terça-feira, 25 de julho de 2023

Como nossos pais?

As lágrimas de Lula brotaram ao som de Como nossos pais na cerimonia de posse da nova diretoria do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo. Ao final da canção, diante da catarse quase coletiva dos presentes, Maria Rita - a filha de Elis Regina - também aos prantos, é abraçada pelo presidente da república em longo e carinhoso consolo. As lágrimas, no entanto, não se confundem pois pertencem a tempos e razões muito distintas.

Nada no mundo da política ocorre por acaso.  

A presença da cantora Maria Rita no evento coincide com a campanha publicitária da Volkswagen a propósito dos 70 anos da multinacional alemã no Brasil num momento em que a submissão do trabalho ao capital é completa tanto no sindicato quanto no governo. O sindicalismo outrora classista e combativo não mais existe e o governo professa enorme fé na necessidade de reconciliação nacional como via para superar a crise da republica burguesa. A conciliação é tradição política cara a burguesia e, como demonstra a história, sempre trouxe enormes prejuízos para os trabalhadores. 

Na propaganda televisiva da multinacional alemã na qual Maria Rita repete a preferência da mãe exibindo o novo modelo, as eventuais brigais de pais e filhos - com a correspondente culpa que ambos possam carregar - desaparecem no embalo da canção do sobralense Belchior: "minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos país". A nova versão da antiga Kombi une passado e presente numa trama articulada pela multinacional destinada a ocultar ou esquecer os pontos sensíveis do drama nacional em curso.

Ao contrário da década de setenta e oitenta do século passado, o cenário nacional é sombrio para os trabalhadores. Há um mês a Volkswagen anunciou que vai paralisar três fábricas pelos próximos três meses. A decisão é uma bofetada na cara do governo que criou minúsculo programa de estímulo ao consumo de carros populares no suposto que as multinacionais manteriam o emprego e, talvez, ampliassem a produção. Entretanto a economia política burguesa possui leis próprias e não respeita os sentimentos dos trabalhadores, as saudades dos velhos e bons tempos e, menos ainda, as intenções filantrópicas governamentais. 

Em todo caso, no limite, sempre quando emparedada, uma empresa pode assumir culpas e sentar na mesa dos réus. É o que ocorreu em setembro de 2020 após intensas denuncias de organizações de direitos humanos e até mesmo da imprensa burguesa, quando a filial da multi no Brasil fechou um acordo com o Miinistério Público Federal (e de São Paulo) destinado a promover cínica reparação em função de sua participação direta na delação, perseguição, prisão e tortura de trabalhadores durante a ditadura militar. O acordo judicial ocorreu no ano em que a receita líquida da multinacional bateu R$ 22 bilhões de reais; portanto, os míseros R$ 36 milhões de reais destinado às vítimas da perseguição empresarial contra os trabalhadores mais ativos politicamente corresponde a uma gota no oceano.

Na Alemanha, em 1998, a Volks - uma empresa fundada em 1938 durante o III Reich de Hitler - reconheceu "as responsabilidades históricas e morais derivadas do uso de mão-de-obra escrava durante a Segunda Guerra Mundial" e, em consequência, aceitou a criação de um fundo destinado a reparações. As cifras igualmente modestas turbinaram as demandas nos tribunais por parte de associações de judeus e ao longo das últimas décadas os desembolsos são mais ou menos constantes, mas intensa é a resistência da empresa em reconhecer seus crimes. 

A canção de Belchior, apareceu em 1976 em pleno governo do general Geisel, quando o país vivia o fim do "milagre brasileiro" cujo epicentro era a indústria automobilística paulista. O tradicional orgulho burguês da industrialização apenas começava a sentir o amplo protesto operário contra a ditadura. A greve dirigida por José Ibrahim em Osasco naquele duríssimo 1968 já anunciava de certa maneira o calor dos novos tempos. A verdade é que a crise da ditadura de classe inaugurada em 1964 contra o nacionalismo reformista de João Goulart, começava a ruir lenta e inexoravelmente. Lula, o personagem central na posse da diretoria do sindicato realizada ontem, apareceria somente muito mais tarde quando Zé Ibraim, o líder operário certamente mais importante e esquecido daquele período, amargava longo exílio, após prisão, tortura e posterior troca permitido pelo sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick realizado em 1969. O exílio de Ibrahim durou 10 longos anos.

Longe do conflito de classes, Belchior compôs um lamento de sucesso imediato na voz de Elis e o disco caiu nas graças da juventude da classe média cada dia mais indisposta contra o regime militar. O sucesso, sabemos, raramente vai acompanhado da crítica. De minha parte sempre mantive certo incômodo com a canção porque ela tem, de fato, uma ambiguidade incorrigível, além de enorme dose de conformismo. No fundo, é uma canção para os derrotados sem perspectiva alguma de futuro, exceto o apelo genérico, ingênuo e indeterminado ao novo que "sempre vem" como se pudesse ser, necessariamente, bom. Naquela época, diante do sucesso de Belchior, nunca deixei de fazer meus reparos à música a despeito do gosto de amigos queridos. 

Muito tempo depois do êxito do álbum Falso Brilhante de Elis, convidei a sandinista Monica Baltodano para um seminário da UFSC. Eu conheci Monica em Manágua em 1990 e, desde então, mantivemos apreço mútuo e correspondência sempre que possível. Ela era deputada após uma década no comando da luta armada vitoriosa em julho de 1979 contra a ditadura de Anastásio Somoza, uma peça decisiva da contrarrevolução centro-americana apoiada fortemente por republicanos e democratas desde os Estados Unidos. Mais tarde, após a derrota da ditadura e a fuga da ditador - ele seria executado em Assunção, Paraguai em 1980 - Monica foi ministra do governo de Daniel Ortega e mesmo depois, na condição de deputada, lentamente se afastou do sandinismo para manter suas convicções! Hoje vive exilada na Costa Rica, com seus parcos bens confiscados pelo governo atual e sem direito a cidadania nicaraguense. Há pouco nos encontramos em Porto Alegre onde recordamos com alegrias e preocupações a situação latino-americana. 

No seminário de Floripa realizado provavelmente em 2013, após as conferências, ao entrar num restaurante ao som de Belchior, comuniquei a Monica que a canção no ar era uma espécie de símbolo de nosso tempo no Brasil. Ela imediatamente pediu a tradução de Como nossos pais e, após breve pausa, anunciou a sentença: "é uma música reacionária! Eu não vivo como meus pais! Fizemos uma revolução social e nada tenho com a história deles". Os amigos na mesa exibiram um riso amarelo e seguimos na conversa como se nada tivesse acontecido; entretanto, o contraste era muito profundo para evitar reflexão sobre um simples episódio capaz de expressar contradições históricas ainda presentes entre nós. O entusiasmo do público ao entoar ontem a antiga canção no sindicato em que Lula começou sua carreira política, não deixa dúvidas sobre a necessidade da reflexão crítica.

Ao ver o vídeo da cerimonia de posse da nova diretoria dos metalúrgicos, ouvir o surrado e alienante discurso de Lula, a apresentação de Maria Rita e a enorme difusão nas redes digitais das lágrimas derramadas ao som da canção de Belchior, pensei uma vez mais na triste situação em que nos encontramos. De um lado, a apologia petista do governo conservador petucano Lula/Alckmin expressa o beco sem saída da esquerda liberal, impotente, sem iniciativa e sem horizonte utópico. O futuro apresentado novamente por Lula aos trabalhadores simula um paraíso tipo classe média regado a picanha, cerveja, viagem de avião, um carro popular na garagem e, se possível, serviços de saúde e educação aceitáveis. Na periferia capitalista as promessas presidenciais são irrealizáveis porque também nos países centrais está em crise. Ademais, a surrada promessa do presidente choca até mesmo com as sombrias declarações da ministra Simone Tebet segundo as quais a austeridade orçamentária será a regra para 2024 exigindo cortes adicionais. Ora, de um lado um orçamento curtíssimo e no chão da fábrica, há muito as notícias não são nada promissoras. Nada poderia ser pior...

Eu não sei se Belchior leu Pasolini para compor sua conhecida canção, mas o fato é que um ano antes, nos primeiros dias 1975, Pier Paolo escreveu "os jovens infelizes", um belo e fecundo artigo ajustando contas com a esquerda em geral e com a juventude em especial, cativa do consumo e sempre disposta a responsabilizar os pais por fracassos ou omissões próprias. Pasolini, mesmo remando contra a maré não se inibiu e antecipou de maneira implacável uma advertência útil para os dias que correm: "é melhor ser inimigo do povo do que ser inimigo da verdade". Mandou bala contra a juventude bocó e boçal, contra os medíocres e os cultos, contra os iniciados e aqueles que renunciaram. Enfim, contra todos. 

No evento sindical, participaram várias gerações de pais e filhos. No entanto, antes do conflito geracional, todos pareciam estar em comunhão nas lágrimas e na canção. Assim, destituídos de um horizonte utópico, armados apenas com a renuncia comum ao combate contra o sistema capitalista e unidos tão somente na condição de impugnadores morais do sistema, destinados a repetir enfadonhamente os pais com a roupagem do novo modelo, esquecem que sequer podem comprar um imóvel para viver longe da saia da mãe ou da aba do pai. Nem mesmo a esperança de comprar um carro popular podem alimentar. O lamento coletivo entoado a pleno pulmões, confortou a todos e produziu uma espécie de conciliação entre gerações até ontem em conflito azeitado por alguma culpa comum, mas sempre atribuída ao outro. Essa paz entre as gerações - ao contrário do conflito que Belchior denuncia ao escrever que "quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude tá em casa guardado por deus contando o vil metal" - somente é possível porque a antiga culpa, a despeito de enormes resistências ainda presentes, não dirige mais o destino de jovens e velhos, ambos gemendo na vala comum do sofrimento humano sempre mais grave na periferia capitalista.

