mantive certo incômodo com a canção porque ela tem, de fato, uma ambiguidade incorrigível, além de enorme dose de conformismo. No fundo, é uma canção para os derrotados sem perspectiva alguma de futuro, exceto o apelo genérico, ingênuo e indeterminado ao novo que "sempre vem" como se pudesse ser, necessariamente, bom. Naquela época, diante do sucesso de Belchior, nunca deixei de fazer meus reparos à música a despeito do gosto de amigos queridos. 

Muito tempo depois do êxito do álbum Falso Brilhante de Elis, convidei a sandinista Monica Baltodano para um seminário da UFSC. Eu conheci Monica em Manágua em 1990 e, desde então, mantivemos apreço mútuo e correspondência sempre que possível. Ela era deputada após uma década no comando da luta armada vitoriosa em julho de 1979 contra a ditadura de Anastásio Somoza, uma peça decisiva da contrarrevolução centro-americana apoiada fortemente por republicanos e democratas desde os Estados Unidos. Mais tarde, após a derrota da ditadura e a fuga da ditador - ele seria executado em Assunção, Paraguai em 1980 - Monica foi ministra do governo de Daniel Ortega e mesmo depois, na condição de deputada, lentamente se afastou do sandinismo para manter suas convicções! Hoje vive exilada na Costa Rica, com seus parcos bens confiscados pelo governo atual e sem direito a cidadania nicaraguense. Há pouco nos encontramos em Porto Alegre onde recordamos com alegrias e preocupações a situação latino-americana. 

No seminário de Floripa realizado provavelmente em 2013, após as conferências, ao entrar num restaurante ao som de Belchior, comuniquei a Monica que a canção no ar era uma espécie de símbolo de nosso tempo no Brasil. Ela imediatamente pediu a tradução de Como nossos pais e, após breve pausa, anunciou a sentença: "é uma música reacionária! Eu não vivo como meus pais! Fizemos uma revolução social e nada tenho com a história deles". Os amigos na mesa exibiram um riso amarelo e seguimos na conversa como se nada tivesse acontecido; entretanto, o contraste era muito profundo para evitar reflexão sobre um simples episódio capaz de expressar contradições históricas ainda presentes entre nós. O entusiasmo do público ao entoar ontem a antiga canção no sindicato em que Lula começou sua carreira política, não deixa dúvidas sobre a necessidade da reflexão crítica.

Ao ver o vídeo da cerimonia de posse da nova diretoria dos metalúrgicos, ouvir o surrado e alienante discurso de Lula, a apresentação de Maria Rita e a enorme difusão nas redes digitais das lágrimas derramadas ao som da canção de Belchior, pensei uma vez mais na triste situação em que nos encontramos. De um lado, a apologia petista do governo conservador petucano Lula/Alckmin expressa o beco sem saída da esquerda liberal, impotente, sem iniciativa e sem horizonte utópico. O futuro apresentado novamente por Lula aos trabalhadores simula um paraíso tipo classe média regado a picanha, cerveja, viagem de avião, um carro popular na garagem e, se possível, serviços de saúde e educação aceitáveis. Na periferia capitalista as promessas presidenciais são irrealizáveis porque também nos países centrais está em crise. Ademais, a surrada promessa do presidente choca até mesmo com as sombrias declarações da ministra Simone Tebet segundo as quais a austeridade orçamentária será a regra para 2024 exigindo cortes adicionais. Ora, de um lado um orçamento curtíssimo e no chão da fábrica, há muito as notícias não são nada promissoras. Nada poderia ser pior...

Eu não sei se Belchior leu Pasolini para compor sua conhecida canção, mas o fato é que um ano antes, nos primeiros dias 1975, Pier Paolo escreveu "os jovens infelizes", um belo e fecundo artigo ajustando contas com a esquerda em geral e com a juventude em especial, cativa do consumo e sempre disposta a responsabilizar os pais por fracassos ou omissões próprias. Pasolini, mesmo remando contra a maré não se inibiu e antecipou de maneira implacável uma advertência útil para os dias que correm: "é melhor ser inimigo do povo do que ser inimigo da verdade". Mandou bala contra a juventude bocó e boçal, contra os medíocres e os cultos, contra os iniciados e aqueles que renunciaram. Enfim, contra todos. 

No evento sindical, participaram várias gerações de pais e filhos. No entanto, antes do conflito geracional, todos pareciam estar em comunhão nas lágrimas e na canção. Assim, destituídos de um horizonte utópico, armados apenas com a renuncia comum ao combate contra o sistema capitalista e unidos tão somente na condição de impugnadores morais do sistema, destinados a repetir enfadonhamente os pais com a roupagem do novo modelo, esquecem que sequer podem comprar um imóvel para viver longe da saia da mãe ou da aba do pai. Nem mesmo a esperança de comprar um carro popular podem alimentar. O lamento coletivo entoado a pleno pulmões, confortou a todos e produziu uma espécie de conciliação entre gerações até ontem em conflito azeitado por alguma culpa comum, mas sempre atribuída ao outro. Essa paz entre as gerações - ao contrário do conflito que Belchior denuncia ao escrever que "quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude tá em casa guardado por deus contando o vil metal" - somente é possível porque a antiga culpa, a despeito de enormes resistências ainda presentes, não dirige mais o destino de jovens e velhos, ambos gemendo na vala comum do sofrimento humano sempre mais grave na periferia capitalista.

A celebração do fim da utopia não pode ser exibida com cores cinzas, razão pela qual deve luzir com o poder de sedução de um falso brilhante, regado a lágrimas arrancadas de um misto de frustração e impotência. De minha parte, confesso sob circunstâncias inesperadas, que a antiga e aclamada composição rendeu homenagem a Belchior; a canção se tornou, de fato, não mais expressão da angustia pessoal do autor naqueles anos de chumbo e figura agora como verdadeiro hino da esquerda liberal. A vida, por enquanto, ao fim e ao cabo, concedeu razão a Belchior.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Fim de linha?