A celebração do fim da utopia não pode ser exibida com cores cinzas, razão pela qual deve luzir com o poder de sedução de um falso brilhante, regado a lágrimas arrancadas de um misto de frustração e impotência. De minha parte, confesso sob circunstâncias inesperadas, que a antiga e aclamada composição rendeu homenagem a Belchior; a canção se tornou, de fato, não mais expressão da angustia pessoal do autor naqueles anos de chumbo e figura agora como verdadeiro hino da esquerda liberal. A vida, por enquanto, ao fim e ao cabo, concedeu razão a Belchior.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Fim de linha?

Há algum tempo não leio ou escuto as figuras mais festejadas pela esquerda liberal, especialmente aquelas dedicadas a captura de "likes" ou "visualizações". Em contrapartida - desde sempre - leio os autores liberais (de direita ou progressistas); os primeiros recebem atenção porque na maioria dos casos exibem de maneira clara seus objetivos e, os segundos, porque confessam abertamente o horizonte limitado ao qual estaríamos condenados como se a prudência e as limitações conjunturais fossem sentenças históricas ou virtudes eternas. Em ambos - com raras exceções - faço na prática um estudo sobre ideologia. É claro que existem autores liberais que demandam certo esforço e disciplina intelectual e com os quais podemos aprender algo ou elucidar melhor o foco da crítica; Marx e Engels sabiam ler sujeitos semelhantes, sábios na seleção deles. Entretanto, de maneira geral, a leitura dos liberais de moda é encontro marcado com ladainha conhecida, uma repetição enfadonha. Ocorre que na esquerda liberal a repetição enfadonha é também constante e, não obstante, mais nociva porquê reforça a dominação burguesa quando deveria atuar em sentido contrário. O mundo para a esquerda liberal é o mundo que sofremos e, se possível, quando muito, seu esforço esta destinado a "conquistar" algumas doses de "justiça social" no inferno. Nada mais. O ditado popular ensina que não podemos "tirar leite de pedras", razão pela qual não espero da esquerda liberal a conversão revolucionária. De resto, completamente dominada pelo cretinismo parlamentar, a esquerda liberal seguirá seu curso até o cadafalso. 

Minha geração teve formação atravessada pela polêmica de caráter político e teórico; a despeito das limitações inerentes a cada época, estávamos acompanhados de exigências intelectuais e políticas importantes. Contudo, a esquerda na qual inscrevi minha juventude padecia considerável isolamento social, resultado necessário da derrota do nacional reformismo encabeçado por Jango no golpe de 1964 e o fim tão trágico quanto heroico da luta armada registrada na primeira metade dos anos setenta. Ainda assim, o socialismo e a Revolução Brasileira estavam sempre no horizonte e, a despeito das inúmeras lutas e movimentos crescentes no final da ditadura, não havia dispersão ideológica e fragmentação política. Enfim, a disputa pelo poder - não o governo! - era o objetivo final. Ainda sobre os escombros da ditadura e sofrendo as consequências da "transição lenta gradual e segura" hegemonizada pela burguesia e a Embaixada de Washington, postulávamos a derrubada violenta do regime e não havia concessão alguma à classe dominante: nossa impotência não resultava em elogio à democracia, regime sempre acompanhado do adjetivo "burguesa". Naquela solidão havia uma boa pitada de lucidez: éramos órfãos da Revolução, é certo, mas carregávamos a certeza de jamais pedir inscrição na "sociedade respeitável". 

O contraste com a situação atual é evidente. A esquerda liberal exibe suas misérias e não vacila em apresentar limitações outrora consideradas inaceitáveis como se fossem, de fato, virtudes indispensáveis e lucidez elementar. A cada nova cartada, apresentada como se fosse um golpe de mestre, a burguesia aperta um pouco mais a dominação sobre os trabalhadores e a juventude. O regime apodrece aos olhos do povo e a esquerda liberal busca no seu interior a afirmação da conduta "responsável". O agir "responsável" praticado pela esquerda liberal encurta a cada dia o salão onde alegremente dança conforme a música da classe dominante. 

Na atualidade, a pobreza no terreno da disputa teórica e da análise política alcançou níveis incompatíveis com o apreço pela memória. Não há arrogância na constatação pois todas as gerações carregam limitações e, obviamente, reconheço que não chegaríamos a situação atual sem as opções tomadas ao longo de nossa curta história. Mas há um artigo em falta entre nós: a exigência teórica e política. Na prática, a esquerda liberal e seus "marxistas acadêmicos" não fazem menos do que justificar a impotência do governo petucano (Lula/Alckmin) com argumentos inacreditáveis: o elogio ao carro popular como esforço industrializante, as migalhas orçamentárias como expressão máxima de política social, o compromisso com reacionários e ladrões como virtude republicana, a submissão à Washington como "agenda mundial em defesa do meio ambiente", a defesa da propriedade como elogio ao Estado de direito, o pragmatismo rasteiro e cretino como lucidez política, a fofoca no lugar da polêmica e a calúnia midiática como expressão da verdade. O rosário é interminável e você pode livremente aumentar a lista...

Fim de linha? Nada disso! A crise do regime democrático burguês também se expressa na miséria teórica e política da esquerda liberal e não somente na truculência e despotismo da classe dominante, afinal, uma burguesia culta e educada não passa de ideologia barata destinada a enganar trouxa. De resto, uma esquerda liberal atuando em defesa da ordem em crise não faz menos que cavar seu próprio túmulo. A crise brasileira segue seu curso sob domínio da coesão burguesa alimentando muitas possibilidades entre as duas mais visíveis: a frágil e inútil preservação do regime atual ou um sistema político de corte policial com tintura constitucional e boa dose de violência contra os trabalhadores. 

O que fazer? A política orientada pelo tradicional "não há nada a fazer" ou o descarado "não se pode fazer mais do que isso" é uma grotesca negação das contradições e antagonismos que movem a luta de classes. É também ignorância e resignação, obviamente. A História ensina que mesmo nas condições mais adversas sempre há algo a fazer para enfrentar a ordem dominante, algo muito distinto de praticar a cínica "redução de danos ou fazer o mínimo, o aceitável ou o permitido pela burguesia. Em todo ato ou movimento a questão central sempre será a ação destinada ao ataque à classe dominante e não apenas suas formas mais grotescas e ofensivas. Nesse contexto, até mesmo recordar o sentido da política passa a ser algo necessário e util.  

sábado, 3 de junho de 2023

o diploma no Bolsa Família


A informação é oficial: segundo o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, no cadastro do Programa Bolsa Família estão inscritos mais de 2 milhões e oitocentos mil brasileiros com diploma de ensino superior, muitos deles com pós-graduação, a despeito da ideologia liberal, que afirmou a relação positiva entre o nível de renda e a formação educacional. A quinquilharia ideológica rendeu até prêmio Nobel para Gary Becker e Teodoro Schultz, ambos “teorizando” na linha de reforço do liberalismo. Entretanto, a realidade é obstinada e não cede facilmente aos ideólogos, mesmo aqueles agraciados e festejados na academia e na imprensa burguesa.

Os partidos da esquerda liberal, os sindicatos vinculados às universidades, os defensores das políticas de inclusão, os acadêmicos preocupados com a sorte da universidade pública desprezaram completamente a informação ministerial. De certa forma, é tão compreensível quanto revelador: ver universitários na vala comum do sofrimento humano parece completamente absurdo ao senso comum. No Bolsa Família – em maio - estavam inscritos 21,1 milhões de brasileiros. O programa já foi tomado como a medida social mais importante aplicada na periferia capitalista, colecionando elogios que vão do Banco Mundial aos padres católicos da Trindade, em Florianópolis.

Nos governos de Lula e Dilma, o Bolsa Família foi considerado pela consciência ingênua como exemplo de ação social destinado a mitigar o sofrimento, a miséria e a exploração dos trabalhadores; no limite, foi também considerado, não sem boa dose de cinismo, como ação de combate à pobreza! Entretanto, o governo liberal e corrupto de Michel Temer não interrompeu a benesse e – pasmem! – o protofascista Bolsonaro e seu ministro ultraliberal Paulo Guedes não somente elevaram  o benefício aos R$ 600,00 atuais, como ampliaram o cadastro (entre outras intenções, para ganhar votos na última eleição de maneira ilegal). O entusiasmo político e, em consequência, a propaganda sobre a benevolência do programa cederam, mas a reflexão crítica ainda não emergiu. A caridade católica, creio, tem ampla aceitação numa sociedade com os níveis de desigualdade típicas de países periféricos e dependentes.

No Brasil, país onde a superexploração do trabalho comanda o processo de acumulação de capital, a concentração da renda é a norma e a miséria ou a “desigualdade”, sua expressão visível. A PNAD de 2022 indica que nada menos do que 73,1% da população economicamente ativa recebe entre 1 e 2 salários mínimos, míseros R$ 2.640,00 ao mês. A tragédia é ainda maior quando desagregamos um pouco mais os dados: 11,8% recebe até ½ salário mínimo (R$ 660,00) e 59,9%, até 1,5 salário mínimo!!! O Dieese informa que a diferença entre o salário mínimo nominal e o salário mínimo necessário cresceu na última década: o primeiro é de R$ 1.302,00 enquanto o segundo alcança R$ 6.676,11. Em bom português, a informação estabelece que a vida para milhões de trabalhadores é um inferno ou algo muito próximo disso.