Há algum tempo não leio ou escuto as figuras mais festejadas pela esquerda liberal, especialmente aquelas dedicadas a captura de "likes" ou "visualizações". Em contrapartida - desde sempre - leio os autores liberais (de direita ou progressistas); os primeiros recebem atenção porque na maioria dos casos exibem de maneira clara seus objetivos e, os segundos, porque confessam abertamente o horizonte limitado ao qual estaríamos condenados como se a prudência e as limitações conjunturais fossem sentenças históricas ou virtudes eternas. Em ambos - com raras exceções - faço na prática um estudo sobre ideologia. É claro que existem autores liberais que demandam certo esforço e disciplina intelectual e com os quais podemos aprender algo ou elucidar melhor o foco da crítica; Marx e Engels sabiam ler sujeitos semelhantes, sábios na seleção deles. Entretanto, de maneira geral, a leitura dos liberais de moda é encontro marcado com ladainha conhecida, uma repetição enfadonha. Ocorre que na esquerda liberal a repetição enfadonha é também constante e, não obstante, mais nociva porquê reforça a dominação burguesa quando deveria atuar em sentido contrário. O mundo para a esquerda liberal é o mundo que sofremos e, se possível, quando muito, seu esforço esta destinado a "conquistar" algumas doses de "justiça social" no inferno. Nada mais. O ditado popular ensina que não podemos "tirar leite de pedras", razão pela qual não espero da esquerda liberal a conversão revolucionária. De resto, completamente dominada pelo cretinismo parlamentar, a esquerda liberal seguirá seu curso até o cadafalso. 

Minha geração teve formação atravessada pela polêmica de caráter político e teórico; a despeito das limitações inerentes a cada época, estávamos acompanhados de exigências intelectuais e políticas importantes. Contudo, a esquerda na qual inscrevi minha juventude padecia considerável isolamento social, resultado necessário da derrota do nacional reformismo encabeçado por Jango no golpe de 1964 e o fim tão trágico quanto heroico da luta armada registrada na primeira metade dos anos setenta. Ainda assim, o socialismo e a Revolução Brasileira estavam sempre no horizonte e, a despeito das inúmeras lutas e movimentos crescentes no final da ditadura, não havia dispersão ideológica e fragmentação política. Enfim, a disputa pelo poder - não o governo! - era o objetivo final. Ainda sobre os escombros da ditadura e sofrendo as consequências da "transição lenta gradual e segura" hegemonizada pela burguesia e a Embaixada de Washington, postulávamos a derrubada violenta do regime e não havia concessão alguma à classe dominante: nossa impotência não resultava em elogio à democracia, regime sempre acompanhado do adjetivo "burguesa". Naquela solidão havia uma boa pitada de lucidez: éramos órfãos da Revolução, é certo, mas carregávamos a certeza de jamais pedir inscrição na "sociedade respeitável". 

O contraste com a situação atual é evidente. A esquerda liberal exibe suas misérias e não vacila em apresentar limitações outrora consideradas inaceitáveis como se fossem, de fato, virtudes indispensáveis e lucidez elementar. A cada nova cartada, apresentada como se fosse um golpe de mestre, a burguesia aperta um pouco mais a dominação sobre os trabalhadores e a juventude. O regime apodrece aos olhos do povo e a esquerda liberal busca no seu interior a afirmação da conduta "responsável". O agir "responsável" praticado pela esquerda liberal encurta a cada dia o salão onde alegremente dança conforme a música da classe dominante. 

Na atualidade, a pobreza no terreno da disputa teórica e da análise política alcançou níveis incompatíveis com o apreço pela memória. Não há arrogância na constatação pois todas as gerações carregam limitações e, obviamente, reconheço que não chegaríamos a situação atual sem as opções tomadas ao longo de nossa curta história. Mas há um artigo em falta entre nós: a exigência teórica e política. Na prática, a esquerda liberal e seus "marxistas acadêmicos" não fazem menos do que justificar a impotência do governo petucano (Lula/Alckmin) com argumentos inacreditáveis: o elogio ao carro popular como esforço industrializante, as migalhas orçamentárias como expressão máxima de política social, o compromisso com reacionários e ladrões como virtude republicana, a submissão à Washington como "agenda mundial em defesa do meio ambiente", a defesa da propriedade como elogio ao Estado de direito, o pragmatismo rasteiro e cretino como lucidez política, a fofoca no lugar da polêmica e a calúnia midiática como expressão da verdade. O rosário é interminável e você pode livremente aumentar a lista...

Fim de linha? Nada disso! A crise do regime democrático burguês também se expressa na miséria teórica e política da esquerda liberal e não somente na truculência e despotismo da classe dominante, afinal, uma burguesia culta e educada não passa de ideologia barata destinada a enganar trouxa. De resto, uma esquerda liberal atuando em defesa da ordem em crise não faz menos que cavar seu próprio túmulo. A crise brasileira segue seu curso sob domínio da coesão burguesa alimentando muitas possibilidades entre as duas mais visíveis: a frágil e inútil preservação do regime atual ou um sistema político de corte policial com tintura constitucional e boa dose de violência contra os trabalhadores. 

O que fazer? A política orientada pelo tradicional "não há nada a fazer" ou o descarado "não se pode fazer mais do que isso" é uma grotesca negação das contradições e antagonismos que movem a luta de classes. É também ignorância e resignação, obviamente. A História ensina que mesmo nas condições mais adversas sempre há algo a fazer para enfrentar a ordem dominante, algo muito distinto de praticar a cínica "redução de danos ou fazer o mínimo, o aceitável ou o permitido pela burguesia. Em todo ato ou movimento a questão central sempre será a ação destinada ao ataque à classe dominante e não apenas suas formas mais grotescas e ofensivas. Nesse contexto, até mesmo recordar o sentido da política passa a ser algo necessário e util.  

sábado, 3 de junho de 2023

o diploma no Bolsa Família


A informação é oficial: segundo o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, no cadastro do Programa Bolsa Família estão inscritos mais de 2 milhões e oitocentos mil brasileiros com diploma de ensino superior, muitos deles com pós-graduação, a despeito da ideologia liberal, que afirmou a relação positiva entre o nível de renda e a formação educacional. A quinquilharia ideológica rendeu até prêmio Nobel para Gary Becker e Teodoro Schultz, ambos “teorizando” na linha de reforço do liberalismo. Entretanto, a realidade é obstinada e não cede facilmente aos ideólogos, mesmo aqueles agraciados e festejados na academia e na imprensa burguesa.

Os partidos da esquerda liberal, os sindicatos vinculados às universidades, os defensores das políticas de inclusão, os acadêmicos preocupados com a sorte da universidade pública desprezaram completamente a informação ministerial. De certa forma, é tão compreensível quanto revelador: ver universitários na vala comum do sofrimento humano parece completamente absurdo ao senso comum. No Bolsa Família – em maio - estavam inscritos 21,1 milhões de brasileiros. O programa já foi tomado como a medida social mais importante aplicada na periferia capitalista, colecionando elogios que vão do Banco Mundial aos padres católicos da Trindade, em Florianópolis.

Nos governos de Lula e Dilma, o Bolsa Família foi considerado pela consciência ingênua como exemplo de ação social destinado a mitigar o sofrimento, a miséria e a exploração dos trabalhadores; no limite, foi também considerado, não sem boa dose de cinismo, como ação de combate à pobreza! Entretanto, o governo liberal e corrupto de Michel Temer não interrompeu a benesse e – pasmem! – o protofascista Bolsonaro e seu ministro ultraliberal Paulo Guedes não somente elevaram  o benefício aos R$ 600,00 atuais, como ampliaram o cadastro (entre outras intenções, para ganhar votos na última eleição de maneira ilegal). O entusiasmo político e, em consequência, a propaganda sobre a benevolência do programa cederam, mas a reflexão crítica ainda não emergiu. A caridade católica, creio, tem ampla aceitação numa sociedade com os níveis de desigualdade típicas de países periféricos e dependentes.

No Brasil, país onde a superexploração do trabalho comanda o processo de acumulação de capital, a concentração da renda é a norma e a miséria ou a “desigualdade”, sua expressão visível. A PNAD de 2022 indica que nada menos do que 73,1% da população economicamente ativa recebe entre 1 e 2 salários mínimos, míseros R$ 2.640,00 ao mês. A tragédia é ainda maior quando desagregamos um pouco mais os dados: 11,8% recebe até ½ salário mínimo (R$ 660,00) e 59,9%, até 1,5 salário mínimo!!! O Dieese informa que a diferença entre o salário mínimo nominal e o salário mínimo necessário cresceu na última década: o primeiro é de R$ 1.302,00 enquanto o segundo alcança R$ 6.676,11. Em bom português, a informação estabelece que a vida para milhões de trabalhadores é um inferno ou algo muito próximo disso.

Diante dessa estrutura salarial, nós, professores das Instituições Federais de Ensino Superior  nos encontramos no topo da terrível pirâmide, ou seja, entre os 5% que mais recebem no país. Portanto, podemos levar uma vida pequeno burguesa relativamente folgada sem contato algum com o abismo social no qual estão afundados a maioria dos trabalhadores. Não carrego culpa alguma por estar aqui, mas tampouco sou indiferente à realidade. Em consequência, tenho plena consciência sobre a origem de certo orgulho exibido por muitos colegas da condição de professor universitário e não  ignoro as razões pelas quais se defendem, afirmando a ideologia meritocrática. A constatação não tem carga ou condenação moral alguma, pois aprendi com Marx que a moral é a impotência em ação. Na verdade, pretendo apenas chamar a atenção para o caráter social de nossa posição numa sociedade de classes situada num país dependente e subdesenvolvido, nossa mais importante característica.

As universidades são instituições de Estado e, desde Darcy Ribeiro e Álvaro Vieira Pinto, constituem valioso instrumento de desenvolvimento científico, tecnológico e cultural. Entretanto, é visível que a função social da universidade no Brasil está rebaixada a níveis críticos nunca antes observados. A política de inclusão social equivale, na prática, a certa defesa moral da universidade e – com ou sem consciência – um meio de validação social da instituição a partir de uma concepção de mobilidade social inerente à sociologia positivista. Ocorre que na sociedade de classes – especialmente num país dependente e periférico – os casos nos quais um filho da classe trabalhadora “vence” no interior da sociedade respeitável não passam de  “simbolismo” ou, nos meus termos, de uma ideologia cuja função é a validação da dominação classista. O auge dessa ideologia pôde ser observado, por exemplo, na eleição de Barak Obama para a Casa Branca, cuja receita ele aprovou nas prévias do Partido Democrata quando derrotou seu adversário identitário afro-americano com a mesma perspectiva, que expressou nas duas disputas presidenciais: o “sonho americano” da mobilidade social via valorização da classe média.

O Bolsa Família possui três objetivos estabelecidos na MP 1.164:  o combate à fome, a proteção social das famílias em situação de pobreza e “a interrupção do ciclo de reprodução da pobreza entre as gerações”. Na verdade, cumpre marginalmente os dois primeiros e apenas pode anunciar a intenção no terceiro. Entretanto, em todos os casos, tangencia o grave problema da fome e nem de longe toca na reprodução da pobreza intergeracional. Uma organização criminosa como o Banco Mundial publicou no final de 2002 o relatório Poverty and shared prosperity, no qual anuncia a boa nova: um “pobre” é aquele que recebe menos de US$ 2,15 ao dia, ou seja, no câmbio de hoje, quando escrevo esse artigo, míseros R$ 10,65 diários. Você já se imaginou vivendo com semelhante “quantia” quando valida as “conquistas” dos governos da esquerda liberal em nosso país? Esse é o critério da cidadania que devemos adotar?