Diante dessa estrutura salarial, nós, professores das Instituições Federais de Ensino Superior  nos encontramos no topo da terrível pirâmide, ou seja, entre os 5% que mais recebem no país. Portanto, podemos levar uma vida pequeno burguesa relativamente folgada sem contato algum com o abismo social no qual estão afundados a maioria dos trabalhadores. Não carrego culpa alguma por estar aqui, mas tampouco sou indiferente à realidade. Em consequência, tenho plena consciência sobre a origem de certo orgulho exibido por muitos colegas da condição de professor universitário e não  ignoro as razões pelas quais se defendem, afirmando a ideologia meritocrática. A constatação não tem carga ou condenação moral alguma, pois aprendi com Marx que a moral é a impotência em ação. Na verdade, pretendo apenas chamar a atenção para o caráter social de nossa posição numa sociedade de classes situada num país dependente e subdesenvolvido, nossa mais importante característica.

As universidades são instituições de Estado e, desde Darcy Ribeiro e Álvaro Vieira Pinto, constituem valioso instrumento de desenvolvimento científico, tecnológico e cultural. Entretanto, é visível que a função social da universidade no Brasil está rebaixada a níveis críticos nunca antes observados. A política de inclusão social equivale, na prática, a certa defesa moral da universidade e – com ou sem consciência – um meio de validação social da instituição a partir de uma concepção de mobilidade social inerente à sociologia positivista. Ocorre que na sociedade de classes – especialmente num país dependente e periférico – os casos nos quais um filho da classe trabalhadora “vence” no interior da sociedade respeitável não passam de  “simbolismo” ou, nos meus termos, de uma ideologia cuja função é a validação da dominação classista. O auge dessa ideologia pôde ser observado, por exemplo, na eleição de Barak Obama para a Casa Branca, cuja receita ele aprovou nas prévias do Partido Democrata quando derrotou seu adversário identitário afro-americano com a mesma perspectiva, que expressou nas duas disputas presidenciais: o “sonho americano” da mobilidade social via valorização da classe média.

O Bolsa Família possui três objetivos estabelecidos na MP 1.164:  o combate à fome, a proteção social das famílias em situação de pobreza e “a interrupção do ciclo de reprodução da pobreza entre as gerações”. Na verdade, cumpre marginalmente os dois primeiros e apenas pode anunciar a intenção no terceiro. Entretanto, em todos os casos, tangencia o grave problema da fome e nem de longe toca na reprodução da pobreza intergeracional. Uma organização criminosa como o Banco Mundial publicou no final de 2002 o relatório Poverty and shared prosperity, no qual anuncia a boa nova: um “pobre” é aquele que recebe menos de US$ 2,15 ao dia, ou seja, no câmbio de hoje, quando escrevo esse artigo, míseros R$ 10,65 diários. Você já se imaginou vivendo com semelhante “quantia” quando valida as “conquistas” dos governos da esquerda liberal em nosso país? Esse é o critério da cidadania que devemos adotar?

Ora, um trabalhador que recebe US$ 2,17 desaparece da estatística e, nesse caso, o país pode deixar serenamente o “mapa da fome”. Não é uma maravilha? A direita liberal cala sobre o assunto enquanto a esquerda liberal grita a pleno pulmões as “conquistas sociais de seus governos” que apenas logram superar a miséria e a fome a partir dos critérios estatísticos do... Banco Mundial!!!! Na prática, a esquerda liberal adota a definição de cidadania de nossos algozes e, em consequência, pratica em larga e cínica escala a digestão moral da pobreza. Há um perverso pressuposto oculto na operação ideológica: é impossível mudar radicalmente nossa realidade! Os sabichões da esquerda liberal afirmam que o tempo das revoluções sociais desapareceu para sempre e não resta às pessoas racionais e realistas senão a administração democrática da pobreza nos marcos da ordem burguesa. O subdesenvolvimento – uma formação social monstruosa, segundo o pensamento crítico das décadas de sessenta e setenta do século passado – é agora considerado uma realidade intransponível. Ajoelhe: o obscuro Francis Fukuyama venceu nas fileiras da outrora esquerda radical! 

A informação do ministro de Desenvolvimento e Assistência Social não despertou atenção de ninguém. Entretanto, ela exibe o limite objetivo da política social até agora praticada como se fosse, de fato, virtude republicana. Ademais, indica que o diploma universitário não é via de mobilidade social nas sociedades latino-americanas, como pretende o liberalismo em qualquer versão; de resto, erodiram-se o discurso e a prática das políticas de inclusão social praticadas pela esquerda liberal desde uma perspectiva moralista, rasteira e completamente funcional à  ordem burguesa. Não me desespero: a despeito do otimismo cínico dominante, pode ser que o tempo da queda das ilusões tenha chegado e, finalmente, possa abrir as portas da consciência crítica.

Revisão Junia Zaidan

domingo, 21 de maio de 2023

A solidão de Ciro Gomes e o trabalhismo

 

O resultado eleitoral da última disputa presidencial foi um golpe duro para as pretensões políticas de Ciro Gomes. É inegável seu retrocesso quando comparado com o desempenho no primeiro turno de 2018, razão pela qual, após a vitória de Lula, o candidato do PDT foi para um curto retiro reflexivo. A volta recente num debate realizado em Portugal despertou antigas ilusões e criou novas expectativas que se defrontam com a dura realidade brasileira e a crise do sistema político dominante. 

Há um contraste evidente que passa sem registro no raso debate nacional: enquanto Ciro amarga sua solidão política e no ensaio de retorno à disputa eleitoral renova antigas críticas a Lula e ao PT, o partido ao qual está filiado (PDT) participa orgulhosamente do governo Lula na presença do ministro da previdência social Carlos Lupi, também presidente da sigla.

No debate em Lisboa, Ciro afirmou categoricamente que não representa mais uma corrente de opinião ("eu não represento uma corrente de opinião mais"). É um claro recado para os governistas do PDT que constituem a maioria dos diretórios e acumulam pequenas ambições eleitorais espalhados por todo o território nacional. É também, provavelmente, o anúncio de que ele está livre para buscar outro partido ou atuar na cena política como livre pensador. É uma ruptura sutil, mas é, antes de mais nada, uma ruptura. 

O PDT é um partido que sofreu grave regressão programática na qual Ciro cumpriu papel relevante. A atualização da doutrina trabalhista explícita no seu último livro e campanha, foi orientada, segundo suas próprias palavras, pela imaginação do professor de Harvard, Roberto Mangabeira Unger. Na prática, aquela operação representou uma ruptura radical com o trabalhismo de Vargas, Jango e Brizola e, embora o diagnóstico apresentado por ele tenha apenas roçado problemas graves da economia e do Estado, não foi suficiente para mobilizar votos nem tampouco capaz de anunciar um novo horizonte para a antiga tradição trabalhista. Na memória recente, não é exagero afirmar que Ciro apenas simula as críticas de Brizola e a saudável desconfiança do gaúcho em relação ao sistema político dominante em crise. Mas, ainda assim, assinala e condena mais os sintomas da doença no lugar de oferecer uma saída para os crescentes impasses da luta de classes. 

Ninguém deveria se espantar com o fracasso político de Ciro na disputa presidencial. O pífio resultado eleitoral não deriva da orientação de sua campanha na qual tanto Lula quanto Bolsonaro eram alvos igualmente importantes, ainda que de sinais contrários. A política é conflito e, nas condições nacionais, conflito de alta intensidade; portanto, a linha de sua campanha era correta embora com elevada carga de superficialidade. É verdade elementar - ainda que a esquerda liberal negue com os dois pés juntos, as mãos e olhar elevados ao céu - que Bolsonaro e Lula são os dois lados da mesma moeda. Até mesmo os mais ingênuos e devotos lulistas já afirmam à boca pequena que a continuidade da economia política do rentismo conduzida por Lula pode trazer Bolsonaro - ou outro representante da direita - de volta à cena nas eleições de 2026... Ademais, ainda que de maneira dissimulada, já aparecem figuras indicando que Bolsonaro não emergiu na cena política como um raio em céu azul, mas foi resultado necessário das transformações operadas em longos 14 anos de petismo... É pouco, mas já é uma demonstração de que as exigências da realidade estão corroendo o oportunismo político.   

Portanto, a linha supostamente "raivosa" de Ciro não foi responsável pelo desastroso resultado eleitoral. Ocorre que tanto Ciro quanto o PDT fomentaram por mais de uma década o polo petista do sistema petucano (oposição entre petistas e tucanos). A ruptura de Ciro foi tardia e era incapaz de produzir um espaço à esquerda quando o petucanismo esgotou suas energias mobilizadoras com a ascensão do governo Temer e a posterior aparição de Bolsonaro. Ademais, não se deve esquecer que Ciro permaneceu fiel ao bloco da esquerda liberal encabeçada por Lula e Dilma até a destituição desta última em agosto de 2016. De resto, no segundo turno das eleições entre Haddad e Bolsonaro, Ciro cravou no petista sem vacilação alguma a despeito das calúnias e mentiras produzidas pela esquerda liberal contra sua reputação. Os movimentos eleitorais relativamente bruscos não são capazes de produzir alteração na correlação de forças entre as classes sociais, especialmente quando todos os partidos se filiam à economia política do rentismo e também por isso não desfrutam da confiança do povo. Portanto, o caminho eleitoral de Ciro estava fechado antes mesmo de a disputa começar, não obstante erros reais ou imaginários na condução da campanha e nos alvos escolhidos.