Ora, um trabalhador que recebe US$ 2,17 desaparece da estatística e, nesse caso, o país pode deixar serenamente o “mapa da fome”. Não é uma maravilha? A direita liberal cala sobre o assunto enquanto a esquerda liberal grita a pleno pulmões as “conquistas sociais de seus governos” que apenas logram superar a miséria e a fome a partir dos critérios estatísticos do... Banco Mundial!!!! Na prática, a esquerda liberal adota a definição de cidadania de nossos algozes e, em consequência, pratica em larga e cínica escala a digestão moral da pobreza. Há um perverso pressuposto oculto na operação ideológica: é impossível mudar radicalmente nossa realidade! Os sabichões da esquerda liberal afirmam que o tempo das revoluções sociais desapareceu para sempre e não resta às pessoas racionais e realistas senão a administração democrática da pobreza nos marcos da ordem burguesa. O subdesenvolvimento – uma formação social monstruosa, segundo o pensamento crítico das décadas de sessenta e setenta do século passado – é agora considerado uma realidade intransponível. Ajoelhe: o obscuro Francis Fukuyama venceu nas fileiras da outrora esquerda radical! 

A informação do ministro de Desenvolvimento e Assistência Social não despertou atenção de ninguém. Entretanto, ela exibe o limite objetivo da política social até agora praticada como se fosse, de fato, virtude republicana. Ademais, indica que o diploma universitário não é via de mobilidade social nas sociedades latino-americanas, como pretende o liberalismo em qualquer versão; de resto, erodiram-se o discurso e a prática das políticas de inclusão social praticadas pela esquerda liberal desde uma perspectiva moralista, rasteira e completamente funcional à  ordem burguesa. Não me desespero: a despeito do otimismo cínico dominante, pode ser que o tempo da queda das ilusões tenha chegado e, finalmente, possa abrir as portas da consciência crítica.

Revisão Junia Zaidan

domingo, 21 de maio de 2023

A solidão de Ciro Gomes e o trabalhismo

 

O resultado eleitoral da última disputa presidencial foi um golpe duro para as pretensões políticas de Ciro Gomes. É inegável seu retrocesso quando comparado com o desempenho no primeiro turno de 2018, razão pela qual, após a vitória de Lula, o candidato do PDT foi para um curto retiro reflexivo. A volta recente num debate realizado em Portugal despertou antigas ilusões e criou novas expectativas que se defrontam com a dura realidade brasileira e a crise do sistema político dominante. 

Há um contraste evidente que passa sem registro no raso debate nacional: enquanto Ciro amarga sua solidão política e no ensaio de retorno à disputa eleitoral renova antigas críticas a Lula e ao PT, o partido ao qual está filiado (PDT) participa orgulhosamente do governo Lula na presença do ministro da previdência social Carlos Lupi, também presidente da sigla.

No debate em Lisboa, Ciro afirmou categoricamente que não representa mais uma corrente de opinião ("eu não represento uma corrente de opinião mais"). É um claro recado para os governistas do PDT que constituem a maioria dos diretórios e acumulam pequenas ambições eleitorais espalhados por todo o território nacional. É também, provavelmente, o anúncio de que ele está livre para buscar outro partido ou atuar na cena política como livre pensador. É uma ruptura sutil, mas é, antes de mais nada, uma ruptura. 

O PDT é um partido que sofreu grave regressão programática na qual Ciro cumpriu papel relevante. A atualização da doutrina trabalhista explícita no seu último livro e campanha, foi orientada, segundo suas próprias palavras, pela imaginação do professor de Harvard, Roberto Mangabeira Unger. Na prática, aquela operação representou uma ruptura radical com o trabalhismo de Vargas, Jango e Brizola e, embora o diagnóstico apresentado por ele tenha apenas roçado problemas graves da economia e do Estado, não foi suficiente para mobilizar votos nem tampouco capaz de anunciar um novo horizonte para a antiga tradição trabalhista. Na memória recente, não é exagero afirmar que Ciro apenas simula as críticas de Brizola e a saudável desconfiança do gaúcho em relação ao sistema político dominante em crise. Mas, ainda assim, assinala e condena mais os sintomas da doença no lugar de oferecer uma saída para os crescentes impasses da luta de classes. 

Ninguém deveria se espantar com o fracasso político de Ciro na disputa presidencial. O pífio resultado eleitoral não deriva da orientação de sua campanha na qual tanto Lula quanto Bolsonaro eram alvos igualmente importantes, ainda que de sinais contrários. A política é conflito e, nas condições nacionais, conflito de alta intensidade; portanto, a linha de sua campanha era correta embora com elevada carga de superficialidade. É verdade elementar - ainda que a esquerda liberal negue com os dois pés juntos, as mãos e olhar elevados ao céu - que Bolsonaro e Lula são os dois lados da mesma moeda. Até mesmo os mais ingênuos e devotos lulistas já afirmam à boca pequena que a continuidade da economia política do rentismo conduzida por Lula pode trazer Bolsonaro - ou outro representante da direita - de volta à cena nas eleições de 2026... Ademais, ainda que de maneira dissimulada, já aparecem figuras indicando que Bolsonaro não emergiu na cena política como um raio em céu azul, mas foi resultado necessário das transformações operadas em longos 14 anos de petismo... É pouco, mas já é uma demonstração de que as exigências da realidade estão corroendo o oportunismo político.   