Os obstáculos que Ciro amargou ontem quando pretendia representar o trabalhismo são exatamente os mesmos que enfrentará a partir de hoje como livre pensador: os limites objetivos da esquerda liberal no labirinto da crise do sistema político e da emergência do capitalismo dependente rentístico. A propósito, não há uma fase neoliberal do capitalismo que, com imaginação e pragmatismo, poderia ser substituída por algo destinto que ainda atende pelo teimoso nome de "desenvolvimentismo ou neo-desenvolvimentismo". As transformações na economia mundial determinaram a atual posição do país na divisão internacional do trabalho reduzida à condição de mero exportador de produtos agrícolas e minerais cuja origem foi a hegemonia do capital financeiro na implantação do Plano Real em junho de 1994.

Nesse contexto, não basta a crítica aos "juros escorchantes" denunciados por Antonio, o abnegado comerciante diante de Shilock, o judeu agiota, insensível e avarento criado por Sheakespeare no século XVI. No desenvolvimento capitalista rentístico, a simples denúncia dos juros funciona, na prática, como ideologia destinada a garantir a hegemonia financeira antes de criar consciência crítica para a ruptura com o "modelo neoliberal". De resto, quem senão Lula está no comando da denúncia retórica dos juros enquanto garante vida longa ao rentismo? Ciro chega tarde, uma vez mais... e terá que arar em terras que já possuem proprietário.

A presença do PDT no governo deixa Ciro na mais absoluta solidão pois as críticas apresentadas desde Lisboa não arranham a convicção do partido no sentido de romper com Lula/Alckmin, a mais perfeita tradução do petucanismo. O vice Alckmin - ministro fictício da Indústria e Comércio - é menos que uma caricatura da impotência do capital industrial paulista, o epicentro burguês do país. A tradição trabalhista está esgotada historicamente e devo reconhecer, sem conceder nobreza na escolha do PDT, que não haverá um movimento na direção de uma aliança entre capital e trabalho rumo à retomada da industrialização. O pragmatismo pedetista é, finalmente, feito do mesmo barro que o pragmatismo petista, pecedobista, psolista e outros tantos: a mera auto-reprodução parlamentar no interior de um sistema político da república burguesa apodrecida em seus cimentos. Por fim, a industrialização é caminho vetado há décadas! Morreu com Geisel e sua ditadura de classe no final do "milagre brasileiro" em 1975.

A Carta de Lisboa foi uma cartada de Leonel Brizola às vésperas de seu retorno à cena política nacional. O gaúcho amargara o exílio mais longo entre todos os políticos brasileiros: 15 anos não são 15 meses, carajo! Ademais, o estigma de radical acompanhou Briza desde sempre e foi renovado pela classe dominante quando ele pisou em solo nacional naquele final de tarde do dia 6 de setembro de 1979. Temperado pela experiência de lutas cruciais em seu tempo - da genial e heróica luta pela legalidade, o posterior flerte e renúncia da luta armada e, finalmente, o compromisso com o socialismo renovado pela adesão à Internacional Socialista -  a verdade é que Briza errou ao apoiar Lula nas disputas eleitorais e filiar a tradição trabalhista no altar do Vaticano e do Partido Democrata dos Estados Unidos que sempre orientaram as decisões de Lula e o do PT. 

No entanto, a astúcia e o talento político de Brizola não foram suficientes para enfrentar a direitização do ocidente, que liquidou o socialismo soviético, produziu a socialdemocratização dos antigos partidos comunistas no velho continente e a precoce adesão da socialdemocracia às teses liberais. Quando conquistei meu primeiro emprego após deixar os bancos escolares na UFSC em 1984 - na FESP do primeiro governo Brizola no Rio - meu mestre e amigo Ruy Mauro Marini certa vez me alertou que gostava do Brizola porque ele colocava pimenta na insossa política nacional. Não foi suficiente, sabemos. No entanto, Marini jamais aderiu ao trabalhismo, ao contrário de Vania e Theotonio, que escreveu "O caminho brasileiro ao socialismo" como livro de ingresso nas filas do Brizola. Eu recebi o livro das mãos do autor e a despeito de minha recusa às teses ali expostas, sempre reconheci a honestidade intelectual de Theo, que rompia com o núcleo duro da teoria marxista da dependência no terreno da tática e estratégia socialista... Bueno, Theo estava em Lisboa com Betinho, Moniz Bandeira, etc... 

A verdade é que o PT e Lula ocuparam o antigo espaço do trabalhismo na luta política. A trama é longa, merece reflexão mais apurada mas basta recordar que a derrota do nacional reformismo expresso na destituição de Jango pelo golpe militar de 1964, produziu efeitos de longa duração. A História é, de fato, cruel! Brizola sofreu 15 anos de exílio e, no seu retorno, encontrou uma terra difícil de arar. Os antigos líderes sindicais trabalhistas já não existiam e em seu lugar apareceu o "novo sindicalismo" apoiado pela igreja católica, a esquerda revolucionária que sobreviveu ao terror de estado e as lideranças sindicais moderadas encabeçadas por Lula e os sindicalistas combativos contra o peleguismo da estrutura sindical da ditadura. Até onde minha memória registra, o mais importante líder sindical do PDT estava no Rio, mais precisamente em Volta Redonda, no comando do poderoso sindicato dos metalúrgicos capaz de paralisar a CSN. Entretanto, a atuação de Juarez Antunes - que contava com assessores da talha de Colombo e Luiz Arnaldo Campos - foi interrompida por acidente fatal quando ele tinha apenas 55 anos... 

À luz da perspectiva histórica, a solidão de Ciro não é, portanto, um fato novo; nem por isso é menos grave. Na campanha eleitoral eu alertei "ciristas" próximos que o sobralense de adoção deveria ter atuado como uma caixa de ressonância contra a interdição da crítica produzida pela esquerda liberal, mas ele optou por um pragmatismo raso, que reduziu sua autoridade política, ainda que a vida esteja confirmando algumas de suas previsões. Na verdade, Ciro não tinha opção na disputa eleitoral anterior: deveria ter criado uma tribuna para todos os desterrados, aqueles que sofriam o exilio em seu próprio país, todos os náufragos da derrota histórica do petismo e especialmente para nós que lutávamos contra a hegemonia detestável da esquerda liberal... Entretanto, ele optou por um caminho animado por ilusões de extração eleitoral, sem jamais perceber que a república burguesa estava (e segue!) apodrecida em seus cimentos! Creio que, no essencial, Ciro repete a dose pois não há indicação na sua longa intervenção lisboeta de que pretenda romper de fato com as formas políticas e a "estratégia" da esquerda liberal que esmaga o povo sob a administração petucana. O teto de gastos que Lula validou antes de recusá-lo por completo, representa apenas mais uma demonstração do apego da esquerda liberal à ordem burguesa e a crítica a questões tão elementares não isenta ninguém de cumplicidade com o atual governo. A luta nos marcos da ordem e contra a ordem burguesa é problema ausente no seu discurso de retorno.  

A tentativa de combinar pragmatismo com utopia nunca produziu bons resultados! Na campanha, Ciro pretendeu oferecer uma alternativa racional aos extremos em disputa (Lula e Bolsonaro) omitindo que a polarização nada tinha de artificial, mas, ao contrário, era a própria manifestação eleitoral da lógica de situações extremas da qual não teremos possibilidade de sair sob a hegemonia do liberalismo de esquerda no campo popular. O fiasco da tentativa de figurar como o "espírito crítico" da esquerda liberal pode ser visto no precoce colapso do PSOL, mas também no silêncio cúmplice dos demais partidos - PDT incluído! - que calam sobre as misérias do atual governo em nome do combate ao ilusório "neofacismo".

É comovente observar a saudade juvenil que Brizola desperta na Juventude Socialista e em milhares de militantes independentes sem qualquer filiação ou mesmo fidelidade eleitoral ao PDT. O apelo ao caudilho do sul é tão expressivo, que até mesmo Lula afirma cinicamente ter "saudades do Brizola"!! Entretanto, se os trabalhistas pretendem, de fato, honrar a memória e o legado de Brizola, deveriam trilhar o caminho da recusa à hegemonia liberal da esquerda encabeçada pelo petucanismo e o governo Lula. Nesse contexto, a presença de um ministro do PDT no governo conservador de Lula/Alckmin não faz menos que eternizar a tutela petista no interior das forças que justificam sua existência na luta contra o "neofascismo". O próprio Brizola sucumbiu - por circunstâncias e constrangimentos muito mais dramáticos do que os atuais - ao figurar como vice e depois apoiar Lula nas disputas presidenciais. Mas ninguém pode esquecer que o último recado da consciência rebelde do gaúcho apareceu precisamente nas homenagens populares em seu velório no Rio: quando Lula, então presidente, apareceu para prestar a última homenagem ao caudilho do sul, recebeu uma sonora vaia nunca antes vista numa cerimônia semelhante. Naquele distante junho de 2004, o atual presidente estava acompanhado de vários ministros - Dirceu, Pallocci, Amorim - e... Ciro Gomes (ministro da Integração Nacional). A imprensa registra a força do protesto obrigando a delegação oficial a permanecer breves cinco minutos e se retirar pela porta dos fundos do Palácio Guanabara. Ao contrário dos petistas, apenas Ciro permaneceu e, de quebra, condenou o merecido e espontâneo protesto da base brizolista. 

A vitória eleitoral da chapa petucana polarizou ainda mais a situação política nacional. Não há novidade no fenômeno pois a "política de ódio" instaurada pela ofensiva burguesa não poderia ser combatida pela "política do amor" destinada a "acolher" os miseráveis e "pacificar o país". Não podemos considerar a polarização atual como um artificio que poderia ser superado por políticas públicas rebaixadas, historicamente incapazes de tocar no nervo da miséria e exploração de nosso povo; tampouco é possível alimentar ilusões sobre a capacidade de auto regeneração do sistema político da república burguesa! A vã tentativa de "pacificar" o país é apenas expressão da impotência da esquerda liberal diante da ofensiva burguesa, pois as exigências materiais, políticas e culturais da guerra de classes aberta que sofremos na atualidade é muito mais do que uma simples "fase neoliberal" do desenvolvimento capitalista do Brasil. Na verdade, é produto do desenvolvimento capitalista dependente rentístico que veio para ficar e não pode ser superado pela administração democrática da ordem burguesa. É uma encruzilhada histórica! Aqui, nesse solo incerto e exigente, necessariamente instável, poderemos,  finalmente, ver de fato a estatura dos homens que pretendem representar o povo. Afinal, o destino dos alertas e críticas realizados por Ciro na exposição de Lisboa servirão para alimentar o impotente e miserável "espírito crítico do petismo" ou reforçarão a oposição de esquerda aberta ao governo conservador de Lula e Alckmin?

Revisão: Zunia Zaidan

 

terça-feira, 21 de março de 2023

O orgulho burguês do vestibular

Para Julia e Beatriz


A ideologia meritocrática necessita do vestibular assim como a sociedade burguesa exige a meritocracia. Os melhores - somente os melhores! - devem ser respeitados em sua superioridade e, sobretudo, tomados como a medida exata num sistema baseado no suposto da concorrência entre os cidadãos portadores de direitos iguais, em que a desigualdade de classe simplesmente desaparece sem deixar vestígios. Ademais, no capitalismo, os vencedores são sempre exibidos como resultado de trabalho duro somado ao talento individual natural alimentado por virtudes familiares, além, é claro, de uma boa pitada de disciplina e foco. O conto é largo, mas a brevíssima advertência é suficiente para a reflexão acerca do vestibular.

Há alguns dias, circulando no Estreito - parte continental de Florianópolis - me deparo com a apologia burguesa da meritocracia: um colégio indica num painel gigante que entre os cinco primeiros classificados no vestibular da UFSC, três estudaram naquela instituição privada. Na página da meritória e até então desconhecida empresa educacional, descubro que o DNA de aprovação da instituição criada no distante 1963 por estudantes de medicina de Ribeirão Preto (SP), é uma tradição iniciada num despretensioso cursinho pré-vestibular desde seus primórdios gozando de ótima reputação regional. Pequenas empresas, grandes negócios, reza o bordão televisivo!  

O orgulho burguês do vestibular rende bilhões aos capitalistas num país que recusa a luta pela universidade de massas e ainda mantém 30% do nosso povo na repulsiva condição de analfabetos e analfabetos funcionais. Na Argentina e no México - ambos países subdesenvolvidos e dependentes - ninguém consegue entender e menos ainda aceitar o odioso filtro do vestibular vigente no Brasil. Entre nós, os universitários ignoram que nossos vizinhos - nem falar de Cuba! - não possuem vestibular e garantem há décadas um sistema universal de ingresso. A ignorância brasileira sobre os países latino-americanos permite que o orgulho burguês do vestibular navegue soberano entre nós. Entretanto, à ignorância nacional em relação aos países latino-americanos, é necessário agregar a indispensável dose de oportunismo político da esquerda liberal, incapaz de enfrentar o problema educacional pela raiz.

Assim, todo inicio de ano assistimos à festa dos vencedores no vestibular e `as declarações sobre as virtudes familiares correspondentes. A escola privada não perde a ocasião e manifesta orgulho desmedido consciente que tanto na política burguesa quanto no processo de acumulação, a propaganda é a alma do negócio... Em algumas universidades públicas até mesmo o reitor participa do ato em que a universidade registra o feito individual enquanto milhares de estudantes filhos da classe trabalhadora amargam mais um ano de frustração longe dos bancos escolares. 

A direita liberal exibe seu troféu 

Numa sociedade de classes - especialmente nos países dependentes e subdesenvolvidos da periferia capitalista - um médico, advogado, arquiteto ou engenheiro reúne, em princípio, as condições necessárias para a confirmação do prestígio social a partir de esforço próprio a caminho das pequenas glórias do profissional liberal sem patrão, dono de seu nariz. Nesse contexto, num mar de famintos ou desclassificados que constituem o "resto" da população, o "êxito individual" antes de ser um problema, é apenas a confirmação de nossos talentos que, noutro contexto, bem que poderiam indicar o caminho de superação de todos os males com os quais convivemos bastante bem desde sempre. 

Quem leu Marx sabe que não devemos brincar com a ideologia. É caso sério. Na sociedade burguesa, o "êxito individual" é premissa ideológica sem contestação, com aceitação quase natural. Ocorre que a medida do indivíduo sempre será social, razão pela qual as condições sociais do êxito individual são o que realmente importa e nos obriga à revisão da lógica dominante de maneira permanente. Foi Schumpeter quem produziu a apologia do "espírito animal" dos capitalistas responsável pelas inovações e conquistas científicas e tecnológicas no sistema capitalista como se fosse possível explicar o self made man sem qualquer consideração pelo "fluxo da maré que sobe" ou "baixa" obedecendo à dinâmica da expansão e das recorrentes crises do sistema. 

A despeito da abundância de exemplos e das duras lições oferecidas em cada crise, a ideologia dominante afirma sempre a responsabilidade individual tanto no êxito quanto no fracasso dos concorrentes. Assim, o afamado empresário exibido na capa da mais importante revista de negócios no ano passado como o "homem do ano" pode também figurar algum tempo depois como execrável sujeito responsável por fraudes contábeis monumentais diante de um tribunal zeloso do jogo considerado limpo e transparente do mercado. O ciclo econômico, as contradições e antagonismos inerentes ao sistema capitalista são, em consequência, diluídos na experiência individual e, no limite, inseridos nas deficiências aparentemente insuperáveis de um país marcado pela recusa do mérito que, se respeitado e alentado, poderia nos tirar desse vale de lágrimas do subdesenvolvimento.

Há algo mais grave que passa sem reflexão profunda no nosso meio ocultado pela apologia do vestibular: esse sistema organizou em larga escala até agora o ensino médio! É possível perceber que o ensino médio estava voltado em primeiro lugar para atender às exigências do vestibular e somente secundariamente organizado por um projeto educacional destinado a fomentar as exigências científicas, tecnológicas e culturais necessárias para romper com a dependência e o subdesenvolvimento. Um projeto de educação com o objetivo de superar as barreiras próprias do subdesenvolvimento, portanto, não pode ser organizado com pequenas ou grandes mudanças na base ou na pós-graduação. Menos ainda com mudanças cosméticas no sistema de ingresso universitário!

A pequena contribuição da esquerda liberal

A contribuição da esquerda liberal à chamada "ordem competitiva" tem extração filantrópica e forte apelo de natureza moral como podemos ver na adoção das chamadas políticas afirmativas. No fundo, a esquerda liberal afirma que, em condições iguais ou quase iguais, um filho da classe trabalhadora terá o mesmo ou ainda melhor desempenho que os filhos dos burgueses ou das classes médias endinheiradas (proprietárias ou não). Ademais, no Brasil - um país de maioria miscigenada - a esquerda liberal aceita o vestibular e pretende introduzir no sistema meritocrático burguês pitadas de "justiça social" e algo de "reparação histórica" com o sistema de quotas de inspiração estadunidense. 

Ora, quem diz quota, diz vestibular! 

A aceitação social da filantropia conta com a aprovação do moralismo por um lado e, da cumplicidade, por outro. A política reduzida à moral (políticas públicas compensatórias como horizonte da política) implica, necessariamente, a prática filantrópica mesmo quando aparece sob a forma de "políticas sociais". A cumplicidade é mais sutil mas não menos cínica: o suposto que há que fazer algo aqui e agora para mitigar o sofrimento humano daqueles que são massacrados e considerados historicamente "excluídos". Nesse caso, não importa que apenas uma pequena parcela das vítimas do sistema seja contemplada com o sistema de quotas, pois mais importante tem sido a digestão moral da pobreza.

No entanto, como sabemos, a ideologia deve prestar contas com a realidade. A filantropia praticada em larga escala pela esquerda liberal não se sustenta a partir de valores morais mas sobretudo porque alimenta interesses concretos. Considere, por exemplo, a existência de cursinhos populares destinados a preparar os filhos de trabalhadores para uma disputa completamente desigual. Iniciativas semelhantes rendem clientes e votos para a esquerda liberal. Alimentam parlamentares e criam fidelidades muito semelhantes àquelas observadas no interior das igrejas evangélicas. A necessidade cria fidelidades! Portanto, esses cursinhos abundam, criam empregos, salvam algumas almas e, mais importante, alimentam o sistema do vestibular.