Portanto, a linha supostamente "raivosa" de Ciro não foi responsável pelo desastroso resultado eleitoral. Ocorre que tanto Ciro quanto o PDT fomentaram por mais de uma década o polo petista do sistema petucano (oposição entre petistas e tucanos). A ruptura de Ciro foi tardia e era incapaz de produzir um espaço à esquerda quando o petucanismo esgotou suas energias mobilizadoras com a ascensão do governo Temer e a posterior aparição de Bolsonaro. Ademais, não se deve esquecer que Ciro permaneceu fiel ao bloco da esquerda liberal encabeçada por Lula e Dilma até a destituição desta última em agosto de 2016. De resto, no segundo turno das eleições entre Haddad e Bolsonaro, Ciro cravou no petista sem vacilação alguma a despeito das calúnias e mentiras produzidas pela esquerda liberal contra sua reputação. Os movimentos eleitorais relativamente bruscos não são capazes de produzir alteração na correlação de forças entre as classes sociais, especialmente quando todos os partidos se filiam à economia política do rentismo e também por isso não desfrutam da confiança do povo. Portanto, o caminho eleitoral de Ciro estava fechado antes mesmo de a disputa começar, não obstante erros reais ou imaginários na condução da campanha e nos alvos escolhidos.

Os obstáculos que Ciro amargou ontem quando pretendia representar o trabalhismo são exatamente os mesmos que enfrentará a partir de hoje como livre pensador: os limites objetivos da esquerda liberal no labirinto da crise do sistema político e da emergência do capitalismo dependente rentístico. A propósito, não há uma fase neoliberal do capitalismo que, com imaginação e pragmatismo, poderia ser substituída por algo destinto que ainda atende pelo teimoso nome de "desenvolvimentismo ou neo-desenvolvimentismo". As transformações na economia mundial determinaram a atual posição do país na divisão internacional do trabalho reduzida à condição de mero exportador de produtos agrícolas e minerais cuja origem foi a hegemonia do capital financeiro na implantação do Plano Real em junho de 1994.

Nesse contexto, não basta a crítica aos "juros escorchantes" denunciados por Antonio, o abnegado comerciante diante de Shilock, o judeu agiota, insensível e avarento criado por Sheakespeare no século XVI. No desenvolvimento capitalista rentístico, a simples denúncia dos juros funciona, na prática, como ideologia destinada a garantir a hegemonia financeira antes de criar consciência crítica para a ruptura com o "modelo neoliberal". De resto, quem senão Lula está no comando da denúncia retórica dos juros enquanto garante vida longa ao rentismo? Ciro chega tarde, uma vez mais... e terá que arar em terras que já possuem proprietário.

A presença do PDT no governo deixa Ciro na mais absoluta solidão pois as críticas apresentadas desde Lisboa não arranham a convicção do partido no sentido de romper com Lula/Alckmin, a mais perfeita tradução do petucanismo. O vice Alckmin - ministro fictício da Indústria e Comércio - é menos que uma caricatura da impotência do capital industrial paulista, o epicentro burguês do país. A tradição trabalhista está esgotada historicamente e devo reconhecer, sem conceder nobreza na escolha do PDT, que não haverá um movimento na direção de uma aliança entre capital e trabalho rumo à retomada da industrialização. O pragmatismo pedetista é, finalmente, feito do mesmo barro que o pragmatismo petista, pecedobista, psolista e outros tantos: a mera auto-reprodução parlamentar no interior de um sistema político da república burguesa apodrecida em seus cimentos. Por fim, a industrialização é caminho vetado há décadas! Morreu com Geisel e sua ditadura de classe no final do "milagre brasileiro" em 1975.

A Carta de Lisboa foi uma cartada de Leonel Brizola às vésperas de seu retorno à cena política nacional. O gaúcho amargara o exílio mais longo entre todos os políticos brasileiros: 15 anos não são 15 meses, carajo! Ademais, o estigma de radical acompanhou Briza desde sempre e foi renovado pela classe dominante quando ele pisou em solo nacional naquele final de tarde do dia 6 de setembro de 1979. Temperado pela experiência de lutas cruciais em seu tempo - da genial e heróica luta pela legalidade, o posterior flerte e renúncia da luta armada e, finalmente, o compromisso com o socialismo renovado pela adesão à Internacional Socialista -  a verdade é que Briza errou ao apoiar Lula nas disputas eleitorais e filiar a tradição trabalhista no altar do Vaticano e do Partido Democrata dos Estados Unidos que sempre orientaram as decisões de Lula e o do PT. 

No entanto, a astúcia e o talento político de Brizola não foram suficientes para enfrentar a direitização do ocidente, que liquidou o socialismo soviético, produziu a socialdemocratização dos antigos partidos comunistas no velho continente e a precoce adesão da socialdemocracia às teses liberais. Quando conquistei meu primeiro emprego após deixar os bancos escolares na UFSC em 1984 - na FESP do primeiro governo Brizola no Rio - meu mestre e amigo Ruy Mauro Marini certa vez me alertou que gostava do Brizola porque ele colocava pimenta na insossa política nacional. Não foi suficiente, sabemos. No entanto, Marini jamais aderiu ao trabalhismo, ao contrário de Vania e Theotonio, que escreveu "O caminho brasileiro ao socialismo" como livro de ingresso nas filas do Brizola. Eu recebi o livro das mãos do autor e a despeito de minha recusa às teses ali expostas, sempre reconheci a honestidade intelectual de Theo, que rompia com o núcleo duro da teoria marxista da dependência no terreno da tática e estratégia socialista... Bueno, Theo estava em Lisboa com Betinho, Moniz Bandeira, etc... 