Não é produto do acaso que precisamente a emergência e sobretudo consolidação dos monopólios de educação superior ocoreram nos longos 14 anos dos governos petistas com algumas empresas cotizando na bolsa de valores à custa das enormes transferências de recursos públicos: Cogna, Ser Educacional, Yduqs, Bahema, Cruzeiro do Sul. Tudo em nome do social! Os grandes capitalistas não dormem no ponto e também manifestam, à sua maneira, alguma sensibilidade para a chamada "questão social". Portanto, a apologia da "inclusão social" nos estreitos marcos do sistema de ensino atual, permite à esquerda liberal uma aliança objetiva com a direita liberal a despeito das restrições retóricas que a última pode fazer como recurso meramente ideológico. No limite, o filtro classista do vestibular sai não somente intacto mas, inclusive, legitimado pela presença testemunhal de parte minúscula da classe trabalhadora (via sistema de quotas raciais e sociais).

Em setembro do ano passado, os bancos anunciaram sua contribuição para manter o vestibular com credenciais sociais. A USP anuncia com indisfarçável orgulho que empresas como Itaú, Santander, Deutsche Bank e inclusive a Dow Química aderiram ao programa de permanência da universidade contemplando mais de 270 estudantes no valor de R$ 800 mensais. Ademais, a universidade paulista acrescenta que o investimento total está estimado em R$ 10 milhões. Não é notável contribuição? O Itaú, para dar apenas um exemplo, investe pesado na compra de títulos públicos do Tesouro Nacional para os quais os sucessivos governos reservam centenas de bilhões todos os anos e transferem o custo para as classes populares por meio de políticas de austeridade. Assim, tanto o orçamento das universidades federais quanto dos Institutos Federais é sempre um cobertor curto e a expansão do sistema público quando ocorre o faz a conta gotas! Em 2022 a dívida interna superou os 4 trilhões e os juros e amortizações consumiram nada menos do que 1, 879 trilhão, segundo os dados da Auditoria Cidadã da Dívida Pública. O benevolente Itaú faturou bilhões na dívida pública e no ano passado anunciou um lucro de R$ 30,7 bilhões (14,5% superior ao exercício anterior) enquanto destinou para a filantropia a "vultuosa" quantia de R$ 25 milhões destinada a permanência de alunos pretos, pardos e indígenas. Não é imensa a sensibilidade dos banqueiros?

Na Universidade Federal de Santa Catarina - assim como em todas as federais - sobram vagas, menos nos cursos que alimentam a ambição pequeno-burguesa dos profissionais liberais nos quais o teste da meritocracia é a compra do primeiro carro importado após a formatura. Nas ciências básicas, o deserto é enorme tal como manda o círculo de ferro dessa monstruosidade chamada subdesenvolvimento no qual seguimos afundando. Pouco importa: os liberais de direita indicam como única saída uma nova onda modernizadora que já se avizinha e nos condenará à exportação de carnes, ferro e petróleo cru. Os liberais de esquerda aceitam discretamente o rumo mas sustentam o moralismo rasteiro já condenado por Mandeville no início do século XVIII. Portanto, é preciso fazer algo - qualquer coisa! - aqui e agora para a classe trabalhadora ainda que represente tão somente uma detestável digestão moral da pobreza. Enquanto isso, os milhões de filhos da classe trabalhadora que gostariam de frequentar a universidade pública num sistema de acesso universal seguem esquecidos na vala comum do sofrimento humano. 

Revisão: Junia Zaidan

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O grito de Lula

A renuncia do presidencialismo é a nota dominante na atuação de Lula no terceiro mandato. Nos dois anteriores (2003-2010) o atual presidente sabotou diariamente as prerrogativas do regime presidencial brasileiro e, em consequência, cavou o abismo sob seus pés. A continuidade da podridão do sistema político produzido por FHC com a farsa do "presidencialismo de coalisão" seguiu seu curso normal azeitado pelo "financiamento não declarado" das campanhas eleitorais do longo período petista. O postulado vulgar segundo a qual "ninguém governa esse país sem o PMDB" ou "sem maioria no congresso" aprofundou a miséria ético-moral do PT, revelou-se uma falácia completa diante da desmoralizante destituição de Dilma em 2016 e contribuiu notavelmente com a podridão do sistema político acusado pelo protofascista Bolsonaro em 2018.

A impotência de Lula e dos lulistas diante da grave situação nacional é expressa na enorme quantidade de ministérios criados com a pretensão de ganhar apoio no parlamento, sabidamente um covil de ladrões insaciável e sempre disposto a novos assaltos; ao contrário do engodo petista, o toma lá da cá se realiza sem qualquer garantia de fidelidade. A conduta de Lula alimenta a crise e objetivamente bloqueia a necessária passagem da consciência ingênua para a consciência crítica indispensável para enfrentar a direita. Ao contrário do que pensam os eternos defensores da prudência, a atuação de Lula alimenta tão somente a redução da política à moral (a via filantrópica das chamadas políticas sociais) e move águas para o moinho da ofensiva da direita ainda em curso.

O recente grito de Lula contra as elevadas taxas de juros é exemplar a respeito da conduta vacilante do presidente petista diante de questões cruciais. A despeito da hiper valorização ideológica do papel do Banco Central, a verdade é que o comando da política econômica esta nas mãos do Ministério da Fazenda e, portanto, nas mãos de Lula. Essa é a verdade oculta no "combate" contra a suposta sabotagem do BC ao bem estar do povo sob comando de um eleitor de Bolsonaro. 

Portanto, o grito de Lula - antes de iniciativa contra os banqueiros e as escorchantes taxas de juros! - exibe a impotência completa e a vacilação que é a antiga conselheira do presidente e marca registrada de seu governo. A reclamação de Lula contra a taxa de juros é impotente e não cria um fato político como defende com inocência os "radicais" da esquerda liberal lulista (dentro e fora do PT). Há poucos dias ouvi mais um novo esforço para santificar a impotência presidencial e justificar a imobilidade de seu governo nas questões estruturais, as únicas que podem, finalmente, assegurar uma molécula de estabilidade no interior da atual crise ainda sem solução visível. A nova tirada da sociologia de boteco ensina que "Lula é o personagem mais a esquerda de seu governo" (!!) Ora, qual a racionalidade da boa nova? É simples: os ideólogos lulistas na mais completa solidão esquecem que é o próprio Lula quem nomeia "a direita" de seu governo. Afinal, quem nomeou, por exemplo, Camilo Santana, responsável pela completa direitização do MEC na política educacional? Acaso foi o espirito santo ou a caneta do presidente? É realmente impressionante ouvir asneiras desse quilate nas atuais circunstâncias!

A defesa do crescimento econômico - com emprego e distribuição de renda - é o argumento central de Lula diante das elevadas taxas de juros. É também dos desenvolvimentistas. Nenhum deles, no entanto, pode explicar porquê a concentração da renda e da propriedade cresceu nos dois primeiros mandatos do atual presidente. Ora, políticas sociais não necessariamente tocam na riqueza acumulada e podem inclusive caminhar par e passo com nível superior de concentração e centralização do capital. De fato, foi o que ocorreu entre 2003-2010 quanto a taxa de juros caiu de pouco mais de 26% em janeiro de 2003 para apenas um dígito (9,25%) em meados de 2009. Ainda assim, não somente a riqueza ficou mais concentrada como a coesão burguesa sob comando da fração financeira ficou muito mais forte! Durante o período de bonança de Lula, todas as contradições e antagonismos próprios do desenvolvimento capitalista dependente rentístico estavam se desenvolvendo para, mais tarde, explodir nas mãos de Dilma Rousseff.

Até agora, Lula não disse como produzir crescimento e distribuição de renda. Nem Haddad. Ao contrário, a chamada "agenda econômica" segue a partitura dos "neoliberais" e nem mesmo em sonhos dourados os keynesianos amigos do Príncipe estão dispostos a romper com as amarras da economia política rentista armada em 1994 e desenvolvida a pleno vapor durante os sucessivos governos petistas. A ladainha segue intacta: reforma tributária, sustentabilidade ou ancora fiscal, a importância do investimento externo com preocupações ambientais, etc... Não há - nem poderá existir - uma estratégia de industrialização sem a completa ruptura com a economia política do rentismo, pois Lula opera sempre na fronteira do permitido pela coesão burguesa sem jamais romper seus limites. Enquanto isso, o tempo passa...

O "debate" atual sobre a política monetária dirigida pelo BC ilustra como nenhum outro tema a renuncia dos poderes presidenciais praticado sistematicamente por Lula. A terceirização da responsabilidade é vicio suicida adquirido por Lula há tempos: "o congresso precisa autorizar!". "Ah, a imprensa precisa mudar!!" "O fascismo precisa ser enfrentado"... Ah, Bolsonaro!!! Todos bordões que antes de mobilizar são confissões de impotência!

A situação atual permite - eu diria que exige - uma simples convocatória do presidente: antes de gritar contra os juros deveria pedir a troca do presidente do Banco Central. Ousadia: Nada! Ação bem elementar. Elementar eu disse, não parlamentar!

Quais as razões para pedir a cabeça de mister Campos Neto? 

A primeira razão para a substituição do atual presidente do BC é a absoluta falta de condições éticas e morais do Mister Campos Neto. Em outubro de 2019 o Pandora Papers revelou que mister Guedes e seu discípulo Campos Neto mantinham contas bancárias no exterior. No dia 4 de outubro de 2019 mister Campos Neto se "defendeu" da gravíssima revelação afirmando que tudo estava declarado no Imposto de Renda ocultando a questão efetivamente central: um presidente do BC mantém informação privilegiada incompatível com suas operações de "mercado". Nos Estados Unidos - o país que oferece a régua ético-moral dos rentistas - Richard Clarida (um dos vice-presidentes do FED) teve que anunciar sua precoce renuncia em janeiro de 2022 após suspeitas gravíssimas de movimentação financeira baseadas em informação privilegiada. 