A verdade é que o PT e Lula ocuparam o antigo espaço do trabalhismo na luta política. A trama é longa, merece reflexão mais apurada mas basta recordar que a derrota do nacional reformismo expresso na destituição de Jango pelo golpe militar de 1964, produziu efeitos de longa duração. A História é, de fato, cruel! Brizola sofreu 15 anos de exílio e, no seu retorno, encontrou uma terra difícil de arar. Os antigos líderes sindicais trabalhistas já não existiam e em seu lugar apareceu o "novo sindicalismo" apoiado pela igreja católica, a esquerda revolucionária que sobreviveu ao terror de estado e as lideranças sindicais moderadas encabeçadas por Lula e os sindicalistas combativos contra o peleguismo da estrutura sindical da ditadura. Até onde minha memória registra, o mais importante líder sindical do PDT estava no Rio, mais precisamente em Volta Redonda, no comando do poderoso sindicato dos metalúrgicos capaz de paralisar a CSN. Entretanto, a atuação de Juarez Antunes - que contava com assessores da talha de Colombo e Luiz Arnaldo Campos - foi interrompida por acidente fatal quando ele tinha apenas 55 anos... 

À luz da perspectiva histórica, a solidão de Ciro não é, portanto, um fato novo; nem por isso é menos grave. Na campanha eleitoral eu alertei "ciristas" próximos que o sobralense de adoção deveria ter atuado como uma caixa de ressonância contra a interdição da crítica produzida pela esquerda liberal, mas ele optou por um pragmatismo raso, que reduziu sua autoridade política, ainda que a vida esteja confirmando algumas de suas previsões. Na verdade, Ciro não tinha opção na disputa eleitoral anterior: deveria ter criado uma tribuna para todos os desterrados, aqueles que sofriam o exilio em seu próprio país, todos os náufragos da derrota histórica do petismo e especialmente para nós que lutávamos contra a hegemonia detestável da esquerda liberal... Entretanto, ele optou por um caminho animado por ilusões de extração eleitoral, sem jamais perceber que a república burguesa estava (e segue!) apodrecida em seus cimentos! Creio que, no essencial, Ciro repete a dose pois não há indicação na sua longa intervenção lisboeta de que pretenda romper de fato com as formas políticas e a "estratégia" da esquerda liberal que esmaga o povo sob a administração petucana. O teto de gastos que Lula validou antes de recusá-lo por completo, representa apenas mais uma demonstração do apego da esquerda liberal à ordem burguesa e a crítica a questões tão elementares não isenta ninguém de cumplicidade com o atual governo. A luta nos marcos da ordem e contra a ordem burguesa é problema ausente no seu discurso de retorno.  

A tentativa de combinar pragmatismo com utopia nunca produziu bons resultados! Na campanha, Ciro pretendeu oferecer uma alternativa racional aos extremos em disputa (Lula e Bolsonaro) omitindo que a polarização nada tinha de artificial, mas, ao contrário, era a própria manifestação eleitoral da lógica de situações extremas da qual não teremos possibilidade de sair sob a hegemonia do liberalismo de esquerda no campo popular. O fiasco da tentativa de figurar como o "espírito crítico" da esquerda liberal pode ser visto no precoce colapso do PSOL, mas também no silêncio cúmplice dos demais partidos - PDT incluído! - que calam sobre as misérias do atual governo em nome do combate ao ilusório "neofacismo".

É comovente observar a saudade juvenil que Brizola desperta na Juventude Socialista e em milhares de militantes independentes sem qualquer filiação ou mesmo fidelidade eleitoral ao PDT. O apelo ao caudilho do sul é tão expressivo, que até mesmo Lula afirma cinicamente ter "saudades do Brizola"!! Entretanto, se os trabalhistas pretendem, de fato, honrar a memória e o legado de Brizola, deveriam trilhar o caminho da recusa à hegemonia liberal da esquerda encabeçada pelo petucanismo e o governo Lula. Nesse contexto, a presença de um ministro do PDT no governo conservador de Lula/Alckmin não faz menos que eternizar a tutela petista no interior das forças que justificam sua existência na luta contra o "neofascismo". O próprio Brizola sucumbiu - por circunstâncias e constrangimentos muito mais dramáticos do que os atuais - ao figurar como vice e depois apoiar Lula nas disputas presidenciais. Mas ninguém pode esquecer que o último recado da consciência rebelde do gaúcho apareceu precisamente nas homenagens populares em seu velório no Rio: quando Lula, então presidente, apareceu para prestar a última homenagem ao caudilho do sul, recebeu uma sonora vaia nunca antes vista numa cerimônia semelhante. Naquele distante junho de 2004, o atual presidente estava acompanhado de vários ministros - Dirceu, Pallocci, Amorim - e... Ciro Gomes (ministro da Integração Nacional). A imprensa registra a força do protesto obrigando a delegação oficial a permanecer breves cinco minutos e se retirar pela porta dos fundos do Palácio Guanabara. Ao contrário dos petistas, apenas Ciro permaneceu e, de quebra, condenou o merecido e espontâneo protesto da base brizolista. 

A vitória eleitoral da chapa petucana polarizou ainda mais a situação política nacional. Não há novidade no fenômeno pois a "política de ódio" instaurada pela ofensiva burguesa não poderia ser combatida pela "política do amor" destinada a "acolher" os miseráveis e "pacificar o país". Não podemos considerar a polarização atual como um artificio que poderia ser superado por políticas públicas rebaixadas, historicamente incapazes de tocar no nervo da miséria e exploração de nosso povo; tampouco é possível alimentar ilusões sobre a capacidade de auto regeneração do sistema político da república burguesa! A vã tentativa de "pacificar" o país é apenas expressão da impotência da esquerda liberal diante da ofensiva burguesa, pois as exigências materiais, políticas e culturais da guerra de classes aberta que sofremos na atualidade é muito mais do que uma simples "fase neoliberal" do desenvolvimento capitalista do Brasil. Na verdade, é produto do desenvolvimento capitalista dependente rentístico que veio para ficar e não pode ser superado pela administração democrática da ordem burguesa. É uma encruzilhada histórica! Aqui, nesse solo incerto e exigente, necessariamente instável, poderemos,  finalmente, ver de fato a estatura dos homens que pretendem representar o povo. Afinal, o destino dos alertas e críticas realizados por Ciro na exposição de Lisboa servirão para alimentar o impotente e miserável "espírito crítico do petismo" ou reforçarão a oposição de esquerda aberta ao governo conservador de Lula e Alckmin?