Há algo mais valioso que emergiu na primeira semana de fevereiro de 2023. O ministro Gilmar Mendes do STF colocou sobre a mesa de mister Campos Neto outro tema tão antigo quanto espinhoso: a compra e venda de ouro realizada pelo Banco Central. As denuncias na imprensa burguesa sobre a extração ilegal de ouro são antigas e há muito mereciam uma explicação oficial. No entanto, a cobertura jornalística sobre o tema enfocou apenas a perspectiva da ilegalidade da extração do mineral e a íntima relação com a invasão das terras indígenas liberadas na pratica pelo governo do protofascista Bolsonaro. O enfoque, digamos assim, era "ambiental" ou "ecológico". Na verdade, ninguém se atreveu em indicar a íntima relação entre a crise humanitária dos Yanomamis com o Banco Central, exceto de maneira super cautelosa. A CNN, por exemplo, noticiou há mais de um ano (14/08/21) a inusitada elevação das reservas em ouro como assunto estritamente econômico, sem qualquer outra conexão, uma espécie de operação destinada a aumentar as reservas de valor necessárias para tempos de crise.

Entretanto. a enorme oferta de ouro deve ser explicada e, de fato, é impossível faze-lo sem a liberalização promovida pelo governo de Dilma Rousseff na Lei 12.844 de 19 de julho de 2013. No artigo 39, parágrafo 4, a liberalização petista abre as portas para a legalização do ilegal pois estabelece a "boa-fé" da pessoa jurídica responsável pelas informações sobre a origem do ouro. A lei representa, na prática, a validação de um atestado de boa conduta emitido pelo escritório dos próprios criminosos! 

Após o grito de Lula contras as taxas de juros, a imprensa petista - orwellianamente chamada de "independente" - foi autorizada a atacar mister Campos Neto e relacionar os dois temas. Desde então, a nova abordagem jornalística vincula o aumento das reservas em ouro do BC com a invasão das terras indígenas e a mineração ilegal praticada em larga escala desde muitos anos. Na tradição petista, Lula manteve silencio completo sobre o tema e, para manter a harmonia entre os poderes, delegou a tarefa ao Partido Verde. Assim entendemos a razão pela qual o STF anunciou no dia 31 de janeiro desse ano em seu portal a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADIN) solicitada pelo PV. Em consequência, o ministro Gilmar Mendes não vacilou em solicitar a mister Campos Neto no prazo de três dias, esclarecimentos sobre as operações. Até agora, a imprensa burguesa nada disse sobre o caso e nem um ministro de Lula disse algo a respeito. Silêncio total! Ora, a terceirização do poder presidencial é mais do que óbvio também nesse caso pois Lula renuncia a possibilidade de cobrar diretamente ao presidente do BC explicações que há muito exigem esclarecimentos! A renuncia do presidencialismo custará caro... 

O lulista cativo da consciência ingênua logo dirá que a jogada do presidente foi de mestre: não se compromete com nada e deixa os poderes da república atuar contra seus inimigos. Alega, inocente, que Lula sabe se preservar e esquece que seu agir sabota a autoridade presidencial, além de fortalecer instituições que ao longo da história deram sucessivas demonstrações que não merecem respeito algum... 

A segunda razão para encaminhar a substituição de mister Campos Neto é igualmente importante. A entrevista concedida na TV Cultura dia 13 de fevereiro desautoriza intelectual e profissionalmente o rapaz. O desastre só não foi maior - e sobretudo mais visível - em função da sabedoria econômica dos jornalistas. Ainda assim - com a notável contribuição dos jornalistas - suas respostas estavam peleadas com a realidade e até mesmo com os manuais de macroeconomia sofríveis que dominam o ensino de economia nas nossas universidades. Após aquele espetáculo, não pode existir dúvidas que o "conhecimento econômico" de Campos Neto é pra lá de superficial. Ora, limitado ao "mundo" das teleconferências privadas, de convescotes com operadores dos banqueiros, acostumado as pequenas reuniões com banqueiros e rentistas de toda espécie, dedicado ao modo fácil de enriquecimento das finanças via assalto a dívida pública, a esperteza do aprendiz de feiticeiro foi impotente diante de público um pouquinho mais exigente e aberto a opinião pública. De resto, a conhecida discrição dos banqueiros praticada desde o século XII orienta também a conduta dos diretores dos bancos centrais em todos os países, especialmente na periferia latino-americana; entretanto, após os gritos de Lula, não restou ao neófito senão uma entrevista com a óbvia intenção de buscar um mais que evidente salvo conduto. 

Portanto, não devemos condenar apenas a linguagem tecnocrática do economista responsável pela irritação de muita gente boa nas mídias digitais. É mais grave o caso em análise: os "argumentos" balbuciados por Campos Neto não batem com as condições existentes no Brasil! Ele praticou apenas a visão dos rentistas em estado puro, de maneira tosca e sem habilidade alguma. Repito: o conhecimento em economia e a disciplina servil dos jornalistas o salvaram de um exposição pública realmente triste para qualquer profissional razoavelmente preocupado com a própria reputação e certo desapego com as cifras da conta bancária.

Portanto, a absoluta falta de ética (revelada no caso das contas no exterior) de Campos Neto e seu despreparo profissional - além de ausência de habilidade política que o cargo requer - são absolutamente suficientes para algo mais eficaz que os gritos de Lula: o presidente deveria determinar a seu ministro e funcionário que  detém maioria no Conselho Monetário Nacional (CNM) a solicitação ao bem afamado senado da republica burguesa, sua imediata substituição. Mas Lula prefere a condição de comentarista de TV antes de honrar seus eleitores e acumular forças para seu bando e, em oposição, prefere agir nos marcos de aliança de classe que mantém a política econômica responsável pela miséria do povo... No Conselho Lula possui maioria e poderia exigir uma justificativa do órgão para substituir mister Campos Neto, indicando claramente que sua gestão não cumpriu as metas estabelecidas, acusando as graves debilidades éticas do presidente do BC e, em consequência, solicitar a manifestação do senado.

Uma iniciativa presidencial semelhante representaria uma ação a altura do cargo e a manifestação de que o presidente recém eleito atua objetivamente em defesa dos trabalhadores. Ademais, esse ato político permitiria ao povo observar o movimento concreto da coesão burguesa e os interesses reais de cada uma de suas frações. O senado teria que decidir em favor do povo ou dos banqueiros. Até mesmo as pesquisas que embalam a alienação eleitoral da esquerda liberal indicam que 76% consideram correta a posição do presidente sobre os juros mas nem mesmo tal aprovação permitiu um passo adiante... A fidelidade de Lula a coesão burguesa e sua ilusória aliança de classe não permite o passo e, tudo indica, ele morrerá abraçado com ela.

O atual governo é desenvolvimentista? Bueno, nesse caso, as esperanças de todos os keynesianos tupiniquins deveriam saltar para a primeira fila clamando por um novo ciclo de acumulação em favor... do emprego! A maioria dos críticos heterodoxos do aprendiz Campos Neto ainda segue prisioneira dos formuladores do Plano Real e, em consequência, ainda mantém fidelidade religiosa àqueles postulados. A despeito da realidade, ainda não são conversos! Nesse contexto, a tarefa não consiste na afirmação de um novo "regime fiscal compatível com a política social", mas, ao contrário, de alinhar a política econômica com o pleno emprego!! 

Há poucos dias, na entrevista concedida a jornalista Christiane Amanpour da CNN, Lula afirmou que o informe à nação apresentado por mister Biden no congresso estadunidense poderia ter sido feito aqui. O presidente do Brasil escancarou seu entusiasmo com a perspectiva do Partido Democrata nos Estados Unidos no embalo do agringalhamento político e cultural de nosso país. Ora, Biden dourou a pílula diante da crise mundial e utiliza todos os meios existente no Império para disputar a hegemonia com a China no terreno produtivo. No entanto, é visível que seu plano não poderá repetir o "exito" rooseveltiano pretendido quando apenas iniciava seu mandato. A crise é muito grave mas ainda assim ele pode indicar que a taxa de desemprego baixou mesmo que tenha calado sobre os salários miseráveis e o aperto na classe média impossível de remediar nas circunstâncias atuais. Lula não entende o Brasil e nossa condição de país subdesenvolvido e dependente. Ignora algo elementar e seus ministros sequer sonham com nossa "especificidade", carente de medidas aparentemente muito mais radicais.  

A última reunião do CNM (16/02) entre Simone Tebet, Fernando Haddad e Campos Neto indicou um abismo entre o grito de Lula e as ações de seu governo. Aos poucos, as pequenas vantagens adquiridas com a vitória eleitoral, estão ficando para trás. Ademais, a defesa da democracia não enche a barriga do povo; tampouco gera a coesão social necessária para enfrentar e derrotar politicamente a ofensiva da direita ainda em curso. O "rentismo" não é um adversário fácil de bater, menos ainda com bravatas. É preciso ação sistemática e enérgica, além de mobilização social intensa contra as classes dominantes. Mas esses são artigos em falta no governo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

A nova vitória parlamentar da direita

A tradição revolucionária e socialista possui fecunda reflexão sobre a atuação no parlamento. Entretanto, essa longa e rica experiência (prática e teórica) tem sido sistematicamente ignorada pela esquerda liberal e os setores progressistas, fato que demonstra a profundidade da derrota político-ideológica do que sobrou da esquerda no Brasil sob os escombros do fracasso histórico do petismo. 

Nessa semana o governo conservador de Lula/Alckmin (petucano) assegurou vitória parlamentar sem precedentes ao deputado ultra liberal Arthur Lira, aquele mesmo que garantiu ao protofascista Bolsonaro quatro anos de serena administração em favor dos interesses da coesão burguesa encabeçada pela fração financeira. A imprensa burguesa registra que "nunca antes na história desse país" um deputado logrou tamanha vitória: 20 partidos deram 464 votos ao novo presidente da câmara de deputados.  A decisão de Lula em favor de Lira revela - antes que astúcia! - a completa debilidade do governo diante dos desafios conjunturais e históricos que estamos vivendo. Na lógica das situações extremas o petismo é presa fácil dos interesses da coesão burguesa: em lugar de dirigir e manobrar os interesses da classe dominante negociando algo substancial em favor dos interesses e do protagonismo popular, o governo é dirigido pela burguesia em seus mínimos detalhes. É um governo cativo e, mais grave, sem qualquer iniciativa política.

O governo da coalisão democrática-liberal ("frente ampla") foi constituído para evitar a radicalização em curso no país, razão pela qual não se moverá à esquerda. A suposição de que Lula aprendeu uma dura lição da cadeia e agora é um político mais maduro e consistente, é uma ilusão que custará caro aos trabalhadores. Mas as ilusões sempre alimentam interesses concretos! Nas circunstâncias atuais, as ilusões obedecem aos interesses estratégicos da coesão burguesa, especialmente a súbita e enfática "defesa da democracia" por parte dos três poderes da república burguesa apodrecida em seus pilares. A degradação permanente da atividade parlamentar é a face visível da crise do atual sistema político; tão visível quanto os métodos corruptos utilizado por Lira ou Pacheco para soldar a sólida maioria que obteve com apoio decisivo do Planalto. Ninguém deveria esquecer que em julho do ano passado o senador Marco do Val declarou ter recebido nada menos do que 50 milhões para ter votado em Pacheco... Os exemplos abundam!

Em troca do apoio a Lira, o PT "garantiu" a presidência da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) considerada decisiva para controlar assuntos importantes, especialmente a destituição do presidente da república. A esquerda liberal considera que ganhou tempo (apenas 1 ano!!) na suposição de que a administração competente da crise poderá devolver aos trabalhadores emprego e renda; ademais, julga que poderá aumentar seu apoio via políticas sociais suficientes para "acumular força" capaz de balancear a disputa no covil de ladrões dirigido por Lira. A análise fria indica a ausência de qualquer garantia nessa direção; ao contrário, até agora as ações do governo exibem apenas sua debilidade política.

Quem comanda a oposição?

Na disputa no interior do covil de ladrões, a oposição de direita votou em Lira e guardou munição para se opor a Pacheco. No senado - uma casa destinada a desaparecer num regime político unicameral efetivamente popular - a tropa de Bolsonaro revelou alguma força a despeito da reeleição de Pacheco com menos votos (49) do que em sua eleição (57). O ex ministro de Bolsonaro, Rogério Marinho obteve 32 votos: não é pouco!

A candidatura de Chico Alencar (PSOL-Rede) confirmou a bancada do partido como apêndice do governo, uma conduta orientada pela intenção de afirmar a condição de principal "espírito crítico" do governo conservador petucano. O PSOL possui 13 deputados (dois justificaram ausência) e arrancou outros 10 de maneira aleatória: obteve 21 votos. O discurso de Chico foi marcado pela tentativa de "dignificar o parlamento", resgatar as virtudes republicanas e atacar a direita "golpista" de maneira genérica. De resto, a tradicional defesa do identitarismo, dos povos indígenas, do meio ambiente, a pauta que garante votos urbanos ao PSOL e acesso ao financiamento estatal do partido. 

O deputado Marcel Van Hatten do Partido Novo - a ultra direita liberal - bateu duro no governo e com apenas 3 votos levou 19 na conta final. No entanto sua candidatura tinha o claro objetivo de manter em alta a pressão ideológica que emergiu com força a partir de 2013, avançou na destituição de Dilma em 2016 e conquistou a presidência em 2018. Agora, sem qualquer possibilidade de vitória, os ultraliberais dirigiram suas baterias contra o governo exibindo o tom que a direita praticará e, em circunstancias de crise, tende a se alastrar tanto nas ruas quanto no parlamento se algo substancial não mudar na ação do governo. A direita pratica intensa luta ideológica razão pela qual tem capacidade de disputar a hegemonia política na sociedade e acumular forças para embates futuros no parlamento logo que as condições políticas permitirem. Ao contrário, a esquerda liberal - na qual o PSOL se inscreve - despreza completamente a luta ideológica em favor do socialismo e da revolução social e, em consequência, depende tão somente do êxito do governo na política econômica (emprego e salário) e nas políticas sociais de extração filantrópica, ambas de alcance super reduzido. 

O cenário é, portanto, claro: a oposição será comandada pela direita. A oposição de "esquerda" ao governo conservador de Lula/Alckmin não existirá no parlamento a despeito do enorme espaço social para tal na sociedade. No entanto, a concepção parlamentar de política que alimenta a esquerda liberal e a consciência ingênua que a informa nos assuntos essenciais da economia e do estado, não permite sua evolução numa linha de massas até agora capturada pela direita tal como demonstrou no dia 8 de janeiro.

A crise da república aparece todos os dias em eventos que confirmam o enredo já estabelecido: cada novo escândalo degrada o regime político aos olhos do povo e potencializa uma alternativa de direita. É claro que Lula/Alckmin sonham com a prisão de Bolsonaro e, para tal, depositam suas esperanças na ação do ministro Alexandre de Moraes ou de possíveis iniciativas do Ministério Público. Entretanto, a eventual prisão de Bolsonaro em função de seus "ataques ao estado democrático de direito" colocaria amplos setores sociais na oposição ao governo Lula em pé de guerra. A propósito, a desejada prisão de Bolsonaro não se assemelha em nenhum aspecto a prisão de Lula em 7 de abril de 2018. Este aposta todas as fichas na renegeração do regime liberal burguês enquanto o primeiro postula abertamente sua supressão em favor de uma modalidade qualquer de um "regime forte". Ademais, Bolsonaro é expressão da hegemonia ultra liberal no interior das forças armadas - especialmente do Exercito - razão pela qual sua prisão implica em mudanças importantes inimagináveis sob o "comando" de Lula.   

O otimismo ingênuo dos liberais de esquerda e da "direita democrática" tomam os sucessivos escândalos e "revelações" potencializados pela imprensa burguesa (Globo e CNN no comando) como se, de fato, fossem capazes de restaurar as virtudes republicanas do regime atual sem ruptura com os fundamentos do "golpismo" e da podridão: a economia política do rentísmo, a sabotagem permanente do presidencialismo via acordos parlamentares, a degradação da prática parlamentar e o ativismo do judiciário sob comando de Alexandre de Moraes. No entanto, a verdade é que o governo não possui iniciativas para romper a hegemonia da direita e segue prisioneiro do programa ultra liberal praticado por Bolsonaro/Guedes/Braga afirmando tão somente a impotente ideologia da "reconstrução nacional". 

Nesse contexto, é claro que o Informe Capelli sobre a ofensiva da direita sobre Brasília revelou apenas os limites do Ministério da Justiça diante dos militares. Na prática, nada de novo foi apresentado por Ricardo Capelli para além das suspeitas, denuncias e provas que a imprensa burguesa segue publicando em profusão. Na verdade Capelli elaborou um "informe técnico" quando o momento exigia um informe político destinado a devolver a iniciativa política ao governo e armar uma contraofensiva capaz de orientar as ações do STF e do MP. Mas Lula vetou essa possibilidade pois tal como afirmou Flávio Dino, a competência de seu ministério não avança sobre as competências de outras pastas, especialmente aquelas relativas aos ministérios militares! Portanto, o governo renunciou a oportunidade de retomar a iniciativa política diante da direita porque a linha adotada na campanha e também no governo é considerada pelos liberais de esquerda como a única possível, limitada tão somente a manter a fantasiosa "frente ampla" e a precária "defesa da democracia". Nem mesmo a ofensiva da direita logrou mudar um átomo naquela opção desastrosa e suicida!

A reeleição de Lira com firme apoio de Lula e inclusive o ridículo grito de "vitória" de parlamentares petistas após a inédita conquista do nobre deputado, multiplicou a força da direita no parlamento. Tampouco há indicações minimamente confiáveis de que o massivo apoio do governo à Lira logrou "dividir o bolsonarismo" seja lá o que essa expressão possa representar. Bolsonaro é a cabeça visível da direita e seu representante mais importante, mas não único. Ainda assim, o fantasma de Bolsonaro orienta cada passo da esquerda liberal e seu governo tão impotente quanto débil. No entanto, o protofascista nunca deixou de ser um representante da classe dominante que mantém firme as rédeas do estado e da economia e não vacilaria em joga-lo ao abismo caso o conflito político exija. 

O governo conservador petucano Lula/Alckmin mesmo diante de circunstâncias excepcionais - e oportunidades que jamais deveriam ser desperdiçadas! - revela precocemente a mais completa incapacidade para enfrentar a ofensiva da direita cujo conteúdo não é outro senão o próprio programa burguês praticado por Bolsonaro/Guedes. A mera administração "democrática" de um regime político em frangalhos e a afirmação de políticas de inclusão social de caráter filantrópico são, mais do que em outros tempos, completamente incapazes de assegurar estabilidade política ao governo e menos ainda disputar a hegemonia nas classes populares quando entramos numa lógica das situações extremas. A direita esta livre para operar. A esquerda liberal permanece prisioneira de suas ilusões.