Revisão: Zunia Zaidan

 

terça-feira, 21 de março de 2023

O orgulho burguês do vestibular

Para Julia e Beatriz


A ideologia meritocrática necessita do vestibular assim como a sociedade burguesa exige a meritocracia. Os melhores - somente os melhores! - devem ser respeitados em sua superioridade e, sobretudo, tomados como a medida exata num sistema baseado no suposto da concorrência entre os cidadãos portadores de direitos iguais, em que a desigualdade de classe simplesmente desaparece sem deixar vestígios. Ademais, no capitalismo, os vencedores são sempre exibidos como resultado de trabalho duro somado ao talento individual natural alimentado por virtudes familiares, além, é claro, de uma boa pitada de disciplina e foco. O conto é largo, mas a brevíssima advertência é suficiente para a reflexão acerca do vestibular.

Há alguns dias, circulando no Estreito - parte continental de Florianópolis - me deparo com a apologia burguesa da meritocracia: um colégio indica num painel gigante que entre os cinco primeiros classificados no vestibular da UFSC, três estudaram naquela instituição privada. Na página da meritória e até então desconhecida empresa educacional, descubro que o DNA de aprovação da instituição criada no distante 1963 por estudantes de medicina de Ribeirão Preto (SP), é uma tradição iniciada num despretensioso cursinho pré-vestibular desde seus primórdios gozando de ótima reputação regional. Pequenas empresas, grandes negócios, reza o bordão televisivo!  

O orgulho burguês do vestibular rende bilhões aos capitalistas num país que recusa a luta pela universidade de massas e ainda mantém 30% do nosso povo na repulsiva condição de analfabetos e analfabetos funcionais. Na Argentina e no México - ambos países subdesenvolvidos e dependentes - ninguém consegue entender e menos ainda aceitar o odioso filtro do vestibular vigente no Brasil. Entre nós, os universitários ignoram que nossos vizinhos - nem falar de Cuba! - não possuem vestibular e garantem há décadas um sistema universal de ingresso. A ignorância brasileira sobre os países latino-americanos permite que o orgulho burguês do vestibular navegue soberano entre nós. Entretanto, à ignorância nacional em relação aos países latino-americanos, é necessário agregar a indispensável dose de oportunismo político da esquerda liberal, incapaz de enfrentar o problema educacional pela raiz.

Assim, todo inicio de ano assistimos à festa dos vencedores no vestibular e `as declarações sobre as virtudes familiares correspondentes. A escola privada não perde a ocasião e manifesta orgulho desmedido consciente que tanto na política burguesa quanto no processo de acumulação, a propaganda é a alma do negócio... Em algumas universidades públicas até mesmo o reitor participa do ato em que a universidade registra o feito individual enquanto milhares de estudantes filhos da classe trabalhadora amargam mais um ano de frustração longe dos bancos escolares. 

A direita liberal exibe seu troféu 

Numa sociedade de classes - especialmente nos países dependentes e subdesenvolvidos da periferia capitalista - um médico, advogado, arquiteto ou engenheiro reúne, em princípio, as condições necessárias para a confirmação do prestígio social a partir de esforço próprio a caminho das pequenas glórias do profissional liberal sem patrão, dono de seu nariz. Nesse contexto, num mar de famintos ou desclassificados que constituem o "resto" da população, o "êxito individual" antes de ser um problema, é apenas a confirmação de nossos talentos que, noutro contexto, bem que poderiam indicar o caminho de superação de todos os males com os quais convivemos bastante bem desde sempre. 

Quem leu Marx sabe que não devemos brincar com a ideologia. É caso sério. Na sociedade burguesa, o "êxito individual" é premissa ideológica sem contestação, com aceitação quase natural. Ocorre que a medida do indivíduo sempre será social, razão pela qual as condições sociais do êxito individual são o que realmente importa e nos obriga à revisão da lógica dominante de maneira permanente. Foi Schumpeter quem produziu a apologia do "espírito animal" dos capitalistas responsável pelas inovações e conquistas científicas e tecnológicas no sistema capitalista como se fosse possível explicar o self made man sem qualquer consideração pelo "fluxo da maré que sobe" ou "baixa" obedecendo à dinâmica da expansão e das recorrentes crises do sistema. 

A despeito da abundância de exemplos e das duras lições oferecidas em cada crise, a ideologia dominante afirma sempre a responsabilidade individual tanto no êxito quanto no fracasso dos concorrentes. Assim, o afamado empresário exibido na capa da mais importante revista de negócios no ano passado como o "homem do ano" pode também figurar algum tempo depois como execrável sujeito responsável por fraudes contábeis monumentais diante de um tribunal zeloso do jogo considerado limpo e transparente do mercado. O ciclo econômico, as contradições e antagonismos inerentes ao sistema capitalista são, em consequência, diluídos na experiência individual e, no limite, inseridos nas deficiências aparentemente insuperáveis de um país marcado pela recusa do mérito que, se respeitado e alentado, poderia nos tirar desse vale de lágrimas do subdesenvolvimento.

Há algo mais grave que passa sem reflexão profunda no nosso meio ocultado pela apologia do vestibular: esse sistema organizou em larga escala até agora o ensino médio! É possível perceber que o ensino médio estava voltado em primeiro lugar para atender às exigências do vestibular e somente secundariamente organizado por um projeto educacional destinado a fomentar as exigências científicas, tecnológicas e culturais necessárias para romper com a dependência e o subdesenvolvimento. Um projeto de educação com o objetivo de superar as barreiras próprias do subdesenvolvimento, portanto, não pode ser organizado com pequenas ou grandes mudanças na base ou na pós-graduação. Menos ainda com mudanças cosméticas no sistema de ingresso universitário!

A pequena contribuição da esquerda liberal

A contribuição da esquerda liberal à chamada "ordem competitiva" tem extração filantrópica e forte apelo de natureza moral como podemos ver na adoção das chamadas políticas afirmativas. No fundo, a esquerda liberal afirma que, em condições iguais ou quase iguais, um filho da classe trabalhadora terá o mesmo ou ainda melhor desempenho que os filhos dos burgueses ou das classes médias endinheiradas (proprietárias ou não). Ademais, no Brasil - um país de maioria miscigenada - a esquerda liberal aceita o vestibular e pretende introduzir no sistema meritocrático burguês pitadas de "justiça social" e algo de "reparação histórica" com o sistema de quotas de inspiração estadunidense. 

Ora, quem diz quota, diz vestibular! 

A aceitação social da filantropia conta com a aprovação do moralismo por um lado e, da cumplicidade, por outro. A política reduzida à moral (políticas públicas compensatórias como horizonte da política) implica, necessariamente, a prática filantrópica mesmo quando aparece sob a forma de "políticas sociais". A cumplicidade é mais sutil mas não menos cínica: o suposto que há que fazer algo aqui e agora para mitigar o sofrimento humano daqueles que são massacrados e considerados historicamente "excluídos". Nesse caso, não importa que apenas uma pequena parcela das vítimas do sistema seja contemplada com o sistema de quotas, pois mais importante tem sido a digestão moral da pobreza.

No entanto, como sabemos, a ideologia deve prestar contas com a realidade. A filantropia praticada em larga escala pela esquerda liberal não se sustenta a partir de valores morais mas sobretudo porque alimenta interesses concretos. Considere, por exemplo, a existência de cursinhos populares destinados a preparar os filhos de trabalhadores para uma disputa completamente desigual. Iniciativas semelhantes rendem clientes e votos para a esquerda liberal. Alimentam parlamentares e criam fidelidades muito semelhantes àquelas observadas no interior das igrejas evangélicas. A necessidade cria fidelidades! Portanto, esses cursinhos abundam, criam empregos, salvam algumas almas e, mais importante, alimentam o sistema do vestibular.

Não é produto do acaso que precisamente a emergência e sobretudo consolidação dos monopólios de educação superior ocoreram nos longos 14 anos dos governos petistas com algumas empresas cotizando na bolsa de valores à custa das enormes transferências de recursos públicos: Cogna, Ser Educacional, Yduqs, Bahema, Cruzeiro do Sul. Tudo em nome do social! Os grandes capitalistas não dormem no ponto e também manifestam, à sua maneira, alguma sensibilidade para a chamada "questão social". Portanto, a apologia da "inclusão social" nos estreitos marcos do sistema de ensino atual, permite à esquerda liberal uma aliança objetiva com a direita liberal a despeito das restrições retóricas que a última pode fazer como recurso meramente ideológico. No limite, o filtro classista do vestibular sai não somente intacto mas, inclusive, legitimado pela presença testemunhal de parte minúscula da classe trabalhadora (via sistema de quotas raciais e sociais).

Em setembro do ano passado, os bancos anunciaram sua contribuição para manter o vestibular com credenciais sociais. A USP anuncia com indisfarçável orgulho que empresas como Itaú, Santander, Deutsche Bank e inclusive a Dow Química aderiram ao programa de permanência da universidade contemplando mais de 270 estudantes no valor de R$ 800 mensais. Ademais, a universidade paulista acrescenta que o investimento total está estimado em R$ 10 milhões. Não é notável contribuição? O Itaú, para dar apenas um exemplo, investe pesado na compra de títulos públicos do Tesouro Nacional para os quais os sucessivos governos reservam centenas de bilhões todos os anos e transferem o custo para as classes populares por meio de políticas de austeridade. Assim, tanto o orçamento das universidades federais quanto dos Institutos Federais é sempre um cobertor curto e a expansão do sistema público quando ocorre o faz a conta gotas! Em 2022 a dívida interna superou os 4 trilhões e os juros e amortizações consumiram nada menos do que 1, 879 trilhão, segundo os dados da Auditoria Cidadã da Dívida Pública. O benevolente Itaú faturou bilhões na dívida pública e no ano passado anunciou um lucro de R$ 30,7 bilhões (14,5% superior ao exercício anterior) enquanto destinou para a filantropia a "vultuosa" quantia de R$ 25 milhões destinada a permanência de alunos pretos, pardos e indígenas. Não é imensa a sensibilidade dos banqueiros?

Na Universidade Federal de Santa Catarina - assim como em todas as federais - sobram vagas, menos nos cursos que alimentam a ambição pequeno-burguesa dos profissionais liberais nos quais o teste da meritocracia é a compra do primeiro carro importado após a formatura. Nas ciências básicas, o deserto é enorme tal como manda o círculo de ferro dessa monstruosidade chamada subdesenvolvimento no qual seguimos afundando. Pouco importa: os liberais de direita indicam como única saída uma nova onda modernizadora que já se avizinha e nos condenará à exportação de carnes, ferro e petróleo cru. Os liberais de esquerda aceitam discretamente o rumo mas sustentam o moralismo rasteiro já condenado por Mandeville no início do século XVIII. Portanto, é preciso fazer algo - qualquer coisa! - aqui e agora para a classe trabalhadora ainda que represente tão somente uma detestável digestão moral da pobreza. Enquanto isso, os milhões de filhos da classe trabalhadora que gostariam de frequentar a universidade pública num sistema de acesso universal seguem esquecidos na vala comum do sofrimento humano. 

Revisão: Junia Zaidan